as ironias de Zizek

por MARCELO COELHO

Agora mais do que nunca, o conceito de totalitarismo está servindo para neutralizar os “radicais livres” e garantir a hegemonia liberal-democrata no mundo globalizado. Esta é a opinião do teórico lacaniano-marxista Slavoj Zizek, num livro publicado pela editora Verso em 2001, que leio na tradução francesa (Vous avez dit totalitarisme?, ed. Amsterdam).

Se a tese é pouco original, cada página do livro de Zizek parece competir em originalidade com a anterior. Tipicamente, o autor compara o papel de Deus na cristologia de Abelardo ao de uma vilã num romance policial de Patrícia Highsmith, e usa uma passagem do blockbuster americano Men in Black para exemplificar o conceito freudiano de “Verwerfung”. Tudo é brilhante, a ponto de ser ofuscante, e a escrita de Zizek é claríssima, exceto pelo fato de não sabermos para onde vai.

Nesse sentido, talvez seja resultado das contingências vividas pelo conferencista ou professor universitário nos dias de hoje. É preciso lidar com platéias com déficit de atenção e lacunas insondáveis no repertório cultural básico, de modo que o único terreno seguro, para o expositor, são os filmes de Hitchcock ou os clipes de Madonna, a que com certeza todo mundo já assistiu.

Seja como for, a capacidade interpretativa do autor é fabulosa; três páginas sobre Jean de Florette e Manon des Sources, filmes de Marcel Pagnol que tiveram um “remake” de sucesso feito por Claude Berri, são extraordinariamente esclarecedoras e persuasivas. “Ganhando” a adesão do leitor-platéia no varejo, sem dúvida Zizek poderá convencê-lo, ao final do livro, da tese mais ampla que ele pretende defender. Entretanto, o momento dessa defesa é sempre adiado, e ficamos desconfiando se não terminará como um truque de prestidigitador. A técnica do mágico profissional, como se sabe, é atrair a atenção do público para algo secundário, evitando que os olhares identifiquem o movimento crucial de que o truque depende.

Ao mesmo tempo, Zizek sabe como ninguém atrair para o “lugar errado” não apenas as atenções, mas também a desconfiança do leitor. Assim, há algumas anedotas e exemplos que, no mínimo, parecem implausíveis, deixando-nos em dúvida sobre a seriedade da análise; a ironia é permanente, e por vezes não sabemos se o autor está de fato falando a verdade. Pessoalmente, achei suspeito o caso que transcrevo a seguir.

Em 1991, depois do golpe de Estado fomentado pela nomenklatura contra Ceausescu, a polícia secreta romena continuou naturalmente a funcionar como de costume; mas seus esforços para transmitir uma nova imagem de si mesma, adequada aos novos tempos “democráticos”, produziram estranhas peripécias. Um de meus amigos americanos, que estava na época em Bucareste para um intercâmbio universitário, telefonou para a sua casa uma semana depois de sua chegada à Romênia e contou a sua companheira que aquele era país pobre mas acolhedor, onde as pessoas eram simpáticas e sequiosas de conhecimento. Assim que ele desligou, o telefone tocou novamente; do outro lado da linha, num inglês desajeitado, alguém se apresentou como o funcionário encarregado de fazer a escuta telefônica de seu quarto, e o agradeceu pelas coisas amáveis que havia dito sobre a Romênia, desejando-lhe uma agradável estadia. Este livro é dedicado a esse agente anônimo da polícia secreta romena.

Será verdade? Uma hipótese: o funcionário da polícia secreta quis informar o professor de que havia escuta telefônica; tratava-se de um boicote a funções que, embora pago para exercer, ele sabia não terem mais sentido. Segunda hipótese, mais fantástica, mas que conhecendo o humor de Zizek não me parece totalmente absurda. O próprio Zizek estava com a companheira do professor naquele momento, ouviu a conversa, e resolveu passar um trote no professor fazendo-se de agente policial romeno… Típica diversão de humor totalitário, portanto. [Blog do Marcelo Coelho]