Intuição e política

Intuição é uma forma de conhecimento. Um conhecimento não discursivo, mas imediato.

Há pelo menos três formas de intuição: a sensível, a intelectual e a ordinária ou do senso comum.

Nós estamos por assim dizer intuidos nos sentidos. Basta abrir os olhos e já estamos vendo, embora nem sempre enxergando. Estamos permanentemente ouvindo, ainda que não necessariamente escutando. É essa imediação com a qual percebemos o mundo, ou melhor, essa percepção imediata que temos do mundo que se chama intuição sensível.

A intuição intelectual é mais complexa. É defendida por alguns filósofos e rechaçada por outros. Kant, p.ex., a rechaça, mas a concebe como uma faculdade divina, a qual de algum modo cria o objeto à medida que o percebe. Fichte, em contrapartida, a defende, mas a compreende mis ou menos como a apercepção transcendental kantiana. Para Descartes, a intuição (intuitus) é a autocerteza do sujeito pensante enquanto pensa, ou seja, no ato mesmo de pensar (sentir, querer etc.). Para os escolásticos, como Tomás, a intuição é considerada como um modo de conhecimento habitual, um “hábito”. Em todo caso, a imediação é uma característica comum a todas essas acepções de intuição.

Já a intuição no sentido corriqueiro se refere àquele processo mental, em parte cognitivo em parte emotivo, pelo qual se tem certeza acerca de algo (empírico) passado ou mesmo futuro ( ! ). Enquanto a intuição intelectual precede ou origina o pensamento dedutivo, a intuição ordinária parece resultar do pensamento indutivo. Apenas sem a respectiva consciência. Isso quer dizer que, na intuição comum, se chega à conclusão sem a consciência dos passos anteriores, das premissas. Trata-se portanto de intuição no sentido impróprio, porquanto a imediação é apenas aparente ou ilusória.

Tudo isso para dizer que a política é o domínio da intuição ordinária por excelência (ou por antonomásia?). E por isso é um campo por assim dizer feminino. São hábeis os políticos mais intuitivos, “femininos”. (Naturalmente não me refiro às raposas ou tubarões, que para além da intuição e da feminilidade possuem outras “propriedades”.)

E como a economia é indissociável da política, também a economia, ou melhor, a economia política, é domínio da intuição do senso comum. As chamadas ciências política e econômica (e a economia política no sentido estrito) tratam apenas de abstrações, de modelos, tipos ideais, enfim, de construtos teóricos. Quando se aplicam à realidade da política e da economia invariavelmente evidenciam a sua inadequação. Trata-se do chamado hiatus irrationalis, a diferença entre o conceito e a intuição (nos termos de Kant), entre o universal e o singular, entre a abstração e a realidade.

Sobretudo os economistas, por um defeito de formação (ops!), tendem a ignorar o hiato, a diferença e, por isso, são obrigados a violentar a realidade. São os chamados economistas cabeças-de-planilha sob os desmandos dos quais todos nós sofremos.

O banqueiro Henrique Meirelles, atual ministro da Fazenda do Brasil, e os demais membros da atual equipeconômica são autênticos expoentes dessa classe de economistas cabeças-de-planilha. Os neokeynesianos, como Paul Samuelson, pelo menos têm consciência do problema e tentam escapar da armadilha.

Na política a coisa é ainda mais complicada. A polaridade entre idealistas e realistas é expressão dessa complexidade, mas nem de longe a esgota. E não é o caso de que o realismo ou a mesmo esquerda “progressista” sejam melhores nesse quesito do que o idealismo e a direita. Muitos marxistas, p.ex., ainda estão presos a esquematismos em que a realidade humana não tem o menor espaço.

Aludi acima a um conceito weberiano*, e foi o mesmo Weber que chamou a atenção para o processo de racionalização e “desencantamento” do mundo ocidental moderno. Assim há hoje não só críticos de arte cabeças-de-planilha como também artistas cabeças-de-planilha. Muito da chamada arte abstrata é o triste resultado desse desencantamento. Mas há inclusive comentaristas de futebol cabeças-de-planilha (para não falar de técnicos e de jogadores). São aqueles a que Nesoln Rodrigues chamava de “idiotas da objetividade”.

Aproveito a feliz expressão rodriguiana para retomar o fio. A rigor a intuição não é uma forma de conhecimento. Como consiste na relação e/ou no resultado da relação entre sujeito e objeto, o conhecimento é essencialmente mediato, e, por conseguinte, não intuitivo.

Concluo, assim, dizendo que o conhecimento –científico ou ordinário, do senso comum–, embora necessário, não é suficiente para a adequada compreensão da política (da economia, da arte e do futebol). Muito menos para a sua prática.

* O hiatus irrationalis é, na verdade, um conceito clássico, presente, p.ex., no pensamento de um Fcihte, de neokantianos (a fonte imediata de Weber) e até de um Lacan.

PS: Essa reflexão foi motivada pela desorientação generalizada que reina não só na prática política nacional, como também, e sobretudo, nas respectivas análises teóricas e comentários.

PPS: Os homens mais intuitivos são aqueles que ainda não sufocaram totalmente a sua constitutiva feminilidade.