Ato incomensurável

O editorial “Vaticano na berlinda“, da Folha de S.Paulo de hoje, 8-2, conclui com um pequeno parágrafo cujo tópico frasal diz o seguinte:
Obviamente, a pedofilia inspira tanta –ou maior– repulsa nas pessoas de fé quanto na opinião secular.
Essa frase me fez lembrar da fala do monsenhor Silvano Tomasi, representante do Vaticano, na primeira reunião do Comitê da ONU para os Direitos da Criança sobre abuso infantil com participação de membros da Santa Sé, ocorrida em 16-1.
O encontro ocorreu em meio à investigação das Nações Unidas sobre a suspeita de violação da Declaração Universal dos Direitos da Criança pelo clero. O Vaticano está sendo acusado de encobrir o escândalo de abuso sexual por padres, que teria acontecido nos Estados Unidos, na  Irlanda e no México, entre outros países.
Nessa ocasião, o monsenhor Tomasi disse que existem abusadores em todas as profissões do mundo, inclusive no clero:
Encontram-se abusadores nas profissões mais respeitadas do mundo e, mais lamentavelmente, entre membros do clero e profissionais da igreja.
Essa fala chama atenção por pelo menos duas razões. Em primeiro lugar, porque considera o sacerdócio como uma profissão. Ora, por mais que os padres estejam cada vez mais integrados à vida cotidiana, assinem contratos de trabalho e recebam um salário (essa relação varia conforme o status e a pertença do sacerdote), o sacerdócio, como tal, não é uma profissão como as outras, mas antes uma profissão de fé fundada num sacramento.
Em segundo, porque, como se fora um descuido, um lapso, o monsenhor emprega o advérbio ‘mais’ para enfatizar o modo pelo qual os abusadores se encontram entre as profissões: lamentável.
Esse ‘mais” do monsenhor Tomasi é funcionalmente semelhante ao ‘maior’ do editorial da Folha. E é a isso que queria chegar.
Tomasi (afinal, o título de monsenhor não foi abolido pelo papa Francisco?) podia ter dito várias outras coisas. Podia ter alegado, p.ex., que a proporção de casos de pedofilia no clero é menor do que em outras profissões e organizações (embora, como disse, o sacerdócio não seja uma profissão, e nem a Igreja seja uma ONG, como disse o papa). Podia ter esclarecido, ainda, que pedofilia é um termo equívoco que pode levar a mal-entendidos, pois, no caso do clérigos, o abuso sexual teve (e tem) como objeto preferencial a adolescentes (pederastia) e não a púberes e crianças pequenas.
Mas não, o representante do Vaticano acabou optando por simplesmente comparar o que se passou (e se passa) no clero católico com o que ocorre também em outras profissões. Fez, assim, uma péssima escolha. Explico por quê.
O argumento avançado por Tomasi é mau justamente porque compara o incomparável. Não se encontra em NENHUMA outra profissão a mesma relação, o mesmo vínculo que há entre o padre e o fiel, o devoto. Este nutre para com aquele uma espécie de amor filial, de respeito –sim– sagrado. O sacerdote é o vigário de Cristo, seu representante. E, diante de Deus, o fiel simplesmente se postra obedientemente.
O médico, o psicólogo ou o professor que se aproveita de sua posição profissional para tirar proveito pessoal de seu paciente ou de seu aluno é –antiético. (Se, além de antiético, é também criminoso, isso vai depender da legislação do país ou do estado em que trabalha.) Mas o pastor que se aproveita de sua ovelha é mesmo muito MAIS que antiético, e seu ato ignóbil deve mesmo inspirar repulsa muito MAIOR do que em outros casos.
A torpeza do abuso infantil ou juvenil cometido por um sacerdote é tamanha que qualquer que seja a resposta do Vaticano, ela será necessariamente precária e insuficiente.