A “nova” direita em ação

Nos posts O que há de velho na “nova” direita? 1/4 e 2/4, abaixo, tratei de um artigo que cita a senhora Rachel Sheherazade como integrante do que seria para o autor a “nova direita”. Lembrei de que tinha ouvido falar de uma polêmica entre ela e um professor universitário. Pois bem, a Folha de S.Paulo de hoje, 6-2, publica uma nota (“Apresentadora diz apoiar quem amarrou garotoota”) sobre essa jornalista.
A nota informa que a apresentadora do telejornal “SBT Brasil”, Rachel Sheherazade, disse, durante o programa exibido na noite de anteontem, dia 4, que apoiava o grupo que prendeu um adolescente, suspeito de cometer roubos, com um cadeado de bicicleta a um poste no Rio. Segundo ela, “a atitude dos vingadores é até compreensível” e a ação é de “contra-ataque aos bandidos”.
O jovem relata que teria sido agredido por 30 homens.
Fico a perguntar-me o que poderia ainda estar à direita dessa senhora!

a casa caiu

Criador da série “House”, que chega ao quarto ano, David Shore adianta os próximos passos do médico ranzinza, abandonado pelos assistentes no fim da temporada passada

Hugh Laurie já recebeu dois Globos de Ouro pelo ersonagem-título; “ele trouxe uma
carga grande de sarcasmo e grosseria, sem torná-lo hostil’, diz David Shore

por LUCAS NEVES

Ás do diagnóstico, o infectologista Gregory House, protagonista da série que leva seu nome, desta vez falhou: não soube ler os sintomas de insatisfação de sua equipe. Agora, no início da quarta temporada (que estréia nesta quinta, às 23h, no Universal Channel), sente os efeitos colaterais: deixado a sós com sua ranhetice por Foreman, Cameron e cia., não tem a quem esculachar ou exibir seu intelecto.

Mas não há de ser por muito tempo, segundo contou David Shore, criador do programa, na entrevista telefônica a jornalistas latinos da qual a Folha participou, na semana passada.

“Estamos fazendo uma espécie de “Survivor” [reality show americano que inspirou a gincana eliminatória global “No Limite”] neste ano. House não é do tipo que abre um concurso, faz 40 entrevistas e contrata três pessoas. Sua linha é mais contratar 40 e demitir 37. Suas decisões a respeito de quem fica e quem sai darão dicas interessantes sobre quem ele é.”

O “processo seletivo” deve se estender por oito ou nove episódios. Mas o entourage antigo do médico no hospital Princeton-Plainsboro ainda não aposentou os jalecos. “Eles voltarão. A surpresa para o público será a forma como se dará esse retorno”, adianta Shore.

O “enxugamento” súbito de elenco não fez mal à audiência da série. Os sete primeiros episódios da nova safra registraram média de 19,1 milhões de espectadores, garantindo a “House” o sexto lugar no ranking da televisão americana.

No Brasil, em sua terceira temporada, foi o terceiro seriado mais visto nos canais pagos. A Record, que exibe o segundo ano da atração na TV aberta, tem obtido sete pontos (cada ponto equivale a 54,5 mil domicílios na Grande São Paulo), bom índice para uma produção estrangeira.

Perfil contra-indicado
Arrogância, egolatria e rispidez são traços contra-indicados a qualquer protagonista que aspire à admiração do público. Dr. House não dá a mínima para isso -e, ao que parece, nem os fãs da série. “Ele faz sucesso, em primeiro lugar, porque está salvando vidas. Se fosse manobrista e continuasse tão grosseiro, não sairia incólume. Além de ser brilhante no que faz, é capaz de dizer coisas que todos nós gostaríamos de dizer”, diz Shore.

Por sua atuação como o médico genioso, o inglês Hugh Laurie já recebeu dois Globos de Ouro e duas indicações ao Emmy (o prêmio máximo da TV dos EUA). “Ele trouxe ao personagem uma carga grande de sarcasmo e grosseria, sem torná-lo hostil”, elogia o criador da série, advogado de formação que foi buscar na medicina o pano de fundo para seu primeiro hit televisivo.

“Sei que não faz o menor sentido. É que não vejo “House” como um programa médico. O coração da série é a relação do médico com as pessoas e o posicionamento dele diante de dilemas éticos. Não se trata tanto de diagnóstico ou procedimento médico quanto das decisões morais que ele tem de tomar.”

Diga à TV que fico
Com o nome em alta em Hollywood, Shore diz que não pensa em fazer a transição para o cinema. “A televisão é o meio em que você quer estar hoje, nos EUA, se você é um roteirista. Se estivesse fazendo um filme, o diretor reescreveria o meu script. Na TV, sou eu que digo ao diretor o que estamos buscando. O que importa hoje nos filmes é o espetáculo, o que você pode explodir. Por isso é que a televisão começou a atrair roteiristas. Além disso, esse veículo permite explorar um personagem por muitos anos, o que não acontece no cinema, onde você divide duas horas com efeitos especiais.”

A greve dos roteiristas, que há 15 dias paralisa boa parte da produção de conteúdo televisivo nos EUA (a classe pede participação nos lucros com down-load na internet e vendas de DVDs), já tem consulta marcada com House. “Estamos rodando o 12º episódio. É o último para o qual há script. Não irei reescrevê-lo para que sirva como encerramento da temporada, caso a greve se estenda. Por isso, espero que os produtores ofereçam logo um contrato justo”, afirma Shore.

House é o canalha que todos amamos

por LEONARDO CRUZ

Lá pelas tantas na quarta temporada de “House”, uma futura paciente explica por que decidiu procurar o médico que protagoniza a série: “Você é o melhor. Quebra regras. E não se importa com ninguém, exceto consigo mesmo”. A fala da personagem sintetiza não só as razões que levam doentes ao hospital de Gregory House mas também os motivos que nos fazem acompanhar este programa médico.

Esquartejemos a fala em três. “Você é o melhor” resume a excelência que esperamos do protagonista -uma série totalmente centrada em um personagem, caso de “House”, precisa gravitar em torno de alguém único, extremamente capaz em sua área de especialização.

“Quebra regras.” O flerte com o crime, com a ilegalidade, sempre foi um bom elemento para atrair platéias na história do cinema e das séries de TV. House invade casas de pacientes e desrespeita o regulamento hospitalar e os códigos da medicina para provar que está certo, confirmar suas teorias e, se possível, salvar vidas.

“Não se importa com ninguém, exceto consigo mesmo.” A House só interessa descobrir a causa da doença de seus pacientes. A obsessão leva o médico a tratar enfermos como cobaias e assistentes como mero estímulo para solucionar problemas. Tal egoísmo latente seria repulsivo se não fosse temperado com muito sarcasmo.
House humilha colegas de trabalho, ironiza pacientes, ignora o sofrimento típico do cotidiano hospitalar -e nos faz rir com tudo isso. Um humor corrosivo, quase sádico e cheio de referências da cultura pop. Hugh Laurie entendeu desde o início que seu médico manco era o oposto dos doutores bonitões e assépticos de novelinhas como “Grey’s Anatomy”. Em resposta, o ator britânico construiu um protagonista que se tornou maior que a série, o canalha que todos amamos.

Avaliação: ótimo [FOLHA 20/11/07]

“24 Horas” vira disciplina universitária

William Devane (James Heller) e Kiefer Sutherland (Jack Bauer) no último episódio do sexto ano de “24 Horas”

Série é bom ponto de partida para discutir questões que democracias enfrentam na luta contra o terrorismo

Em entrevista à Folha, acadêmico que propôs a matéria explica seu plano de curso e alfineta críticos do conservadorismo do seriado

por LUCAS NEVES

Estudantes de direito e juristas, tremei: Jack Bauer, o protagonista linha-dura da série de TV “24 Horas”, está prestes a trocar os pouco ortodoxos interrogatórios da fictícia Unidade Contraterrorista da CIA por uma beca.

Ou quase isso. A partir de janeiro de 2008, ele bate ponto no campus da Universidade Georgetown, em Washington, como principal referência bibliográfica (ou videográfica, se preferir) da disciplina-seminário “A Lei de “24 Horas'”, oferecida no programa de mestrado da faculdade de direito da instituição de ensino.

Depois de lidar com explosões nucleares, atentados contra políticos e a liberação de vírus letais e gases tóxicos em Los Angeles (e, de quebra, faturar dois Globos de Ouro e 17 Emmys, o principal prêmio da televisão norte-americana), o personagem interpretado por Kiefer Sutherland chega à academia pelas mãos do professor Gary Sharp.

Em entrevista por e-mail à Folha, ele conta como teve a idéia de levar “24 Horas” para Georgetown, por onde já passaram nomes como o ex-presidente dos EUA Bill Clinton e o atual presidente da Comissão Européia, o português José Manuel Durão Barroso.

“Certa noite, assistindo ao programa, percebi que ensinar o direito contraterrorista no contexto dos temas levantados por “24 Horas” seria uma forma maravilhosa, singular e divertida de abordar as questões sérias e sombrias que todas as democracias enfrentam na batalha contra a ameaça global de terrorismo.”

Sharp diz que os assuntos discutidos em classe com o apoio das tramas do seriado incluirão “as implicações legais, nos EUA e no mundo, do uso de força militar contra patrocinadores estatais e não-estatais do terrorismo, assim como as liberdades civis, detenções, interrogatórios e tratamento dos capturados nos campos de batalha ou dos presos por suspeita de terrorismo” (veja no quadro ao lado exemplos de “cenas paradidáticas”).

Não há mais vagas
Já não há mais vagas -e circula lista de espera- para a disciplina. As aulas começam em janeiro, coincidindo com o início da sétima temporada da série na Fox americana (no Brasil, a Fox exibiu na semana passado o fim do sexto ano, e a Globo passou o quinto em janeiro). Os encontros acontecerão às terças, para aproveitar os “ganchos” fornecidos pelo episódio mostrado na noite anterior.

Segundo Sharp, ser fã da série não é pré-requisito para freqüentar as aulas. “Vou estruturar o curso de forma que aqueles que não são fãs não apenas aproveitem e participem ativamente [das discussões] como também virem aficionados só para identificar [no programa] o próximo assunto ligado ao direito”, brinca.

O currículo de Sharp traz passagens pelo Departamento de Estado, pela Biblioteca do Congresso e pela Promotoria do Corpo de Fuzileiros Navais. Atualmente, é conselheiro do Departamento de Defesa para assuntos internacionais. À reportagem, ele pede que frise a independência (em relação aos cargos públicos) do trabalho como professor. “Todos os textos e discussões serão baseados somente em informações de domínio público.”

Entretanto, sai pela tangente ao ser indagado sobre o que pensa das respostas do governo Bush às ameaças terroristas -e se elas estão de fato distantes da cartilha linha-dura de “24 Horas”. “Vou pedir [aos alunos] uma análise estruturada e metódica das leis norte-americanas e internacionais. No entanto, também solicitarei que mantenhamos um espectro de trabalho bipartidário, deixando comparações e julgamentos para outro fórum”, afirma.

Pesado fardo
A reportagem insiste para que ele comente a abordagem política do terrorismo na série, vista pela crítica como conservadora, inclinada à direita. “Repetindo: meu curso não envolverá julgamentos políticos, apenas análise legal. O que sei é que a maior parte dos críticos e analistas não carrega o pesado fardo e a responsabilidade de um serviço governamental do qual se pede ação efetiva para proteger seu povo de assassinos em massa sem juízo”, diz.

“Você acha que um programa como “24 Horas” seria popular se mostrasse um agente interrogando um terrorista -que está inclinado a cometer suicídio e detonar uma arma nuclear ou liberar um agente biológico no centro de Los Angeles- com uma conversa polida, circundado por uma taça de chá e bolinhos?”, emenda Sharp.

Observadores estrangeiros costumam citar o seriado como uma das vitrines da paranóia antiterrorista que se disseminou na América pós-11/9. O professor questiona esse status. “A televisão é uma mídia poderosa, que pode moldar, corretamente ou não, a opinião internacional. Não julgo meus maravilhosos amigos europeus e brasileiros por seus game shows, comédias ou novelas.” [FOLHA 25/9/07]

25 teses mais ou menos sérias sobre a série ’24 Horas’

O ator norte-americano Kiefer Sutherland, o Jack Bauer, astro do seriado de TV “24 Horas”

por HAROLDO CERAVOLO SEREZA

1) Em ’24 Horas’, o terror é dialético. Sem o apoio das informações que “traidores” e “infiltrados”, os terroristas não poderiam ser tão ousados. Sem o terrorismo, Jack Bauer e colegas não teriam emprego.

2) Quanto mais perigoso o ataque terrorista, mais perigoso fica Jack Bauer. Quanto mais perigoso Jack Bauer, maior o risco de uma catástrofe.

3) Palmer é o presidente corajoso que comete as maiores atrocidades. Logan é o presidente covarde que comete as mesmas atrocidades. O que nos faz torcer pelo primeiro?

4) A propaganda que Kiefer Sutherland fez no Brasil radicaliza o clima de ’24 Horas’. Dentro do carro, Sutherland-Bauer é capaz de manter a tranqüilidade. Mas não pode abrir a porta.

5) Bauer é um herói derrotado. Trabalha com a convicção de que seu esforço apenas adiará a tragédia – mas sabe que nunca vai conseguir evitá-la completamente.

6) A principal personagem de ’24 Horas’ é a informação: é por ela que todos, terroristas e agentes, se mobilizam.

7) ’24 Horas’ é uma série didática. Ela nos ensina não o que o Estado faz, mas o que o Estado pode, se quiser, fazer. Nossa sorte é que o Estado, para horror do neoliberalismo, é preguiçoso.

8) ’24 Horas’ nos ensina também que somos muito improdutivos. Temos o mal hábito de dormir entre um dia e outro. Jack Bauer nunca dorme, no máximo toma café da manhã.

9) Há bons e maus árabes na série. Em geral, todos se dão mal.

10) A família e os inocentes são os valores que Bauer e seus amigos defendem. Nem que, para isso, seja necessário torturar e assassinar inocentes e familiares.

11) Numa temporada, Bauer estraga um abajur para dar choques elétricos no genro. E depois dizem que Freud não explica nada.

12) Se os roteiristas de ’24 Horas’ fizessem terroristas menos megalomaníacos, eles teriam causado muito mais estrago.

13) Ninguém respeita a hierarquia na CTU. Todos conspiram contra todos.

14) Na CTU, as possibilidades de ascensão são enormes. Em um dia, pode-se ir de estagiário a diretor, passando pelo cargo de conspirador.

15) Assim como a boca de Mônica Waldvogel parece estar sempre sorrindo, mesmo quando ela noticia uma tragédia, a boca de Sutherland está sempre para baixo, mesmo quando fazem cócegas nos seus pés.

16) Viciado em heroína por necessidade, Jack Bauer tem crises de abstinência apenas quando o horário permite.

17) Na CTU, não apenas os funcionários são corrompidos: até os arquivos são corrompidos e manipuláveis.

18) Até mesmo funcionários altamente especializados em lidar com com esses arquivos corrompidos, como a loira Chloe, precisam pegar em armas.

19) Em ’24 Horas’, todos são nerds e todos entendem os computadores. Mesmo os agentes de campo são especialistas em computação.

20) É sempre possível mudar de lado, do terror para a repressão. E da repressão para o terror. Basta uma motivação pessoal ou familiar. Ou uma boa sessão de tortura.

21) Tudo muda de uma temporada para a outra em ’24 Horas’. Menos o modelo dos aparelhos de telefonia fixa da CTU.

22) Todos os celulares estão grampeados. Mas há sempre uma linha “segura” disponível.

23) Nunca sobra tempo para o mocinho Jack Bauer namorar. Quanto mais para fazer sexo.

24) Um episódio de ’24 Horas’ tem de ocorrer no fim do horário de verão. Para ele ter 25 horas.

25) Esta observação fica para quando a idéia do item 24 se concretizar. [UOL Tablóide 25/09/2007 – 21h49]

ética na tv, hoje

Roda-Viva com o filósofo ROBERTO ROMANO

A corrupção e as formas de combater o desvio de verbas públicas
No mundo, a corrupção movimenta um trilhão de dólares em propinas, segundo o Banco Mundial. Já no Brasil, o desvio é de cerca de um bilhão e meio de reais em perdas indiretas. Esse é o total de recursos que deixam de ser gerados por causa dos efeitos da corrupção sobre os investimentos.

Escândalos sucessivos pioram a avaliação do Brasil no exterior e os negócios sofrem com a falta de credibilidade.

Empresários apontam a corrupção como um entrave ao crescimento da economia. Segundo eles, os desvios afetam, principalmente, a imagem e a credibilidade do país no mercado externo.

A ausência de transparência nos três poderes é apontado como um dos principais entraves ao combate à corrupção no Brasil.

Para discutir como combater a corrupção em todos os níveis, o Roda Viva entrevista Roberto Romano, professor de ética e de filosofia política da Unicamp, Universidade Estadual de Campinas, em São Paulo.

Na TV Cultura, canal 2 [tv aberta], hoje, segunda-feira, 4/6/07, às 22h40, ao vivo
Entrevistadores: Tereza Cruvinel, colunista do jornal O Globo; Alon Feuerwerker, editor de política do jornal Correio Braziliense; Alexandre Machado, diretor de jornalismo da TV Cultura; Carlos Marchi, repórter e analista de política do jornal O Estado de S. Paulo; Fernando Rodrigues, colunista e repórter do jornal Folha de S. Paulo em Brasília; Carlos Graieb, editor executivo da revista Veja.
Apresentação: Paulo Markun