Carta a um futuro olavette [1]

A seguir, reproduzo uma “carta” originalmente endereçada a um ex-aluno, ora forte candidato a se tornar mais um olavette. A aparente fragmentariedade do texto se deve ao fato de, como toda resposta, subtender muitas coisas. Decidi publicá-la por achar que o caso desse ex-aluno, P., como o chamarei, está infelizmente longe de ser único ou raro. Se for útil para pelo menos uma pessoa já terá valido a pena.

Caro P.,

Não sou especialista em Aristóteles, do qual aliás conheço apenas o básico, para avaliar o livro do Olavo de Carvalho (OC). Mas ele mesmo diz, em algum lugar, que suas ideias sobre o estagirita se baseiam em indicações, antigas, de filósofos árabes e, recentes, do Mario F. dos Santos. Em todo caso, para mim, história da filosofia não é filosofia, e a obra em questão é de história da filosofia.

Eu tomaria mais cuidado com o adjetivo “grande” (ou “pequeno”) ao atribuí-lo a filósofos e pensadores. “Grande”, para mim, cabe a Sócrates, Platão, Aristóteles, ao “burro” do Kant e a mais uns poucos. (O OC talvez pudesse ser o criado de quarto de um deles…)

Nem toda interpretação da “realidade” é de natureza filosófica. A filosofia começa, aliás, discutindo a própria “realidade”: se existe, qual sua natureza, o papel do intérprete etc. A maior parte do que OC publica tem muito pouco de filosofia.

Eu não dou a mínima para a filosofia acadêmica (se é que existe filosofia na academia!); sigo nisso os grandes.

Kant dizia que não se pode ensinar filosofia, mas apenas a filosofar. Infelizmente, é a filosofia herdada, morta, que se ensina na academia. E não me parece que OC faça algo muito diferente. Tive vários “olavettes” como alunos, e eles sempre estiveram entre os piores, incapazes de pensar por si mesmos, cheios de preconceitos, erros crassos e jargões.

Na verdade, meu caro, ninguém ensina ninguém. O professor pode apenas sensibilizar o aluno, e oferecer as condições (ambiente, instrumental etc.) para que este possa começar a filosofar. O aluno aprende ou não, mas ninguém pode se ativar por ele! Tudo que lhe venha de fora não é filosofia viva, mas conhecimento histórico, morto, que ele decora e depois esquece.

Essa desculpa do OC, de que ele não teria tempo para escrever livros, é ela mesma preguiçosa, hehe. Se alguma coisa não lhe falta é a capacidade e a vontade de escrever. Tratados são desnecessários, mas algumas boas sínteses bem que ele podia escrever, não acha? Mas cadê elas? Cadê, aliás, o tal d’Olho do Sol?

Você diz que OC assume o que faz. Bem, eu também manteria cautela quanto a isso. Como lhe disse, ele reescreve a própria biografia de tempos em tempos. Não se trata apenas de mudar de ideia!

Veja: quando o conheci, OC era astrólogo. Sim, ele aprofundou o estudo da astrologia (psicologia, simbologia, metafísica etc.), mas isso se deu aos poucos. No começo, era mesmo um fazedor de horóscopos (um amigo tem uma fita gravada com o horóscopo feito pelo OC), autor de artigos para a revista Planeta (onde difundia barbaridades como a falsa Gnose de Princeton). Quando abriu a Escola Júpiter, começou a dar cursos de formação intelectual. Nessa época, descobriu a obra do esoterista francês René Guénon. Talvez esse encontro tenha sido um dos mais importantes de sua vida. E eu duvido que ele admita tudo o que se passou desde então.

Foi aí que o OC escreveu aqueles livrinhos sobre tradição e tradicionalismo. Começou a estudar e a divulgar a obra do suíço Frithjof Schuon, de quem se tornou discípulo, juntamente com vários alunos (como todo líder carismático, OC sempre teve discípulos). Eles foram para os EUA, onde o Schuon tinha uma Tariqa, uma escola esotérica muçulmana, sufi. (Você deve saber que OC, não por acaso, escreveu uma biografia de Maomé.)

Schuon era para OC um deus na terra, um santo, um grande iniciado. Agora, ele diz que o Schuon era na verdade uma espécie de espião, alguém que foi enviado aos EUA para corrompê-lo por dentro. — O que OC tem a dizer sobre isso?

É que eu me desfiz de todos os livros do OC (e eu tinha todos ou quase todos), senão seria fácil demonstrar essa radical “mudança de ideia”.

Na verdade, o OC foi desligado da tariqa pelo próprio Schuon. Preste atenção nisso. Quando alguém diz isso ao OC, ele responde que tem um documento que prova ter saído de lá numa boa. Ou seja, ele acaba se entregando ao demonstrar interesse em manter uma boa relação com o emissário do capeta.

Pouco antes, OC entrou para a ordem dos irmãos Shah (Idries etc.). Uma ordem supostamente sufi, com um método peculiar, heterodoxo, de desenvolvimento espiritual. Depois escreveu que se tratava de magia negra. (Rapaz, se eu puxar pela memória, não para de vir coisas…)

O suposto tradicionalismo católico do OC vem da época do perenialismo (Guénon, Schuon). Não digo que ele não tenha fé (quem sou eu para afirmar isso?), mas sim que ele se apega ao tradicionalismo católico em virtude da doutrina metafísica daqueles autores e, em especial, do filho de Ananda Coomaraswamy, Rama.

OC vai abandonando pelo caminho os alunos que não o seguem em suas “mudanças de ideia”. Converse com alguns dessas épocas (astrológica, tradicionalista etc.), e depois faça o seu julgamento.

OC chegou a dizer que escrevia na primeira pessoa do plural, o eu majestático, justamente porque se tratava de trabalhos impessoais, com os quais não teria, de fato, nenhuma relação existencial. Isso não me parece nada com “assumir os erros”.

Mas a coisa vem de antes, meu caro. Dizem que ele nunca foi jornalista, como sempre afirmava. Não teria passado de um copidesque.

Você leu seus livros de transição (da fase esotérica para a anticomunista), especialmente O jardim das aflições? Eu tenho a curiosidade de saber como aparecem os EUA nas outras edições, depois da primeira, desse livro. Acho improvável que ele mantenha sua posição original. Naquela época, os EUA ainda eram para ele o suprassumo da decadência, da era moderna, de ferro, kali-yuga. Agora, são o bastião da liberdade e da defesa dos direitos do indivíduo. Uau!

Eu mesmo me deixei influenciar pelo discurso anticomunista do OC e de outros autores, como o Rei Azedo, digo, Reinaldo Azevedo. Aos poucos, fui me informando melhor, interpretando mais critica e autonomamente a “realidade” e, assim, libertei-me dessa dialética diabólica entre esquerdismo e direitismo.

Em vez de ler apenas as citações feitas pelo OC, leia os originais. Leia Marx, p.ex. É inegável que Marx foi um grande economista (isso ninguém nega!), e também um humanista. Os ataques ad hominem do OC são esperneios doentios que nada têm de filosóficos. (Você sabe que eu não sou materialista, marxista, ateu etc.)

Eu era um almofadinha antilulista. Agora, embora não feche os olhos para as faltas e equívocos do seu governo, reconheço os avanços sociais efetuados por Lula. Queria ver o OC ir falar mal do Lula no sertão nordestino! Lá e em muitos outros lugares do Brasil, Lula é um deus. Pessoas que passavam fome, agora têm o que comer e um dinheirinho pra comprar mais alguma coisa. Nenhum outro governante fez coisa parecida. E olha que é o mínimo! Não sei como é que um cristão possa ver com maus olhos esse tipo de política social. (E eu não sou petista nem lulista nem esquerdista!)

Quanto ao cenário acadêmico, você não está totalmente errado, mas vá com mais cuidado… O que quase não se encontra são fascistas como OC, aquela direita raivosa, anticomunista, americanista, sionista etc. Isso, de fato, é coisa rara. Mas há muita gente de direita, sim, ora. O tal do esquerdismo preponderante é muito mais uma posição humanista do que político-ideológica. As pessoas associam desenvolvimento social (eliminação da miséria, igualdade de condições, distribuição de renda, educação básica etc.) à esquerda ou à centro-esquerda (no máximo, à centro-direita). Na área das ciências sociais, encontram-se de fato mais esquerdistas militantes.

Eu tô fora disso tudo. Não sou nem de direita nem de esquerda. Quase sempre, voto nulo. Para mim, Cristo era um anarquista não violento: a César o que é de César… Cristo é o meu presidente, o meu sacerdote, o meu médico, professor etc. A política partidária pressupõe o Estado, e o Estado é intrinsecamente violento, ou seja, anticristão. Voltaremos a conversar sobre isso.

Em suma: fascismo anticomunista do OC é violento e anticristão.

Mas não serei eu a demonizá-lo. Isso seria fazer o jogo dele. “Não resistais ao mal”! Deixe que ele esperneie… e que os olavettes lambe-botas aprendam quando quebrarem a cara de um jeito ou de outro. Talvez quando ele mudar de ideia novamente?

Na PUC, pelo menos na pós-graduação em filosofia, não encontrei quase ninguém de esquerda, muito menos militante. Aliás, com todos os problemas e deficiências, uma coisa eu tenho de admitir: a maioria dos professores que tive lá ama o que faz, gosta mesmo da filosofia, de dar aula etc. Não encontrei nenhum líder carismático, e sei bem que com boas intenções se pavimenta o caminho para o inferno, mas, quer saber, não foi o pior dos mundos.

O que me desanima é esse patológico apego à história! Sim, é importante estudar os grandes filósofos mortos, a história da filosofia é até mesmo indispensável, mas isso tudo não é ainda filosofia! Quando pergunto aos alunos: e vocês, o que acham, concordam? Eles ficam atônitos! Como assim, eu, um zé ninguém, concordar ou discordar de Kant?!

A discussão entre especialistas não tem fim. Sempre vai aparecer alguém para discordar: não, não, Platão não disse nada disso, o que ele quis dizer era uma coisa bem diferente etc. Aposto como há vários autores que discordam radicalmente das interpretações do Voegelin, p.ex. (Modestamente, acho exagerada a crítica que ele faz ao tal do gnosticismo.) Então, meu caro, estou fora. Eu uso os mortos para tentar fazer algo de vivo: supondo-se que Platão pensasse mesmo X, o que se segue? O que isso tem que ver com a realidade, com a nossa realidade, o que eu, nós pensamos de X, o que fazemos dele na nossa VIDA etc.

Para finalizar, nem tudo nos “novos filósofos” é porcaria, P. O próprio Foucault, sobretudo na sua última fase, tem coisas interessantes e aproveitáveis.

Não sou ninguém para dar conselhos. Mas creio que fazemos muito bem em manter nossa mente alerta e aberta, evitando o “maniqueísmo” e toda forma de dogmatismo burro e emburrecedor.

Certamente OC tem também coisas interessantes e aproveitáveis, mas eu não tenho tempo nem saco para ficar garimpando pérolas em meio a tanto lixo ideológico.

Uma vez escrevi a OC agradecendo-lhe por um belo artiguinho de Natal, que me deixou embevecido. Mas também já lhe escrevi para dizer que ele não passava de um “imbecil individual”.

Espero que não se tenha assustado com tudo isso!

Abraço do seu ex-professor,

Edson

Nuvens pesadas

Em sua coluna de hoje, 31-1, na  Folha de S.Paulo, intitulada Do papiro à nuvem, a psicanalista Anna Veronica Mautner trata do aspecto psicológico da chamada “computação em nuvem” (cloud computing), da compulsão contemporânea pelo acúmulo de coisas, em geral, e pelo arquivamento de documentos, em particular. Segundo a autora, tudo

o que está na “nuvem”, sem a dinâmica da assimilação, não passa de dados à procura de uma mente criativa que faça novas conexões.

De fato, o que se armazenam nos discos rígidos (hard drives) e nas fitas magnéticas (magnetic tapes) dos computadores (hardware) são apenas e somente dados e não informações, muito menos conhecimento. Um simples exemplo ajuda a compreender a razão de ser dessa limitação.
Imagine um simples banco de dados (Access ou mesmo Excel) de uma organização qualquer, p.ex. de uma escola, o qual armazene as fichas cadastrais de alunos e funcionários.  Imagine, agora, que, em vez de dados, fossem registradas informações nesse cadastro; p.ex., em vez da data de nascimento (dado), a idade (informação). Ora, toda vez que se recuperasse essa informação, ou seja, a idade do aluno ou do funcionário, ela estaria desatualizada, uma vez que foi fixada no passado.
O banco de dados deve ser programado para atualizar a informação, trazendo-a para a data atual, mas, para isso, ele precisa dispor de dados brutos (dia, mês e ano de nascimento, p.ex.).
A informação, portanto, pressupõe dados pertinentes e fidedignos, que ela elabora ou atualiza. Dados não informam nada, mas são, por assim dizer, a condição de possibilidade da informação.
Conhecimento, por sua vez, já é mais do que a mera informação. Quando fala de novas conexões criativas, Anna Mautner está se referindo ao conhecimento. Conhecimento, segundo Kant, consiste numa síntese operada por um sujeito.
O artigo fez-me lembrar ainda de uma tese tão estranha quanto instigante. Segundo René Guénon, intelectual francês que viveu na primeira metade do século passado, conhecido por seus estudos acerca das tradições espirituais da humanidade, especialmente, as orientais, e considerado como fundador de uma escola ou corrente de pensamento chamada justamente de Tradicionalismo ou, também, de Perenialismo, segundo esse pensador tradicionalista, dizia eu, nós viveríamos atualmente numa época terminal, de decadência, a era do ferro ou da deusa Kali (daí Kaliyuga), que teria sucedido três outras eras (de ouro, prata e bronze, na terminologia ocidental).
Ora, uma das características da nossa idade decadente, obscura, consistiria justamente no ímpeto por acumular coisas e informações, no arquivamento de documentos, livros etc. Como se a humanidade, instintivamente, soubesse que estaria chegando ao fim e que, por conseguinte, precisaria cuidar do seu legado (tradição) a uma nova humanidade de uma nova idade de ouro.
Noutra ocasião voltarei a Guénon e aos tradicionalistas. Por ora basta essa nota.
Para concluir, apenas mais uma observação de ordem técnica. Como disse, o artigo em questão trata da famigerada “nuvem” de dados (e metadados). Ora, a verdade é que essa designação metafórica é enganadora ao extremo. Dá a ideia de que os dados estariam trafegando em fluxos, correntes fluidas,  sem nenhum suporte físico, quando o que de fato ocorre é o oposto disso.
A Internet simplesmente não existiria sem os velhos e bons “big irons”, os grandes computadores (mainframes). O planeta Terra está povoado por laboratórios de armazenamento e processamento de dados, executados por essas máquinas pesadas, que em nada lembram nuvens. Nuvens, aliás, produzem água e energia, enquanto os mainframes são vorazes consumidores de uma e de outra…