o fetiche da modernidade

O que resta à modernidade é seu senso comum científico, normalmente dotado de grande carga emocional e dogmática

por LUIZ FELIPE PONDÉ

A CIÊNCIA é o supremo fetiche da modernidade. Quando se olha no espelho, em seus melhores momentos, vê o brilho redentor da tecnologia e seu sublime ídolo, o progresso (a face contemporânea da “natureza atada” de Francis Bacon).

Diante do quase fracasso de grande parte de suas utopias (o racionalismo político, a administração da vida, a resolução científica da existência, a reformulação do humano, enfim, a organização eficaz da agonia), resta à modernidade seu senso comum científico, normalmente dotado de grande carga emocional e dogmática.

A prova evidente desse senso comum é supor que qualquer crítica à ciência significa alguma forma de heresia epistemológica ou mera falta de conhecimento científico por parte de quem levanta a questão.

A estrutura do átomo, suas partículas e cordas, para além de um panteísmo de iniciantes, nada muda em nossa condição cósmica. Tampouco as modas científicas, os “novos paradigmas” e seu superficial frenesi pseudo-religioso.

Aristóteles não conhecia nada sobre como o genoma desvendaria (?) todos os segredos do humano. Entretanto, a única forma de ateísmo filosoficamente séria (o darwinismo) busca exatamente responder a Aristóteles e sua herança (o primeiro motor inteligente): Como do acaso cego chegamos à ordem e ao design visíveis no universo? Pela repetição (e reprodução) mecânica daquilo que não pereceu, vítima da agressão do meio ambiente, em sua inércia ancestral, surge a aparência de ordem. A dança macabra entre o agredido e a agressão mimetizaria essa ordem.

A crítica ao dogmatismo do senso comum científico nada tem a ver com um “desconforto” diante da possível insignificância da vida, sendo mais provável que o pânico diante da possibilidade de “descrença” na ciência seja um indício desse mesmo suposto “desconforto”.

Evidentemente, a ciência (ou aquilo que dela de fato parece fazer a diferença, ou seja, a medicina, a biotecnologia, os aviões, a informática e os processos de controle da vida cotidiana pelo Estado e por seu aliado, o mercado) mudou a face do planeta.

Só um mentiroso não reconhece, humildemente, o alívio diante do adiamento da morte. Imaginar-se mais livre do que os medievais é outro sintoma clássico: quem nunca foi capturado pela fina malha de violência científica do sócio invisível, o Estado arrecadador?

Não se trata de demonizar a ciência. Isso é para a filosofia amadora. Ela é uma das grandes coisas que realizamos nos últimos 500 anos. Trata-se de vê-la como é: uma adolescente furiosa, às vezes generosa, normalmente arrogante quando bem-sucedida. A ciência não é um método puro (somente quando vista das alturas de sua ascendência filosófica). Constitui-se numa teia de interesses e laços institucionais que tendem à fantasia do absoluto, quando, na realidade cotidiana, seus agentes sociais vivem no pântano do relativismo ético e do totalitarismo econômico. Kafka poderia escrever um excelente conto sobre sua burocracia da produtividade.

Exemplo claro é a forma alucinada com a qual a sociedade crê na economia (“Ah, esses sofistas, calculadores e economistas”, diria Burke).

Entre a vírgula e o ponto, no espaço estreito de uma fórmula abstrata, a realidade que se esvai em sangue. Só o ato epistemológico da crença justifica a matematização abstrata que reproduz a vida fora de si mesma.

Se a teologia da baixa escolástica foi marca dos delírios de uma época na qual a grande civilização medieval agonizava, as poderosas profecias econômicas marcam um mundo em que a estatística esmaga o pobre humano de carne e osso.

A estratégia do senso comum científico é desconstruir a incerteza ou dissolvê-la numa incerteza meramente estética. A suspeita, sem fundamento, de que a crítica à “cientificidade” da modernidade seja filha da Inquisição é outro marco do senso comum científico: entenderemos melhor a relação entre a vida e a ciência se lermos os utilitaristas, muito mais do que se nos deslumbrarmos diante do amontoado de “descobertas revolucionárias”.

A “precisão” científica pode andar lado a lado com a ignorância acerca da realidade. E mais: pode ser um método poderoso de falseá-la.

Qual a resposta científica ao Eclesiastes? [FOLHA 5/2/07]

libelo político

“Deus, um Delírio”

por LUIZ FELIPE PONDÉ

Falta nessas pessoas que teimam em ser profetas um pouco daquela sabedoria discreta que encontramos em gente como Fernando Pessoa: o improvável Deus nos protege da fé grosseira em ídolos com cabeça de bicho, como o culto da Humanidade, “mera idéia biológica”.

Pouco céticas e muito dogmáticas, elas confundem coisas como a salutar disciplina cética com o ateísmo. Como diria Chesterton, quando deixamos de acreditar em Deus, acabamos crendo em qualquer bobagem. A humanidade é mais infeliz do que imagina nossa vã filosofia da emancipação.

O novo livro de Richard Dawkins (que parece ser aquele tipo de cara que ainda acha que o ateísmo mete medo em gente grande), “Deus, um Delírio”, não é ciência, mas mero libelo político (ateísmo científico é um contra-senso, Deus é uma variável sem controle epistemológico), uma recaída na velha fúria jacobina, requentada com máximas evolucionistas.

Lembremos que não existem cosmologias de laboratório.

Afirmações como “tenha orgulho de ser ateu e olhe o futuro com confiança” soam bem num workshop para auto-estima.

Seu foco são as utopias modernas de salvação: não é por acaso que flerta com alguns dos totalitarismos mais sofisticados de nossa época, entre eles, aqueles, aliás, que “melhoraram muito” as relações entre homens e mulheres, esmagado-as sob a bota do ressentimento típico da desconstrução social genérica.

O livro vende o darwinismo como teoria “progressista” (grande intuição marqueteira), por isso suas alusões a “sair do armário”, tentando convencer a sensibilidade de esquerda que o darwinismo não é mais perigoso. A alma desassossegada indaga: além da parada dos ateus, serei processado se disser em público que acredito em Deus? Quem é o bobo que acredita que, sem Deus, o ser humano mataria menos? Sem o fundamentalismo islâmico (supõe-se), as torres gêmeas estariam lá, mas e os milhões de mortos em nome da ciência, da humanidade e da história nos séculos 18, 19 e 20?

De Stálin a Fidel, de Robespierre a Mao Tse-tung, todos seduziram a “inteligência atéia”. O ateísmo político domina a sensibilidade “pop-inteligente” há décadas, questões como a alegre legalização do aborto, a “revolta poético-científica do desejo”, a metafísica materialista e a ignorância filosófico-religiosa provam isso.

Ateísmo mais elegante
Quase todos crêem no “produto emancipação”. Deus não garante o “Bem” (nenhuma teologia séria pensa isso), nem o ateísmo a inteligência ou a ética.

Gostamos de matar e pronto.

Dawkins procura seduzir exatamente o tipo de pessoa covarde que não gosta de saber disso sobre si mesma e, com isso, minimiza uma grande qualidade do darwinismo filosófico: sua percepção trágica da vida na qual somos areia que um dia abriu os olhos e que balbucia sozinha diante da indiferença furiosa de um universo mudo e sonambúlico imerso no acúmulo de design cego (supremo conceito que descreve a emergência da “ordem” em meio à cegueira da matéria).

Todavia, reconheçamos que ele acerta ao dizer que a “religião inteligente” pouco tem feito diante da violência fundamentalista e do Mac-Jesus. Mas seria Deus que nos faz gostar de matar e sermos banais como qualquer animal que se arrasta no pó?

A inteligência se faz vítima do ruidoso mundo da democracia militante de massa. Este livro é a prova, ao tentar fazer do darwinismo uma teoria palatável à massa medrosa: se deixarmos de acreditar em Deus, seremos mais felizes… Quem disse que a beleza vencerá? O darwinismo é, filosoficamente, o ateísmo mais elegante que existe, nada prova sobre Deus, mas pelo menos não incorre no elementar erro do marxismo, que confunde representações sociais com o problema da ordem cósmica. Diante desse ruído, ainda que me considerem cético demais, confesso: prefiro Fernando Pessoa e Deus. [FOLHA 1/9/07]

DEUS, UM DELÍRIO
Autor: Richard Dawkins
Tradução: Fernanda Ravagnani
Editora: Cia. das Letras
Quanto: R$ 45, em média (528 págs.)
Avaliação: regular

o gene egoísta

Estudo clássico da biologia faz 30 anos e ganha nova edição

Obra-prima do britânico Richard Dawkins chega com um ano de atraso ao Brasil

por CLAUDIO ANGELO

H á uma anedota já clássica no gueto dos jornalistas científicos segundo a qual é possível sustentar qualquer tese sobre o papel dos genes no comportamento humano citando um trecho escolhido de “O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins.

Como toda boa piada, esta é cruel, mas tem mais do que um fundo de verdade. Ela revela o barulho que o maior clássico moderno da biologia tem feito desde que saiu, em 1976, e a confusão que ainda causa: determinismo ou livre-arbítrio?

As idéias que permeiam o livro de Dawkins há muito vazaram do laboratório e foram canibalizadas pelo mundo da cultura. Viraram desculpa para um monte de coisas, de infidelidade conjugal a assassinato. E, recentemente, foram ecoadas por ninguém menos que James Watson, o pai do Projeto Genoma Humano, em suas declarações desmioladas sobre diferenças genéticas determinando diferenças de capacidade intelectual entre brancos e negros.

É em boa hora, portanto, apesar do atraso de um ano, que chega ao Brasil a edição comemorativa de 30 anos de “O Gene Egoísta”. Quem já leu pode aproveitar para desfazer mal-entendidos sobre o livro, numa atmosfera política menos carregada que a dos anos 1970. Quem não leu pode se deliciar com a prosa de Dawkins, então um pensador mais arejado (e menos chato) que o militante ateu de “Deus, um Delírio”.

A premissa básica do livro é que os genes são a “unidade” mínima da evolução e “agem” de acordo com o axioma da seleção natural darwinista: maximize sua sobrevivência. Sobreviver, aqui, equivale a espalhar o maior número possível de cópias de si mesmo. Para que isso aconteça em um ambiente em que vários genes competem entre si, é necessário eliminar rivais e recorrer a uma série de truques, tais quais criar “máquinas de sobrevivência” que protejam o DNA do contato direto com o mundo.

Essas máquinas somos nós, os organismos vivos, que Dawkins comparou a “gigantescos e desajeitados robôs”. O valor adaptativo de uma máquina de sobrevivência está em ser melhor que seus competidores na exploração do ambiente. Para o gene, não compensa ajudar outro organismo quando isso implica em custo.

Portanto, na evolução -e, por tabela, no comportamento humano-, impera a lei da selva. Parando por aí, fica-se com a impressão de que Dawkins cede ao determinismo. Mas, embora intencionalmente force a mão na linguagem, ele mesmo desmonta tal sugestão ao postular que o egoísmo dos genes montou uma máquina tão sofisticada -o cérebro e a consciência- que consegue se rebelar contra seus ditames.

A biologia mudou um bocado nestes 31 anos. Mas “O Gene Egoísta” continua sendo obrigatório. Não só para quem quer entender a genética mas também para qualquer um que se pergunte como é possível traduzir conceitos científicos complicados como quem escreve um romance.


O GENE EGOÍSTA
Autor:
Richard Dawkins
Editora: Cia. das Letras
Quanto: R$ 55 (540 págs.)
Avaliação: ótimo
[FOLHA 17/11/07]

“elo perdido”

Fóssil de 10 milhões de anos pode ser ancestral comum de gorilas e homens

Descoberta, rara na África, apóia teoria de que todos os grandes macacos evoluíram naquele continente, afirma equipe queniana e japonesa

Cientista segura mandíbula de Nakalipithecus nakayamai, de 10 milhões de anos, no Museu Nacional do Quênia, em Nairób

DA REUTERS

Pesquisadores quenianos e japoneses anunciaram ontem a descoberta de uma mandíbula de 10 milhões de anos que eles acreditam ter pertencido a uma nova espécie de grande macaco que poderia ser o último ancestral comum de gorilas, chimpanzés e seres humanos.

A equipe encontrou o fragmento em 2005, juntamente com 11 dentes. Os fósseis, datados em 9,88 milhões de anos, estavam em um antigo depósito de lama vulcânica na região de Nakali, norte do Quênia.

A espécie é mais um “elo perdido”, um dos passos evolutivos cruciais na linhagem dos grandes macacos africanos -à qual pertence o Homo sapiens.

“Com base nessa descoberta, podemos dizer confortavelmente que estamos nos aproximando do ponto em que poderemos determinar o chamado elo perdido”, disse Frederick Manthi, pesquisador-sênior do Museu Nacional do Quênia. “Teríamos de achar mais fósseis em uma série de sítios para sustentar essa teoria”, afirmou, diante do pedaço de osso de 10 cm de comprimento.

Este é o achado importante mais recente do leste do Rift Valley, uma região rica em fósseis de hominídeos.

“Os dentes estão cobertos de esmalte grosso e suas coroas eram baixas e volumosas, o que sugere que a dieta desse animal consistia de objetos duros, como frutos secos ou sementes e frutas”, disse Yutaka Kunimatsu, da Universidade de Kyoto. Ele é um dos co-autores do estudo que descreve o animal, batizado Nakalipithecus nakayamai, na edição de ontem da revista “PNAS”.

“Ele poderia ser colocado antes da divergência entre gorilas, chimpanzés e humanos”, acrescentou o cientista japonês. No entanto, é difícil determinar qual seria o aspecto do animal. “Nós só temos alguns fragmentos de mandíbula e dentes. Voltaremos no ano que vem para tentar encontrar ossos abaixo do pescoço que nos digam como o animal se movimentava”, disse Kunimatsu.

O achado queniano é importante porque dá apoio à teoria de que a evolução dos grandes macacos aconteceu inteiramente na África. Antes dele, os fósseis de grandes primatas na África datados de 7 milhões a 13 milhões de anos atrás eram tão raros que alguns especialistas começaram a assumir que o último ancestral comum de gorilas e humanos havia evoluído da Eurásia, e a linhagem teria retornado à África depois.

“Agora temos um bom candidato na África. Não precisamos pensar que o último ancestral comum voltou da Eurásia”, afirmou o pesquisador. [FOLHA 14/11/07]

estado, igreja e bioética

Discurso religioso, aborto e Estado laico

Talvez seja, de fato, mais conveniente discutir sobre o aborto sem os padres na sala. Mas seria essa uma opção pluralista?

por JOÃO HELIOFAR DE JESUS VILLAR

O MINISTRO da Saúde, José Gomes Temporão, ao declarar tempos atrás que o aborto não é uma questão religiosa, e sim de saúde pública, reavivou o debate sobre a questão. A declaração é importante porque, a rigor, estabelece um limite para a invocação de razões religiosas no debate público, tema recorrente nesta Folha. Talvez seja, de fato, mais conveniente discutir sobre o aborto sem os padres na sala. Mas seria essa uma opção pluralista?

Há dois pontos de vista básicos sobre a origem da vida. Ou ela é fruto do acaso e consiste numa força cega, sem significado e propósito, que saiu do nada e vai para lugar nenhum, resultado de infinitas mutações que se desenvolvem a partir de uma forma absolutamente primária etc. etc., ou resulta de um ato de criação de um ser inteligente e, por causa disso, tem significado, propósito etc. etc.

Os dois pontos de vista são indemonstráveis. A vantagem do primeiro -a visão secular- consiste no fato de que sua argumentação, ainda que indemonstrada, é puramente naturalista e se ajusta ao método científico. Uso a expressão naturalista, que me parece melhor do que materialista, para nomear a visão de que a natureza é tudo o que existe, em contraposição àquela que concebe a existência de uma realidade sobrenatural.

Armand M. Nicholi Jr., professor de psiquiatria na Universidade Harvard (EUA), destaca em sua última obra que Freud dividia a humanidade em duas classes: os que crêem em Deus e os que não crêem. As visões de mundo de uns e de outros são radicalmente diferentes.

Entender, por um lado, que a vida é sagrada, por ser dom de Deus, ou, por outro, que é um acidente natural a que o homem empresta valor conforme suas condições culturais, evidentemente, estabelecerá radical distinção nos valores de quem crê numa ou noutra hipótese. E como o Estado laico se posiciona em relação a isso?

Não se posiciona. Deixa ambos com seus pontos de vista e não toma partido. Estado laico não significa uma opção oficial pelo ponto de vista exclusivamente naturalista do mundo, mas uma opção por não se meter na discussão, concedendo liberdade a quem crê e a quem não crê.

Vale lembrar o texto da primeira emenda da Constituição norte-americana, a primeira a regular a questão: “O Congresso não aprovará nenhuma lei relativa ao estabelecimento de religião ou que proíba seu livre exercício”. Estado laico é aquele que está proibido de tomar partido em matéria de religião. Isso, obviamente, não impede ninguém de expor sua posição na arena pública fundado em suas convicções (ainda que religiosas). Nenhuma regra impede o religioso de invocar suas razões numa discussão oficial, especialmente se o objeto da controvérsia girar em torno de valores, campo em que a ciência é muda e o naturalismo nada tem a dizer.

Dizer que as razões que se apóiam numa convicção religiosa se contrapõem ao Estado laico é torcer a regra e, a rigor, subordinar a visão de mundo do religioso à secular, arbitrariamente. Se a argumentação de um religioso objetiva proteger um valor tutelado pelo direito, não importa que invoque uma razão espiritual para se definir nessa posição.

Não importa por quê? Porque o tema é levado ao debate e pode ser contestado por quem pensa de modo diferente. Não há obscurantismo quando se tem a honestidade de defender um valor protegido pelo direito com base numa visão de mundo não secular e se está aberto ao dissenso. O que gera o obscurantismo não é a fé, mas a proibição do dissenso, falha na qual incorrem muitos ao invocar o Estado laico para, em discussões oficiais, fechar a boca de quem crê em Deus. A imposição de silêncio ao religioso significa que o Estado o estaria obrigando a se posicionar sempre -e exclusivamente- a partir de postulados materialistas -tão metafísicos quanto os não materialistas- que violam sua convicção. O materialismo filosófico não é a única linguagem autorizada pelo Estado.

No fundo, o problema é outro: há no pensamento secular, ainda que não assumida, a convicção de que a fé é um perigo obscurantista que devemos banir do nosso meio o quanto antes, sob pena de restaurarmos a idade das trevas. Bobagem.

A história mostra que, para ser fanático, não é preciso ser religioso e que o obscurantismo não é fruto do fato de o sujeito crer em Deus e na existência de uma realidade sobrenatural. Hitler, Mao, Stálin etc. não criam em nada disso. Obscurantismo é a proibição do dissenso. [JOÃO HELIOFAR DE JESUS VILLAR, 44, é procurador da República da 4ª Região. (FOLHA 6/11/07)]

a ciência e deus

Ainda que um cientista acredite em Deus, ele não pode aduzir Deus para “explicar” nada

por ANTONIO CICERO

AS MAIS TRADICIONAIS “provas” da existência de Deus -a “prova ontológica”, de Anselmo de Canterbury, e as “cinco vias”, de Tomás de Aquino- jamais se recuperaram da refutação que sofreram, por obra de Kant, no século 18. Assim, entende-se que, em seu livro “Deus, um Delírio”, Richard Dawkins não lhes dedique muita atenção.

Por outro lado, sendo um biólogo, Dawkins se preocupa principalmente com as pretensões dos defensores do “intelligent design” (que, numa de suas típicas tiradas, ele chama de “criacionismo de smoking”). Estes alegam que a vida, os seres vivos, o ser humano etc. são complexos demais para terem sido produzidos pelo acaso.

Segundo eles, pensar o contrário seria como supor que um furacão que varresse um ferro-velho seria capaz de montar um Boeing 747. Como não dá para crer que algo tão improvável ocorra, eles inferem que tais coisas só podem ter sido produzidas por um designer ou projetista, isto é, por Deus.

A partir dessas considerações, explica-se que Dawkins trate a existência de Deus à maneira de uma hipótese científica como outra qualquer. Aqui não há como não lembrar a lapidar resposta do grande astrônomo Laplace a Napoleão, quando este lhe perguntou por que não mencionara Deus ao explicar o funcionamento do sistema solar: “Excelência, não precisei dessa hipótese”.

Pois bem, Dawkins se propõe a considerar a hipótese científica de que “existe uma inteligência sobre-humana e sobrenatural que deliberadamente projetou (“designed’) e criou o universo e tudo o que nele se encontra, inclusive a nós”.

A que conclusões chega? Em primeiro lugar, ele concorda que realidades tão complexas não podem ter sido produzidas pelo mero acaso. Em segundo lugar, porém, ele nega que elas possam ser satisfatoriamente explicadas por um designer. Por quê? Porque, dado que o designer de alguma coisa não pode deixar de ser mais complexo do que essa coisa, seria ainda mais difícil explicar a existência dele do que a dela. Será preciso então apelar a um outro designer para explicar o primeiro, e depois a outro para explicar o segundo, e assim ao infinito: o que desqualifica essa explicação. Desse modo, revela-se inaceitável a hipótese da existência de Deus.

Segundo Dawkins, o que realmente dá conta da produção de coisas extremamente improváveis como o ser humano não é nem o mero acaso nem o design, mas o processo de seleção natural. Este consiste na produção de algo improvável por meio de inúmeras etapas. “Cada uma das etapas”, diz ele, “é um tanto improvável, mas não irrealizável. Quando um grande número desses eventos um tanto improváveis se acumula numa série, o produto final da acumulação é de fato muito improvável, tão improvável que não poderia ter sido produzido pelo mero acaso”.

É esse resultado final do processo de seleção natural que é usado pelos proponentes do “intelligent design” (incapazes de compreender o poder da acumulação gradativa de improbabilidades) como argumento para a sua modalidade de criacionismo.

Os filósofos ou teólogos que alegam, contra o procedimento de Dawkins, que ele não está levando em conta o fato de que Deus não tem causa imanente, uma vez que é transcendente, de que Deus é uma primeira causa incausada etc., não têm cabimento aqui, já que Dawkins não está senão examinando a hipótese fundamental do “intelligent design”, que se pretende puramente científica, e rechaçando-a nos próprios termos em que ela se propõe.

E a verdade é que, neste ponto, a argumentação de Dawkins só tem sentido se entendida desse modo, como uma espécie de sátira da teoria do “intelligent design”. Por quê? Porque o “intelligent design” jamais poderia realmente ser considerado como uma hipótese científica.

Quando Laplace diz que não precisa da hipótese de Deus, está, na verdade, explicitando a principal regra do jogo constitutivo da própria ciência: de toda ciência. Deus não vale como hipótese porque tal hipótese explicaria tudo e qualquer coisa: logo, ela não explicaria nada. Assim, ainda que, pessoalmente, um cientista acredite na existência de Deus, ele não pode, sem trair a sua ciência, aduzir Deus para “explicar” coisa alguma.

A ciência é exatamente a tentativa de explicar o mundo como se Deus não existisse. Não ter deixado isso suficientemente claro -talvez por não o ter suficientemente compreendido- é certamente um dos maiores erros cometidos pelo autor de “Deus, um Delírio”. [FOLHA 3/11/07]

teoria da evolução: verbetes

BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

Darwin, Charles Robert (1809-82). Naturalista inglês. Darwin nasceu em Shrewsbury e estudou medicina, primeiro em Edimburgo, depois em Cambridge. Suas observações como naturalista atingiram a maturidade na famosa viagem do Beagle (1831-36). Durante os vinte anos que se seguiram, Darwin consolidou sua reputação científica, enquanto usufruía de uma vida rural com interesses científicos, criando e observando animais domésticos, especialmente pombos, e trabalhando nos pormenores da teoria da evolução. Foi só em 1858, estimulado pela leitura do ensaio On the Tendency of Varities to Depart lndefinitely from the Original Type, que lhe fora enviado por Alfred Russell Wallace (1823-1913), que Darwin preparou um artigo em colaboração com Wallace para ser lido na Sociedade Lineana. Seguiu-se, em 1859, The Origin of Species by Means of Natural Selection. A obra de Darwin é a base da biologia moderna. Proporciona, por si só, uma área fecunda para os filósofos da ciência interessados, por exemplo, na relação entre a teoria e a observação ou no lugar que a *falsificação ocupa na ciência, e o mesmo pode-se dizer em relação àqueles que se interessam pela sociologia dos *paradigmas, ou pelos vários fatores que afetam o clima em que as idéias se desenvolvem. Outro foco de atenção filosófica suscitado por Darwin surge em The Expression of the Emotions in Men and Animais (1872).

darwinismo Crença na teoria da *evolução por seleção natural. Em sua forma original, essa teoria partiu de uma observação de *Malthus: embora os organismos vivos produzam uma descendência muito numerosa, o número das populações adultas permanece relativamente estável. Darwin percebeu que as diferentes possibilidades de sobrevivência de descendentes diferentemente dotados podiam explicar a evolução natural das espécies. Entre os membros de uma espécie, a natureza “seleciona” aqueles que estão mais bem adaptados ao ambiente em que se encontram, tal como os criadores de animais podem selecionar as características de seu gado, controlando desse modo a evolução para o tipo de animal que desejam. Segundo a expressão de *Spencer, a natureza garante a “sobrevivência do mais apto”. A origem das espécies foi bem-sucedida sobretudo pela organização dos dados empíricos favoráveis à teoria da evolução, e não tanto por propor um mecanismo convincente para explicar a mudança genética. O próprio Darwin continuou a procurar mecanismos adicionais, embora ainda estivesse convencido de que a seleção natural era essencial à mudança genética. Foi apenas com a descoberta posterior de que o *gene é a unidade da hereditariedade que a síntese conhecida por “neodarwinismo” se transformou na teoria ortodoxa da evolução nas ciências biológicas. Ver também criacionismo; ética evolucionista; sociobiologia.

essência (do lat., esse: ser) O elemento básico ou primário do ser de uma coisa; a natureza da coisa, ou aquilo sem o qual ela não poderia ser o que é. Uma coisa não pode perder sua essência sem deixar de existir, e a natureza essencial de uma categoria natural, tal como a água ou o ouro, é aquela propriedade sem a qual não há qualquer espécime da categoria. *Locke contrastava as essências reais, que tinham aproximadamente esse sentido, com as *definições nominais fornecidas por uma descrição das propriedades comuns de uma coisa. Ao longo de toda a filosofia grega e escolástica, e de parte da filosofia moderna, houve muitas propostas para encontrar as essências das coisas, e também idéias sobre como seria a ciência se realmente conhecêssemos tais essências. A distinção entre propriedades essenciais e acidentais é rejeitada pelas perspectivas *holistas da ciência, como a defendida por *Quine. Ver também ecceidade; essencialismo; qüididade.

essencialismo Doutrina segundo a qual se pode distinguir entre aquelas propriedades de uma coisa, ou tipo de coisa, que lhe são essenciais, e as que lhe são meramente *acidentais. As propriedades essenciais são as que uma coisa não pode perder sem deixar de existir. Assim, uma pessoa que usa um chapéu pode tirá-lo, ou poderia não ter usado chapéu, mas essa mesma pessoa não pode deixar de ocupar espaço, e não podemos postular uma situação possível na qual essa pessoa não esteja ocupando espaço. Se concordarmos com isso (note-se que não é imune à controvérsia, o que ilustra a dificuldade do essencialismo), ocupar espaço é uma propriedade essencial das pessoas, mas usar chapéu é uma propriedade acidental. O problema principal é localizar os fundamentos dessa distinção intuitiva. Uma sugestão é que essa intuição nasce unicamente da maneira como descrevemos as coisas, tendo portanto uma origem lingüística ou até mesmo *convencional. Em oposição a isso (a essência nominal), está a idéia de *Locke segundo a qual as próprias coisas têm uma natureza subjacente (uma essência real) que fundamenta e explica suas demais propriedades. “Essencialismo” é um termo usado nas obras feministas para denotar a idéia de que o sexo feminino (ou masculino) tem uma natureza essencial (e.g., criar e cuidar dos filhos versus ser agressivo e egoísta), que se opõe à noção de que as diferenças entre os sexos se devem a uma variedade de características acidentais ou contingentes que emergem de forças sociais. Ver também determinismo (biológico).

evolução Em biologia, a transformação genética de populações ao longo do tempo, resultante da variação genética e do subseqüente impacto ambienta! sobre as taxas de sucesso reprodutivo. Ver também darwinismo.

evolucionismo Doutrina desacreditada do final do século XIX, e início do século XX que associa as mudanças evolutivas a uma concepção progressiva da mudança social, a atitudes positivas perante a competição e a guerra e à justificação das desigualdades de poder. Ver também ética evolucionista; evolução.

naturalismo ético A tentativa de colocar as propriedades éticas e o pensamento ético no mundo natural. Na forma discutida e supostamente refinada por *Moore, é a concepção segundo a qual o significado de um predicado ético (“ … é bom”) é idêntico ao de um predicado que mostre os aspectos em virtude dos quais um objeto é bom (e.g., “ … é aquilo que cria felicidade”, caso nos situemos num modelo *utilitarista). Moore ataca essa concepção através do *argumento da questão em aberto. Em outras posições que se declaram naturalistas pode-se abandonar essa exigência sobre a identidade de significado, mas de qualquer modo sustenta-se que as propriedades éticas são idênticas a propriedades naturais, da mesma maneira que afirmamos que a água é H20, mesmo que os dois termos tenham um significado diferente. Num se
ntido mais amplo, o naturalismo inclui qualquer crença que sustente que a natureza do pensamento ético é exaustivamente compreendida em termos das propensões naturais dos seres humanos, excluindo assim as intuições misteriosas, as operações da consciência ou a ajuda divina.

natureza Um conceito indefinidamente mutável, que se altera à medida que muda nossa concepção científica do mundo. Compreendemos melhor o que o termo quer dizer se percebemos que assinala um contraste com algo que não é considerado como parte da natureza. O conceito se aplica a espécies individuais (faz parte da natureza do ouro ser denso, e faz parte da natureza dos cães serem amigáveis) e também ao mundo natural como um todo. O sentido em que esse conceito se aplica a categorias remete-nos imediatamente para o domínio dos ideais éticos e estéticos: uma coisa deve realizar sua natureza, o natural é o que é bom que uma coisa se torne, é natural para os homens serem saudáveis e bípedes; e um afastamento dessas características é uma infelicidade ou urna deformidade. A associação do que é natural com o que é bom que uma coisa se torne é visível em *Platão e é uma idéia central na filosofia da natureza de * Aristóteles. Infelizmente, nesse sentido, o ponto mais elevado da natureza é o cidadão adulto masculino e todo o resto a que chamaríamos mundo natural (onde se incluem as mulheres, os escravos, as crianças e as outras espécies) não fazem propriamente parte dele.

No entanto, a natureza em geral tanto pode funcionar como urna fonte de ideais como opor-se a eles: nesse sentido, contrasta-se a natureza decaída com urna suposta realização celeste das *formas. Poder-se-ia esperar que a *concepção galileana do mundo tivesse esvaziado a natureza do seu conteúdo ético, mas o termo raramente perde sua força normativa, e a crença em leis naturais universais produziu seu próprio conjunto de ideais. No século XVIII, por exemplo, um pintor ou um escritor podia ser elogiado por ser natural, e entre as qualidades a exibir contava-se a abordagem de assuntos normais (“universais”) com simplicidade, parcimônia, regularidade e harmonia. Mais tarde, a natureza transformou-se num símbolo igualmente forte de irregularidade, imprevisibilidade e fértil diversidade, mas também esteve associada ao progresso e à transformação (ver idealismo absoluto; romantismo). Entre aquilo que se contrasta com a natureza contam-se: (I) o que é deformado ou grotesco, o que não consegue atingir sua forma ou função própria, ou apenas o que estatisticamente não é comum ou familiar; (II) o sobrenatural, ou seja, o mundo dos deuses e das forças invisíveis; (III) o mundo da racionalidade e da inteligência, concebido corno algo que se distingue da ordem física e biológica; (IV) o manufaturado e artificial, ou seja, o produto da intervenção humana; (V) relacionado com isso, o mundo da *convenção e do artifício.

As diferentes concepções de natureza continuam a ter associações éticas: a idéia de “natureza cruel”, por exemplo, serve muitas vezes de desculpa para relações pessoais e políticas agressivas, e a idéia de que certas características fazem parte da natureza da mulher é tornada como justificativa para a existência de expectativas sociais diferenciadas. Aqui o termo abrange um conjunto particular de estereótipos, sendo alvo adequado de muitos textos *feministas. Ver também darwinismo; ética do meio ambiente; lei natural; Naturphilosophie; sociobiologia.

natureza humana Tópico fundamental da ética, objeto de diferentes tratamentos, sendo sua disparidade responsável pela existência de concepções da vida humana tão diferentes como a dos gregos clássicos e a do cristianismo. Uma das preocupações da filosofia do *Iluminismo era descobrir uma mesma natureza humana sob as diferenças superficiais, devidas à cultura e à sociedade. O núcleo comum haveria de conter, em grau suficiente, urna simpatia natural pelos outros, a benevolência, a percepção do egoísmo e a capacidade de aprovar instituições justas, de modo a constituir um fundamento para uma ética puramente secular. Essa esperança foi desfeita pela concepção *hegeliana dos seres humanos como algo que possui uma natureza moldada apenas pelas suas circunstâncias históricas e sociais. Contudo, essa esperança reaparece depois em um nível superior com a consideração de que temos naturezas que nos permitem fazer certos acordos políticos e sociais sob os quais evoluímos, e que nos impedem de fazer outros. Ver essencialismo; sociobiologia.

Naturphüosophie Estudo da história natural com uma orientação filosófica que se desenvolveu na Alemanha no final do século XVIII e na primeira metade do século XIX. Seus expoentes foram figuras como *Herder, *Goethe, *Schelling, *Hegel e anatomistas como Lorenz Oken (1779-1851). Esse gênero de estudos buscou em *Kant (e, como precursor, em *Aristóteles) a idéia de progresso e de *teleologia no desenvolvimento das espécies e dos animais, mas deu menos importância às tentativas de Kant para limitar as pretensões da razão humana. O resultado era uma mistura de observações botânicas e biológicas com teorias metafísicas não-convencionais, encarando a natureza como uma hierarquia de ordens que culminava na espécie humana. Ver também idealismo absoluto; romantismo.

teleologia (gr. telos, fim) O estudo dos fins ou desígnios das coisas. A idéia de que existe algo que é o fim ou finalidade da vida é proeminente na concepção aristotélica da *natureza (e da ética) e, mais tarde, na tradição cristã. A teoria da evolução pela seleção natural permite que se especule sobre a função a que as coisas particulares estão adaptadas e, assim, permite asserções sobre o desígnio que a *adaptação serve, sem que haja qualquer compromisso com a idéia de um arquiteto que tenha originado as funções para servir um desígnio e sem que se tenha a crença anticientífica de que a utilidade futura de uma característica produz de algum modo a sua existência por meio de uma espécie de *causalidade invertida. Chama-se por vezes teleonomia à teleologia que está livre dessas implicações. A teleologia de uma característica pode ter implicações metafísicas: podemos sugerir (o que é controverso) que nossa visão espacial existe para enfrentar com sucesso um mundo espacial, ao passo que a visão cromática pode não existir para enfrentar com sucesso um mundo cromático, mas antes por ser adequada à hábil localização de superfícies pelas mudanças de luz. Esta seria uma maneira de defender uma distinção entre *qualidades primárias e secundárias.