argumentos do desígnio

É racional acreditar em Deus? Muita gente supõe que a crença em Deus é uma questão de fé, não de razão. Richard Swinburne, Professor Nolloth de Filosofia da Religião Cristã na Universidade de Oxford, defende aqui que há alguns argumentos que, tomados em conjunto, fornecem de fato boas razões para supor que Deus exista.

por RICHARD SWINBURNE

As razões para acreditarmos que há um Deus existem desde que existem pessoas que sustentam essa crença; e os filósofos tentaram transformar essas razões em ‘argumentos’ com uma forma mais rigorosa desde que existem filósofos. O meu ponto de vista é o de que, quando são articulados da forma correta (i.e. de uma forma análoga à dos argumentos da ciência ou da história) e tomados em conjunto, esses argumentos constituem um caso poderoso e cumulativo a favor da existência de Deus.

Parece-me que entre os argumentos mais fortes a favor da existência de Deus estão duas formas do argumento do desígnio ― a que chamarei o argumento da ordem temporal e o argumento da ordem espacial. O argumento da ordem temporal começa por chamar a atenção para o fato de que, em todo o tempo e espaço possivelmente infinitos, os objetos materiais comportam-se da forma simples codificada pelas leis científicas.

Podemos ainda não saber o que são exatamente as leis mais fundamentais da natureza ― talvez sejam as equações de campo da Teoria da Relatividade Geral, ou talvez as leis da Teoria da Grande Unificação ou de uma teoria ainda maior a ser formulada. Dizer que essas leis governam a matéria é precisamente dizer que todo o pedaço de matéria, todo o nêutron, próton e elétron em todo o espaço e tempo infinitos comportam-se exatamente da mesma maneira (i.e. de acordo com exatamente as mesmas leis fundamentais). Isso é extraordinário!

É claro que isso não poderá ser sempre explicado cientificamente ― porque a explicação científica da operação de uma lei natural consiste em mostrar que é uma conseqüência de algumas leis ainda mais fundamentais ― explicamos a operação das leis da queda de Galileu mostrando que são uma conseqüência, para as circunstâncias particulares da Terra, das leis do movimento de Newton; e poderemos vir a ser capazes de explicar a operação das leis de Einstein pelas da Teoria da Grande Unificação. Mas o meu interesse é pela operação das leis mais fundamentais de todas. Ou a existência de tais leis é um fato bruto e inexplicável, ou tem de ser explicada por um padrão de explicação ligeiramente diferente do científico.

A segunda forma de argumento ― o argumento da ordem espacial ― chama a nossa atenção para a complexa construção das plantas, dos animais e dos seres humanos. Eles estão organizados de modo a serem capazes de apanhar a comida a que o seu aparelho digestivo está adaptado, a escapar dos predadores mais preparados para apanhá-los, a criarem-se e a reproduzirem-se ― eles são como máquinas muito complicadas. Ora, como é óbvio, há uma explicação bem conhecida de tudo isto em termos de evolução por Seleção Natural. Há muito tempo, diz a história, existiram organismos muito simples, e eles tiveram descendentes que diferiram dos progenitores de várias formas (alguns sendo maiores, outros menores, alguns mais simples e alguns mais complexos do que os seus progenitores). Os mais bem adaptados à sobrevivência (e muitas vezes a complexidade de organização fornece uma vantagem seletiva) fizeram-no e por sua vez produziram descendentes com características que diferem ligeiramente das suas em direções aleatórias; e foi assim que as plantas, os animais e os seres humanos complexos evoluíram. Esta história é decerto basicamente correta. Mas por que é que começaram a existir organismos simples? Presumivelmente porque a matéria-energia na altura do ‘Big Bang’, quando o Universo (ou de alguma forma o seu estado actual) começou há 15 biliões de anos, tinha precisamente a quantidade, densidade e velocidade inicial para conduzir com o tempo à evolução de organismos. E por que há no Universo leis da evolução? Isto é, leis que provocam a mutação aleatória dos genes dos animais, que levam a que os animais produzam muitos descendentes etc.? Presumivelmente porque essas leis derivam de leis fundamentais da natureza. Apenas um determinado tipo de disposição crítica da matéria e determinados gêneros de leis da natureza darão origem a tais organismos. Recente trabalho científico sobre a ‘afinação’ do Universo mostrou que a matéria inicial e as leis da natureza tiveram de ter de fato características muito, muito especiais para que os organismos pudessem evoluir. Por exemplo, o Big Bang teve de ser exatamente do tamanho certo ― se tivesse sido ligeiramente maior, os quanta de energia ter-se-iam afastado uns dos outros demasiado depressa para que a matéria se pudesse condensar nas galáxias, estrelas e planetas e assim permitir que os organismos evoluam. Se o Big Bang tivesse sido ligeiramente menor, o Universo teria colapsado antes de ser suficientemente frio para que a química dos elementos se formasse e assim permitir que os organismos evoluam. Se as leis da natureza tivessem a forma atual, mas as constantes físicas que entram nelas tivessem valores ligeiramente diferentes dos atuais (ou se elas tivessem tido uma das muitas outras formas diferentes), também não teria havido evolução. É, assim, extraordinário que as condições iniciais e as leis estivessem tão ‘afinadas’ que permitissem a produção das plantas, dos animais e dos seres humanos! Uma vez mais, isso não só não é, como, devido à própria natureza da ciência, nunca poderá ser explicável cientificamente. A ciência não poderá explicar por que razão as leis básicas da natureza são como são, nem por que na altura do Big Bang (ou perpetuamente, se não houve começo) tinham as características que tinham. Tudo isso é de onde a ciência começa, o que explica outras coisas em termos de. Daí que, uma vez mais, ou esses são fatos brutos e inexplicáveis, ou têm de ser explicados por um padrão de explicação ligeiramente diferente do científico.

Felizmente existe um padrão destes que usamos constantemente na explicação dos fenómenos mundanos. Chamo-lhe explicação pessoal. Quando explicamos o fato de o livro estar na mesa, ou das palavras destas frases estarem no meu papel, explicamo-los em termos da ação de uma pessoa com capacidades para mudar as coisas e um propósito que procura assim realizar. As palavras que estão no papel têm de ser explicadas como causadas por uma pessoa (eu) com uma capacidade de mover o meu corpo de certos modos (i.e. escrever), e um propósito (ter um artigo para mandar ao editor). As explicações científicas postulam com frequência inobserváveis (e.g. prótons e elétrons) para explicar os dados observáveis; e os fundamentos para a suposição que fazem é que a hipótese explicativa é simples e leva-nos a esperar com alguma probabilidade os dados que de outra forma não esperaríamos. As explicações pessoais em termos de pessoas inobserváveis têm de ser aceites por razões análogas. A simplicidade de uma hipótese consiste em postular poucas entidades com poucas propriedades simples.

Os dados inexplicáveis pela ciência para os quais chamei a atenção ― o comportamento uniforme dos objetos de acordo com as leis da natureza, e o carácter especial dessas leis e das condições iniciais (ou limite) do Universo ― são facilmente explicáveis em termos de um Deus, onipotente (todo-poderoso), onisciente (conhece tudo) e perfeitamente livre. Está em atividade constante, movendo as estrelas e os átomos de forma regular (tal como podemos mover os nossos corpos de forma regular nos padrões de uma dança), e de modo a que, em conjunto com a matéria primeva que ele fez, dar origem aos animais e aos seres humanos. Sendo onipotente, pode fazer isso. Sendo onisciente, verá uma boa razão para fazê-lo. Um mundo que evolui regularmente é bonito, e os seres humanos que surgirão podem eventualmente aprender como funciona, o que só poderão fazer se houver leis da natureza simples, que entendam e possam depois até certo ponto escolher como modelar o mundo para o bem ou para o mal. É bom que existam seres humanos desempenhando um papel no processo de criação. Deus, sendo perfeitamente livre, não será impedido por forças irracionais de criar o que percebe ser bom.

Diz-se às vezes que sendo as leis da natureza como são, e sendo as condições iniciais como são no nosso Universo, este seria explicado se existisse um trilhão de outros universos com leis e condições iniciais diferentes. Seria então muito provável que existisse um universo em que esses fatores fossem exatamente os corretos para a evolução dos animais e dos seres humanos. Mas seria o cúmulo da irracionalidade postular um trilhão de universos (por oposição a um Deus) a fim de explicar o nosso Universo, a menos que existam características particulares do nosso Universo que sejam mais bem explicadas por uma super-teoria que tenha como consequência o trilhão de universos. Mas mesmo uma tal super-teoria teria de postular condições-limite muito especiais para o super-Universo de universos e super-leis da natureza muito especiais, que tivessem como consequência a evolução de uma variedade tal de universos que tornasse muito provável que pelo menos num houvesse a evolução da vida. A maior parte das super-teorias (para além de serem muito complicadas) não terão essa consequência. Assim temos o problema de saber precisamente porque o super-Universo tinha as leis da natureza e as condições-limite que tinha. E assim uma vez mais, quer se trate de um universo ou de um super-universo, ou a sua ordem e o seu carácter ‘afinado’ são fatos brutos e inexplicáveis ou têm de ser explicados por um padrão de explicação ligeiramente diferente do científico.

A hipótese do teísmo é uma hipótese muito simples. Postula um ser pessoal, não muitos. As pessoas são seres com poderes para mudar o mundo, conhecimento de como fazê-lo, e algum grau de liberdade na forma de fazê-lo. Deus é postulado como um género muito simples de pessoa ― tendo graus infinitos de poder, conhecimento e liberdade; ou, pondo negativamente, limite zero ao seu poder, conhecimento e liberdade. Os cientistas postulam sempre graus infinitos (ou zero) de propriedades como a hipótese mais simples, se o podem fazer consistentemente com os dados. Postulam que os fotons têm massa em repouso zero, em vez de alguma massa em repouso muito, muito pequena que iria predizer os dados igualmente bem; e costumavam postular que a força da gravidade tinha velocidade infinita até que outras considerações os obrigaram a aceitar uma hipótese diferente. Postular Deus é postular um ser de um gênero muito simples, e essa hipótese faz com que não seja improvável que encontremos os dados para os quais chamamos a atenção.

Supor que os dados são apenas fatos brutos e inexplicáveis parece, contudo, altamente irracional. Supor simplesmente que é uma grande coincidência que cada pedaço de matéria por todo o Universo se comporte exatamente da mesma forma é terrivelmente irracional ― e ainda mais quando há uma hipótese rival simples que nos leva a esperar esses dados, assim como que o mundo esteja afinado para produzir os animais e os seres humanos. A razão conduz-nos inevitavelmente da Natureza para a Natureza de Deus. [Richard Swinburne, in Think, Spring 2002, pp. 49-54. Tradução de Álvaro Nunes. Uma versão anterior deste artigo foi publicada previamente no Times Higher Education Supplement. Para uma discussão mais completa, veja-se Richard Swinburne, Será que Deus existe? (Lisboa, Gradiva, 1998).]