Amor e ódio musicais

Aos sábados, às 20h, a Rádio Cultura FM (103,3) apresenta o programa Super8. Com comentários de Alexandre Ingrevallo e produção de Isabela Pulfer, podemos ouvir as grandes trilhas sonoras do cinema. A música de Wagner, Strauss, Verdi, Brahms nas obras de mestres da sétima arte como Francis Ford Copolla, Federico Fellini e Andrei Tarkovski.

Ontem, 15-2, Ingrevallo comentou nada menos que Morte em Veneza (Morte a Venezia, no original em italiano, e Mort à Venise, em francês), um drama ítalo-francês de 1971, dirigido por Luchino Visconti e com roteiro baseado no livro homônimo de Thomas Mann –quer dizer: um dos maiores cineastas de todos os tempos filmando um dos maiores escritores de todos os tempos.

A trilha não deixa por menos. Por sugestão do próprio Mann, Visconti sincroniza com a belíssima fotografia a música de Gustav Mahler –um dos maiores músicos de todos os tempos.

Mas agora eu queria falar não exatamente do filme nem da trilha, mas de outra coisa… De uma curiosidade minha. Trata-se da relação entre os compositores alemão Richard Wagner (1813-1883) e austríaco Gustav Mahler (1860-1911).

Conheci um wagneriano que odiava Mahler. Conheci um mahleriano que odiava Wagner. E conheci um wagneriano que, quando conheceu Mahler, passou a amá-lo tanto quanto a Wagner. (Conheci também quem, por vezes, se sentisse mal quando ouvia Wagner…) Talvez isso nada signifique… Mas me deixa curioso: o que uniria e o que afastaria as obras desses dois grandes compositores?

Bem, como não sou músico nem estudioso do assunto, adentro-me agora numa área quase totalmente desconhecida. Ainda assim gostaria de observar três coisas. Primeira, que o próprio Mahler se notabilizou como intérprete (regente) de óperas de Mozart e Wagner. E segunda, que ele mesmo declarou ser Wagner o único compositor, depois de Beethoven, que realmente desenvolvia suas músicas (forma-sonata).

Sendo assim, aquele mahleriano que detesta Wagner deve assumir que seus sentimentos estão em contradição com a posição assumida pelo próprio compositor austríaco. Enquanto o wagneriano que detesta Mahler aceitaria a situação de bom grado…

A terceira observação é que, para a minha sensibilidade, a música de Mahler parece ter mesmo certa similaridade, ou melhor, afinidade com a de Wagner. Então, qual seria a diferença, o que faria com que os respectivos adeptos pudessem odiar a obra do outro? Na minha opinião, lembrando o caso daquele que, às vezes, passa mal quando ouve Wagner, a diferença está no pathos wagneriano. A música de Mahler é como se fosse a música de Wagner sem a hybris própria do criador da obra de arte total (Gesamtkunstwerk).

Outra explicação, ou melhor, outra compreensão possível talvez tivesse algo que ver com a relação entre o belo e o sublime. Mas isso já seria outra história.