Introdução a Fichte [17]

Substância e Ereignis

por EDSON DOGNALDO GIL

Além de Descartes, Kant e Reinhold (e Maimon), outro filósofo citado no texto da Grundlage e que também teve grande importância no desenvolvimento de Fichte é Espinosa. Antes de tudo, em virtude do conceito espinosiano da causa sui. Mas aqui nos interessa outro conceito de Espinosa, a saber, o da substância. Em seguida, então, uma breve nota acerca da concepção analítica – antecipada por Fichte – de um eu não substancial.

Espinosa
Vimos por que o eu, querendo ele obter uma representação objetiva de si mesmo – um “substrato, o qual é, mesmo sem consciência real, e além disso é pensado corporalmente”[1] -, teria de vir a ser posto fora de si [außer sich versetzt werden müßte]. Esse é, na apresentação fichteana, o ponto de partida de Espinosa, pois é “verdade que, para ele [Espinosa], o eu é para o eu – eu, mas ele pergunta: que tipo de coisa seria [existiria] fora do eu”[2].

O eu, segundo esse modo de pensar, não seria “porque é; mas porque algo outro é”[3]. Esse ser-outro seria ser-eu [Ich-Sein] em substancial pureza, portanto sem a auto-referência reflexiva da consciência empírica. Encontrar-se-ia, desse modo, em um campo “sobre o qual a razão não mais poderia [seria capaz de] segui-lo”[4], motivo pelo qual sua existência seria de fato incontestável, em compensação, porém, “sem fundamento”[5].

Mas como o sistema espinosiano não consegue responder “nem ao menos como essa idéia deveria ter-nos ocorrido”[6], Fichte conclui, então, que, afinal de contas, com a substância se trata, “de fato, meramente de um ideal proposto mas jamais atingível”[7], ideal esse que permanece tão inalcançável quanto intenciona eliminar a auto-referência [reflexão, torção] transcendental do eu. De fato, Fichte interpreta[8] a “suprema unidade” de Espinosa, do Deus sive natura, como um “ideal” que, no sentido da Wissenschaftslehre, não “é” desde sempre, pronta e acabada, mas antes teria de vir a ser “produzida” [hervorgebracht] – e, aliás, por nós mesmos.

O contraste entre os dois sistemas, o espinosiano e o idealista – designado por Fichte como [o sistema] “crítico” – prepara o princípio da diferença[9], sobre o qual vem a ser visível os limites da substância bem como os do eu. Este se define em relação à substância na questão como um ente finito pode, em geral, pensar um ente infinito. Complementarmente a isso caberia provar, em relação ao eu fichteano, em que medida um sujeito absoluto pode ser ainda egóico, da natureza de um eu. Também aqui a mediação entre finitude e infinitude depara com um limite. É esse o dilema da necessária síntese suprema que “deve vir a ser produzida por nós, mas não [o] pode[10] – ou, quando muito, “por meio de uma finita [finalizada] aproximação ao infinito”[11] – e, por isso, permanece referido ao âmbito da filosofia prática. Vale aqui, pois, o que Fichte censura em Espinosa: “que ele [Espinosa] crê inferir a partir de razões teóricas, onde [quando] ele apenas [na verdade] foi movido por uma necessidade prática”[12].

[Mais um parêntese para algumas palavras sobre a tese de um dos maiores especialisas em Fichte. Philonenko [13] defende (contra Hegel) a tese segundo a qual Fichte não partiria de um eu absoluto (primeiro princípio da Grundlage), acessível por meio de intuição intelectual, mas sim de um eu absoluto enquanto ilusão transcendental no sentido dos paralogismos transcendentais de Kant [14]. Nesse sentido, o eu absoluto do primeiro parágrafo não passaria de um (ainda que necessário) construto do filósofo.]

Nota sobre Ontologia Analítica
Como vimos, enquanto Descartes concebe o eu consciente ainda segundo as categorias da ontologia tradicional, como sujeito portador (substância) de predicados mentais (acidentes), Fichte, antecipando ontologias contemporâneas[15], compreende o Eu como uma espécie de processo [Ereignis]. No entanto, há uma grande diferença entre as ontologias fichteana e as ditas analíticas, diferença essa que explica também porque estas últimas recusam o conceito idealista de um eu.

Segundo a visão dessas ontologias contemporâneas, o suposto sujeito dissolve-se numa seqüência de fases temporais, as quais, em vez de o produzirem, simplesmente lhe sobrevêm, acontecem. E, por isso, não têm de ser necessária e internamente conexas.

Para Fichte, contrariamente, o Eu não é um acontecimento qualquer, arbitrário, mas um processo todo especial: o Eu ocorre na atividade espontânea, na qual ele se constitui a si mesmo como consciência. Esse processo de autoconstituição é ainda mais especial à medida que não consiste num evento temporal e, portanto, empiricamente verificável, mas antes na condição transcendental de possibilidade de toda empiria.

Fichte, portanto, não concebe o Eu como uma substância relativamente duradoura e estável, que, como a res cogitans de Descartes, seria a portadora de estados tais como o saber. O Eu fichteano realiza-se ou ocorre como atividade de constituição do saber, na qual o próprio Eu se põe como sapiente. Por isso, do ponto de vista de Fichte, não há diferença entre procurar por propriedades do Eu ou do saber.


[1]Substrat, welches ist, auch ohne wirkliches Bewußtsein, und noch dazu körperlich gedacht wird” [ib.].

[2]Das Ich ist für ihn [Spinoza] zwar für das Ich – Ich, aber er fragt: was es für etwas außer dem Ich sein würde” [ib.].

[3]weil es ist; sondern weil etwas anderes ist” [ib.].

[4]auf welches die Vernunft ihm nicht weiter folgen [könnte]” [ib.].

[5]grundlos” [ib.].

[6]Wie doch wenigstens die Idee davon in uns gekommen sein möge” [ib.].

[7] “[Substanz] doch bloß ein vorgestecktes, aber nie zu erreichendes Ideal“, ou seja, tal como o Absoluto ou o Eu absoluto, também a substância é para Fichte uma espécie de idéia reguladora kantiana, ou um tipo ideal weberiano.

[8] Seria interessante pesquisar qual influência teve essa interpretação fichteana sobre a recepção do pensamento de Espinosa pelos demais idealistas alemães.

[9]Grund von Gegenteil“: Rilke, 4a. elegia, fundo de oposição [Dora], f. de contrate [Carneiro Leão].

[10]durch uns hervorgebracht werden soll, aber nicht kann” [ib.].

[11]durch eine geendete Annäherung zum Unendlichen” [ib.].

[12]daß er aus theoretischen Vernunftgründen zu schließen glaubte, wo er bloß durch ein praktisches Bedürfnis getrieben wurde” [ib.].

[13] Cf. PHILONENKO [1973a,b]; cf. também WILDENBURG [2003].

[14] Cf. CRPu A341/B 399. Segundo Kant, paralogismo lógico é aquele que “consiste na falsidade de um raciocínio quanto à forma, seja qual for o seu conteúdo”, enquanto o paralogismo transcendental é aquele que “tem fundamento transcendental, induzindo-nos a estabelecer uma conclusão formalmente inválida”.

[15] Cf. RUNGGALDIER [1998].

o filósofo do corpo

Sai em edição bilíngüe nova tradução do clássico “Ética”, de Espinosa, que resgatou o papel da matéria para o pensamento do século 17

por VLADIMIR SAFATLE

A história da filosofia desconhece a linha reta. Seu tempo não é aquele das sucessões lineares, em que a passagem de um sistema filosófico a outro aparece como um progresso inexorável. O tempo da filosofia é aquele em que o presente não é outra coisa que não uma versão mais contraída do passado. Presente como campo de forças no qual vários passados entram em confronto e relação.

Isso talvez explique a plasticidade que faz com que certos autores clássicos ganhem atualidade inesperada em vários momentos da história. Pegue-se, por exemplo, o caso de Espinosa [1632-1677].

Conhecemos dois grandes momentos de recuperação do espinosismo. O primeiro ocorreu no idealismo e romantismo alemães, onde o monismo do filósofo holandês aparecia como uma via possível para a constituição de uma crítica às dicotomias produzidas pelo entendimento kantiano.
O segundo ocorreu no pensamento francês contemporâneo (em especial por meio de nomes como Deleuze e Althusser). Nesse caso, a recuperação de um espinosismo mediado muitas vezes por Nietzsche aparecia, sobretudo, como forma de anular o peso do hegelianismo que havia marcado o pensamento francês até os anos 1950.

Sentimos até hoje os efeitos dessa segunda recuperação do espinosismo. Noções fortemente presentes no debate contemporâneo das idéias, como imanência (utilizada no campo da política, por exemplo, pelo italiano Antonio Negri), recuperação da centralidade do corpo no interior da reflexão filosófica, esgotamento da filosofia do sujeito devem muito a uma certa recuperação do espinosismo.

De qualquer modo, é notável como a contemporaneidade inverteu uma equação quase constante durante toda a filosofia moderna e que colocava Espinosa como a pior figura regressiva da filosofia, como uma espécie de fantasma paradigmático do irracionalismo.

Hegel, que fora acusado de espinosismo, definia o pensamento do filósofo holandês como “eco do pensamento oriental”. Ele expunha claramente a maneira com que a filosofia de Espinosa aparecia fora de uma certa noção de Ocidente fundamental para a constituição da modernidade.
Essa noção depende, sobretudo, da laicização de categorias teológicas, da constituição de uma metafísica elaborada por meio das dicotomias instauradas por um pensamento judaico-cristão. No entanto, se atualmente Espinosa aparece como um contemporâneo, talvez seja porque o pensamento ocidental aprendeu a desconfiar de si mesmo.

É nesse contexto que chegam às livrarias uma nova tradução da “Ética” assim como o curioso “A Vida e o Espírito de Baruch de Espinosa”, composto por uma biografia provavelmente escrita por um discípulo de Espinosa, em 1678, e pelo “Tratado dos Três Impostores”, panfleto anônimo anticlerical contra Moisés, Jesus e Maomé profundamente marcado por um certo espinosismo que animava meios ateus nos séculos 17 e 18.

A edição desse segundo volume não deixa de ter sua ironia em um tempo, como o de hoje, que assiste ao retorno do fundamentalismo cristão travestido de crítica da modernidade. A nova tradução da “Ética” é um empreendimento editorial louvável. Anteriormente, o Brasil dispunha de duas traduções: uma feita por Joaquim de Carvalho, Joaquim Ferreira Gomes e Antonio Simões e outra, mais antiga, levada a cabo por Lívio Xavier. No entanto nenhuma delas continha aparato crítico e o texto original em latim.

Além disso, salta aos olhos um cuidado de tradução que foi capaz de aliar precisão conceitual e recusa em abandonar o solo das potencialidades coloquiais da língua portuguesa, além da generosidade em não abarrotar o texto com notas de edição que procuram dirigir a interpretação.

Graças a isso, temos enfim nas livrarias brasileiras uma edição à altura de um dos livros maiores da história da filosofia.

Que esse cuidado imponha, entre nós, um novo parâmetro na tradução de textos clássicos. Muito haveria a dizer a respeito da originalidade de “Ética”, com sua ordem geométrica e seu estilo translúcido próprio à grande tradição racionalista do século 17.

Partindo da constituição de uma ontologia monista assentada na defesa da univocidade do ser, “Ética” pode apresentar Deus como substância de todas as coisas, como o ser uno que se expressa na multiplicidade de todos os entes.

Ele é causa imanente do que há. O que valeu à filosofia de Espinosa a acusação reiterada de panteísmo, que rebaixaria Deus à condição de natureza que se expressa sem a necessidade de se pôr como transcendência.

Essa ontologia fornece o fundamento tanto para uma teoria complexa do conhecimento quanto para uma reflexão sobre os modos de determinação e orientação da conduta.

Ou seja, para uma ética que, por partir de uma perspectiva monista, não precisa basear-se em dicotomias entre vontade livre e desejo patológico, mente autônoma e corpo preso à heteronomia da natureza, entre outros. Dicotomias que marcarão estruturas gerais da reflexão moderna sobre a ética.

Dessa forma, Espinosa fornecia vias possíveis para a reconstrução profunda de questões maiores da filosofia. Uma reconstrução a respeito da qual medimos as conseqüências até hoje.

ÉTICA
Autor: Espinosa
Tradução: Tomaz Tadeu
Editora: Autêntica (tel. 0800-2831-322)
Quanto: R$ 68 (424 págs.)

A VIDA E O ESPÍRITO DE BARUCH DE ESPINOSA/ TRATADO DOS TRÊS IMPOSTORES
Tradução: Éclair Antonio Almeida Filho
Editora: Martins Fontes (tel. 0/xx/ 11/ 3241-3677)
Quanto: R$ 29,90 (200 págs.)
[FOLHA 7/10/07]

beabá de spinoza

Substância – Conceito crucial da “Ética”, é definido como aquilo que é em si e por si concebido, isto é, aquilo cujo conceito não carece do conceito de outra coisa para se formar. É um ser que existe em si e por si mesmo. Há uma única substância, “Deus ou a Natureza”. O deus de Espinosa deixa, portanto, de ser, como na tradição teológica, uma causa transcendente, mas sim imanente, a suas criaturas, as quais são modificações da substância, ou modos dos atributos infinitos dela.

Modos – São as afecções da substância, isto é, aquilo que está noutra coisa pela qual também é percebido. Diferentemente do ser que é em si (substância), o modo é o ser que é em outra coisa.

Atributo – “O que o intelecto percebe da substância como constituindo a essência dela”; determinação de uma propriedade essencial da substância.

Paixões – São as afecções quando ligadas a idéias inadequadas e quando provêm de causas externas; são o oposto das ações, as quais se ligam com idéias adequadas e implicam a liberdade, ou seja, a posse pelo homem de sua potência de agir. A alegria é a paixão pela qual a alma passa a uma perfeição maior, e a tristeza, a paixão pela qual a alma passa a uma potência menor. Graças ao princípio conhecido como paralelismo, Espinosa afirma que tanto as ações quanto as paixões são simultaneamente do corpo e da alma. [FOLHA 7/10/07]