educação como conversão da alma


Platão. A República. 2. ed. São Paulo: Difel, 1973, p. 109-11.

Trata-se de um trecho do Livro VII de A República, que vem logo após o relato do “mito” da caverna. No diálogo, as falas na primeira pessoa são de Sócrates e de seus interlocutores, Glauco e Adimanto, irmãos mais novos de Platão. O texto transcrito.

— Agora, meu caro Glauco — continuei — cumpre aplicar ponto por ponto essa imagem ao que dissemos mais acima, comparar o mundo que a vista nos revela à morada da prisão e a luz do fogo que a ilumina ao poder do Sol. No que se refere à subida à região superior e à contemplação de seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma ao lugar inteligível, não te enganarás sobre o meu pensamento, uma vez que também desejas conhecê-lo. Deus sabe se ele é verdadeiro. Quanto a mim, tal é minha opinião: no mundo inteligível, a idéia do bem é percebida por último e a custo, mas não se pode percebê-la sem concluir que é a causa de tudo quanto há de direito e belo em todas as coisas; que ela engendrou, no mundo visível, a luz e o soberano da luz; que, no mundo inteligível, ela própria é soberana e dispensa a verdade e a inteligência, e que é preciso vê-la para conduzir-se com sabedoria na vida particular e na vida pública.

— Partilho de tua opinião — replicou – à medida que posso.

— Pois bem!, compartilha-a também neste ponto, e não te espantes com o fato de aqueles que são alçados a estas alturas não mais quererem ocupar-se dos negócios humanos e suas almas aspirarem incessantemente a permanecer no alto. Isto é muito natural se nossa alegoria for exata.

— Com efeito, é muito natural — disse ele.

— Mas então?, pensas ser espantoso que um homem, que passa das contemplações divinas às miseráveis coisas humanas, tenha falta de graça e pareça inteiramente ridículo, quando, ainda com a vista perturbada e insuficientemente acostumado às trevas circundantes, é forçado a entrar em disputa, diante dos tribunais ou alhures, acerca das sombras de justiça ou das imagens que projetam estas sombras, e combater as interpretações que delas fornecem os que nunca viram a própria justiça?

— Não há nada de espantoso nisso.

— Com efeito — prossegui — um homem sensato recordar-se-á que os olhos podem perturbar-se de duas maneiras e por duas causas opostas: pela passagem da luz à obscuridade e pela passagem da obscuridade à luz; e, tendo refletido que sucede o mesmo com a alma, quando avistar uma, perturbada e impedida de discernir certos objetos, não rirá tolamente, porém examinará antes se, proveniente de uma vida mais luminosa, ela está, por falta de hábito, ofuscada pelas trevas, ou se, passando da ignorância à luz, está cega pelo brilho demasiado vivo; no primeiro caso, julgá-la-á feliz, em razão do que ela experimenta e da vida que leva; no segundo, há de lastimá-la, e se quisesse rir à custa dela, suas troças seriam menos ridículas do que se incidissem sobre a alma que volta da morada da luz.

— Isto que é falar — disse ele — com muita sabedoria.

— Devemos, pois, se tudo isto for verdade, concluir o seguinte: a educação não é de nenhum modo o que alguns proclamam que ela seja; pois pretendem introduzi-la na alma, onde ela não está, como alguém que desse a visão a olhos cegos.

— É o que pretendem, com efeito.

— Ora – reatei — o presente discurso mostra que cada um possui a faculdade de aprender e o órgão destinado a este uso, e que, semelhante a olhos que só pudessem voltar-se com o corpo inteiro das trevas para a luz, este órgão também deve desviar-se com a alma toda daquilo que nasce, até que se torne capaz de suportar a visão do ser e do que há de mais luminoso no ser; e é isso que nós chamamos o bem, não é?

–Sim.

— A educação é, portanto, a arte que se propõe este fim, a conversão da alma, e que procura os meios mais fáceis e mais eficazes de operá-la; ela não consiste em dar a vista ao órgão da alma, pois que este já o possui; mas como ele está mal disposto e não olha para onde deveria, a educação se esforça por levá-lo à boa direção.

— Assim parece — disse ele.

ceticismo

A filosofia como investigação

por WALDOMIRO JOSÉ DA SILVA FILHO

Todos sabem que o cético duvida de tudo. E todos sabem que duvidar de tudo não tem sentido: as idéias céticas podem ser sedutoras, mas dizer que não sabemos nada, que não temos certeza de nada é algo exagerado, absurdo e auto-refutável. O ceticismo, usualmente, é tido como algo negativo, enquanto, na filosofia, freqüentemente é descrito como uma posição que deve ser desafiada, enfrentada e vencida.

Essa atitude negativa que se atribui ao filósofo cético, porém, não é mais que um aspecto incidental e parcial do ceticismo. Na verdade, tal dúvida universal é inventada por filósofos modernos. Por isso, muitos autores que lidam com a questão cética são responsáveis pela difusão de uma imagem do ceticismo que não faz plena justiça à tradição intelectual que lhe deu origem. Oswaldo Porchat, um dos mais importantes filósofos brasileiros, já disse que a filosofia moderna e contemporânea costuma recorrer a “caricatas figurações” da filosofia cética: “cada filósofo fabrica seu inimigo cético particular e atribui-lhe esdrúxulas doutrinas ad hoc forjadas de modo que melhor sejam refutadas”.

Quando nos defrontamos diretamente com os escritos e as idéias dos céticos, em especial dos céticos gregos antigos que sobreviveram ao tempo, encontramos uma imagem surpreendentemente rica e interessante do ceticismo, bem como uma maneira peculiar de questionar as doutrinas filosóficas. Há, assim, uma diferença crucial entre o cético moderno e o cético antigo. O primeiro lança uma dúvida radical sobre todos os domínios do conhecimento. Lembremo-nos, por exemplo, dos cenários onde são traçados os argumentos do sonho e do gênio maligno nas Meditações de Descartes: tenho o pensamento de que estou aqui, neste momento, sentado nesta cadeira, segurando uma folha de papel, mas posso estar sonhando ou sendo enganado por um deus poderoso. Por essa razão, uma questão central da epistemologia moderna é a seguinte: já que um pensamento que eu tomo como verdadeiro pode ser falso ou ilusório, o que deve ocorrer a um pensamento para lhe conferir a qualidade de conhecimento? O cético antigo, por sua vez, não supõe que todas as nossas crenças são ou podem ser simultaneamente falsas. A postura dubitativa do cético é ainda mais radical, pois a sua questão cética central não seria “é possível conhecer?” ou “como conhecemos?”, mas a pergunta mais fundamental: “temos alguma razão para acreditar?”

Pirro – que, como Sócrates, nada escreveu – é reconhecidamente o precursor de uma atitude intelectual que tempos depois da sua morte fora chamada de sképsis: o termo significa, ao pé da letra, “observação”, “investigação”, “exame”. Aqueles que se filiavam às idéias de Pirro se designaram como skeptikoí, “aqueles que examinam”, “os que investigam”. Enquanto os outros filósofos (os dogmáticos) pensam ter descoberto a verdade ou sabem que a verdade não existe, o cético persiste na investigação da verdade. Diferente das “caricatas figurações”, este leva às últimas conseqüências o ideal da filosofia como uma investigação racional por meio de uma argumentação rigorosa e imparcial. Aplicando vários procedimentos chamados tropos ou modos, argumenta que nenhuma das nossas crenças está plenamente justificada, imune à crítica e numa posição melhor que as posições contrárias.

Quando critica as filosofias que chama de dogmáticas, não o faz por soberba. Sexto Empírico, nas Hipotiposes pirrônicas, nossa principal fonte para o ceticismo antigo, diz o seguinte: “O cético, por amar a humanidade, quer curar pelo discurso, na medida de suas forças, a presunção e a precipitação dos dogmáticos”. Além disso, o cético não pode evitar a estranheza diante da absoluta falta de acordo entre os filósofos: há um conflito insuperável dos dogmatismos, uma perpétua diaphonía, já que os filósofos não se põem de acordo sobre nada, nem mesmo sobre o objeto, a natureza ou o método da filosofia. O cético, assim, não afirma, a respeito de qualquer doutrina filosófica, que esta é verdadeira ou falsa, nem que um conceito está mais próximo ou mais distante da realidade. Ele apenas perscruta as filosofias, examina cautelosamente cada um dos seus argumentos e mostra suas falhas, incoerências e contradições.

Posto que não imaginar uma posição humana que garanta como as coisas realmente são, ele só pode conceber como parecem ou como são percebidas num lugar, num tempo e em certas circunstâncias. Para o cético, um “fenômeno” ou “aparência” é qualquer coisa que se imponha à sua sensibilidade e ao seu intelecto – e isso diz respeito tanto à experiência sensória e aos objetos físicos, como a questões científicas, éticas ou políticas. O cético não diria que “O mel é doce” ou “Não se deve roubar”, mas “parece-me que o mel é doce”, “parece-me que não se deve roubar”. Dada a condição humana, não está em questão o acordo ou desacordo de nossas representações com o mundo, pois não seria possível saltar do círculo do que nos parece para o círculo do que é em si. Em vista disso, o pirrônico é levado a suspender o juízo sobre a realidade. No fundo, não temos razões mais fortes para acreditar numa doutrina sobre a natureza das coisas que para não acreditar nessa doutrina. Ao não dar seu assentimento a uma doutrina qualquer, nem à doutrina que lhe é contrária, o cético suspende seu juízo. O estado mental que a suspensão do juízo pode levar é a ataraxia, a tranqüilidade, quando então o cético não mais se preocuparia com questões que estejam além do fenômeno e do que lhe aparece.

A filosofia pirrônica é uma filosofia com inegável dimensão prática, que deve ser vivida, não constituindo um simples exercício acadêmico. Suspendendo o juízo sobre todo conhecimento do absoluto, procura o que é útil e benéfico para os homens. Ele substitui a metafísica pelo saber da experiência: “Não temos mais uma realidade a conhecer – demos, na prática, nosso adeus a esse mito -, o que temos é um mundo experienciado com o qual precisamos lidar: diante dele e de seus desafios, não temos como permanecer inativos.”

O traço característico da filosofia praticada pelo cético não é postular um conjunto preciso de teses (sejam positivas ou negativas), mas o cultivo de uma atitude crítica diante da pretensão dogmática de ter descoberto a verdade – o que torna o ceticismo “uma forma atual de filosofar” . O cético estuda filosofia com o intuito de descobrir a verdade sobre as coisas; ele é levado a filosofar, porque percebe uma série de problemas teóricos que se revelam nas contradições entre os discursos que pretendem descrever a natureza das coisas. Mas o ceticismo é algo como um purgante que elimina tudo, inclusive a si mesmo. Por isso, o cético pratica a-dogmaticamente (adoxástos) a observância não-filosófica da vida comum, seguindo suas inclinações naturais e o que lhe aparece. O cético faz-se um estudioso da filosofia dogmática para, logo depois, como aquela famosa imagem da escada, lançá-la fora e viver sem dogmatismos.

NOTAS
1 A tradição cética se inicia com Pirro de Elis (que viveu no século 4 antes de Cristo e integrou a famosa expedição de Alexandre, o grande, à Índia), passando principalmente por filósofos como Timão, Carnéades, Arcésilas, Enesidemo até chegar a Sexto Empírico que supõe-se ter vivido no século 2 da era cristã.
2 Cf. J. Annas e J. Barnes, The modes of scepticism: Ancient texts and modern interpretations (Cambridge: Cambridge University Press, 1
985).
3 O. Porchat, “A Autocrítica da Razão no Mundo Antigo”, in: W. Silva Filho (org.), O ceticismo e a possibilidade da filosofia (Ijuí: Editora Unijuí, 2005), p. 42.
4 P. Smith, Ceticismo (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004). [Revista Cult 116]