Sentido do ser

Retomando a questão da filosofia do ser de inspiração aristotélico-tomista, gostaria de desenvolver um ponto em que apenas toquei no post anterior.
O ser, para a filosofia do ser, não consiste num conceito ou numa categoria. Tampouco na essência abstraída da coisa mesma por meio do pensamento conceitual. O ser é ato, plenitude. Isso significa que o ser não é vazio de sentido, mas, ao contrário, pleno de sentido. O ser é sensato.
Isso talvez parece óbvio, mas não é. Para Hegel, p. ex., o ser é, em primeiro lugar, uma categoria. A primeira categoria da primeira tríade do primeiro momento da Lógica, que também se chama ser. Essa primeira categoria é a mais abrangente de todas, mas, ipso facto, a mais vazia de conteúdo. Ou seja, a categoria mais vazia de sentido.
Aproveito a ocasião para propor uma questão aos hegelistas e hegelianos:
QUESTÃO 1. Como é possível que a categoria mais vazia de sentido, mais insensata, seja, ao mesmo, a origem de toda a lógica e de todo o sistema, passando pela natureza até o espírito absoluto?
Voltando ao ser sensato de Tomás, pensemos p. ex. numa simples árvore. Os modernos temos a tendência de considerá-la, como a qualquer coisa, como algo que simplesmente existe, destituída de sentido. Isso porque compreendemos o sentido, em primeiro lugar, como valor de verdade. Ora, a árvore não pode ser nem verdadeira nem falsa, ela simplesmente é ou não é (uma árvore). Uma árvore falsa não é uma árvore. (Assim como (c)ouro falso não é (c)ouro! E, por isso, a expressão (c)ouro legítimo é destituída de sentido…)
O que faz sentido, para nós modernos, é a linguagem, a sentença ou a proposição. Somente as proposições podem ser verdadeiras ou falsas. E não árvores e coisas.
Uma árvore pode ser ou não ser, existir ou não existir, ser real ou irreal. Não pode ser nem verdadeira nem falsa. Não pode ter, pois, sentido algum. Mas uma proposição sobre a árvore, sim, pode ter sentido. Pois apenas ela pode tem valor de verdade. A proposição “Aquela árvore no meio do jardim é uma macieira” é verdadeira se e somente se a árvore no meio do jardim for de fato uma macieira.
Assim é para nós modernos. Não assim para Tomás. Para o “boi mudo” da Sicília, uma árvore é ser em ato, ato de ser árvore –ato de arborecer, arborecente. Não se trata mais, ou ainda, de uma mera coisa insensata à espera de um sujeito cogitabundo que venha emprestar-lhe algum sentido. A árvore no meio do jardim é uma árvore verdadeira, plena de sentido. É sensata.
A sensatez do mundo não depende, assim, da (in)sensatez do sujeito moderno.
Como aqui e no post anterior me aventuro em praias estranhas, conto com a condescendência e colaboração dos –sensatos– leitores!