Introdução a Fichte [10]

A Filosofia do Ser

por EDSON DOGNALDO GIL

Para a chamada “filosofia do ser”[1], o ser, ou mais precisamente o “ato de ser”[2], constitui a origem, o fundamento ou o princípio da realidade[3]. O ser, portanto, principia a realidade.

À primeira vista, parece que os termos “ser” e “ato de ser” equivaleriam, respectivamente, aos termos fichteanos “Eu” e “Tathandlung“. Afinal, é o próprio Schelling quem traduz esse último neologismo de Fichte por “ato”, aproximando-o assim de Aristóteles:

Aristóteles diz, a propósito do ato, que não se tem de procurar definir tudo, mas também de satisfazer-se com analogias. Quando se trata, portanto, apenas de mostrar[4] o que, afinal, o ato é, então Fichte não está totalmente sem razão em apontar logo para o que nos é mais próximo, o ato [Tat] contínuo, ou, mais enfaticamente, como acreditava dever expressar-se, a Tathandlung de nossa autoconsciência. O ato, em absoluto, não está propriamente no conceito, mas na experiência. O ato também não se transforma naquilo em que a potência se transforma, o atributo.[5]

Mas como aqui “ser”, “ato de ser” são termos traduzimos do grego e do latim, temos de tomar cuidado para que não nos tornemos, por assim dizer, vítimas da linguagem. Se, pois, princípio significa “ser mais original que”, “originalíssimo”, há que se pressupor aqui o conceito aristotélico de substância. “Ato de ser” significa, então, a realização das determinações inerentes a cada substância, e a realidade consiste nesse processo de realização (grego: entelechia; latim: actus) com vistas a seu fim essencial (grego: telos e ousia; latim: efficiens e essentia). No pensamento de Aristóteles, portanto, são “mais originais” as unidades formais enquanto ser (principiam), e a realidade é o processo que conduz essas formas de ser de um estado de mera possibilidade (grego: dynamis; latim: potentia) a um estado de atualidade (realizado) (grego: energeia; latim tardio, após século XIII: realitas).

Para a filosofia do ser, a realidade é apenas porque ela obtém o seu ser do Ser. O Ser, por sua vez, é real porque, por assim dizer, ninguém pode dar o que não possui. O nada, o não-ser, não pode ser real, uma vez que não tem ser.

Mas isso só é assim quando se pressupõe o modelo substancialista. O ser produz a realidade apenas quando se considera que tudo o que se realiza esteja, em sua possibilidade e determinação, previamente definido.

Só assim se pode também dizer com razão que o nada nada é, porque ele então não corresponde a nenhuma forma pré-dada.

A filosofia transcendental, segundo Kant – mas também segundo Fichte! -, porém, não pressupõe substância alguma sem prova, mas pergunta pelas condições de possibilidade para que o ser, afinal, possa ser, e, por conseguinte, para que também as formas, tais quais admitidas por Aristóteles, possam ser pressupostas.


[1] Entendo por “filosofia do ser” o chamado aristotélico-tomismo, ou seja, o pensamento de Aristóteles interpretado por Tomás de Aquino (e o de ambos, por tomistas e neotomistas). Na verdade, o aristotélico-tomismo estabeleceu-se como corrente filosófica apenas no século XIX, por meio de bula do papa Leão XIII.

[2] “Ente é o particípio presente do verbo ser. Assim, do mesmo modo que o presidente é aquele que exerce o ato de presidir […] que o gerente é aquele que exerce o gerir, ente é aquele que exerce o ato de ser: esta árvore, esta pedra, este gato são entes, seres.” LAUAND, J. Conceitos Básicos de Antropologia Clássica. Disponível online in: <http://jean_lauand.tripod.com/page17.html&gt; [acessado em 18-10-03].

[3] “Para conseguir-se, porém, uma única explicação com validade conjunta para a realidade e para o pensamento, resta um caminho: fundamentar ambos no ato de Ser.” JAULENT, E. A filosofia do ato de ser e Raimundo Lúlio (Ramon Llull). Disponível online in: <http://www.geocities.com/Athens/Forum/5284/atollull.html> [acessado em 18-10-03].

[4] Como ficará claro mais adiante, um princípio não se define, pois não pode ser deduzido de outro princípio anterior. Além desse seu caráter por assim dizer axiomático, os princípios fichteanos não podem ser objeto do pensar meramente formal, mas sim de um tipo de experiência transcendental (Rahner) da realidade anterior à cisão sujeito-objeto – a intuição intelectual.

[5] SCHELLING: [Aus:] Philosophie der Mythologie, S. 128: “Aristoteles sagt […] bei Gelegenheit des Aktus: daß man nicht alles zu definieren suchen müsse, sondern sich wohl auch mit Analogien begnügen […] Wenn es sich also bloß darum handelt zu zeigen, was überhaupt Aktus ist, so hatte Fichte nicht so unrecht, deshalb gleich an das uns Nächste, die fortgesetzte Tat, oder, wie er sich kräftiger auszudrücken glaubte, Tathandlung unseres Selbstbewußtseins zu verweisen. Der Aktus überhaupt ist doch eigentlich nicht im Begriff, sondern in der Erfahrung. Der Aktus wird auch nicht was die Potenz wird, Attribut” [Digitale Bibliothek Band 2: Philosophie, S. 37788 (vgl. Schelling-W Bd. 3, S. 671.)]

audácia da filosofia

Selbst Gott muss lassen, der sich in den Anfangspunkte der wahrhaft freien Philosophie stellen will. Hier heisst es: Wer es erhalten will, der wird es verlieren, und wer es aufgibt, der wird es finden. Nur derjenige ist auf den Grund seiner selbst gekommen und hat die ganze Tiefe des Lebens erkannt, der einmal alles verlassen hatte, und selbst von allem verlassen war. […] Wer wahrhaft philosophieren will, muss aller Hoffnung, alles Verlangens, aller Sehnsucht los sein; er muss nichts wollen, nichts wissen, sich ganz bloss und arm fuehlen, alles dahingeben, um alles zu gewinnen. (SCHELLING, Initia philosophiae universae)

[Quem quer colocar-se no ponto de partida da filosofia verdadeiramente livre, deve abandonar até mesmo a Deus. Aqui isso significa: quem quer conservá-lo o perderá, e quem o abandona o encontrará. Apenas aquele que já abandonou tudo, e que até mesmo foi abandonado por tudo, é que chegou ao fundo de si mesmo e reconheceu toda a profundidade da vida […] Quem verdadeiramente quer filosofar, tem de livrar-se de toda esperança, de todo anseio, de toda nostalgia; tem de não querer nada, de não saber nada, de sentir-se totalmente nu e pobre, de desfazer-se de tudo para ganhar tudo.]