Liberdades viscerais

http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u372035.shtml

Folha Online: pensata

14/02/2008

Liberdades viscerais

por HÉLIO SCHWARTSMAN

Na imprensa brasileira […] o caso passou meio despercebido, mas ele reúne muitos dos ingredientes de uma grande história: dinheiro, injustiças, exploração da miséria, mais dinheiro e, igualmente importante, desafia nosso senso moral […] Falo da prisão, na semana passada, do médico Amit Kumar num luxuoso resort de selva no Nepal. Kumar, também conhecido como Dr. Horror, é acusado de comandar uma rede ilegal de transplantes renais na Índia. A crer nas acusações da polícia, a organização capitaneada pelo médico realizou, ao longo da última década, cinco ou seis centenas de transplantes, por vezes retirando órgãos de pessoas vivas sem o seu consentimento. Na maioria das ocasiões, entretanto, o doador aceitava ceder o rim em troca de dinheiro.

Nos últimos anos, a Índia vem se tornando um importante destino do chamado turismo médico. Acorrem para o país centenas de pessoas, em especial cidadãos da Malásia e de Estados do golfo Pérsico, que precisam de um transplante de rim e podem pagar por isso. Em meio à proverbial miséria indiana, não é difícil recrutar doadores. Em alguns vilarejos e favelas onde a rede operava de modo mais entranhado, praticamente todas as famílias possuem um integrante que vendeu um rim para pagar dívidas…

Apesar de todas essas histórias de horrores, defendo a legalização da venda de órgãos. Meu argumento é essencialmente filosófico: o corpo é meu e faço com ele o que quero. Colocando a coisa de modo um pouco menos infantil: a autonomia do indivíduo, que é o fundamento lógico do Estado liberal-democrático, deve prevalecer sobre considerações do tipo “oh, coitadinhos dos pobres e ignorantes”…

É claro que a decisão que cada um tomar não necessariamente será a melhor. A natureza humana, embora caracterizada pela razão, é pródiga em substituir a reflexão ponderada, que deveria pautar nossas grandes escolhas, pela ditadura dos impulsos e caprichos. Também é fato que a necessidade –o “hic et nunc”, o aqui e agora– costuma ser desproporcionalmente supervalorizado por nosso córtex pré-frontal. A questão é que, se admitimos como legítima a tutela do indivíduo pelo poder público, estamos justificando qualquer Estado autoritário que alegue defender os “verdadeiros” interesses da pessoa ou comunidade. Essa é a lógica das teocracias e das experiências socialistas, não a minha. Se há algo realmente indisponível na existência humana, não é a vida nem as partes de nosso corpo, mas nossa liberdade de agir (ou reagir, tanto faz) diante de circunstâncias que não controlamos. É o que Sartre quis dizer quando definiu o homem como um ser “condenado” à liberdade.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou “Aquilae Titicans – O Segredo de Avicena – Uma Aventura no Afeganistão” em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

Leia a íntegra do artigo AQUI.

O Existencialismo é um Teísmo

A Prova da existência de Deus em Sartre

por JOSEF PIEPER

A mais luminosa das argumentações formuladas nos dias de hoje para provar a existência de Deus procede de ninguém menos do que de Jean-Paul Sartre. E é não só plenamente moderna, como também completamente “existencial”.

Sartre tem dois pontos de partida. Um deles é –como todo mundo sabe– a não-existência de Deus; um pressuposto que, na verdade, não vem fundamentado em nenhum argumento, mas que, em todo caso, se declara sem rodeios como pressuposto. O outro ponto de partida é a muito imediata e muito fortemente experimentada e expressa “não-necessidade do mundo”. “A existência é o não-necessário”, “o essencial é o acaso”: são os juízos que Antoine de Roquentin –o protagonista do romance A Náusea –expressa quando contempla, ao redor do parque, as árvores, a fonte e, principalmente, a si mesmo. “Nós éramos todos um amontoado de existentes acabrunhados, não tínhamos a mínima razão para existir”, “todo existente nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por acaso”.

Ora, pode-se dizer que isto seja outra coisa do que uma agressiva, mas no fundo plenamente adequada, descrição da contingência do mundo? Não é por acaso aquilo que sempre se afirmou: que nada daquilo com que nossa experiência se depara deve existir, não existe de forma necessária? Que há então de novo? Novo é, parece-me, que Sartre não aceita essa contingência: “Tive medo, mas principalmente raiva: achava aquilo tudo tão idiota, tão deslocado”, “sentia uma raiva impotente”. “Quando se compreende isso, o estômago começa a dar voltas: é a náusea! É absurdo que tenhamos nascido, é absurdo que morramos”. “Tinha aprendido tudo sobre a existência. Voltei ao hotel e comecei a escrever”.

Mas não é este exatamente o sentido da velha “prova da existência de Deus”, que ainda alguém tão tardio como Hegel chama de argumento e contingentia mundi? Que –num e noutro caso– é o que se afirma, senão que um ser contingente, não-necessário, que “não se auto-sustenta” (Hegel), na realidade é nonsense, sem sentido, inconcebível, maluco, insustentável, absurdo…, a menos que…? A menos que… seja concebido em relação a um existente necessário, absoluto, fundamento e sustentação do ser: …Deus?

Mas não poderia ser o caso de que o homem e o mundo re­almente não tivessem sentido algum e, portanto, absurdo seria também esse seu fundamento? Minha resposta comporta dois pontos: 1) Ninguém pode sustentar coerentemente tal afirmação; pode-se talvez pensá-la, mas não vivê-la. O próprio Sartre não o faz, senão como poderia ele falar de responsabilidade e liberdade? E baseado em que distinguiria o justo do injusto? Mas se se quiser fazer realmente o teste de coerência plena, então: 2) Não significaria essa ausência de razão para absolutamente tudo, uma ausência de fundamento também para a afirmação da não-existência de Deus? [Trad. de Jean Lauand]

narrando crises

“Esvaziamento” ecoa Sartre

por VALMIR SANTOS

Chamado à epígrafe de “Esvaziamento”, peça de Beatriz Carolina Gonçalves, Jean-Paul Sartre (1905-80) tem suas palavras expressas no cerne do texto que estréia hoje no Espaço dos Satyros Um, em encenação de Luiz Valcazaras.

Como o filósofo existencialista francês põe na boca de um dos seus personagens, em “A Náusea”, o homem é sempre um narrador de histórias, suas e alheias. “Mas é preciso escolher: viver ou contar”, diz uma das duas moças de “Esvaziamento”, eco sartreano assumido por Gonçalves.

Márcia e Cris se têm por melhores amigas desde tempos do colégio, início dos anos 1980. João e Pedro, nesta ordem, viram a relação do avesso.

A trajetória de dois casais expõe, de maneira não-conclusiva, nas palavras da autora, “a precariedade das relações afetivas na família e entre amigos e amantes”.
Ódio, amor, medo e desejo são embaralhados em cenas que vão e vêm, em flashbacks. A direção de Valcazaras quer escapar à linguagem realista nesse jogo de seres e situações despidos de sentido. Os intérpretes do espetáculo são Keila Taschini, Marcelo Galdino, Paulo Coronato e Zeza Mota.

Em 2003, “Esvaziamento” abriu o projeto de leituras “New Plays from Brazil” no Royal Court Theatre, centro londrino de incentivo a autores. Gonçalves é vinculada ao grupo de pesquisa Dramáticas em Cena, surgido há dois anos em São Paulo, ao lado de Cláudia Vasconcellos, Marici Salomão e Vera de Sá.

ESVAZIAMENTO
Quando: estréia hoje, às 21h; ter. e qua., às 21h. Até 17/10
Onde: Espaço dos Satyros Um (pça. Franklin Roosevelt, 214, tel. 0/xx/11/ 3258-6345)
Quanto: R$ 20 [FOLHA 4/9/07]

existencialismo

por RUBENS RODRIGUES TORRES FILHO

No fim das contas, que me resta? O sono,
o despejar meus restos na privada,
o querer tudo, não poder mais nada,
não responderem mais se eu telefono.

Ir à cozinha, no meu abandono,
comer um pote dessa marmelada,
voltar ao quarto, pôr o meu quimono,
deitar na minha África sonhada.

Ler um pouco de Sartre, abrir a boca.
Riscar num bloco uma bacante feia.
Ligar o rádio: uma cantora rouca.

Sentir meus olhos grávidos de areia.
Sentir no fundo uma saudade (pouca).
Ir olhar que horas são. Duas e meia.

o especialista instantâneo em filosofia 4

por JIM HAKINSON

Existencialismo
O movimento filosófico continental mais importante nos últimos tempos foi talvez o existencialismo, que teve partidários franceses e alemães. O expoente francês principal foi Sartre, um erudito invejável que combinava a filosofia com a agitação política marxista, a autoria de romances e de peças de teatro, e uma capacidade prodigiosa para o álcool. Foi ele que introduziu o slogan “A existência precede a essência”, que quer dizer, mais ou menos, que devemos estar menos preocupados com o tipo de coisas que as coisas são, do que com o fato de serem.

Os existencialistas resistem a ser classificados, insistindo geralmente na autonomia do individual: logo, têm tendência para ficar um bocado irritados só pelo fato de lhes chamarmos existencialistas. O existencialismo, ou pelo menos a sua linha francesa, tem conexões literárias muito fortes, sendo Camus e o próprio Sartre os seus maiores expoentes. A literatura tende a concentrar-se no conceito de acte gratuit (refira-a em francês, claro), que constitui supostamente a essência da afirmação existencialista da sua própria existência. Mas para o resto das pessoas parece-se mais com um caso de crueldade caprichosa. Uma vez que o acte gratuit, pelo menos na literatura, tem tendência para ter uma natureza violenta, ou, no mínimo dos mínimos, anti-social, viver com um existencialista (pelo menos com um existencialista francês) deve ser de arrasar com os nervos.

Os alemães, dos quais vale a pena referir Martin Heidegger e Karl Jaspers, são um grupo muito diferente. Não têm pretensões literárias, felizmente, e tendem a ser mais explícitos quanto às suas influências, referindo filósofos como Kierkegaard e Edmund Husserl, um filósofo alemão dos princípios do século que desenvolveu de uma maneira sistemática e tipicamente alemã o conceito de Fenomenologia, i.e., a tentativa de penetrar, por entre as aparências superficiais das coisas, na realidade básica da nossa apreensão consciente delas (ou coisa assim).

O existencialismo não arrasta consigo qualquer compromisso religioso para qualquer dos lados: Sartre era ateu, Jaspers cristão; Heidegger era nazista, mas isto é em geral convenientemente esquecido. Um ponto interessante a notar é que os livros de filosofia escritos em inglês têm em geral de ter três elementos nos seus títulos, sendo Language, Truth and Logic (Linguagem, Verdade e Lógica) Truth, Probability and Paradox (Verdade, Probabilidade e Paradoxo) e Mind, Language and Reality (Mente, Linguagem e Realidade) alguns exemplos proeminentes, ao passo que o número de elementos exigidos para os títulos existencialistas parece ser de apenas dois, como em Sein und Zeit (Ser e Tempo) de Heidegger, e em L’Etre e le Neant (O Ser e o Nada) de Sartre. Os filósofos analíticos anglo-saxônicos têm tendência para desprezar o existencialismo por não ser suficientemente analítico; os existencialistas têm tendência para desprezar os filósofos analíticos anglo-saxônicos por não serem suficientemente. [Tradução de Desidério Murcho]