argumento ontológico 1

BLACKBURN, S. Dicionário de filosofia

O CÉLEBRE argumento favorável à existência de Deus, proposto pela primeira vez por Anselmo em seu Proslogion, cap.2. O argumento é notável por ser puramente a priori, e em geral é interpretado como uma tentativa de demonstrar a existência de Deus sem usar premissas contingentes. Anselmo segue Boécio, definindo Deus como “algo maior que qualquer coisa que possa ser concebida” (id quo maius cogitare nequit). Assim, Deus existe no nosso entendimento, uma vez que compreendemos esse conceito. Mas se Ele existisse unicamente no entendimento, poderíamos conceber uma coisa maior, uma vez que um ser que existe na realidade é maior que um que existe somente no entendimento. Mas então podemos conceber algo maior do que aquilo maior que qualquer coisa que possa ser concebida, o que é contraditório. Logo, Deus não pode existir unicamente no entendimento, existindo assim também na realidade. O argumento foi criticado na época do próprio Anselmo por um monge chamado Gaunilo, que contrapôs que o mesmo padrão de raciocínio provaria a existência de uma ilha perfeita (pois uma ilha perfeita que existe somente na imaginação não é obviamente tão boa como uma que exista de fato). O argumento não foi aceito por Tomás de Aquino, mas foi retomado por Descartes, que tornou claro o requisito de conceber a existência como parte da definição ou essência de um ser sumamente perfeito. Isso, por sua vez, abriu caminho às críticas de Hume e em especial de Kant, segundo as quais a existência não é uma propriedade idêntica às outras, não podendo ser adicionada ou subtraída ad libitum. Essa crítica tem sido, de uma maneira geral, sustentada pela lógica moderna (ver quantificador; variável).

Aceitando a sugestão de Hegel, o argumento tem sido tratado por teólogos modernos, tais como Barth, não tanto como uma demonstração com a qual podemos confrontar os descrentes, mas como uma exploração do significado profundo da crença religiosa. Collingwood encara o argumento não como uma prova da existência de Deus a partir do id quo maius cogitare nequit, mas como uma demonstração de que estamos comprometidos com a crença na existência de Deus porque o concebemos dessa maneira: sua existência é um postulado metafísico, ou um pressuposto absoluto de certas formas de pensamento.

No século XX, os filósofos americanos Charles Hartshorne, Norman Malcolm e Alvin Plantinga propuseram versões modais do argumento ontológico. Uma das versões é a seguinte: definamos algo como insuperavelmente grande se existe e perfeito em todos os mundos possíveis. Admitamos agora que é pelo menos possível que exista um ser insuperavelmente grande. Isso significa que existe um mundo possível no qual esse ser existe. Mas se existe num mundo, existe em todos (pois do fato de tal ser existir num mundo deriva-se que ele existe e é perfeito em todos os mundos). Logo, existe necessariamente. A resposta correta a esse argumento é não permitir a concessão aparentemente razoável de que a existência de tal ser seja possível. Essa concessão é muito mais perigosa do que parece, uma vez que na lógica modal envolvida podemos derivar necessariamente p a partir de possivelmente necessariamente p.

argumento ontológico 2

S. ANSELMO [1033/4 (Aosta) – 1109 (Canterbury)]. Proslogion

Depois de insistentes pedidos de alguns coirmãos, escrevi um opúsculo como exemplo de meditação sobre as razões da fé, como alguém que, raciocinando consigo mesmo, indaga o que ignora; mas depois, considerando que o escrito é constituído pelo encadeamento de muitos argumentos, comecei a me perguntar se não podia encontrar um argumento único que demonstrasse por si só, sem necessidade de outro qualquer, que Deus existe e que é o bem supremo, que não precisa de nada e de quem todo o resto necessita para ser e para ter valor, e que também bastasse para demonstrar as outras verdades em que acreditamos acerca da substância divina.

Concede-me Senhor, tu que dás inteligência à fé, concede-me nos limites do conveniente entender que tu és como acreditamos. Na verdade, nós acreditamos que tu és algo maior do que tudo que se poderia pensar.

Mas talvez não exista uma tal natureza, posto que o insipiente disse em seu coração: Deus não existe. Sem dúvida, porém, o próprio insipiente, quando ouve o que eu digo (algo maior do que tudo que se pode pensar), entende o que está escutando e o compreende em seu intelecto, mesmo sem entender que aquela coisa sobre a qual escuta existe. De fato, entender uma coisa com o intelecto é distinto de entender que aquela coisa existe.

Quando um pintor imagina o que está para pintar, tem-no no intelecto; mas não acredita que exista aquilo que ainda não pintou. Quando ao contrário já o pintou, tem o que pintou no intelecto e acredita que ele existe.

Portanto, o insipiente também está convencido de que existe, ao menos no intelecto, alguma coisa da qual não se pode pensar nada maior. Ao escutar isso, de fato, entende-o, e quando se entende alguma coisa quer dizer que já se tem essa alguma coisa no intelecto. Ora, aquele do qual não se pode pensar nada maior não pode existir somente no intelecto.

De fato, se existisse somente no intelecto, poderíamos pensar que existisse uma outra também na realidade, e assim esta segunda seria maior que a primeira. Conseqüentemente, se aquilo do qual nada maior se pode pensar existe só no intelecto, daí resultaria que aquilo do qual o maior não se pode pensar e aquilo do qual o maior se pode pensar seriam a mesma e idêntica coisa. Isso, porém, não se pode certamente admitir.

Logo, existe sem dúvida alguma coisa da qual nada maior se pode pensar, seja no intelecto, seja na realidade. Não se pode pensar que Deus não exista. O que se pode pensar e que não existe não é Deus.

Ele existe de modo tão veraz que não se pode nem mesmo pensar que não exista. De fato, é possível pensar que exista alguma coisa que não se pode pensar que não exista; esta alguma coisa é exatamente maior do que aquilo que se pode pensar que não exista.

Por isso, “o ser do qual não é possível pensar nada maior” não pode ser pensado como não existente, pois isso seria contraditório. Existe, portanto, verdadeiramente, “o ser do qual não é possível pensar nada maior”; e existe de tal forma que nem sequer é admitido pensá-lo como não existente. E esse ser és tu, Senhor nosso Deus.

Logo, Senhor meu Deus, tu és: não se pode nem mesmo pensar que tu não existas. Se de fato uma mente pudesse pensar alguma coisa melhor do que tu, então a criatura seria superior ao Criador e estaria julgando-o, o que é absurdo.

Entre todos, somente tu existes do modo mais veraz e entre todos possuis o ser de modo absoluto, porque qualquer outra coisa existente não existe de modo igualmente veraz.

Mas então por que o insipiente diz em seu coração: Deus não existe, quando é tão evidente para quem quer que possua uma mente que raciocine que tu existes mais do que todas as outras coisas? Exatamente porque é estúpido e insipiente. Mas vejamos como o insipiente pôde dizer em seu coração aquilo que não se pode nem mesmo pensar.
Uma coisa pode ser pensada de duas maneiras: ou quando se pensa a palavra que a significa, ou quando se pensa a própria coisa que é significada. Ora, atendo-nos à palavra podemos pensar que Deus não existe, mas atendo-nos à coisa isso não é possível.

E todavia como pode o insipiente dizer em seu coração aquilo que não se pode nem mesmo pensar, se dizer no coração e pensar são a mesma coisa? De fato, se é verdade que o disse no coração, é verdade que também o pensou. Então, posto que não pôde pensá-lo, não é verdade que o disse em seu coração.

Contudo, não existe somente um modo de pensar. Um modo é pensar uma coisa pensando somente na palavra que a indica; um outro é aquele em que se entende exatamente o que a coisa é. No primeiro modo pode-se pensar que Deus não exista, no segundo modo absolutamente não.

Efetivamente, ninguém que entenda o que são o fogo e a água pode pensar realmente que o fogo seja água; de uma certa maneira pode pensá-lo, mas somente segundo as palavras. Igualmente, ninguém que entenda o que é Deus pode pensar que Deus não exista, mesmo pronunciando essas palavras em seu coração, ou como palavras sem significado, ou segundo um significado impróprio.

De fato, Deus é aquilo de que não se pode pensar nada maior. Quem entende isso de modo correto entende também que Ele é tal de modo a não se poder afirmar que não exista nem mesmo no pensamento. Quem, portanto, entende como é Deus não pode pensar que não exista.