seminário

Conhecimento de si e certeza em Agostinho, Profa. Isabelle Koch

Departamento de Filosofia – Acordo USP-COFECUB
Profa. Dra. Isabelle Koch:Conhecimento de si e certeza em Agostinho
Dias 14, 17 e 18 de maio de 2007 – às 10hs. – Sala 113
Conjunto Didático de Filosofia e Ciências Sociais
Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 – Cidade Universitária
www.fflch.usp.br/df e-mail: eventosdf@usp.br

Programa
A questão da certeza de nossos conhecimentos tem seu ponto de partida, em Agostinho, na polêmica entre os acadêmicos e os estóicos relativamente à definição de um critério do conhecimento certo e à aplicabilidade desse critério. Desde sua primeira obra, o Contra academicos, Agostinho desenvolve uma estratégia de leitura deste debate antigo, que ele conhece através dos academica de Cícero; essa estratégia consiste em fazer dos argumentos acadêmicos uma arma de combate contra todo dogmatismo materialista, recuperando o critério de Zenão para o conhecimento verdadeiro, para encontrar uma aplicação que possa resistir às objeções céticas.

Se, no Contra academicos, Agostinho procura ainda uma tal aplicação nas verdades lógicas (assim, uma disjuntiva de duas proposições contraditórias é sempre verdadeira, independentemente dos estados psicológicos do sujeito que a enuncie, mesmo que esteja louco ou sonhando), mais tarde ele encontra uma aplicação que lhe parece muito mais impressionante, no cogito.

Ao interrogar as razões que fundam segundo Agostinho a superioridade exemplar deste caso de conhecimento certo, somos conduzidos a ver como a certeza de uma proposição que afirma alguma coisa de um objeto passa a ser função do tipo de presença que esse objeto oferece ao sujeito. Desde logo, o que apreendo na primeira pessoa é mais certo, porque mais presente, do que aquilo que apreendo de modo indireto (por exemplo, meu conhecimento de um evento atual é mais certo do que meu conhecimento de um evento do passado que não vivi pessoalmente – a História adquire assim o estatuto daquilo em que creio, sem jamais poder conhecer). Por outra, entre os objetos que apreendo em primeira pessoa, aqueles que apreendo por uma percepção interior (intelectual) são mais certos do que os que apreendo por uma percepção sensível.

Essa desvalorização da certeza sensível não se deve, em Agostinho, somente à admissão de argumentos acadêmicos contra o caráter enganador dos dados sensoriais; ela decorre acima de tudo de uma análise da percepção sensível e do modo da presença que os corpos nela nos oferecem. Mesmo se visa objetos presentes, a percepção apreende os corpos não neles mesmos, mas através de uma atividade psíquica que produz imagens incorporais no momento mesmo em que uma forma sensível é captada.

Os corpos não nos oferecem senão uma praesentia simulata, que manifesta por contraste qual é o critério da vera praesentia : a presença que a mens oferece a si mesma quando pensa não tem equivalente, porque é interior e imediata. Por essa imediatez interior, essa presença é ainda superior à presença das verdades eternas na inteligência, que tem ao menos que encontrá-las (invenire) para pensá-las (a inventio é assim uma categoria que inclui todos os objetos, corporais ou incorporais, outros que a mens ela mesma). É então a certeza de si que funda os graus de certeza do conhecimento dos objetos outros do que eu mesmo.

Procuraremos a partir daí interpretar o tipo de presença de Deus na alma, enquanto descrito por Agostinho como mais interior a ela que o próprio eu (interior intimo meo).