o sagrado e o humano

É a teoria de René Girard, me parece, que mais urgentemente precisa ser debatida, agora que o triunfalismo ateísta está eliminando todos os nuances

por ROGER SCRUTON

Não causa surpresa o fato de pessoas decentes, céticas, ao observarem o ressurgimento em nossos tempos de cultos supersticiosos, do conflito entre liberdades seculares e éditos religiosos, e do radicalismo islâmico assassino, se mostrarem receptivas às polêmicas anti-religiosas de Richard Dawkins, Christopher Hitchens e outros. O “sono da razão” trouxe monstros, como Goya previu em sua gravura.

Hitchens é um homem inteligente e altamente erudito que reconhece que o argumento mais útil para ele era bastante conhecido há 200 anos. Mas pensadores do Iluminismo, tendo mostrado que as alegações da fé não contavam com fundamentação racional, não desdenharam a religião, como alguém poderia desdenhar uma teoria refutada. A facilidade com que as doutrinas comuns da religião podem ser refutados os alertou para a idéia de que a religião não é, em essência, uma questão de doutrina, mas outra coisa. E decidiram descobrir o que poderia ser.

Para os pensadores no período imediato pós-Iluminismo, não era fé, mas fés, no plural, que compunham a essência básica da teologia. Para os pensadores pós-Iluminismo, os sistemas de crença monoteísta não estavam relacionados aos mitos e rituais antigos da mesma forma que a ciência para a superstição, ou a lógica para a magia. Em vez disso, eles eram cristalizações de uma necessidade emocional. Um mito não descreve o que aconteceu em algum período obscuro antes da contagem humana de tempo, mas algo que acontece sempre e repetidamente. Ele não explica as origens causais de nosso mundo, mas recita sua permanente importância espiritual.

Se você olhar para a religião antiga desta forma, então inevitavelmente sua visão do cânone judaico-cristão muda. A história da criação no Gênesis é facilmente refutada como relato de eventos históricos: como pode haver dias sem sol, homem sem mulher, vida sem morte? Mas lida como mito, este texto aparentemente ingênuo revela ser um estudo da condição humana.

Mitos e rituais, escreveu Hegel, são formas de autodescoberta, por meio das quais entendemos o lugar do indivíduo em um mundo de objetos e a liberdade interior que condiciona tudo o que fazemos. A ascensão do monoteísmo a partir das religiões politeístas da antiguidade não é apenas uma forma de descoberta, mas de autocriação, à medida que o espírito aprende a reconhecer a si mesmo no todo das coisas e a superar sua finitude.

Entre estas primeiras incursões na antropologia da religião e estudos posteriores, dois pensadores se destacam como fundadores de um novo empreendimento intelectual – um empreendimento que parece não ter sido notado por Hitchens, Dawkins ou Daniel Dennett. Os pensadores são Friedrich Nietzsche e Richard Wagner, e o empreendimento intelectual é o de mostrar o lugar do sagrado na vida humana e o tipo de conhecimento e entendimento que nos chega por meio da experiência das coisas sagradas.

A lição que ambos os pensadores extraíram dos gregos é de que é possível subtrair os deuses e suas histórias da religião grega sem tirar o mais importante. Esta coisa tinha sua realidade primária não em mitos, teologia ou doutrina, mas nos rituais, nos momentos que ficam fora do tempo, nos quais a solidão e a ansiedade do indivíduo humano são confrontadas e superadas por meio de uma imersão no grupo. Ao chamar estes momentos de “sagrados”, nós reconhecemos tanto seu complexo significado social quanto o alívio que fornecem à alienação.

A tentativa de Nietzsche e Wagner de entender o conceito do sagrado foi levada adiante não por antropólogos, mas por teólogos e críticos. É a teoria de René Girard, me parece, que mais urgentemente precisa ser debatida, agora que o triunfalismo ateísta está eliminando todos os nuances.

Em “A Violência e o Sagrado” (1972), Girard começa com uma observação que nenhum leitor imparcial da Bíblia judaica ou do Alcorão pode deixar de fazer, que é a de que a religião pode oferecer paz, mas tem suas raízes na violência. O Deus apresentado nestes textos é freqüentemente irado, dado a acessos de destruição. Ele faz exigências ultrajantes e sanguinárias – como a exigência para que Abraão sacrifique seu filho Isaac. Ele é obcecado por genitália e inflexível em que deva ser mutilada em sua honra.

Pensadores como Dawkins e Hitchens concluíram que a religião é a causa desta obsessão sexual e violência, e que os crimes cometidos em nome da religião podem ser vistos como a refutação definitiva dela. Nem tanto, argumenta Girard. A religião não é a causa da violência, mas a solução para ela. A violência vem de outra fonte e não há sociedade sem ela desde a primeira tentativa dos seres humanos viverem juntos. O mesmo pode ser dito da obsessão religiosa com a sexualidade: a religião não é a causa, mas uma tentativa de resolvê-la.

Como Nietzsche, Girard vê a condição primitiva da sociedade como uma de conflito. É do esforço para resolver este conflito que nasce a experiência do sagrado. Esta experiência nos vem de muitas formas -ritual religioso, oração, tragédia – mas sua verdadeira origem está nos atos de violência comunal. As sociedades primitivas são invadidas pelo “desejo mimético”, à medida que rivais lutam para igualar as aquisições materiais e sociais do outro, acentuando o antagonismo e precipitando o ciclo de vingança.

A solução é identificar uma vítima, alguém marcado pelo destino como sendo de fora da comunidade e portanto merecedor da vingança contra ela, que pode ser alvo do desejo de sangue acumulado, e que pode conduzir o ciclo de retribuição ao fim. O bode expiatório é a forma da sociedade de recriar a “diferença” e portanto se restaurar. Ao se unirem contra o bode expiatório, as pessoas são libertadas de suas rivalidades e reconciliadas. Por meio de sua morte, o bode expiatório purga a sociedade de sua violência acumulada. A santidade resultante do bode expiatório é o eco de longo prazo do temor reverente, do alívio e da religação visceral à comunidade que foi experimentada com sua morte.

Segundo Girard, a necessidade do bode expiatório sacrificial está implantada na psique humana, originária da tentativa de formar uma comunidade durável na qual a vida moral pode ser buscada com sucesso.

Em muitas histórias do Velho Testamento, nós vemos os antigos israelitas lidando com este ímpeto sacrificial. As histórias de Caim e Abel, de Abraão e Isaac e de Sodoma e Gomorra são resíduos de conflitos estendidos, nos quais o ritual foi desviado da vítima humana e ligado primeiro a sacrifícios animais, depois às palavras sagradas. Por este processo uma moralidade viável surgiu da competição e conflito, e das rivalidades viscerais da predatoriedade sexual.

Logo, a experiência do sagrado não é um resíduo irracional de medos primitivos, nem uma forma de superstição que algum dia será eliminado pela ciência. Ela é a solução para a agressão acumulada que existe no coração das comunidades humanas. É assim que Girard explica a paz e celebração que acompanha o ritual da comunhão – o senso de renovação que sempre precisa ser ele mesmo renovado. Girard descreve características profundas da condição humana, que podem ser observadas também nos cultos do mistério da antiguidade e nos templos locais do hinduísmo, assim como no “milagre” cotidiano da Eucaristia.

Há muitos elementos na teoria de Girard que podem ser criticados – como a idéia de que as instituições humanas podem ser explicadas pela cr
iação de mitos. Mas tais críticas não influenciam, ao que me parece, o descaso com que as idéias de Girard são tratadas.

Eu suspeito que, como Nietzsche, Girard nos recordou das verdades que preferiríamos esquecer – em particular, a verdade de que a religião não se trata basicamente de Deus, mas do sagrado, e que a experiência do sagrado pode ser suprimida, ignorada e mesmo profanada, mas nunca destruída. [Prospect Magazine 9/8/07]

a violência e o sagrado

Girard: a Revolução

por OLAVO DE CARVALHO

O nome de René Girard não é desconhecido nesta parte do mundo. De vez em quando aparece citado, de passagem, em alguma tese universitária. Seu livro mais famoso, La Violence et le Sacré (1972), foi traduzido para o português [2. ed. Rio: Paz e Terra, 1990. 410 p.].

O que espanta não é que após tal sucesso nenhum editor brasileiro se interessasse em publicar Le Bouc Émissaire (1982), La Route Antique des Hommes Pervers (1985) e outras obras memoráveis do mesmo autor. O fenômeno pode refletir apenas a intermitência do stop and go, típica das economias subdesenvolvidas. O que espanta é a capacidade que o nosso meio universitário teve de absorver em discreto silêncio algo de um pensamento tão explosivo, continuando em seguida confortavelmente instalado nas suas convicções dominantes, como se ele não as houvesse abalado em nada.

Entre a insensibilidade pétrea e o fingimento puro e simples, algum fator desconhecido parece ter imunizado essa gente contra qualquer advertência de que o leão escapou da jaula. Mas não custa repetir o aviso: René Girard está à solta. O que ele vem fazendo – preparem-se – pode-se resumir na fórmula única de um plano supremamente maligno: destruir a quaternidade sagrada positivismo-marxismo-estruturalismo-freudismo que domina o horizonte das ciências humanas, e colocar em seu lugar nada menos que o bom e velho cristianismo.

Mesmo no Velho Mundo, onde o sacerdócio do culto estabelecido se sente mais fortinho ao ponto de não querer deixar sem resposta uma provocação desse calibre, as reações tomaram apenas a forma de imprecações e rosnados, seguidos de um silêncio amuado. “Fantasias!”, protestou Claude Lévi-Strauss – e mais não disse nem lhe foi perguntado. Nenhuma objeção detalhada o bastante para passar por séria elevou-se contra o empreendimento girardiano, que vai exercendo uma influência cada vez maior nos terrenos mesmos onde a exclusão do cristianismo desfrutava do prestígio de uma exigência metodológica primeira.

O mais irônico da história é que Girard é homem alheio à agitação intelectual parisiense, vivendo há quase meio século em Stanford, Califórnia, e publicando em inglês boa parte de sua obra.

Mas onde, precisamente, ataca Girard o templo do academicismo? “Não se vence realmente senão aquilo que se substitui”, dizia Nietzsche. Girard não perde tempo criticando teorias e escolas: oferece uma explicação melhor para os fenômenos sobre os quais elas reinavam soberanas, e ei-las desprovidas de razão de ser, pairando no ar como inúteis flocos de espuma.

A substituição é global e repentina. Onde cada uma dessas escolas, além de ter lá suas fragilidades intrínsecas, não conseguia abranger senão um grupo especializado de fenômenos, deixando os outros às vizinhas que não raro a contradiziam na base, o sistema Girard, como veio a ser chamado, reúne tudo num bloco – leis, instituições, costumes, mitologias, valores, obras de arte – e submete o conjunto a um mesmo princípio explicativo, simples e poderosamente convincente. A nova chave das ciências humanas demite, de um só golpe, o complexo de Édipo e a luta de classes, as estruturas do parentesco e todos os demais ícones teóricos, que só conservam seu antigo prestígio em longínquas terras do Terceiro Mundo ainda não abaladas pelos ecos da revolução girardiana.

O princípio encontrado por Girard pode-se resumir em um parágrafo. Todas as instituições humanas têm origem ritual, e o ritual resume-se no sacrifício. O sacrifício consiste em descarregar sobre um bode expiatório, vítima inocente e indefesa, os ódios e tensões acumulados que ameaçavam romper a unidade social. Estes ódios e tensões, por sua vez, surgem da impossibilidade de conciliar os desejos humanos. A razão desta impossibilidade reside no caráter mimético do desejo: cada homem não deseja isto ou aquilo simplesmente porque sim, porque é bonito, porque é gostoso, porque satisfaz alguma necessidade, mas sim porque é desejado também por outro ser humano, cujo prestígio cobre de encantos, aos olhos do primeiro, um objeto que em si pode ser inócuo, ruim, feio ou prejudicial. O mimetismo é o tema dominante da literatura, assim como o sacrifício do bode expiatório é o tema dominante, se não único, da mitologia universal e do complexo sistema de ritos sobre o qual se ergue, aos poucos, o edifício político e judiciário. A vítima é escolhida entre as criaturas isoladas, inermes, cuja morte não ofenderá uma família, grupo ou facção: ela não tem vingadores, sua morte portanto detém o ciclo da retaliação mútua. Mas a paz é provisória. Por um tempo, a recordação do sacrifício basta para restabelecê-la. Nesta fase a vítima sacrificial se torna retroativamente objeto de culto, como divindade ou herói cultural. Ritualizado, o sacrifício tende a despejar-se sobre vítimas simbólicas ou de substituição: um carneiro, um boi. Quando o sistema ritual perde sua força apaziguante, renascem as tensões, espalha-se a violência que, se não encontrar novas vítimas sacrificiais, leverá tudo ao caos e à ruína. A sociedade humana ergue-se assim sobre uma violência originária, que o rito ao mesmo tempo encobre e reproduz.

Mas essa violência funda-se, essencialmente, numa ilusão. O sacrifício não tem, por si, o poder de gerar efeitos benéficos. Se estes acabam por se produzir, é por intermédio da crença generalizada que despeja os ódios sociais no inocente e aplaca uma sede de vingança irracional que a sociedade atribui a um deus, mas que vem dela mesma. Esta crença, por sua vez, vem do desejo mimético, que, se escolhe por objeto uma miragem, pode se satisfazer igualmente com uma miragem de causa quando se trata de explicar a origem dos males humanos.

Assim fecha-se o sistema: o mimetismo causa a insatisfação, a insatisfação causa os ódios, os ódios ameaçam a ordem social, a ordem social se restaura mediante o sacrifício do inocente, que então vira mais um deus no panteão do engano universal.

O ciclo sacrificial só é rompido uma única vez na História, com o advento do cristianismo. Cristo proclama a inocência das vítimas, a inocuidade dos sacrifícios, a falsidade dos deuses vingativos: “Todos os que vieram antes de Mim são ladrões.” Ele substitui a vingança social pelo arrependimento individual, restabelecendo o nexo racional entre os atos e as conseqüências, antes nublado pela mitologia sacrificial. Da desmistificação do sistema antigo nasce não somente a consciência moral autônoma, mas a possibilidade do conhecimento objetivo da natureza: Cristo inaugura a primeira civilização – a nossa – que sabe haver mais justiça no perdão do que na vingança, mais verdade no nexo impessoal de causas e efeitos do que na atribuição de um poder maligno àqueles que desejamos matar.

A massa de documentos que Girard, paleógrafo de formação, submeteu a meticulosas análises de texto para comprovar sua teoria é impressionante: vai das primeiras mitologias indo-arianas às obras de Proust.

Não menos impressionante é a mudança de perspectiva que, sob o impacto da teoria girardiana, sofre a nossa visão das idéias e conflitos contemporâneos. O totalitarismo, por exemplo, aparece como o estado fatal a que caminha um mundo que, tendo rejeitado o antigo sistema mitológico sacrificial, não deseja pôr em seu lugar o cristianismo: não há saída senão voltar à matança de vítimas humanas, sob os nomes de “burguesia”, “judeus”, “reacionários”, “negros impuros”, “políticos corruptos”, etc. O nazismo surge, a ess
a luz, como uma oposição frontal ao cristianismo, preconizada por Nietzsche em páginas que defendem, abertamente, o retorno aos sacrifícios humanos. O socialismo, em contrapartida, é o simulacro que pretende substituir o cristianismo, sugando as energias cristãs para colocá-las a serviço da caça ao bode expiatório. Nas democracias capitalistas, a mais temível forma de anticristianismo é o “politicamente correto”, onde cada grupo, divinizando a própria autovitimização, se nomeia o sacerdote de novas vinganças sacrificiais.

Girard não diz isto em parte alguma, mas é altamente corroborador de suas interpretações o fato de que, de todos os povos discriminados e perseguidos, o único que não explora seus sofrimentos como meio para a conquista do poder de vingança é justamente aquele que mais vítimas forneceu à violência do século XX: o povo cristão, do qual pereceram pelo menos trinta milhões de membros no altar da perseguição religiosa – o jamais mencionado holocausto cristão.

Girard também não cita, entre seus precursores, certamente porque o desconhece, o nome do psiquiatra húngaro Lipot Szondi. Mas não é possível pensar em fenômenos como o desejo mimético e o bode expiatório sem lembrar a teoria do “complexo de Caim” que esse grande sábio colocou no lugar do artificioso “complexo de Édipo” freudiano, já na década de 20. Mas Szondi foi, ele próprio, um bode expiatório: ao lado dessa teoria, defendia também a raiz genética das doenças mentais, o que na época era considerado puro nazismo pela escola culturalista dominante (que preferia culpar “a educação”, “os pais” etc.). Não ficava bem chamar Szondi de nazista, porque ele era judeu; mas, tão logo saiu do campo de concentração onde o haviam posto os nazistas, foi colocado na geladeira do esquecimento pelos democratas e socialistas. [Revista Bravo! 6/98]

eu via satanás cair do céu como um raio

Entrevista com René Girard

por Pedro Sette Câmara e Alvaro Velloso de Carvalho, com a participação de Olavo de Carvalho

No dia 17 de novembro de 2000, pude assistir a uma conferência de René Girard na Faculdade da Cidade do Rio de Janeiro. Logo após o evento, consegui marcar para o dia seguinte uma pequena entrevista com ele, feita no Hotel Glória em conjunto com Alvaro Velloso de Carvalho, meu companheiro aqui no Indivíduo, e o filósofo Olavo de Carvalho, que há muito fala de Girard em suas aulas. (PSC)

Ciência & Violência
Embora o senhor tenha sido o primeiro que conseguiu reconciliar ciências humanas e catolicismo, o pensamento católico do século XX parece não ter exercido a mínima influência sobre a sua obra. Como se explica isso?

René Girard: Sou antes de tudo um cientista social, e foi normal que passasse à margem dos debates filosóficos e teológicos que envolveram os pensadores católicos. Interesso-me pela Bíblia principalmente como documento sociológico. Por isso eles acabaram me olhando com desconfiança, vendo em mim uma espécie de lobo em pele de cordeiro, sem perceber que minha obra, embora não tenha o menor intuito doutrinal ou apologético, abre novas e insuspeitadas perspectivas apologéticas para o catolicismo, na medida em que mostra a sua superioridade moral. Vivemos numa sociedade em que todos pensam que os Evangelhos são um mito e que todos os mitos são falsos; minha obra demonstra que só é possível compreender a falsidade dos outros mitos à luz dos Evangelhos e que eles não podem ser apenas mitos.(1)

No seu sistema, a violência punitiva aparece sempre como um ato coletivo, um ato das massas, e no seu último livro o senhor diz ter deixado de acreditar na possibilidade de uma sociedade não-violenta. O senhor acredita que ao menos na alma do indivíduo humano exista uma espécie de recinto protegido, não contaminado pela violência?

René Girard: Isso depende da sua concepção do pecado original. Um agostiniano, um predestinacionista, diria que não. Mas eu espero que sim. É evidente que tanto na escala individual quanto na coletiva as paixões são substancialmente as mesmas – inveja, orgulho, etc. -, mas no coletivo elas são potencializadas pela força multiplicadora do mecanismo mimético.

O demônio estatal
Como ainda diz Girard em seu ensaio Are the Gospels Mythical?, este modo de funcionar da sociedade expressa o domínio de Satanás sobre ela. Pois, até o advento de Jesus Cristo, era Satanás quem expulsava Satanás. Era ele, o espírito acusador, quem extirpava o mal em nome do mal, quem impedia o cataclismo maior com um menor, e escrevia a história – os mitos – assumindo o partido do acusador. A religião cristã assume o partido da vítima – o Cristo -, e afirma sua inocência, ressaltando que não era preciso matá-lo.

O Sr. concordaria com a afirmação de que a ideologia politicamente correta, buscando a proteção estatal de todas minorias contra todos, representa uma tentativa de Satanás de expulsar Satanás novamente?

René Girard: Sim. O que é interessante nesse fenômeno é que ele só poderia acontecer numa civilização que já recebeu a influência do cristianismo. Como o mecanismo do bode expiatório já foi revelado, não retornamos diretamente a ele, isto é, não acusamos diretamente a vítima de alguma coisa, não dizemos diretamente que ela é culpada. Mas o mecanismo do bode expiatório continua a funcionar, de forma diferente: o movimento politicamente correto acusa seus adversários de criar bodes expiatórios, acusam-nos de vitimar os outros. Esta é uma espécie de cristandade ao contrário: eles pegam o que resta da influência da cristã, o que resta da linguagem cristã, mas para fins opostos, para perpetuar o mecanismo de sacrifício do bode expiatório.

Tenho aqui uma entrevista sua, de 1996, em que o Sr.defende a intervenção internacional na Bósnia, dizendo que ela ocorre não com fins imperialistas, mas apenas com o objetivo de parar a matança de inocentes. Após afirmar que a violência é o fundamento das sociedades, o Sr. ainda subscreveria essa posição? Ou o Sr. crê que o cristianismo possa também servir como fundamento para a organização da sociedade?

René Girard: O cristianismo nunca teve esse propósito. Ele não tem o objetivo de organizar a sociedade.

Mas e aquela posição, o Sr. a manteria?

René Girard: Eu não adotaria ainda hoje uma posição inteiramente favorável à intervenção na Bósnia. É difícil dizer para onde caminha o mundo hoje, com a possibilidade do fim das soberanias nacionais. Se você olhar casos como o da prisão de Pinochet, verá que todo o procedimento é inteiramente avesso ao direito internacional. O que se passa é que a legislação internacional entrou em colapso – e o que se seguirá daí?

Alguns dirão que é uma nova forma de imperialismo americano – mesmo que não haja desígnios para isso, porque o imperialismo pode funcionar mesmo sem um objetivo direto nesse sentido. Por exemplo, quando Putin falou em particular com Chirac, recentemente, ele lhe disse que De Gaulle não agiria como ele, não aceitaria acompanhar a política externa americana sem questionamentos.

Ora, poderíamos apoiar esse tipo de intervenção se soubéssemos que a comunidade internacional sempre intervirá pelos motivos certos – mas não dá para apostar nisso.

O que me preocupa é o potencial dessa situação para criar novos bodes expiatórios, como vimos claramente nos casos de Milosevic e Pinochet: é fácil odiar os dois, estando de longe, sem conhecer as situações específicas, sem ouvir um único argumento a favor dos dois, seguindo a onda de ódio da multidão.

O reino da mentira
O Sr. teria dito que acha que, se tivesse de realizar seu trabalho acadêmico hoje, não conseguiria fazê-lo dentro de uma universidade. O Sr. disse isso mesmo?

René Girard: Sim, é verdade. Se eu fosse jovem hoje, e tivesse de entrar em uma universidade, ficaria muito preocupado. Quando eu comecei, nos anos 50, 60, a situação poderia já não ser ideal, mas era boa, era diferente. Havia erros, mas as pessoas eram honestas, ou pelo menos estavam tentando ser honestas. Hoje, no meio universitário, as pessoas não estão mais nem tentando ser honestas. Está tudo – ao que parece, no mundo inteiro – infestado pela ideologia, e a universidade se transformou em um espaço de propaganda política.

Aborto: os inocentes pedidos pelo secularismo moderno
No livro Quand ces choses commenceront, o senhor faz observações interessantes sobre o aborto e a maneira como sua legalização representa uma regressão em relação a conquistas do cristianismo. Poderia comentar algo mais a respeito? (2)

René Girard: Nos Estados Unidos, ainda há uma discussão do assunto, mas na Europa, por exemplo, praticamente não existe dissenso nesse ponto. Recentemente, escrevi um artigo para uma revista católica européia e mencionei o aborto. Uma amiga ficou chocada!

O aborto nunca é visto num contexto bíblico, ou mesmo em um contexto antropológico mais amplo, certo?

René Girard: Sim, exato. Mesmo aqueles que argum
entam contra o aborto nem sempre têm essa perspectiva, porque encaram a Bíblia de maneira excessivamente rígida.

A proteção à criança, a proteção ao recém-nascido é essencial na Bíblia. O sacrifício de Isaac marca a diferença entre o Deus antigo e o Deus novo: é o Deus antigo que pede a Abraão que ele sacrifique seu filho, e quando Abraão vai fazê-lo, o Deus novo impede o sacrifício da criança, e o substitui pelo sacrifício de um animal. O fim do infanticídio ritual é uma das marcas da nossa civilização, e estamos perdendo isso.

Recentemente, vi um livro em que o autor, de cujo nome não me lembro, dizia que o aborto era o sacrifício da criança, e ele tomava partido a favor desse sacrifício. Isso é o mais horroroso a que se pode chegar!

Fica a impressão de que as antigas fatalidades primitivas, descartadas provisoriamente pela luz profética e evangélica, estão ressurgindo. Na Bíblia, a proteção à criança vem junto com a proteção aos deficientes, aos leprosos, aos aleijados. Essas são as vítimas preferenciais nas sociedades antigas, e entendemos que devemos protegê-las. Hoje continuamos a proteger os aleijados, os deficientes, mas no centro de tudo há uma espécie de câncer se desenvolvendo, do retorno ao infanticídio. Este é um argumento decisivo, que poucos levam em consideração: os defensores do aborto estão procurando fazer a nossa sociedade retornar à barbárie pré-cristã.

Notas
(1) Comentário à parte, por Pedro Sette Câmara: somente esta observação já é suficiente para destruir a obra inteira de um Joseph Campbell, que nivela todas as religiões.
(2) Trechos referidos do livro Quand ces choses commenceront, editado pela Arléa em 1996, uma compilação de entrevistas de Girard com o jornalista Michel Treguer sobre os aspectos mais importantes de sua obra:

Neste ponto, estamos em uma situação absolutamente trágica. É perfeitamente verdadeiro que, em um plano humano, o do planning racional, o aborto e todas as medidas para limitar os nascimentos são tão justificadas quanto possível. Dir-se-ia que o mundo moderno encurrala os homens – seja à renúncia heróica, à castidade, à sobriedade, à pobreza, àquilo que outrora chamávamos ’santidade’ – seja à queda cega em direção ao caos e à morte… E isto numa época na qual compreendemos cada vez menos a positividade da renúncia. O combate dos cristãos ‘progressistas’ para reconciliar o cristianismo com a sociedade atual me parece defasado com relação àquilo que pressentem os seres extirpados pela modernidade. Essa maneira de confundir a Igreja Católica com um partido político desatualizado com os anseios de seus eleitores é uma perda do senso religioso.

E, em outra parte do mesmo livro:

A atitude da Igreja Católica, ou, melhor dizendo, a do Vaticano – hoje em dia muito isolado no seio mesmo do catolicismo – desconsiderada por uma boa parte de seu clero, ridicularizada pelo universo inteiro, bode expiatório quase oficial da mídia e de toda a intelligentsia mundial, tem algo de heróico, ainda mais que esse heroísmo não é reconhecido. Nós somos cada vez menos capazes de saudar ou mesmo de respeitar as verdadeiras dissidências. No fundo, o que encoleriza o mundo é o fato de que, longe de provar a hipocrisia que sempre se reprova nela, longe de se mostrar ‘política’, sobre este ponto a Igreja se apega firmemente à sua doutrina de sempre. Ela permanece fiel à sua atitude fundamental, que consiste em pôr uma certa definição da graça e do pecado acima de todos os imperativos puramente mundanos, de qualquer ordem que sejam eles. [O Indivíduo 19/11/2000]