o homem que não vendeu sua alma

Um fervoroso católico se recusa a trair suas convicções para permitir que o rei da Inglaterra se separe de sua esposa para poder se casar novamente. Dirigido por Fred Zinnemann (O Dia do Chacal) e com Paul Scofield, Robert Shaw, Orson Welles, Nigel Davenport, John Hurt e Vanessa Redgrave no elenco. Vencedor de 6 Oscars.

Ficha Técnica
Título Original: A Man for All Seasons
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 115 minutos
Ano de Lançamento (Inglaterra): 1966
Estúdio: Open Road
Distribuição: Columbia Pictures
Direção: Fred Zinnemann
Roteiro: Robert Bolt, baseado em peça teatral de Robert Bolt
Produção: Fred Zinnemann
Música: Georges Delerue
Fotografia: Ted Moore
Desenho de Produção: John Box
Direção de Arte: Terence Marsh
Figurino: Joan Bridge e Elizabeth Haffenden
Edição: Ralph Kemplen

Elenco
Paul Scofield (Sir Thomas More)
Wendy Hiller (Alice More)
Leo McKern (Thomas Cromwell)
Robert Shaw (Rei Henrique VIII)
Orson Welles (Cardeal Wolsey)
Susannah York (Margaret More)
Nigel Davenport (Duque de Norfolk)
John Hurt (Richard Rich)
Corin Redgrave (William Roper)
Colin Blakely (Matthew)
Cyril Luckman (Arcebispo Cranmer)
Jack Gwillim (Chefe de justiça)
Vanessa Redgrave (Ana Bolena)

Sinopse
Na Inglaterra do século XVI, Henrique VIII (Robert Shaw) planeja se separar de sua primeira esposa para se casar com Ana Bolena (Vanessa Redgrave), mas não recebe a aprovação de Thomas More (Paul Scofield), um fervoroso católico que se tornou Lord Chanceler, um altíssimo posto que ele preferiu renunciar a trair suas convicções. Entretanto, a importância de Sir Thomas é tão grande que mesmo após sua renúncia o rei continua lhe perseguindo. Até que surgem “provas” que o incriminam como alta traição, um crime punido com a morte.

Premiações
– Ganhou 6 Oscars, nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Paul Scofield), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia – Colorida e Melhor Figurino – Colorido. Recebeu ainda mais duas indicações, nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Robert Shaw) e Melhor Atriz Coadjuvante (Wendy Hiller).

– Ganhou 4 Globos de Ouro, nas seguintes categorias: Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor, Melhor Ator – Drama (Paul Scofield) e Melhor Roteiro. Foi ainda indicado na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (Robert Shaw).

– Ganhou 7 prêmios no BAFTA, nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Britânico, Melhor Ator Britânico (Paul Scofield), Melhor Roteiro Britânico, Melhor Fotografia – Colorida Britânica, Melhor Direção de Arte – Colorida Britânica e Melhor Figurino – Colorido Britânico.

– Ganhou o prêmio de Melhor Ator (Paul Scofield), no Festival de Moscou.

Curiosidades
– Este é o 1º de 2 filmes em que o diretor Fred Zinnemann e a atriz Vanessa Redgrave trabalharam juntos. O posterior foi Julia (1977).

– O ator Paul Scofield não compareceu à cerimônia de entrega do Oscar. Com isso, sua estatueta de melhor ator foi recebida por Wendy Hiller, sua companheira de elenco.

– O orçamento do filme foi de US$ 3,9 milhões.

– Refilmado, para a TV, como O Homem Que Não Vendeu Sua Alma (1988).

a controvérsia do multiculturalismo

Descartes relativiza as diferentes culturas a partir de um ponto de vista aberto a todas elas

por ANTONIO CICERO

EMBORA POUCO conhecida no Brasil, uma das personagens mais interessantes do nosso tempo é, sem dúvida, Ayaan Hirsi Ali. Tendo nascido em 1969 na Somália (onde foi, quando criança, submetida a uma clitorectomia), ela, ainda menina, emigrou com a família para o Quênia, onde estudou em escola de língua inglesa e, sob a influência de professores e colegas, acabou por se tornar fundamentalista islâmica.

Em 1992, tendo sido dada pelo pai em casamento a um parente que habitava no Canadá, Hirsi Ali passou -a caminho desse país- pela Holanda, onde pediu e obteve asilo político, aprendeu holandês, estudou ciência política na Universidade de Leyden e participou ativamente, por um tempo determinado, da política holandesa.

Em 2002, Hirsi Ali renunciou ao islã e se declarou atéia. Tendo, a partir de então, publicado inúmeros artigos, proferido conferências e participado de debates em que fez sérias críticas ao islã, e mesmo ao profeta Maomé e ao Alcorão, ela foi diversas vezes ameaçada de morte.

Hirsi Ali escreveu também o roteiro do filme “Submissão”, sobre mulheres muçulmanas, de Theo Van Gogh, assassinado em Amsterdã por um radical islamista que, no peito da vítima, pregou com uma faca um bilhete em que dizia, entre outras coisas: “Hirsi Ali, você será despedaçada pelo Islã”. Ela hoje mora nos Estados Unidos.

Em artigo que acabou provocando uma grande polêmica, inicialmente na internet e, em seguida, em vários jornais dos Estados Unidos e da Europa, o historiador e professor em Oxford Timothy Garton Ash descreve Hirsi Ali nas seguintes palavras, ao mesmo tempo irônicas e paternalistas: “Tendo sido na juventude, sob a influência de um professor inspirado, tentada pelo fundamentalismo islâmico, Ayaan Hirsi Ali é agora uma corajosa, franca e levemente simplória fundamentalista do Iluminismo”.

A formulação de Ash implica que ela tenha simplesmente trocado de fundamentalismos e, no limite, que o islamismo equivale ao Iluminismo: convicção multiculturalista que reaparece adiante, quando ele afirma que, se o iluminista quiser convencer o islamista argumentando que a sua fé se baseia na razão, o islamista poderá responder que a dele se baseia na verdade: e ei-los empatados.

A tese de Ash é insustentável. Para comprová-lo, considere-se o ponto de vista a partir do qual ele está a descrever esse impasse. Necessariamente, trata-se de um ponto de vista exterior ao de qualquer um dos dois antagonistas; é um ponto de vista que, sendo sobre os antagonistas, nem se identifica com nenhum deles em particular, nem deixa de compreender cada um deles isoladamente e ambos em conjunto. Ora, esse é precisamente o ponto de vista do Iluminismo: o ponto de partida do pensamento moderno.

Montaigne, por exemplo, quando, na Renascença, compara favoravelmente os índios antropófagos brasileiros com os cristãos europeus, diz que podemos chamar os canibais de “bárbaros” “tendo em vista as regras da razão, mas não tendo em vista a nós mesmos, que os superamos em toda espécie de barbárie”.

Em outras palavras, ele fala de um ponto de vista que é não só exterior ao da cultura dos índios, mas exterior também ao da cultura cristã em que fora criado: por isso ele é capaz de criticar essa cultura. E esse ponto de vista é, segundo Montaigne, o das “regras da razão”, ou, simplesmente, o da razão.

Descartes apenas radicaliza esse ponto de vista, ao observar que “aqueles que têm sentimentos muito contrários aos nossos nem por isso são bárbaros ou selvagens, mas que muitos usam, tanto ou mais que nós, da razão […] e um mesmo homem, com seu mesmo espírito, sendo nutrido desde a infância entre franceses ou alemães, torna-se diferente do que seria, se tivesse sempre vivido entre chineses ou canibais”.

Descartes está aqui, nada mais, nada menos, relativizando as diferentes culturas, a partir de um ponto de vista que não pertence a nenhuma cultura particular, mas que pode ser aberto por e para qualquer ser humano pertencente a qualquer uma delas: o ponto de vista da razão, do Iluminismo, da modernidade.

O reconhecimento universal desse ponto de vista, que é logicamente exterior, anterior e superior a qualquer cultura ou religião particular, é a condição da coexistência pacífica de todos, num mundo cada vez menor. É por isso que Ash está errado, ao colocá-lo no mesmo nível que o ponto de vista de uma religião particular, tal como o islamismo. [FOLHA 7/4/07]

lutero 1

LUTERO, Martinho [1483-1546]. A liberdade do cristão [1520]

[1] Para que se possa entender perfeitamente o que é um cristão e em que consiste a liberdade que Cristo alcançou e doou a ele, apresentarei duas proposições: 1) um cristão é o senhor livre de todas as coisas e não está submetido a ninguém; 2) um cristão é o servo de todas as coisas e está submetido a todos. Essas duas proposições são encontradas claramente em São Paulo: eu sou livre em tudo e me fiz servo de todos. E também: Não deveis ser devedores de nada a ninguém, a não ser amar-vos reciprocamente. Mas o amor é prestativo e submisso àquele que ama. Assim está escrito também de Cristo: Deus enviou o seu filho, nascido de uma mulher e submetido à lei.

[2] Para compreender essas duas asserções, contraditórias entre si, da liberdade e da servidão, devemos pensar que todo cristão tem dupla natureza: espiritual e corporal. Pela alma é chamado de homem espiritual, novo, interior; pela carne e o sangue é chamado de homem corporal, velho, exterior. E é exatamente devido a essa diferença que a Escritura fala em termos contraditórios entre si, como acabei de dizer, de liberdade e de escravidão.

[3] Se nós consideramos o homem interior e espiritual, para entender o que se exige para que ele seja assim e seja chamado de cristão justo e livre, é evidente que nenhuma coisa exterior pode fazê-lo livre e justo […] uma vez que a sua justiça e a sua liberdade e, inversamente, a sua malícia e a sua servidão não são corporais nem exteriores. Como a alma pode ser ajudada por um corpo independente, robusto e saudável, que coma, beba, viva como quer? E, inversamente, que prejuízo traz à alma o fato de o corpo ser prisioneiro, doente e fraco, faminto, sedento e sofrer como não gostaria? Nenhuma dessas coisas chega até a alma, para libertá-la ou fazê-la prisioneira, para torná-la justa ou perversa.

[4] Portanto, não ajuda a alma se o corpo veste hábitos sagrados como fazem os padres e os eclesiásticos, e tampouco se ele está presente nas igrejas e nos lugares consagrados; nem se ele se ocupa com coisas sagradas; nem se materialmente ele reza, jejua, faz peregrinações e realiza todas as boas ações, que sempre podem ser efetuadas por meio do corpo e no corpo.

[5] Deve existir uma coisa diferente, que confira à alma integridade e liberdade. Posto que todos esses atos, obras e comportamentos podem ser exercidos também por alguém perverso, um hipócrita e um beato. Na verdade, esse tipo de comportamento só pode produzir um povo de autênticos hipócritas.

[6] A alma, ao contrário, não sofre dano se o corpo veste roupas profanas, se freqüenta lugares não consagrados, não faz peregrinações, não reza e negligencia todas as ações que os hipócritas praticam, as ações a que acima nos referimos.

[7] Nem no céu, nem na terra, a alma tem outra coisa para a qual viver e ser justa, livre, cristã, fora do Santo Evangelho, a palavra de Deus pregada pelo Cristo. Ele mesmo diz: Eu sou a vida e a ressurreição; quem crê em mim vive eternamente…

[8] Por isso, sensatamente, a única ação, a única ocupação de cada cristão deveria ser esta: compenetrar-se perfeitamente da Palavra e do Cristo, exercer e fortalecer tal fé continuamente, posto que nenhuma outra ação pode fazer dele um cristão.

[9] Cristo disse aos Judeus que lhe perguntavam o que deviam fazer para realizar obras divinas e cristãs: Esta é a única obra divina: que acrediteis naquele que Deus enviou…

[10] Porém, como é possível que a fé sozinha possa tomar-nos justos e sem nenhuma obra oferecer-nos riqueza, quando as Escrituras prescrevem tantas leis, mandamentos, obras, estados e comportamentos? Aqui é preciso observar e considerar com determinação que somente a fé sem nenhuma ação nos toma justos, livres e salvos, como melhor veremos a seguir. É preciso saber que a Sagrada Escritura inteira está dividida em duas espécies de palavras, as quais são os mandamentos, ou leis de Deus, e as garantias, ou promessas.

[11] Os mandamentos nos ensinam e prescrevem diversas espécies de boas ações, mas estas, pelo fato de serem ordenadas, ainda não foram realizadas. Certamente, os mandamentos encaminham-nos, mas não nos ajudam: ensinam-nos aquilo que se deve fazer, mas não nos dão a força para realizá-lo. São ordenados somente com a finalidade de que o homem saiba ver neles a própria incapacidade para o bem e aprenda a desesperar de si mesmo…

[12] Tudo isso permite entender facilmente porque a fé tem um poder tão grande que nenhuma boa ação pode igualar-se a ela. De fato, nenhuma boa ação está tão ligada à palavra de Deus como a fé; nenhuma boa ação pode ser da alma, onde reinam somente a Palavra e a fé. Como é a Palavra, assim também se torna a alma graças àquela; assim como o ferro se torna rubro como o fogo, depois da sua união com ele.

[13] Logo, a fé basta a um cristão e ele não precisa de nenhuma ação para ser justo; e, se não precisa de nenhuma ação, então ele está certamente desobrigado de todos os mandamentos e de todas as leis; e, se ele está desobrigado, certamente está livre. É justamente essa a liberdade cristã, a fé, exclusivamente, que não comporta que possamos ficar ociosos ou praticar o mal, mas sim que não precisamos de nenhuma ação para alcançar a justificativa e a bem-aventurança…

[14] Apesar de interiormente o homem, conforme a alma, estar suficientemente justificado por meio da fé, tendo tudo o que precisa, ele deve aumentar essa fé e essa suficiência até a outra vida; todavia, ele ainda permanece nesta vida corporal sobre a terra e deve governar o próprio corpo.

[15] Então começam as obras, então lhe é impossível ficar ocioso, então o corpo deve ser adestrado e exercitado com jejuns, vigílias, fadigas e com toda a sóbria disciplina, para que se torne obediente em conformidade com o homem interior e com a fé e não crie obstáculos nem resista, como costuma fazer, quando não é contido. Porque o homem interior está ligado a Deus, está contente, alegre pelo amor de Cristo, que tanto fez por ele, e encontra todo o seu júbilo em poder, por sua vez, servir a Deus por livre amor, gratuitamente.

[16] É por isso que são verdadeiras essas duas proposições: boas e justas ações não tornam jamais um homem bom e justo, mas um homem bom e justo pratica ações boas e justas; más ações não tornam jamais um homem maldoso, mas um homem maldoso pratica más ações.

[17] Logo, a pessoa deve ser sempre boa e justa, antes de qualquer boa ação, e boas ações acompanham e provêm da pessoa justa e boa. Como diz Cristo: Uma árvore má não produz bons frutos. Uma árvore boa não produz maus frutos […] A partir daí se chega à conclusão de que um cristão já não vive em si mesmo, mas em Cristo e no seu próximo: em Cristo, mediante a fé; no próximo, mediante o amor. Pela fé ele se eleva acima de si mesmo em Deus, por amor ele desce de Deus abaixo de si mesmo, permanecendo, contudo, sempre em Deus e no amor divino; justamente como diz Cristo: Vereis os céus abertos e os anjos subirem e descerem sobre o Filho do homem. Pois esta é verdadeira liberdade espiritual cristã, que liberta o coração de todos os pecados, das leis e mandamentos, que ultrapassa qualquer outra liberdade, como o céu a terra. Que Deus nos conceda bem entendê-la e conserv
á-la. Amém!

lutero 2

LUTERO, Martinho [1483-1546]. Do servo arbítrio [1525]

[1] Uma vez demonstrado que a nossa salvação depende, muito além das nossas forças e das nossas decisões, unicamente da ação de Deus, como espero provar irrefutavelmente no decorrer da polêmica, não resulta daí claramente que, enquanto Deus não está presente em nós com a sua ação, tudo o que fazemos é mal e necessariamente nós praticamos ações que não têm valor para a salvação? E que não somos nós, mas unicamente Deus que opera a salvação em nós, e que, antes da sua intervenção, não fazemos nada que tenha valor salvífico, queiramos ou não…?

[2] Isso significa que, se o homem não tem o espírito de Deus, certamente não faz o mal contra a própria vontade e à força, como que arrastado pelo pescoço, semelhante a um ladrão ou um bandido que seja obrigado contra sua vontade a cumprir uma pena, mas o faz espontaneamente e por sua vontade deliberada.

[3] Além disso, com as próprias forças, ele não pode abandonar, constranger ou mudar essa liberdade ou vontade de fazer, e continua a querer e apreciar o mal; e, mesmo se exteriormente é forçado a agir diferentemente, a vontade interior mantém-se antagônica e irritada contra quem a constrange ou contraria, ao passo que, se pudesse transformar-se, não se irritaria e de bom grado atenderia àquela força exterior.

[4] É simplesmente isso o que entendemos por necessidade – ou seja, o fato de que a vontade não pode ser transformada e voltada em outra direção, mas antes, quando contrariada, é estimulada ainda mais a querer, como demonstra a sua irritação. O que não aconteceria, se ela fosse livre ou tivesse o livre-arbítrio…

[5] Em sentido inverso, quando Deus atua em nós, a vontade, transformada e amorosamente inspirada pelo Espírito de Deus, atua e quer por puro prazer, simpatia e espontaneidade, não mais constrangida, não podendo mais ser transformada por nenhum adversário em outra direção, e não podendo ser vencida ou contida nem mesmo pelas portas do inferno, persevera em querer, apreciar e amar o bem…

[6] Em suma, se nós estamos sob o domínio do deus deste mundo, sem o socorro e o Espírito do Deus verdadeiro, somos mantidos prisioneiros do seu querer, como diz Paulo a Timóteo, pois não podemos querer senão o que ele quer. Porque ele, Satanás, é aquele forte homem armado, que vigia o átrio da sua casa de modo a manter submetidos aqueles a quem possui para que não suscitem nenhuma rebelião ou qualquer sentimento que lhe seja contrário; de outra forma não poderia subsistir aquele reino de Satanás, que Cristo afirma subsistir.

[7] Desse modo, nós fazemos, de bom grado, da vontade de Satanás a nossa vontade, que certamente não seria vontade se fosse constrangida; a coação é muito mais uma não-vontade. Mas, se alguém mais forte, vencido Satanás, nos leva embora como sua presa, somos servos novamente, mas para o Espírito, servos e prisioneiros do vencedor (e, então, trata-se de uma liberdade régia), de tal modo que queremos e fazemos de boa vontade aquilo que Ele, o Vencedor, quer.

[8] Assim, a vontade humana é colocada entre os dois como um jumento, que, se montado por Deus, quer ir e vai aonde Deus quer, como diz o Salmo: Eu me tornei como um jumento e estou sempre contigo; se, ao contrário, for Satanás a montá-lo, então quer ir e vai aonde Satanás quer, e não é sua a faculdade de correr e buscar um ou outro cavaleiro, mas os dois cavaleiros disputam entre si para tê-lo e possuí-lo…

[9] Daí resulta que o livre-arbítrio, sem a graça de Deus, não é absolutamente livre, mas eternamente prisioneiro e escravo do mal, não podendo por si só se voltar para o bem.

[10] Temos então que o livre-arbítrio é um atributo divino, que pertence tão-somente à majestade divina, a qual pode e faz tudo o que quer no céu e na terra. E, se fosse conferido aos homens, seria como conferir a eles a própria divindade, o que seria o mais grave sacrilégio possível.

[11] Portanto, os teólogos deveriam abster-se desse termo ao falar das capacidades humanas e reservá-lo a Deus; deveriam eliminá-lo da boca e dos discursos dos homens e, como nome sagrado e venerável, atribuí-lo a Deus, a quem pertence.

[12] E, se os teólogos quisessem mesmo atribuir uma certa força aos homens, deveriam tê-la definido com um vocábulo diferente de livre-arbítrio, tanto mais que se reconheceu e constatou como o povo se deixa enganar e desviar por esse vocábulo, uma vez que o interpreta de modo diferente de como o interpretam os teólogos. Livre-arbítrio é uma palavra imponente demais, grandiosa; e o povo considera que ela significa, pela natureza e extensão do termo, uma tal energia que pode dirigir-se livremente a Deus ou a Satanás, sem se deixar submeter a nenhum deles.

erasmo 2

ERASMO DE ROTTERDAM, Desidério [1466-1536]. Sobre o livre-arbítrio [1524]

[1] Atenhamo-nos à solução intermediária: existem, sim, obras boas, mesmo que imperfeitas, e das quais o homem pode valer-se sem fazer delas motivo para ensoberbecer-se; existe, sim, algum merecimento, mas é preciso reconhecer que, se foi conquistado, isso se deve a Deus. Quem sabe fazer um exame de consciência terá de abdicar de qualquer pretensão de arrogância ao dar-se conta do quanto a vida humana está cheia de fraquezas, vícios e delitos, mas não iremos tão longe a ponto de dizer que o homem, mesmo se justificado, não é mais que um cúmulo de pecados, quando o próprio Cristo nos fala de um novo nascimento e Paulo, de uma nova criatura.

[2] Mas por que conceder um espaço ao livre-arbítrio? Para ter algo a imputar justamente aos ímpios que voluntariamente se desviaram, escondendo-se da graça divina, para afastar de Deus qualquer acusação caluniosa de crueldade ou injustiça, para afastar de nós o desespero ou a presunção, para impulsionar-nos em direção ao empenho.

[3] Essas são as razões que levaram quase todos os autores a admitir o livre-arbítrio; mas o livre-arbítrio continuaria ineficaz sem a contínua ajuda da graça de Deus, que é exatamente o que nos impede qualquer forma de orgulho.

[4] Mas ainda se poderá dizer: para que serve o livre-arbítrio, se ele nada pode fazer sozinho? Responderei: para que serviria o homem, se Deus fizesse com ele como faz o oleiro com a argila, ou se Deus procedesse com ele da mesma forma que procede com uma pedrinha?

erasmo 1

ERASMO DE ROTTERDAM, Desidério [1466-1536]. Elogio da loucura [1509]

[1] O que quer que os mortais geralmente digam de mim, e não ignoro quanta má fama tem a loucura entre os mais loucos, todavia, eu digo, eu sozinho acalmo com a minha influência homens e deuses. E a prova mais convincente é que logo que aqui cheguei, diante dessa numerosa assembléia, todos os rostos imediatamente se iluminaram de nova e insólita alegria, e logo as vossas frontes se desanuviaram, aplaudindo com um sorriso de tão encantadora alegria, que todos os presentes que aqui contemplo me parecem bêbados como os deuses de Homero… quando antes estáveis sentados, tristes e preocupados, como se tivésseis saído há pouco do antro de Trofônio [filho de Apolo].

[2] E como acontece quando o Sol mostra à Terra o seu belo rosto dourado, ou como depois de um duro inverno, de novo, na primavera, o zéfiro sopra a sua suave carícia, num átimo tudo muda de aspecto e assume nova cor, e como uma nova juventude renasce; do mesmo modo vós, ao ver-me, ganhastes imediatamente outro aspecto. O que grandes oradores podem a custo conseguir, com longos discursos longamente meditados, eu obtive num instante, somente com a minha presença: mandastes embora o tormento das preocupações…

[3] O próprio Cristo, que é a sabedoria do Pai, de certa maneira se fez estulto ele mesmo para vir em socorro à loucura humana, quando, assumindo a natureza humana, apresentou-se como homem; do mesmo modo que se fez pecado, para nos redimir do pecado.

[4] E não quis nos redimir senão com a loucura da cruz, valendo-se de apóstolos idiotas e obtusos aos quais deliberadamente prescreveu a insipiência, afastando-os da sabedoria, chamando-os a seguir o exemplo das crianças, dos lírios, da mostarda e dos passarinhos (todas elas, coisas estúpidas e desprovidas de inteligência, que vivem somente graças à orientação da natureza, sem artifícios, sem ansiedade)…

[5] Mas, para não prosseguir ao infinito e para oferecer-vos a essência da coisa, na minha opinião toda religião cristã tem uma espécie de parentesco com a loucura e absolutamente não se dá bem com a sabedoria. Quereis provas? Observai, em primeiro lugar, como aqueles que mais encontram prazer nas funções sagradas e em todas as coisas da religião, que se acostam sempre aos altares, são jovens, velhos, mulheres, ignorantes. E a mãe natureza que os impele a isso, é sabido; e nada mais.

[6] Em segundo lugar, vede todos aqueles primeiros fundadores da religião; eles abraçavam uma vida de extraordinária simplicidade e eram inimigos irreconciliáveis da cultura.

[7] Finalmente, não existem loucos mais desvairados do que aqueles que alguma vez se deixaram tomar pelo ardor da piedade cristã: dissipando os seus bens, sem se preocupar com as ofensas, deixando-se enganar, não distinguindo amigos de inimigos, tendo horror ao prazer, alimentando-se de jejuns, vigílias, lágrimas, labutas e injúrias, desinteressados da vida, não ansiando senão a morte; resumindo, tomando-se, parece, absolutamente insensíveis ao senso comum, como se o seu espírito estivesse noutro lugar, e não dentro do corpo. E o que é isso senão loucura? Não é de surpreender que os apóstolos parecessem bêbados de vinho doce, ou que São Paulo tenha parecido louco ao juiz Festo [Porcio Festo]…

[8] Mas, como já vesti a pele do leão, vamos em frente, mostremos também que toda a sonhada felicidade dos Cristãos, aquela felicidade a que aspiram com tanto sofrimento, não é mais, perdoai-me a palavra e considerai somente a coisa em si, que uma espécie de loucura e desvario. Em primeiro lugar, Cristãos e Platônicos estão quase de acordo que a alma humana está imersa no corpo, e a este ligada por uma cadeia, a rusticidade do corpo impedindo-lhe de contemplar o real e de usufruir dele. É por isso que Platão define a filosofia como contemplação da morte, como aquela que afasta a mente das coisas visíveis e corpóreas, exatamente como faz a morte.

[9] Portanto, enquanto a alma utiliza retamente os órgãos corporais é considerada sã; mas quando, rompidos os vínculos, tenta afirmar-se em plena liberdade, pensando quase em fugir daquele cárcere, então chamam a isso insanidade, loucura. Se isso ocorre por doença ou por defeito orgânico, então é por todos considerada loucura verdadeira.

[10] Todavia, vemos que homens dessa espécie também predizem o futuro, sabem línguas e ciências nunca aprendidas anteriormente; enfim, mostram possuir em si algo de divino. Não há dúvida de que isso se dá porque a mente, um pouco mais livre do contato com o corpo, começa a revelar a sua força natural. Creio que é pelo mesmo motivo que algo semelhante costuma acontecer àquele que, aflito na agonia da morte, fala, como que inspirado, de coisas prodigiosas.

[11] Se, no entanto, isso se manifesta pelo ardor religioso, talvez não se trate do mesmo gênero de loucura, mas de outro, tão próximo do precedente que grande parte dos homens julga nada mais, nada menos, que loucura, especialmente quando o modo de vida de um punhado de desgraçados diverge totalmente do resto do gênero humano.

[12] A esses, portanto, pode suceder na realidade aquilo que, segundo a fantasia de Platão, acontecia aos prisioneiros da caverna (os quais viam somente as sombras das coisas) e àquele fugitivo que, ao retomar à caverna, anunciou aos companheiros ter visto as coisas na sua realidade e que eles se enganavam redondamente acreditando que nada mais existisse além daquelas pobres sombras. Já ciente, ele efetivamente lamenta e deplora a loucura dos outros, por estarem tomados por tamanha ilusão; os outros por sua vez riem dele como de um louco que desatina e o expulsam dali.

[13] Do mesmo modo, a multidão: quanto mais corpóreas são as coisas, tanto mais arregala os olhos, acreditando que nada além possa existir; ao passo que os espíritos religiosos tanto mais as negligenciam quanto mais próximas do corpo estiverem, para se deixar arrebatar completamente na contemplação das coisas invisíveis.

[14] Os homens do mundo, portanto, colocam em primeiro lugar as riquezas e logo a seguir as comodidades corporais; deixam em último lugar a alma, em cuja existência, aliás, a maioria nem mesmo acredita, uma vez que não pode ser vista com os olhos. Ao contrário, as pessoas piedosas voltam-se, em primeiro lugar, com todas as suas forças, para Deus, que é o mais simples dos seres, e, secundariamente, cuidam do que mais se aproxima de Deus, ou seja, a alma; assim, negligenciam o corpo e de coração desprezam o dinheiro, fugindo dele por ser imundo. Ou, se forem obrigadas a tratar de alguma coisa do mesmo tipo, fazem-no de má vontade e com desdém: têm e é como se não tivessem, possuem e é como se não possuíssem.

[15] Existe entre essas duas categorias de homens, mesmo nos detalhes, uma considerável diferença, uma gradação. Para começar, apesar das várias faculdades humanas terem todas um vínculo com o corpo, existem algumas mais materiais, como o tato, a audição, a visão, o olfato, o paladar, e outras mais afastadas, como a memória, a inteligência, a vontade. E a alma, quando se empenha, floresce.

[16] Nos homens religiosos, posto que todo o seu empenho está voltado àquilo que mais se afasta das faculdades materiais, estas se enfraquecem, embotam-se. As pessoas comuns, ao contrário, são extraordinariamente vivas, ao passo que as outras, aquelas espirituais, têm pouco ou nenhum desenvolvimento. Daí resulta o que se diz de alguns santos, de terem bebido óleo em lugar de vinho.

[17] E também no campo das paixões existem aquelas que têm maior conexão com a materialidade do corpo: o amor carnal, a gula, a ira, a soberba e a inveja. Contra essas, as pessoas piedosas travam uma guerra sem quartel, enquanto o povo, ao contrário, acha que sem as mesmas a vida não é vida.

[18] Existem ainda sentimentos intermediários e quase naturais, como o amor à pátria, o afeto pelos filhos, pelos pais, pelos amigos, aos quais o povo confere considerável importância. Mas mesmo estes sentimentos os outros estudam arrancar-lhes do coração, a não ser quando alcançam aquela parte mais elevada da alma; de modo que não amam o pai enquanto pai (de fato, o que este gerou senão o corpo?, se bem que mesmo este se deva a Deus, que é o genitor de tudo), mas enquanto homem bom, no qual resplandece a imagem daquela inteligência suprema, que chamam de único sumo bem, e fora do qual, como eles sustentam, não existe nada que mereça ser amado ou desejado.

[19] Dentro desse mesmo critério se avaliam todas as outras competências da vida, de modo que o que é visível, se não deve ser totalmente desprezado, deve ser levado em muito menor conta do que as coisas que não se podem ver.

[20] Afirmam ainda que mesmo nos sacramentos e nas próprias práticas piedosas existe espírito e existe corpo. No jejum, por exemplo, para eles não é muito importante se alguém se abstém das carnes e das refeições (o que significa jejum para o povo), mas que ao mesmo tempo modere também as suas paixões, deixe-se levar menos que de costume pela ira, assim como pela soberba, para que o espírito, já aliviado do peso do corpo, se eleve para usufruir com alegria dos bens celestes.

[21] O mesmo pode-se dizer da eucaristia; mesmo que não se deva desprezar a exterioridade do rito, este é de pouca utilidade, aliás, é perigoso, se não for acrescido do elemento espiritual, vale dizer, daquilo que está sendo representado por meio daqueles sinais visíveis. O que está sendo representado é a morte de Jesus, que deve ser imitada pelos homens, eliminando e quase sepultando as paixões do corpo, e assim ressurgir para uma nova vida e, em comunhão com todos, fazer-se um só com Ele. Esta é a ação, este é o pensamento de quem é piedoso.

[22] O povo, ao contrário, ilude-se que o sacrifício consiste apenas em se aproximar dos altares e escutar o rumor das vozes, desviando os olhos para outras cerimônias a ele atinentes. O homem religioso, no entanto, durante toda a vida, e não somente nessas circunstâncias por mim apresentadas como exemplo, foge de tudo o que se relaciona com o corpo, para deixar-se arrebatar pelo eterno, o invisível, o espiritual. E assim, dado que entre essas duas espécies de homens é grande o desacordo sob todos os aspectos, resulta que uns pareçam loucos aos outros. Mas essa palavra se aplica melhor aos homens religiosos que à gente comum, segundo o meu modo de ver.

homem-camaleão

O narrativismo evolucionário e o camaleão

Desconstruindo o “fundamentalismo darwinista”: uma defesa do livre-arbítrio humano

por SERGIO DANILO PENA*

“Il n’y a pas de hors-texte”
Jacques Derrida

Esta citação do famoso filósofo francês (1930-2004) é geralmente traduzida como “não há nada além do texto” e interpretada no sentido de que Tudo (com T maiúsculo para não deixar dúvidas) é de alguma maneira um texto, uma estória. Conseqüentemente, tudo, até a narrativa de vida de uma pessoa, pode ser submetido às técnicas de desconstrução textual. Que o diga Howard Crick, personagem de Stranger than fiction (“Mais estranho que a ficção”), original e brilhante filme do diretor Marc Forster que já está disponível em DVD no Brasil. Para entender se sua vida é uma comédia ou uma tragédia, Howard tem de recorrer à ajuda de um crítico literário e não de uma psicanalista.

Por sua habilidade de continuamente adaptar suas cores ao meio ambiente, o camaleão é emblemático da capacidade de autodefinição e recriação constante.

No clássico e brilhante artigo “The spandrels of San Marco and the panglossian paradigm” (‘Os tímpanos de São Marcos e o paradigma panglossiano’; acesse o texto aqui ) meus ídolos Stephen Jay Gould e Richard Lewontin desconstruíram impiedosamente as estorinhas “panglossianas” evolucionárias inventadas e divulgadas por aqueles que Gould chamou de “ darwinian fundamentalists ” (uma boa tradução talvez seja “darwinistas evangélicos”). Tratamos disso em uma coluna há alguns meses. De fato, muitas narrativas evolucionárias são fáceis de se desconstruir porque em geral o besteirol é ululantemente óbvio.

Por exemplo, em recente artigo do psicólogo Bruno Laeng e seus colaboradores da Universidade de Tromso (Noruega) no periódico Behavioral Ecology and Sociobiology , os autores afirmam que homens de olhos azuis acham as mulheres de olhos azuis mais atraentes do que mulheres de olhos castanhos. A explicação oferecida foi que, como olhos azuis seriam putativamente recessivos com relação a olhos castanhos, essa preferência refletiria uma adaptação inconsciente para detecção de paternidade (a idéia sendo que, se sua esposa o traísse com um homem de olhos castanhos e engravidasse, a criança teria olhos castanhos, revelando a infidelidade). Não sei o que vocês leitores acham disso, mas pessoalmente considero um disparate!!!

Adicionalmente, vejam as estórias da carochinha que a revista Veja publicou na reportagem de capa sobre Darwin em 9 de maio último. Uma delas, sobre um personagem de Shakespeare, afirma: “Em Otelo , enlouquecido pelo ciúme, o mouro mata a sua amada, Desdêmona. Como o personagem, o macho é, na maioria das espécies, sexualmente competitivo. Isto porque a traição da parceira pode levá-lo a criar o filho de outro.” Que tolice!

Examinemos também afirmativas contidas em outro artigo de capa sobre Darwin, desta vez na revista Superinteressante de junho de 2007: “O desejo de variedade sexual nos homens é insaciável. Quanto maior for o número de mulheres com quem um homem tiver relações, mais filhos ele terá [pelo menos é o que ‘pensam’ seus genes] ” ou, de maneira ainda mais radical: “Sendo assim, o que o neodarwinismo diz é: você não ’ama‘ seus filhos e irmãos. São seus genes que vêem neles maneiras de se perpetuar”. Pobre Darwin!

Escravos do genoma
Tal narrativismo evolucionário está intimamente relacionado com a idéia ingênua de que todos os traços comportamentais da humanidade possam ser explicados por nossos genomas. E, pior ainda, que as características fundamentais da vida psicológica e social humana sejam meros instrumentos a serviço do cego e maquiavélico instinto competitivo dos genes. Trocando em miúdos, o que o darwinismo fundamentalista propõe é que somos escravos do nosso genoma e marionetes dos nossos genes!

O chimpanzé (A), o gorila (B) e o gibão (C) são diferentes espécies de primatas do Velho Mundo com comportamento sexual e estrutura reprodutiva completamente diferentes.

Uma das manias irritantes dos psicólogos evolutivos e sociobiólogos contadores de estorinhas evolucionárias é tentar explicar nossa conduta com base na observação do comportamento de primatas não-humanos. Um dos argumentos usados para justificar esta estratégia é que eles são os nossos “parentes” evolucionários mais próximos, especialmente os primatas do Velho Mundo. O público aceita isso e a imprensa reforça essa visão.

Um bom exemplo é uma recente edição do programa de televisão Globo Repórter (4 de maio de 2007) que teve como tema as diferenças sociais entre homens e mulheres. Uma parte considerável do programa foi dedicada a mostrar o comportamento afetivo de casais de primatas em uma reserva brasileira (nesse caso eram primatas do Novo Mundo, evolucionariamente bem mais distantes de nós). Qual seria o intuito dos produtores do programa? Mostrar que sexualmente nos comportamos como os primatas?

E como realmente se comportam sexualmente os primatas não-humanos? Uma análise cuidadosa constatará que cada espécie se conduz de maneira completamente diferente das demais. Por exemplo, chimpanzés machos e fêmeas são poligâmicos; gorilas machos são poligâmicos enquanto as fêmeas são monogâmicas e gibões machos e fêmeas são todos estritamente monogâmicos. Assim, pela escolha criteriosa da espécie de primata com a qual vamos comparar a humanidade, podemos “provar” que qualquer comportamento sexual que estiver no cardápio é “evolucionariamente determinado”.

Metafísica genômica
O bioeticista suíço Alex Mauron define a “metafísica genômica” como sendo a crença no genoma como núcleo essencial do organismo, determinante de sua individualidade e de suas particularidades e também estabelecendo o seu pertencimento a uma determinada espécie. Nessa visão genomocêntrica, nosso conjunto de genes constitui a parte mais essencial do ser humano e determina algo que tem sido chamado de “natureza humana”, à qual estaríamos inexoravelmente atrelados. Assim, o genoma se torna o equivalente secular da alma.

Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494), filósofo renascentista italiano que escreveu o “Discurso sobre a dignidade do homem”.

Contrastem a pobreza desse paradigma determinista com a beleza do manifesto humanista do filósofo italiano Pico della Mirandola (1463-1494) que ainda no Renascimento atribuiu a Deus, em seu “Discurso sobre a dignidade do homem”, as seguintes palavras:

“Não te dei, ó Adão, nem rosto, nem um lugar que te seja próprio, nem qualquer dom particular, para que teu rosto, teu lugar e teus dons, os desejes, os conquistes e sejas tu mesmo a obtê-los. Existem na natureza outras espécies que obedecem a leis por mim estabelecidas. Mas tu, que
não conheces qualquer limite, só mercê do teu arbítrio, em cujas mãos te coloquei, te defines a ti próprio … Ó suma liberdade de Deus pai, ó suma e admirável felicidade do homem, ao qual é concedido obter o que deseja, ser aquilo que quer … Quem não admirará este camaleão?”

Resumo da ópera: não há “natureza humana” fixa e pré-estabelecida. Nós criamos nossa própria natureza e história no processo de viver. Temos livre-arbítrio e infinitas possibilidades de construir nossos próprios destinos. Como escreveu o peruano Mario Vargas-Llosa em recente resenha :” A identidade (humana) não é uma condição metafísica, e sim uma realidade viva e portanto em permanente processo de recriação”.

A aposta de Pascal e a aposta de Pena
O grande pensador francês Blaise Pascal (1623-1662) propôs, na famosa “aposta de Pascal”, que mesmo quem tem dúvidas quanto à existência de Deus deve agir como se ela fosse um fato. Afinal, se Deus não existir, tanto faz acreditarmos ou não. Mas, se Deus existir, é melhor que acreditemos nele(a) para conquistar o reino dos céus.

Pois bem, eu gostaria de parafrasear Pascal e propor agora a “aposta de Pena”. Mesmo que alguns possam ainda ter dúvidas quanto ao fato de o ser humano ter infinita liberdade para se “criar”, se inventar, se definir e ser aquilo que quiser, devemos agir como se isso fosse um fato. Meu conselho é: aposte no camaleão!

*Professor Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais [Ciência Hoje 8/6/07]