Mahatma Gandhi (1869-1948)

Celebra-se hoje, 30-1, o 66. aniversário de morte de um dos maiores homens de toda a história, Mohandas Karamchand Gandhi (Porbandar, 2 de outubro de 1869 — Nova Déli, 30 de janeiro de 1948), mais conhecido popularmente por Mahatma Gandhi.
Foi o idealizador e fundador do moderno Estado indiano e um dos maiores defensores do princípio de satyagraha (“caminho da verdade” ou “busca da verdade”) como forma não violenta de transformação. O princípio da não violência também inspirou vários ativistas democráticos e antirracistas, como Martin Luther King Jr. e Nelson Mandela.
Gandhi afirmava com frequência a simplicidade de seus valores, derivados da tradição hindu, especialmente do Bhagavad Gita: verdade (satya) e não violência (ahimsa). Em sua autobiografia,The Story of my Experiments with Truth, Gandhi explica sua filosofia como um modo de vida.
Deve-se esclarecer que satyagraha, um dos principais ensinamentos de Gandhi, designa uma forma não violenta de protesto, que não deve ser confundida com a passividade; trata-se de uma forma de ativismo, que muitas vezes implica a desobediência civil.
Estritamente vegetariano, escreveu livros sobre o vegetarianismo enquanto estudava direito em Londres. Ser vegetariano fazia parte das tradições hindus e jainistas. Gandhi experimentou diversos tipos de alimentação e concluiu que uma dieta deve ser suficiente apenas para satisfazer as necessidades do corpo humano. Jejuava muito, e usava o jejum frequentemente como estratégia política.
Gandhi renunciou ao sexo quando tinha 36 anos de idade e ainda era casado, uma decisão que foi profundamente influenciada pela crença hindu do brahmacharya, pureza espiritual e prática, largamente associada ao celibato. Também passava um dia da semana em silêncio. Abster-se de falar, segundo acreditava, dava-lhe paz interior. A mudez tinha origens nas crenças do mouna e do shanti. Nesses dias, ele se comunicava com os outros apenas escrevendo.
O título de Mahatma (do sânscrito mahatma, “grande alma”), atribuído a Gandhi, representa o reconhecimento por seu papel como líder espiritual.
Depois de retornar à Índia de sua bem-sucedida carreira de advogado na África do Sul, ele deixou de usar as roupas que representavam riqueza e sucesso. Passou a usar um tipo de roupa que costumava ser usada pelos mais pobres entre os indianos. Promovia o uso de roupas feitas em casas (khadi).
Gandhi e seus seguidores fabricavam artesanalmente os tecidos da própria roupa e usavam esses tecidos em suas vestes; também incentivava os outros a fazer isso, o que representava uma ameaça ao negócio britânico – apesar de os indianos, em sua maioria, estarem desempregados, em grande parte pela decadência da indústria têxtil, eles eram forçados a comprar roupas feitas em indústrias inglesas. O tear manual, símbolo desse ato de afirmação, viria a ser incorporado à bandeira do Congresso Nacional Indiano e à própria bandeira indiana.
Também era contra o sistema convencional de educação em escolas, acreditando que as crianças aprenderiam mais com seus pais e com a sociedade.
Sobre Gandhi, Albert Einstein escreveu que “as gerações vindouras terão dificuldade em acreditar que um homem como este realmente existiu e caminhou sobre a Terra”.

um papa astucioso

Papa Bento 16 conhece bem a psicologia de um ateu, com quem dialoga em sua última encíclica

por MARCELO COELHO

DISCORDO COM todas as forças da minha razão das doutrinas do Vaticano. Mas uma coisa não posso negar: Bento 16 é um intelectual respeitável, que fala uma linguagem compreensível para os que discordam dele.

Leio sua última encíclica, disponível na internet (www.vatican.va), e intitulada Spe Salvi. É o ponto de partida para uma bela e astuta ruminação em torno de temas que qualquer pessoa irreligiosa haverá de achar interessantes.

Bento 16 faz uma pergunta dramática: será que queremos, de fato, uma vida eterna? Ele sabe que ninguém tem vontade de morrer. Mas uma vida eterna… Não seria uma chatice monumental?

Lendo esses primeiros parágrafos, vi que o papa conhece bem a psicologia de um ateu. É com um ateu, na verdade, que ele dialoga.

Sei que você despreza a vida eterna. Talvez você pense que será uma sucessão infinita de beatitudes no tempo. A velha imagem do sujeito tocando harpa num céu azul.

Mas pense em outro tipo de experiência: aqueles momentos de plenitude que, quando apaixonados ou felizes, sentimos ao contemplar o mar, o céu, uma criança dormindo. Imagine-se esse instante perfeito, fora do tempo, do tempo humano; é isso a salvação.
Pode-se acreditar ou não na promessa. Mas é mais sedutora do que uma infinitude de horas num paraíso desinteressante.

A encíclica de Ratzinger prossegue. Acreditar na promessa de salvação não é simplesmente achar que ela vai acontecer. A própria crença já muda as coisas. Não se trata de ter fé numa simples “informação”, transmitida pelo Evangelho, mas de engajar-se numa “performação”.

A raposa do Vaticano utiliza, nesse momento, os conceitos do filósofo Austin (1911-1960). Austin distingue diferentes “atos de linguagem”: há o informativo, pelo qual alguém diz algo a respeito do mundo, e o “performativo”.

Na categoria dos atos “performativos” estão frases que, como diz seu livro mais famoso, “fazem coisas com palavras”. Por exemplo: “Está encerrada a sessão”. “Eu os declaro marido e mulher”. Uma vez pronunciada a frase, algo real aconteceu.

Pois bem, o Evangelho, segundo Ratzinger, também é “performativo”. Afirmar a salvação da alma também “faz coisas” com uma frase. Aí começo a discordar. Um “enunciado performativo” só funciona quando a autoridade que o enuncia é reconhecida por todos. Se o prefeito Kassab achar que é o novo Messias e declarar que todos os paulistanos estão salvos, tenho o direito de considerar que seu “enunciado performativo” não passa de um delírio.

Mas é claro que o papa está convicto do poder performativo da palavra de Cristo. E não está totalmente errado nisso: os Evangelhos têm um poder de transformação maior do que qualquer discurso de Kassab.

Mas não se trata, para Ratzinger, de uma competição entre autoridades de diferente estatura. O “enunciado performativo” envolve, diz o papa, mais do que uma convicção individual. E nisso ele está certo: trata-se de um vasto acordo coletivo.

Boa deixa para o papa condenar o protestantismo. Reduzindo a questão da fé a uma questão de persuasão pessoal, os protestantes se tornam incapazes de aprender o conteúdo transformador da fé cristã.

Trata-se, diz o papa, de uma distorção moderna. A partir do século 16, começou-se a considerar o programa do cristianismo como “uma busca egoísta da salvação que se recusa a servir os outros”.

Qual a raiz dessa distorção? Ratzinger agora mostra suas garras. A raiz está na idéia cientificista de Francis Bacon, retomada por Kant e Marx, de que o homem poderá dominar a natureza. E com isso poderá refazer, em novos termos, uma aliança com Deus, livre do pecado original, confiante na razão.

Falta espaço para explicar o resto. A encíclica do papa merece ser lida. Do meu ponto de vista, nada se sustenta. Ratzinger confunde razão com ciência e liberdade com pecado.

Posso dar exemplos de liberdade que não se voltam para o mal (este é um dos preconceitos mais arraigados no pensamento conservador, que, em nome da liberdade, compactua com o mal), e posso acreditar que o ser humano, apesar de falível, tem na razão de que dispõe um instrumento melhor do que a fé. Mas o assunto é longo, e a encíclica de Ratzinger não é a pior leitura que se possa fazer às vésperas de 2008. [FOLHA 26/12/07]

a dança das cadeiras

por JOÃO PEREIRA COUTINHO

Todos os anos, quando dezembro caminha para o fim, eu penso apenas no princípio. Como acomodar em casa os livros e as revistas que virão com 2008? Só existe um caminho: pela limpeza metódica dos livros e das revistas que ficaram de 2007.

Dito e feito: em cinco horas de labuta, acumulo cem livros, talvez mais, que rumarão para a biblioteca do bairro, para estantes de amigos, para o caixote do lixo. E depois trato das revistas, enfiando em sacos plásticos quilos e quilos de inutilidade impressa e salvando apenas uma mão cheia de artigos memoráveis. Quando anoitece, a casa está mais vazia e a porta de entrada mais cheia. Que venha o novo ano!

Mas então encontro entre os despojos de 2007 um soldado perdido de 2003. Um jornal, um anônimo jornal do dia 4 de setembro daquele ano, a mendigar leitura e atenção. Sento-me no sofá, vou folheando as páginas. Banalidades. Em Portugal, os partidos políticos discutiam ainda a ausência de armas de destruição maciça no Iraque. Na China, um tufão fizera 32 vítimas. Na Rússia, novos atentados em trem da capital. E a multinacional Avon, em enquete mundial, concluía que as mulheres brasileiras são as mais preocupadas com a estética. Valerá a pena guardar o jornal do dia 4, com as notícias do dia anterior?

Sim, talvez valha. Sobretudo quando o meu pai morreu no dia anterior. Dia 3 de setembro, recordo agora. A lembrança instala-se no momento em que fecho as páginas do jornal. E eu pergunto por que estranho motivo o guardei. Mistério. Talvez porque guardo mais do que seria necessário, ou desejável. Ou talvez para ilustrar, em todos os sentidos possíveis da palavra, como os dramas pessoais valem pouco quando o mundo inteiro avança na sua perfeita normalidade. Indiferente a nós e à nossa patética existência. Armas no Iraque. Tufões na China. Atentados na Rússia. Beleza no Brasil.

É a melhor explicação. Porque não é apenas o mundo que avança. Apesar de tudo, nós avançamos com ele e as perdas serão compensadas pelos presentes que virão. Não, não falo dos presentes que se embrulham no papel da época e se oferecem como manda a tradição natalícia. Falo dos outros, que se reúnem à mesa. Os sobreviventes. E que todos os anos, quando a noite de Natal se aproxima, sentem a ansiedade crescente de encontrar mais uma cadeira vazia.

Mas será que existem mesmo cadeiras vazias? Desde 2003 que a ansiedade regressa todos os anos. E, todos os anos, quando a noite chega e a família se reúne, eu posso jurar que encontro no rosto dos que ficaram o reflexo dos que partiram. Os gestos do meu pai. As expressões dele. As histórias e as memórias que eu conto, que eu escuto, que eu volto a contar. E existe sempre um comediante de serviço que aponta para a minha pobre cabeça e proclama, provavelmente embalado pelo álcool, ou pela nostalgia, que o cabelo do cronista, como o cabelo do meu pai, também me está a abandonar.

É justo assim. Não falo do cabelo, falo de fim. E falo de vós, leitores, a quem desejo um Natal feliz. Brindemos juntos em nome dos ausentes. Mas brindemos, sobretudo, em nome dos presentes. São eles que um dia brindarão por nós. [pensata 24/12/07]

Natal na Ilha de Nanja

por CECÍLIA MEIRELES

Na Ilha do Nanja, o Natal continua a ser maravilhoso. Lá ninguém celebra o Natal como o aniversário do Menino Jesus, mas sim como o verdadeiro dia do seu nascimento. Todos os anos o Menino Jesus nasce, naquela data, como nascem no horizonte, todos os dias e todas as noites, o sol e a lua e as estrelas e os planetas. Na Ilha do Nanja, as pessoas levam o ano inteiro esperando pela chegada do Natal. Sofrem doenças, necessidades, desgostos como se andassem sob uma chuva de flores, porque o Natal chega: e, com ele, a esperança, o consolo, a certeza do Bem, da Justiça, do Amor. Na Ilha do Nanja, as pessoas acreditam nessas palavras que antigamente se denominavam “substantivos próprios” e se escreviam com letras maiúsculas. Lá, elas continuam a ser denominadas e escritas assim.

Na Ilha do Nanja, pelo Natal, todos vestem uma roupinha nova — mas uma roupinha barata, pois é gente pobre — apenas pelo decoro de participar de uma festa que eles acham ser a maior da humanidade. Além da roupinha nova, melhoram um pouco a janta, porque nós, humanos, quase sempre associamos à alegria da alma um certo bem-estar físico, geralmente representado por um pouco de doce e um pouco de vinho. Tudo, porém, moderadamente, pois essa gente da Ilha do Nanja é muito sóbria.

Durante o Natal, na Ilha do Nanja, ninguém ofende o seu vizinho — antes, todos se saúdam com grande cortesia, e uns dizem e outros respondem no mesmo tom celestial: “Boas Festas! Boas Festas!”

E ninguém, pede contribuições especiais, nem abonos nem presentes — mesmo porque se isso acontecesse, Jesus não nasceria. Como podia Jesus nascer num clima de tal sofreguidão? Ninguém pede nada. Mas todos dão qualquer coisa, uns mais, outros menos, porque todos se sentem felizes, e a felicidade não é pedir nem receber: a felicidade é dar. Pode-se dar uma flor, um pintinho, um caramujo, um peixe — trata-se de uma ilha, com praias e pescadores ! — uma cestinha de ovos, um queijo, um pote de mel… É como se a Ilha toda fosse um presepe. Há mesmo quem dê um carneirinho, um pombo, um verso! Foi lá que me ofereceram, certa vez, um raio de sol!

Na Ilha de Nanja, passa-se o ano inteiro com o coração repleto das alegrias do Natal. Essas alegrias só esmorecem um pouco pela Semana Santa, quando de repente se fica em dúvida sobre a vitória das Trevas e o fim de Deus. Mas logo rompe a Aleluia, vê-se a luz gloriosa do Céu brilhar de novo, e todos voltam para o seu trabalho a cantar, ainda com lágrimas nos olhos.

Na Ilha do Nanja é assim. Arvores de Natal não existem por lá. As crianças brincam com. pedrinhas, areia, formigas: não sabem que há pistolas, armas nucleares, bombas de 200 megatons. Se soubessem disso, choravam. Lá também ninguém lê histórias em quadrinhos. E tudo é muito mais maravilhoso, em sua ingenuidade. Os mortos vêm cantar com os vivos, nas grandes festas, porque Deus imortaliza, reúne, e faz deste mundo e de todos os outros uma coisa só.

É assim que se pensa na Ilha do Nanja, onde agora se festeja o Natal.

[Texto extraído do livro Quadrante 1 (Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1966, p. 169).]

messianismo

O credo petista converteu-se em um neosabbatianismo radical, alimentado por uma intelectualidade delirante que justifica o injustificável

por MARCELO O. DANTAS

EM MEADOS do século 17, ainda sob o impacto da expulsão dos sefarditas da península ibérica, muitos judeus passaram a ansiar pela vinda de um messias que pusesse termo aos sofrimentos do exílio, restaurando a autonomia política do povo de Israel. Movido por essa esperança, um obscuro estudioso da cabala, Sabbatai Zevi, deu início a sua pregação milenarista.

Homem de temperamento inconstante, Sabbatai logo se indispôs com os rabinos de Smyrna (atual Turquia), que o expulsaram da cidade. Após 17 anos de insucesso, o estranho místico estava prestes a desistir de tudo. Decidiu então ir a Jerusalém consultar-se com Nathan de Gaza, um jovem profeta. Foi quando teve revelada a natureza divina de sua missão. Ele (Sabbatai) era o tão aguardado messias.

A boa-nova não tardou a empolgar a diáspora judaica. Iniciava-se o ano de 1666, data prevista por alguns para o confronto do redentor (1) com a besta (666). Acompanhado por cortejo digno de um príncipe, o eleito de Iahweh rumou a Istambul, certo de que imporia sua autoridade sobre o sultão. Deu-se o oposto. Feito prisioneiro, Sabbatai esconjurou o martírio, convertendo-se ao islã. Seria o fim de qualquer empreitada sensata, não operasse o messianismo na freqüência do mito. Em lugar de causar perplexidade, a apostasia do messias passou a ser vista por seus adeptos como um “pecado santo”. Segundo Abraham Miguel Cardozo, um dos mais destacados teólogos do movimento, o ato paradoxal de Sabbatai Zevi fora um sacrifício voluntário.

Por meio desse mergulho no abismo, ele chegaria ao coração do mal e ali o liqüidaria por dentro, libertando as últimas partículas de luz aprisionadas nas esferas da impureza. Entre os adeptos do sabbatianismo, duas grandes correntes se formaram.

Os moderados acreditavam que somente a alma do messias seria capaz de resistir a um contato tão estreito com as forças do mal. Enquanto não ocorresse o retorno glorioso do ungido à verdadeira fé, o povo de Israel deveria observar os preceitos morais da ortodoxia rabínica, malgrado sua natureza imperfeita e transitória.

Em contraste, a ala radical passou a defender uma modalidade exacerbada de antinomismo: todos os adeptos deveriam imitar o exemplo do messias e descer às profundezas da escuridão. Segundo o sinistro Jacob Frank, somente por meio do pecado seria possível chegar à transcendência: o advento da era messiânica reclamava a superação definitiva da ética mosaica, fundada sobre a dicotomia opressiva dos conceitos de certo e errado, bem e mal.

Semelhante heresia nunca chegou a desaparecer por completo. Suprimidos os últimos remanescentes do movimento, a idéia sabbatiana continuou a existir, em estado latente, no mundo das eternas possibilidades. Até que veio ressurgir, com roupagem secular, no Brasil do mensalão.

Não é segredo que o PT se estruturou como agremiação messiânica. Durante mais de duas décadas, seus militantes se portaram como adeptos de uma seita guerreira destinada a libertar o povo brasileiro de cinco séculos de opressão. Eles eram os puros, os eleitos, os apóstolos do Partido Messias. Mais que uma fantasia revolucionária, sua mensagem anunciava ao país a aproximação do tempo do milagre, em que o mal seria vencido e os bons enfim reinariam.

A inconsistência dessa fábula foi posta em xeque com a chegada do partido ao poder e o abandono do discurso ético que pautara sua ascensão. Curiosamente, em lugar de aceitar o desafio da realidade como estímulo ao pensamento crítico, boa parte da militância optou pelo caminho esquivo da alienação mística. Importava, acima de tudo, preservar a fé na santidade do messias. O credo petista converteu-se, assim, em um neosabbatianismo radical, alimentado por uma intelectualidade delirante, especializada em justificar o injustificável.

Marilena Chaui revelou ao mundo a teleologia da corrupção; Paulo Betti defendeu o caráter soteriológico do pecado; e o solerte Wagner Tiso abriu mão de seu coração de estudante para encavalar o espírito pragmático de Jacob Frank. O pacto com o fisiologismo e a conversão à ortodoxia econômica passaram a ser tratados como pecados santos -alianças temporárias do messias apóstata com o dragão burguês destinadas a acelerar o tempo histórico e facilitar o advento da era escatológica. Nestes tempos messiânicos, até o maná foi reinventado.

“Eles estão chegando!”, anuncia-nos o senador Mercadante, enquanto nos bastidores salva o mandato do colega mercador. Hoje, os petistas aceitam tudo. Menos que alguém ouse pensar por conta própria. [FOLHA 23/12/07]

o Natal não é um delírio

“Deus está morto. Deus continua morto”? [A Gaia Ciência, Friedrich W. Nietzsche]

NÃO

por JOÃO HELIOFAR DE JESUS VILLAR

PARECE QUE nada está mais na moda do que falar mal de Deus.

O mundo assiste a um novo e estranho fenômeno: o ateísmo militante, evangelista. O que se vê não é apenas o discreto ceticismo inaugurado por David Hume ou o racionalismo que se levantou a partir do iluminismo na Europa. O ateísmo tornou-se militante, irado, e quer que Deus desapareça. Não se trata mais de uma filosófica declaração de que Deus está morto, mas de um imperativo de que Ele deve ser enterrado.

Talvez nunca se tenham dedicado, simultaneamente, tantas linhas para atacar e destruir a fé em geral e o cristianismo em particular. Em edições sucessivas, Richard Dawkins, Sam Harris, Christopher Hitchens e Daniel Dennett pregam agressivamente o evangelho ateísta, cuja luz consiste em esclarecer ao mundo que Deus não passa de uma invenção humana.

E nociva. Segundo o novo evangelho, a religião é incompatível com a ciência, obscurantista em sua essência, imoral e causadora das guerras e dos conflitos mais penosos vividos na experiência humana. Deus é um delírio, afirma Dawkins, e a religião envenena tudo, sustenta Hitchens. Intriga nisso tudo o silêncio, quase monástico, nas hostes cristãs. Essas acusações são irrespondíveis?

Tome-se a suposta incompatibilidade da fé em Deus com a ciência. Newton, Kepler, Lavoisier, Mendel, Galileu e tantos outros não eram cristãos? Todos conceberam a ciência a partir da idéia de que o universo foi criado por um ser racional e, por isso, é regido por leis e princípios que podem ser apreendidos racionalmente.

Como o ateísmo explica a magnífica racionalidade do universo, que se expressa em linguagem matemática?

A fé judaico-cristã, aliás, foi a primeira a excluir a natureza da esfera do sagrado e possibilitar sua observação, manipulação e estudo. Além disso, as grandes universidades nasceram em igrejas: Paris, Bologna, Oxford, Harvard e Princeton eram seminários cristãos.

A religião envenenou Michelangelo, Dante, Bach, a arquitetura gótica e tantas outras realizações inconcebíveis sem a fé cristã?

A sociedade ocidental jamais poderá ser compreendida sem os valores herdados do cristianismo. A compaixão, por exemplo, brilhantemente ilustrada na parábola do bom samaritano. Seu berço não poderia ser a Grécia. Os espartanos deixavam os bebês que nasciam mais débeis para morrer ao relento e Platão flerta abertamente com a eugenia em “A República”. É o cristianismo que afirma a misericórdia como um valor inegociável, que constitui o gérmen para o serviço social, a expansão dos hospitais etc.

Mas a escravidão não foi tolerada por séculos pela cristandade? Na verdade, a escravidão foi um fenômeno histórico universal: na China e em toda a Ásia, na África e, inclusive, entre os índios da América pré-colombiana.

Não encontrou oposição na Grécia, nem mesmo em seu momento mais luminoso. Nunca foi questionada.

Quando se torna controversa pela primeira vez? A reação vem inicialmente dos quackers, no século 18, e, em seguida, a concepção de que todos os homens foram criados iguais inspirou o pietista William Wilberforce a lutar tenazmente contra o mal no Parlamento inglês até vencê-lo completamente.

Na verdade, o assalto ateísta não se justifica nem no destaque dado aos crimes cometidos em nome da fé. A história já mostrou que o fanatismo mata em todo canto -e muito mais nos sistemas que procuraram erradicar toda religião. A loucura não exige credo de tipo algum.

Enfim, dezembro é um bom mês para os cristãos saírem do armário.

Não há superioridade intelectual no ateísmo ou, de outro modo, não há inferioridade intelectual na fé cristã. E muito menos inferioridade moral.

Não há por que se esconder dos pregadores da nova fé secular, agressiva e militante. O Natal, mesmo nesta era pós-moderna e pós-cristã, é tempo de afirmar que nada melhor aconteceu à sociedade ocidental do que aquele estranho evento na Palestina, quando uma jovem judia deu à luz Jesus de Nazaré.

Que toquem os sinos em Belém. [FOLHA 22/12/07]