O mundo dos filósofos

O Drops de filosofia n. 5, que trata de idealismo e realismo, fez-me lembrar de um congresso internacional de filosofia, ocorrido anos atrás numa tradicional universidade de S.Paulo. Se não me falha a memória, o tema geral da conferência da professora M. era o pragmatismo. Lá pelas tantas, ela avançou um argumento sui generis contra o idealismo. Segundo a renomada conferencista, bastaria que se tentasse sair da sala sem antes abrir a porta para se constatar a falsidade dessa posição epistemológica. Um nariz quebrado como argumento filosófico.

Não foi a primeira nem a última vez que deparei com esse tipo de “argumento” pragmático. Coloquei a palavra argumento entre aspas porque, a meu ver, uma teoria só pode ser refutada por outra teoria e não pela realidade. Mesmo pela doída realidade de um nariz quebrado. O que poderia refutar a tese idealista de um sujeito constituinte é a tese realista oposta da determinação objetiva do conhecimento.

Nesse sentido, para que pudesse funcionar como um contra-argumento, um fato como o do nariz quebrado precisaria ser interpretado como a aplicação de uma lei ou regra geral, ou seja, precisaria ser subsumido em uma teoria, no caso, no realismo.

A teoria epistemológica segundo a qual o objeto independe totalmente do sujeito e se impõe a este tal como é em si mesmo chama-se realismo ingênuo. A ingenuidade em questão não tem necessariamente um sentido pejorativo. Ela implica, antes, a crença na veracidade do senso comum, ou, por outra, na certeza sensível.

Mas o “argumento” do nariz quebrado é ingênuo ainda noutro sentido, mais geral, uma vez que revela certa ingenuidade filosófica. Isso porque pressupõe que os fatos da vida poderiam, por si mesmos, fazer com que os filósofos abandonassem ou assumissem determinada posição teórica. Assim, por exemplo, para ser coerente, Descartes deveria abandonar o seu ceticismo em relação ao mundo material, uma vez que, enquanto meditava, ele se confortava com o calor da estufa e se deliciava com o sabor da maçã.

Grande ingenuidade! As teorias filosóficas não alteram em nada a realidade, mas apenas a explicam de modos diferentes. Deixemos de lado Descartes, porque ele jamais duvidou de fato da realidade exterior; o seu ceticismo era explicitamente metódico. Tomemos o exemplo do empirista Berkeley, que este sim negava a substancialidade da matéria. Segundo ele, só há uma substância: o espírito, a consciência ou a mente –do criador e da criatura. Toda a realidade é constituída, pois, de fatos mentais.

Ora, como é que esse imaterialismo pode conciliar-se com o empirismo, ou seja, com a tese segundo a qual todo conhecimento provém da experiência sensível? É simples. O raro leitor deve ter notado que eu falei, ao referir-me ao imaterialismo berkeliano, de negação da substacialidade da matéria e não da realidade da matéria. Berkeley jamais duvidou da realidade do mundo, mas apenas a interpretou de um modo diferente (não realista).

O mundo dos filósofos é o mesmíssimo mundo do senso comum, do realista ingênuo. Quando acorda, o filósofo encontra o mundo pronto, com tudo no lugar, funcionando perfeitamente, inclusive o despertador que ele precisa desligar antes que acorde os outros. Só que ele interpreta esses fatos de uma maneira muitas vezes incomum ou mesmo antinatural.

Se fosse possível refutar teorias, argumentos e teses filosóficas com o simples recurso à dura realidade de uma porta ou parede, com certeza a filosofia não teria subsistido tanto tempo; já teria sido superada pelas ciências positivas.

Mas o argumento realista ingênuo do nariz quebrado tem ainda outros problemas, aos quais voltarei em breve.

E você, raro leitor, o que pensa disso tudo?

Drops de filosofia [12]

A querela dos universais
Chama-se de querela dos universais à disputa ocorrida na Idade Média, entre os escolásticos, acerca do estatuto ontológico (realidade) dos universais. Havia três partidos principais.
Os realistas defendiam a tese segundo a qual os universais são logicamente anteriores às coisas e não dependem destas.
Contrariamente, os nominalistas e conceitualistas defendiam a tese segundo a qual os universais são posteriores às coisas, sendo, no limite, meros nomes ou ficções criadas com a finalidade de ordenar ou classificar as coisas.
O partido dos realistas moderados defendia a tese intermediária, segundo a qual os universais estão nas próprias coisas e dependem destas.
A tese nominalista, p. ex., de Occam, e a realista moderada, p. ex., de Aristóteles e Tomás, implicam alguma forma de abstração: os universais são extraídos das próprias coisas por abstração ou por indução.
A tese realista, p. ex., de Platão, implica alguma forma de intuição: os universais são conhecidos por recordação (anamnesis platônica) ou por iluminação (Agostinho).
O debate em torno dos universais está em curso, e a remissão à escolástica faz-se necessária tanto do ponto de vista histórico quando do sistemático.
·         A querela dos universais
o   Universalia ante res
§  Realismo [ou idealismo metafísico: Platão, John Scotus]
·         Os universais são reais [têm ser], sendo anteriores às coisas e independentes destas
o   Teoria da reminiscência [iluminação, intuição]
o   Universalia in rebus
§  Realismo moderado [Aristóteles, Alberto, Tomás]
·         Os universais estão nas coisas, mas não são independentes destas
o   Teoria da abstração
§  NB: Para Tomás, os universais antecedem as coisas [ante res] na mente divina, estão nas coisas [in rebus] e sucedem as coisas [post rem] na mente humana
o   Universalia post rem
§  Nominalismo [Rosceline]
·         Os universais não são reais, e sim meros nomes [flatus vocis]
§  Conceitualismo [Occam, Locke]
·         Os universais têm natureza psicológica, servindo para classificar as  coisas
·         Teoria da abstração

Drops de filosofia [5]

Idealismo e realismo
Do ponto de vista da gnosiologia (teoria do conhecimento ou epistemologia geral), o idealismo consiste naquela posição teórica ou tese segundo a qual o sujeito cognoscente constitui (determina ou condiciona) o seu objeto, enquanto o realismo consiste na posição teórica ou tese contrária, ou seja, naquela segundo a qual o objeto determina ou condiciona o sujeito. No primeiro caso, o sujeito é considerado ativo e espontâneo; no segundo, passivo e receptivo.
Do ponto de vista metafísico, idealismo e realismo são sinônimos. Assim, o idealismo platônico, por exemplo, consiste num realismo das ideias ou dos universais (universalia ante res).
§  Idealismo vs. Realismo
o   Metafísica/ontologia/lógica
§  Idealismo = realismo das idéias ou dos universais
·         Algum universal é real: Platão; Frege
§  Nominalismo
·         Os universais não são reais: Occam
o   Gnosiologia/epistemologia
§  Realismo
·         O objeto determina ou condiciona o sujeito
o   Sujeito passivo [receptivo]
§  Idealismo
·         O sujeito constitui [determina (realmente) ou condiciona (formalmente)] o objeto
o   Sujeito ativo [espontâneo]