Carta a um futuro olavette [1]

A seguir, reproduzo uma “carta” originalmente endereçada a um ex-aluno, ora forte candidato a se tornar mais um olavette. A aparente fragmentariedade do texto se deve ao fato de, como toda resposta, subtender muitas coisas. Decidi publicá-la por achar que o caso desse ex-aluno, P., como o chamarei, está infelizmente longe de ser único ou raro. Se for útil para pelo menos uma pessoa já terá valido a pena.

Caro P.,

Não sou especialista em Aristóteles, do qual aliás conheço apenas o básico, para avaliar o livro do Olavo de Carvalho (OC). Mas ele mesmo diz, em algum lugar, que suas ideias sobre o estagirita se baseiam em indicações, antigas, de filósofos árabes e, recentes, do Mario F. dos Santos. Em todo caso, para mim, história da filosofia não é filosofia, e a obra em questão é de história da filosofia.

Eu tomaria mais cuidado com o adjetivo “grande” (ou “pequeno”) ao atribuí-lo a filósofos e pensadores. “Grande”, para mim, cabe a Sócrates, Platão, Aristóteles, ao “burro” do Kant e a mais uns poucos. (O OC talvez pudesse ser o criado de quarto de um deles…)

Nem toda interpretação da “realidade” é de natureza filosófica. A filosofia começa, aliás, discutindo a própria “realidade”: se existe, qual sua natureza, o papel do intérprete etc. A maior parte do que OC publica tem muito pouco de filosofia.

Eu não dou a mínima para a filosofia acadêmica (se é que existe filosofia na academia!); sigo nisso os grandes.

Kant dizia que não se pode ensinar filosofia, mas apenas a filosofar. Infelizmente, é a filosofia herdada, morta, que se ensina na academia. E não me parece que OC faça algo muito diferente. Tive vários “olavettes” como alunos, e eles sempre estiveram entre os piores, incapazes de pensar por si mesmos, cheios de preconceitos, erros crassos e jargões.

Na verdade, meu caro, ninguém ensina ninguém. O professor pode apenas sensibilizar o aluno, e oferecer as condições (ambiente, instrumental etc.) para que este possa começar a filosofar. O aluno aprende ou não, mas ninguém pode se ativar por ele! Tudo que lhe venha de fora não é filosofia viva, mas conhecimento histórico, morto, que ele decora e depois esquece.

Essa desculpa do OC, de que ele não teria tempo para escrever livros, é ela mesma preguiçosa, hehe. Se alguma coisa não lhe falta é a capacidade e a vontade de escrever. Tratados são desnecessários, mas algumas boas sínteses bem que ele podia escrever, não acha? Mas cadê elas? Cadê, aliás, o tal d’Olho do Sol?

Você diz que OC assume o que faz. Bem, eu também manteria cautela quanto a isso. Como lhe disse, ele reescreve a própria biografia de tempos em tempos. Não se trata apenas de mudar de ideia!

Veja: quando o conheci, OC era astrólogo. Sim, ele aprofundou o estudo da astrologia (psicologia, simbologia, metafísica etc.), mas isso se deu aos poucos. No começo, era mesmo um fazedor de horóscopos (um amigo tem uma fita gravada com o horóscopo feito pelo OC), autor de artigos para a revista Planeta (onde difundia barbaridades como a falsa Gnose de Princeton). Quando abriu a Escola Júpiter, começou a dar cursos de formação intelectual. Nessa época, descobriu a obra do esoterista francês René Guénon. Talvez esse encontro tenha sido um dos mais importantes de sua vida. E eu duvido que ele admita tudo o que se passou desde então.

Foi aí que o OC escreveu aqueles livrinhos sobre tradição e tradicionalismo. Começou a estudar e a divulgar a obra do suíço Frithjof Schuon, de quem se tornou discípulo, juntamente com vários alunos (como todo líder carismático, OC sempre teve discípulos). Eles foram para os EUA, onde o Schuon tinha uma Tariqa, uma escola esotérica muçulmana, sufi. (Você deve saber que OC, não por acaso, escreveu uma biografia de Maomé.)

Schuon era para OC um deus na terra, um santo, um grande iniciado. Agora, ele diz que o Schuon era na verdade uma espécie de espião, alguém que foi enviado aos EUA para corrompê-lo por dentro. — O que OC tem a dizer sobre isso?

É que eu me desfiz de todos os livros do OC (e eu tinha todos ou quase todos), senão seria fácil demonstrar essa radical “mudança de ideia”.

Na verdade, o OC foi desligado da tariqa pelo próprio Schuon. Preste atenção nisso. Quando alguém diz isso ao OC, ele responde que tem um documento que prova ter saído de lá numa boa. Ou seja, ele acaba se entregando ao demonstrar interesse em manter uma boa relação com o emissário do capeta.

Pouco antes, OC entrou para a ordem dos irmãos Shah (Idries etc.). Uma ordem supostamente sufi, com um método peculiar, heterodoxo, de desenvolvimento espiritual. Depois escreveu que se tratava de magia negra. (Rapaz, se eu puxar pela memória, não para de vir coisas…)

O suposto tradicionalismo católico do OC vem da época do perenialismo (Guénon, Schuon). Não digo que ele não tenha fé (quem sou eu para afirmar isso?), mas sim que ele se apega ao tradicionalismo católico em virtude da doutrina metafísica daqueles autores e, em especial, do filho de Ananda Coomaraswamy, Rama.

OC vai abandonando pelo caminho os alunos que não o seguem em suas “mudanças de ideia”. Converse com alguns dessas épocas (astrológica, tradicionalista etc.), e depois faça o seu julgamento.

OC chegou a dizer que escrevia na primeira pessoa do plural, o eu majestático, justamente porque se tratava de trabalhos impessoais, com os quais não teria, de fato, nenhuma relação existencial. Isso não me parece nada com “assumir os erros”.

Mas a coisa vem de antes, meu caro. Dizem que ele nunca foi jornalista, como sempre afirmava. Não teria passado de um copidesque.

Você leu seus livros de transição (da fase esotérica para a anticomunista), especialmente O jardim das aflições? Eu tenho a curiosidade de saber como aparecem os EUA nas outras edições, depois da primeira, desse livro. Acho improvável que ele mantenha sua posição original. Naquela época, os EUA ainda eram para ele o suprassumo da decadência, da era moderna, de ferro, kali-yuga. Agora, são o bastião da liberdade e da defesa dos direitos do indivíduo. Uau!

Eu mesmo me deixei influenciar pelo discurso anticomunista do OC e de outros autores, como o Rei Azedo, digo, Reinaldo Azevedo. Aos poucos, fui me informando melhor, interpretando mais critica e autonomamente a “realidade” e, assim, libertei-me dessa dialética diabólica entre esquerdismo e direitismo.

Em vez de ler apenas as citações feitas pelo OC, leia os originais. Leia Marx, p.ex. É inegável que Marx foi um grande economista (isso ninguém nega!), e também um humanista. Os ataques ad hominem do OC são esperneios doentios que nada têm de filosóficos. (Você sabe que eu não sou materialista, marxista, ateu etc.)

Eu era um almofadinha antilulista. Agora, embora não feche os olhos para as faltas e equívocos do seu governo, reconheço os avanços sociais efetuados por Lula. Queria ver o OC ir falar mal do Lula no sertão nordestino! Lá e em muitos outros lugares do Brasil, Lula é um deus. Pessoas que passavam fome, agora têm o que comer e um dinheirinho pra comprar mais alguma coisa. Nenhum outro governante fez coisa parecida. E olha que é o mínimo! Não sei como é que um cristão possa ver com maus olhos esse tipo de política social. (E eu não sou petista nem lulista nem esquerdista!)

Quanto ao cenário acadêmico, você não está totalmente errado, mas vá com mais cuidado… O que quase não se encontra são fascistas como OC, aquela direita raivosa, anticomunista, americanista, sionista etc. Isso, de fato, é coisa rara. Mas há muita gente de direita, sim, ora. O tal do esquerdismo preponderante é muito mais uma posição humanista do que político-ideológica. As pessoas associam desenvolvimento social (eliminação da miséria, igualdade de condições, distribuição de renda, educação básica etc.) à esquerda ou à centro-esquerda (no máximo, à centro-direita). Na área das ciências sociais, encontram-se de fato mais esquerdistas militantes.

Eu tô fora disso tudo. Não sou nem de direita nem de esquerda. Quase sempre, voto nulo. Para mim, Cristo era um anarquista não violento: a César o que é de César… Cristo é o meu presidente, o meu sacerdote, o meu médico, professor etc. A política partidária pressupõe o Estado, e o Estado é intrinsecamente violento, ou seja, anticristão. Voltaremos a conversar sobre isso.

Em suma: fascismo anticomunista do OC é violento e anticristão.

Mas não serei eu a demonizá-lo. Isso seria fazer o jogo dele. “Não resistais ao mal”! Deixe que ele esperneie… e que os olavettes lambe-botas aprendam quando quebrarem a cara de um jeito ou de outro. Talvez quando ele mudar de ideia novamente?

Na PUC, pelo menos na pós-graduação em filosofia, não encontrei quase ninguém de esquerda, muito menos militante. Aliás, com todos os problemas e deficiências, uma coisa eu tenho de admitir: a maioria dos professores que tive lá ama o que faz, gosta mesmo da filosofia, de dar aula etc. Não encontrei nenhum líder carismático, e sei bem que com boas intenções se pavimenta o caminho para o inferno, mas, quer saber, não foi o pior dos mundos.

O que me desanima é esse patológico apego à história! Sim, é importante estudar os grandes filósofos mortos, a história da filosofia é até mesmo indispensável, mas isso tudo não é ainda filosofia! Quando pergunto aos alunos: e vocês, o que acham, concordam? Eles ficam atônitos! Como assim, eu, um zé ninguém, concordar ou discordar de Kant?!

A discussão entre especialistas não tem fim. Sempre vai aparecer alguém para discordar: não, não, Platão não disse nada disso, o que ele quis dizer era uma coisa bem diferente etc. Aposto como há vários autores que discordam radicalmente das interpretações do Voegelin, p.ex. (Modestamente, acho exagerada a crítica que ele faz ao tal do gnosticismo.) Então, meu caro, estou fora. Eu uso os mortos para tentar fazer algo de vivo: supondo-se que Platão pensasse mesmo X, o que se segue? O que isso tem que ver com a realidade, com a nossa realidade, o que eu, nós pensamos de X, o que fazemos dele na nossa VIDA etc.

Para finalizar, nem tudo nos “novos filósofos” é porcaria, P. O próprio Foucault, sobretudo na sua última fase, tem coisas interessantes e aproveitáveis.

Não sou ninguém para dar conselhos. Mas creio que fazemos muito bem em manter nossa mente alerta e aberta, evitando o “maniqueísmo” e toda forma de dogmatismo burro e emburrecedor.

Certamente OC tem também coisas interessantes e aproveitáveis, mas eu não tenho tempo nem saco para ficar garimpando pérolas em meio a tanto lixo ideológico.

Uma vez escrevi a OC agradecendo-lhe por um belo artiguinho de Natal, que me deixou embevecido. Mas também já lhe escrevi para dizer que ele não passava de um “imbecil individual”.

Espero que não se tenha assustado com tudo isso!

Abraço do seu ex-professor,

Edson

Rex fallaciae

No post O que há de velho na “nova” direita [1], referi-me ao pseudo-jornalista Reinaldo Azevedo (doravante, RA). De lá para cá, notei que vários amigos do Feicebuque seguem esse senhor. Seguem-no não só no sentido da rede social, mas no sentido ideológico. O que, como professor de filosofia, preocupa-me deveras.

Para inteirar-me do que estava sendo dito, fui ler a coluna em questão (Assim não dá, Vladimir!, na Folha de S.Paulo de 21-2-14). A seguir, comento alguns trechos.

O alvo do senhor Azevedo, pois que ele sempre tem um alvo, é, desta feita, o filósofo Vladimir Safatle (doravante, VS), professor da USP. Mais especificamente, a coluna que este escreveu (Os vivos e os mortos) para o mesmo jornal em 18-2-14.

A primeira coisa que devemos perguntar é por que Safatle foi escolhido como alvo da semana? E o senhor Reinaldo não nos deixa esperando; logo na primeira linha, declara o motivo:

Vladimir Safatle, possível candidato do PSOL ao governo de São Paulo […]

Trata-se, raro leitor, não se engane, de uma autêntica declaração de guerra. RA não tem escrúpulos em dizer que, para ele, o que importa é a política, mais especificamente, o que ele chama de economia política. Chega a recriminar políticos da oposição (anteriormente ao governo do PT, da situação) por reconhecerem os acertos de políticos da situação (antes, da oposição) e de fazer alianças com estes. No seu blogue só são aceitos comentários concordantes, jamais críticas; atualmente, só oposicionistas podem postar seus comentários lá. Como ele diz: o nome dessa atitude é política.

Ocorre que de um jornalista não se espera política, mas a verdade dos fatos. Quem está disposto a esconder ou a distorcer a verdade com vistas a um fim supostamente maior, no caso, a luta político-partidária, não merece a confiança do leitor nem a do eleitor. Para não falar (desculpe o vício de linguagem) do maquiavelismo consistente em santificar os meios pelos fins.

Conheço RA desde os tempos da revista República, depois Primeira Leitura, da qual, aliás, fui assinante. Revistas bem editadas, com uma linha editorial –neoliberal– bem definida, ou seja, uma publicação acima da média. Financiada pelo banqueiro “Mendonção”, teve a publicação suspensa em 2006. Vejamos o que nos conta a Wikipedia sobre essas revistas:

Primeira Leitura era uma revista mensal brasileira de política, economia e cultura que sucedeu a antiga Revista República. Sua última edição circulou em junho de 2006.O períodico era caracterizado pelo viés assumidamente liberal de seu editor-chefe Reinaldo Azevedo e por trazer informações importantes sobre assuntos politicamente relevantes tanto no plano nacional como internacional. O períodico, além disso, pautou sua atuação jornalística por críticas contundentes ao Partido dos Trabalhadores e a Lula entre os anos de 2003 e 2006.
Em razão de ser chefiado e editado, até setembro de 2004, pelo ex-ministro das Comunicações da gestão FHC (Luiz Carlos Mendonça de Barros), o periódico era tido como sendo ligado aoPSDB e por ele controlado. Seus editores se defendiam veementemente de tal acusação, alegando terem independência editorial e alegando a transferência do controle da revista para novos proprietários, sem qualquer ligação jurídica ou econômica com a sigla.
Em março de 2006, irrompeu o chamado escândalo da Nossa Caixa, que consistiria num suposto esquema de manipulação de verbas publicitárias do Banco Nossa Caixa em favor de deputados da base aliada do governador Geraldo Alckmin.[carece de fontes] Alegou-se que a revista Primeira Leitura era uma das beneficiadas, embora isso seja negado pelo editor da publicação, Reinaldo Azevedo.[carece de fontes]O encerramento da publicação, em junho de 2006 (em razão da alegada ausência de anunciantes) foi tido como problemático por seus leitores e por segmentos conservadores e liberais do Brasil(que alegam estar o ambiente jornalístico brasileiro dominado por veículos que, implícita ou explicitamente, apóiam o Partido dos Trabalhadores e a gestão Lula).

Note, raro leitor, que mantive as ressalvas [carece de fontes]. Se fosse um pseudo-jornalista, eu daria como fonte a Veja, a Globo ou coisa parecida. Mas se trata aqui apenas de situar o leitor; tendo interesse, é fácil aprofundar a pesquisa.

Voltando à coluna, RA chama VS de mentiroso, afirmando que os políciais não mataram ninguém nos protestos citados pelo último. Começa esclarecendo o caso de Cleonice, uma gari, que teria morrido em Belém de infarto:

Varria rua quando houve um confronto entre manifestantes e a PM. Inalou alguma quantidade de gás lacrimogêneo e teve infarto depois disso, mas não por causa disso. O filósofo deve conhecer a falácia lógica já apontada pelos escolásticos: “post hoc ergo propter hoc” -“depois disso, logo por causa disso”. Nem tudo o que vem antes é causa do que vem depois. É como no filme “Os Pássaros”, de Hitchcock. Tudo se dá depois da chegada da loura, mas a loura é inocente, Vladimir! A notícia sobre a morte está aqui (is.gd/6QWqQM).

De vez em quando, RA arrisca-se nas águas da filosofia, tendo como recurso apenas a boia dos manuais do ensino médio. Acusa pois VS de ter incorrido em falácia, mais especificamente, na falácia da correlação coincidente. Segundo o pseudo-filósofo, a gari não teria morrido por causa do gás lacrimogênio, mas sim… por que mesmo? Ele não o diz. Limita-se a dizer que tudo não passou de uma infeliz correlação coincidente –aquilo que na linguagem coloquial chamamos simplesmente de coincidência.

Ora, quem, em tese, está mais perto da verdade, VS –que estabelece uma relação causal entre o gás lacrimogênio e o infarto da senhora Cleonica– ou RA –que simplesmente nega a causalidade, apelando, sem justificação, para a simples coincidência? O raro leitor provavelmente concordará comigo que, se tivéssemos de apostar em um dos dois, sem mais informações, o primeiro receberia a maioria das fichas. O mais lógico –e ético– seria porém concluir pela maior probabilidade da causação e não da coincidência.

Como disse, “sem mais informações”. E aí voltamos ao que disse mais acima. RA cita como fonte de informação o portal G1, ou seja, as Organizações Globo.

Wait a moment! Um jornalista não deveria recorrer a uma fonte primária em vez de a um jornal, aliás, a um grande jornal, reconhecidamente comprometido com a oposição? Mas, ainda assim, parece que RA não leu a sua “fonte”… Uma vez que nela se declara explicitamente que o secretário de saneamento do município, Luiz Otávio Mota Pereira, informou ainda que:

a morte [da senhora Cleonice] pode ter sido provocada pelo susto com o tumulto na manifestação.

O secretário, segundo o jornal, baseou-se em relatórios médicos. Ué, então, quem estabeleceu a relação causal entre a ação policial e a morte da gari não foi VS mas… os médicos! Não é incrível? E isso segundo o portal da Globo…

RA prossegue tratando dos demais casos de morte, um a um, com a mesma estratégia manipuladora –citando jornais como fonte etc.

Depois, RA volta o seu arsenal para outro ponto do artigo de VS. Cito a passagem (da coluna de VS) em questão:

não consta que suas mortes tiveram força para gerar indignação naqueles que, hoje, gritam por uma bisonha ‘lei de antiterrorismo’ no Brasil. Para tais arautos da indignação seletiva, tais mortes foram ‘acidentais’ […]. Mas a morte do cinegrafista, ao menos na narrativa que assola o país há uma semana, não foi um acidente infeliz e estúpido […]

Fuzila, então, RA:

“Não consta que tiveram” é um coquetel molotov na língua pátria. Isso é com ele. A morte de Andrade não foi um acidente. O destino do artefato eram os policiais. Vladimir parece achar que a farda cassa dos PMs a sua condição de humanos. Indignação seletiva é a dele. Segundo acusa, estão usando a “morte infeliz de alguém” para “criminalizar a revolta da sociedade brasileira”. O PSOL e os “black blocs” não são “a sociedade brasileira”. De resto, na ordem democrática, é uma tolice afirmar que a “revolta” está sendo criminalizada. Se ela incidir em práticas puníveis pelo Código Penal, os crimes se definem pelos atos, não pelas vontades.

Um caminhão de falácias e impropriedades de várias ordens em um único parágrafo! Em primeiro lugar, a morte do cinegrafista foi sim um acidente, infeliz e trágico, mas um acidente (ou um incidente, se quiserem). O próprio RA, sem se dar conta, admite-o ao dizer que o alvo eram os policiais. Ora, se o cinegrafista não era o alvo, então, logicamente, ele foi atingido acidentalmente.

Em segundo, em parte alguma de sua coluna, VS subtraiu aos policiais a dignidade humana. Apenas postulou que a farda dos policiais estaria sendo usada pela mídia para tratar os manifestantes com menos dignidade, ou seja, como se fossem todos criminosos e –como se mesmo os criminosos não fossem seres humanos!

Em terceiro, para desgosto de RA, o PSOL e os black blocs são sim a sociedade brasileira, assim como ele, VS, eu e você, raro leitor: nós todos somos a sociedade brasileira! Mas na cabeça de RA, do astrólogo Olavo de Carvalho, dos olavetes e da “nova” direita, não, a sociedade não somos todos, mas apenas alguns. (Não é preciso dizer, creio, que a esquerda não “pensa” muito diferente disso.) Não é necessário ser filósofo nem lógico para perceber a contradição entre o discurso pretensamente democrático e essa tese elitista.

Em quarto e último lugar, os crimes se definem sim pelas vontades, a saber, pelas vontades dos juízes. As leis precisam ser aplicadas, e, para isso, elas são interpretadas –em cada caso. Basta ver o que se passa no julgamento do chamado mensalão.

Nos últimos dois parágrafos de sua catastrófica coluna, RA perde-se totalmente:

Sim, eu sei: malho em ferro frio ao cobrar que esquerdistas façam um debate ao menos factualmente honesto. Eu nunca me esqueço de um emblema desse modo que eles têm de argumentar. Até havia pouco, em defesa da legalização do aborto no Brasil, sustentavam que 200 mil mulheres morriam a cada ano vítimas de tal procedimento. Em fevereiro de 2012, a ministra das Mulheres, Eleonora Menicucci, levou tais números mentirosos à ONU (is.gd/qHYt5S). Um dia me enchi e peguei os dados do Ministério da Saúde sobre mortes de mulheres e suas causas e fiz as contas. Os abortistas haviam multiplicado por 200 o numero de óbitos em decorrência do aborto (is.gd/6Iu4EJ).

Começa com outra falácia, desta vez, ad hominem, afirmando que, por serem de esquerda, certas pessoas são intelectualmente incapazes e desonestas. Incrível.

Em seguida, recorre não à lógica mas à matemática (dos manuais do ensino fundamental), para refutar a tese segundo a qual 200 mil mulheres morreriam anualmente, no Brasil, em consequência da prática ilegal do aborto. E sabe qual é a fonte do nosso Oswald de Souza? O Ministério da Saúde! Mas como é que esse ministério, ou qualquer outro, poderia saber quantas mulheres morrem de tal procedimento? Se é ilegal, quem é que se sujeitaria a confessar o real motivo da morte? Mutatis mutandis, dá-se como nos casos de estrupo, que com certeza devem ocorrer em número bem maior do que o oficial.

Mas o pior nem é isso. O pior é que RA canta vitória concluindo que as mortes em decorrência de aborto não passariam de mil. Acho que o raro leitor concordará comigo que uma morte por aborto ilegal já seria demais, não? Mas mil?!

Não estou aqui discutindo o mérito dessa –espinhosa– questão bioética, mas apenas mostrando o absurdo da argumentação reinaldiana.

Por fim, RA conclui com uma piada:

A mentira é mais útil às causas das esquerdas do que a verdade. Não fosse assim, homicidas como Lênin, Stálin, Trótski ou Mao Tse-tung não seriam cultuados ainda hoje. Isso tudo é um pouco constrangedor, mas, como escreve Janio de Freitas, continuarei tentando.

Depois da Guerra do Iraque, aquela que foi perpetrada sob a mentirosa alegação de que Saddam Hussein possuía um enorme arsenal de armas de destruição em massa, e depois das revelações do Snowden, isso só pode ser mesmo uma piada.

Vou recomendá-la ao Zé Simão!

O que há de velho na “nova” direita? [2]

CONTINUAÇÃO
Antes, porém, de tratar da éminence grise da nova direita tupiniquim, Olavo de Carvalho, gostaria de chamar a atenção do raro leitor para duas coisinhas.
Primeira. Parece-me que Joel Pinheiro se esqueceu de alguns nomes importantes da cena neodireitista nacional, p.ex., o de Demetrio Magnoli , sociólogo e geógrafo brasileiro, e de João Pereira Coutinho, jornalista português, ambos colunistas da Folha de S.Paulo. – É o caso de perguntar-se se o grande jornal paulistano não está ele mesmo dando uma guinada à direita, uma vez que em seu quadro de articulistas se encontram agora nada mais nada menos que os senhores J.P. Coutinho, L.F. Pondé, R. Azevedo e D. Magnoli!
Não, a pergunta foi apenas retórica, pois, embora a Folha, como a grande mídia em geral, pensa para a direita, ela é provavelmente um dos jornais mais politicamente equitativos do Brasil. Assim, juntam-se aos senhores mencionados, também intelectuais de esquerda, como o professor de filosofia Vladimir Safatle, o jornalista Ricardo Melo, claramente de esquerda, e o economista Marcelo Miterhof, de centro-esquerda.
Segunda. Joel Pinheiro (da Fonseca), o autor do artigo em questão, é o editor da revista Dicta & Contradicta, editada pelo IFE – Instituto de Formação e Educação, “uma associação sem fins lucrativos que visa a estudar, criar e divulgar no Brasil conhecimento nos campos das Humanidades, das Artes e da Filosofia”. De periodicidade semestral, é uma publicação bem cuidada que traz artigos de fundo “sobre os grandes temas da cultura ocidental: a ética, a filosofia, a literatura e as artes, sob uma perspectiva de longo prazo”. Pretende-se “desvinculada da política partidária e com uma vocação, na medida do possível, universal”.
Mas quando se examina um exemplar qualquer dessa revista (cuja publicação parece estar atrasada) , a impressão que se tem é que, em vez de Dicta & Contradicta, ela deveria chamar-se apenas Dicta, como é aliás o seu endereço eletrônico. Sim, pois, seu perfil é claramente alinhado à – direita. A epígrafe do primeiro artigo da home page da revista (Referências) é de autoria de um genial filósofo colombiano, o reaccionario Nicolás Gómez Dávila. Posições heterodoxas, quando aparecem em suas páginas, são apenas objeto de crítica. Onde está a seção “O outro lado”?
Isso quer dizer que o senhor Joel esqueceu, além do Coutinho e do Magnoli (e talvez do historiador, obcecado por mensaleiros, Marco Antonio Villa), também de si mesmo! Claro, talvez se trate de simples modéstia. Talvez ele não se considere tão importante como as personagens que nomeia. Talvez. Mas o fato é que Joel Pinheiro é, sim, um integrante da tal ambígua nova direita. Sugiro ao leitor interessado que faça uma busca na Internet para verificar a procedência do que acabo de dizer.
CONTINUA

O que há de velho na “nova” direita? [1]

Joel Pinheiro, editor da revista Dicta & Contradicta, em interessante artigo (“O que há de novo na ‘direita’?”) publicado em 31-1-2014 no jornal Valor, tenta lançar alguma luz sobre o lado direito do espectro político-partidário nacional. Trata-se de uma suposta “nova direita”, que, em parte, nem é nova, e, em parte, nem se diz de direita.
A primeira coisa que chama a atenção é a declaração de que a marca distintiva da ala conservadora da nova direita consiste no ódio a tudo que vem da esquerda. Claro que direita e esquerda se opõem, no limite, de modo radical. Mas que a radicalidade política implique o sentimento de ódio ao adversário, para dizer o mínimo, é sinal de obscurantismo. Deve-se acrescentar, porém, que a extrema esquerda também nutre pela oposição os mesmos “sentimentos primitivos”.
Segundo o autor, o jornalista Reinaldo Azevedo é um dos conservadores odientos. Tem razão; é mesmo. Esse blogueiro costuma distorcer a fala do inimigo, colocando-lhe na boca palavras facilmente reprováveis. Vejamos um exemplo claro dessa estratégia de manipulação.
Em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo do dia 24-1-2014 (“O ‘bando de negros e morenos'”), Azevedo, após citar o secretário geral da presidência, Gilberto Carvalho, faz o seguinte comentário “jornalístico”:
‘Nosso preconceito’ uma ova! Esse é o preconceito de Carvalho, que chama ‘negros’ e ‘morenos’ de ‘bando’.
Que palavras deve ter dito o senhor Carvalho para que merecesse essa dura reprovação moral? Terá dito mesmo que negros e morenos formam bandos, assim como animais e criminosos? Leiamos as palavras do secretário geral, citadas pelo próprio Azevedo:
Da mesma forma que os aeroportos lotados incomodam a classe média. Da mesma forma que, para eles, é estranho certos ambientes serem frequentados agora por essa gentalha’ (…). O que não dá para entender muito é a carga do preconceito que veio forte. (…) As pessoas veem aquele bando de meninos negros e morenos e ficam meio assustadas. É o nosso preconceito.
Ora, não está claro o que o senhor Carvalho quer dizer quando fala não só de “bando”, mas também de “gentalha”? Evidentemente que sim. Ele quer dizer que é a classe média que percebe os jovens integrantes dos “rolezinhos” como gentalha formadora de bandos. É surpreendente que um ex-professor de redação de cursinho pré-vestibular não tenha compreendido isso.
Mais duas palavrinhas acerca desse “jornalista”. Como muitos integrantes da tal nova direita, talvez a maioria, Azevedo é incoerente. Ao mesmo tempo em que se diz católico, ele defende a ferro e fogo o liberalismo econômico, doutrina formalmente condenada pela Igreja. Além disso, é dogmático. Não só porque sempre está do lado de quem tem razão (nós contra eles), mas porque afirma teses ingenuamente dogmáticas. Certa feita, afirmou com a maior tranquilidade que Tomás de Aquino já havia resolvido a questão da existência de Deus, e que, por isso, não entendia por que continuar discutindo. Ora, nem mesmo o Doutor Angélico reclamava para as suas cinco vias (vias e não provas!) o caráter da cogência, muito menos da apoditicidade. Ele mesmo admitia que, nessa matéria, não era possível convencer a quem não estivesse disposto a ser convencido.
Por essa e por outras, Reinaldo Azevedo não deveria, a meu ver, ser considerado como um jornalista. O jornalista é um profissional que busca a verdade dos fatos, ou seja, que investiga os fatos e procura expô-los da forma mais objetiva possível. Não é isso o que acabamos de ver, nem é isso que caracteriza o trabalho do nosso blogueiro. Ele próprio, aliás, admite que faz política. Noutras palavras, é um típico integrante de  Think Tanks. — Ainda voltarei a esse tema!
Outro articulista que, segundo Joel Pinheiro, integra a ala raivosa da nova direita seria o filósofo (PUC-SP, Faap) Luiz Felipe Pondé. O professor Pondé, assim como Azevedo, também é colunista da Folha. Confesso que, nos últimos tempos, não tenho conseguido mais ler a sua coluna. Ele está muito mais preocupado em causar sensação (viria daí a gíria “causar”?) do que provocar a reflexão. Tornou-se um sensacionalista. Como parte da estratégia de sedução do leitor, Pondé esforça-se para imitar o estilo do jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues. Debalde. Diferentemente do Reinaldo Azevedo, o nosso professor escreve mal. Mas de vez em quando encaixa algumas frases de efeito. O pior, porém, não é isso. O pior é a “salada mística” que ele faz com os conceitos e doutrinas religiosas e culturais. Ao mesmo tempo em que se diz um homem medieval, afirma com a maior sem-cerimônia ser hipócrita aquele que não adora um passeio no shopping –e isso muito antes dos “rolezinhos”! Mas vamos dar uma vista-d’olhos em um de seus artigos.
“Euzinho” é o sugestivo título que Pondé deu à sua coluna, na Folha, do dia 27-1-2014. Nela, trata da relação entre tradição e modernidade. Ele começa já pisando fundo:
A modernidade é uma declaração de guerra à ideia de tradição. Mas nós, modernos, continuamos a não perceber isso, e o resultado é que suspiramos como bobos diante do que pensamos ser uma tradição, apesar de detestarmos qualquer sinal verdadeiro de tradição.
Bem, eu diria que não se trata de uma guerra generalizada, mas de uma ruptura com alguns aspectos da tradição cristã. Entre outros, com o autoritarismo teológico-político e a unidade entre Estado e Igreja. Mas não é verdade que nós não percebemos a mudança. O primeiro a percebê-la com clareza foi Descartes, no século 17. Nietzsche, no século 19, escancarou-a ao anunciar a morte de Deus. Foucault, no 20, daria o golpe de misericórdia, declarando a morte do próprio homem.
Antes que me objetem, não se trata de uma percepção privilegiada de filósofos. Eles apenas verbalizaram o sentimento geral. Em todo caso, esse mal-estar da nossa civilização, provocado pela perda sob os pés do solo da tradição, não significa que passamos a detestar “qualquer sinal verdadeiro de tradição”.
Ao contrário, parece que nós temos alguma nostalgia para com a tradição, mas quando tentamos nos reaproximar dela, não conseguimos ir além de seus sinais exteriores. A tradição torna-se, então, tradicionalismo, isto é, a idolatria de sinais vazios.
Voltemos ao artigo. Quando nos dá a conhecer a própria definição de tradição, o que Pondé acaba fazendo é justamente cair no tradicionalismo mais caricato:
Tradição é pagar contas, enfrentar finais de semana vazios e não desistir.
Que raio de tradição é essa? Com certeza, não se trata de uma tradição pré-moderna. Essa história toda de cuidar da casa, da família, dos filhos, que ele repete ao longo do texto é uma invenção moderna. A infância, por exemplo, foi inventada por Rousseau, no século 18, ou talvez por Comenius, no 17.
A tradição pondiana é rasa e, portanto, para o seu desgosto, tipicamente moderna. Mas, voltando a meu ponto, não é verdade que os modernos perderam totalmente o contato com a verdadeira tradição. Tradição, bem entendido, não como a adoração das cinzas, mas como o manter acesa a chama – como disse alguém. Ocorre que a chama da verdadeira tradição devora os sinais do tradicionalismo morto que consiste em repetir fórmulas vazias e “pagar contas”.
Embora Pondé lide profissionalmente com as religiões, ele mesmo não é religioso. Mas não seguir uma religião tradicional e não crer no Deus do monoteísmo não significa ser ateu. Pondé crê piamente no deus Mercado. Ele acha que a “sociedade de mercado”, ou seja, a sociedade centrada no mercado, na economia, é a melhor coisa que a humanidade jamais inventou. Sem o mercado, estaríamos de volta às cavernas. Essa crença é que é antitradicional e supersticiosa!
Luiz Felipe Pondé não deveria, afinal, ser considerado como um filósofo. Filósofo é aquele que busca a verdade, e não quem já a possui e quer impingi-la, ainda que sedutoramente, aos outros.
Joel Pinheiro cita mais alguns nomes de representantes da nova direita, nomes que, sinceramente, eu simplesmente não conheço: Rachel Sheherazade, Paulo Eduardo Martins, Rodrigo Constantino e Felipe Moura Brasil. Se não me engano, li alguma coisa sobre uma polêmica entre a senhora Sheherazade e um obscuro professor de filosofia de S.Paulo. O Lobão eu já conheço. E acho impressionante que um roqueiro reacionário seja mencionado nesse contexto. Mas como não li nada desse senhor, apenas tendo-o visto durante alguns minutos no programa Roda Viva da TV Cultura, passo adiante.
“Por trás de todos”, continua o autor, “está um mentor em comum: Olavo de Carvalho, jornalista e filósofo que vive nos Estados Unidos, de onde escreve artigos e dá cursos on-line”. Então está explicado!
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