Nuvens pesadas

Em sua coluna de hoje, 31-1, na  Folha de S.Paulo, intitulada Do papiro à nuvem, a psicanalista Anna Veronica Mautner trata do aspecto psicológico da chamada “computação em nuvem” (cloud computing), da compulsão contemporânea pelo acúmulo de coisas, em geral, e pelo arquivamento de documentos, em particular. Segundo a autora, tudo

o que está na “nuvem”, sem a dinâmica da assimilação, não passa de dados à procura de uma mente criativa que faça novas conexões.

De fato, o que se armazenam nos discos rígidos (hard drives) e nas fitas magnéticas (magnetic tapes) dos computadores (hardware) são apenas e somente dados e não informações, muito menos conhecimento. Um simples exemplo ajuda a compreender a razão de ser dessa limitação.
Imagine um simples banco de dados (Access ou mesmo Excel) de uma organização qualquer, p.ex. de uma escola, o qual armazene as fichas cadastrais de alunos e funcionários.  Imagine, agora, que, em vez de dados, fossem registradas informações nesse cadastro; p.ex., em vez da data de nascimento (dado), a idade (informação). Ora, toda vez que se recuperasse essa informação, ou seja, a idade do aluno ou do funcionário, ela estaria desatualizada, uma vez que foi fixada no passado.
O banco de dados deve ser programado para atualizar a informação, trazendo-a para a data atual, mas, para isso, ele precisa dispor de dados brutos (dia, mês e ano de nascimento, p.ex.).
A informação, portanto, pressupõe dados pertinentes e fidedignos, que ela elabora ou atualiza. Dados não informam nada, mas são, por assim dizer, a condição de possibilidade da informação.
Conhecimento, por sua vez, já é mais do que a mera informação. Quando fala de novas conexões criativas, Anna Mautner está se referindo ao conhecimento. Conhecimento, segundo Kant, consiste numa síntese operada por um sujeito.
O artigo fez-me lembrar ainda de uma tese tão estranha quanto instigante. Segundo René Guénon, intelectual francês que viveu na primeira metade do século passado, conhecido por seus estudos acerca das tradições espirituais da humanidade, especialmente, as orientais, e considerado como fundador de uma escola ou corrente de pensamento chamada justamente de Tradicionalismo ou, também, de Perenialismo, segundo esse pensador tradicionalista, dizia eu, nós viveríamos atualmente numa época terminal, de decadência, a era do ferro ou da deusa Kali (daí Kaliyuga), que teria sucedido três outras eras (de ouro, prata e bronze, na terminologia ocidental).
Ora, uma das características da nossa idade decadente, obscura, consistiria justamente no ímpeto por acumular coisas e informações, no arquivamento de documentos, livros etc. Como se a humanidade, instintivamente, soubesse que estaria chegando ao fim e que, por conseguinte, precisaria cuidar do seu legado (tradição) a uma nova humanidade de uma nova idade de ouro.
Noutra ocasião voltarei a Guénon e aos tradicionalistas. Por ora basta essa nota.
Para concluir, apenas mais uma observação de ordem técnica. Como disse, o artigo em questão trata da famigerada “nuvem” de dados (e metadados). Ora, a verdade é que essa designação metafórica é enganadora ao extremo. Dá a ideia de que os dados estariam trafegando em fluxos, correntes fluidas,  sem nenhum suporte físico, quando o que de fato ocorre é o oposto disso.
A Internet simplesmente não existiria sem os velhos e bons “big irons”, os grandes computadores (mainframes). O planeta Terra está povoado por laboratórios de armazenamento e processamento de dados, executados por essas máquinas pesadas, que em nada lembram nuvens. Nuvens, aliás, produzem água e energia, enquanto os mainframes são vorazes consumidores de uma e de outra…