Resposta mortífera

Toda resposta mata uma possibilidade. Estou pensando na aula de filosofia. (Se ocorre a mesma coisa em toda e qualquer aula ou, no limite, em toda e qualquer atividade teórica, isso eu não sei — o que, aliás, parece-me ótimo.) E na resposta do professor.

E mata uma possibilidade não só porque a resposta, ainda que seja aberta, complexa ou múltipla, é apenas uma entre muitas outras possíveis. Mas, principalmente, porque, quando responde à própria pergunta, o professor tira dos alunos a possibilidade da descoberta ou, no mínimo, da reflexão.

A aula de filosofia deve, pois, consistir no ato (do professor) de perguntar –e no correlato ato reflexivo (do aluno) de responder.

A arte do impossível

Jean Baudrillard, em seu famigerado e apocalíptico artigo “Le masque de la guerre” (Libération, Rebonds, 10 mars 2003, p. 8), defende, entre outras coisas, a tese metafísica da possível-impossibilidade radical do 11 de Setembro. Textualmente:
Le 11 septembre est un événement impossible, inimaginable. Il se réalise avant d’être possible (même les films-catastrophe ne l’ont pas anticipé, ils en ont au contraire épuisé l’imagination). Il est de l’ordre de l’imprévisible radical (…).
Em inglês:
September 11 is an impossible and unimaginable event. It is carried out even before being itself possible (even disaster films did not anticipate it; on the contrary, they exhausted the imaginary possibility of such an event). It is about the extreme unforeseeable (…).
El 11 de Setiembre es un acontecimiento imposible. Sucede antes de ser posible (ni las películas catástrofe lo habían anticipado, ellas al contrario agotaron la imaginación). Es del orden de lo imprevisible radical (…).
E, no entanto, o nosso poeta Carlos Drummond de Andrade, no poema “Elegia 1939”, publicado no livro Sentimento do Mundo em 1940, parece sim ter imaginado o fatídico evento. Na última estrofe, vaticina o poeta:
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Muito se poderia dizer acerca do sentido desse poema. Mas a verdade é que a gente se arrepia quando o lê. O sentido de uma obra de arte, em geral, de um poema, em particular, não é algo que se possa apreender apenas intelectualmente. Mas essa é outra, e longa, discussão.
O fato é que Baudrillard parece ter subestimado a imaginação artística. É verdade que ele só se refere aos filmes-catástrofe, mas o faz, a meu ver, como representante da arte em geral. Muito mais que a ciência e a própria filosofia, é a poesia, latu senso, a real “arte do impossível”.