Cisne negro

cisne-negro (1)Karl Popper costumava ilustrar as suas reflexões sobre o chamado problema da indução e/ou de Hume com a imagem do cisne negro. Houve um tempo na Europa em que só se conheciam cisnes brancos. E por conseguinte –isto é, por indução– se acreditava que todos os cisnes eram brancos. Até que, num belo dia, se “descobriram” cisnes negros na Austrália. Ergo: o raciocínio (ou argumento ou método) indutivo é incapaz de nos garantir a verdade da conclusão. Na concepção popperiana: a indução é no mínimo uma falácia; a rigor, não existe.

“Black swan” acabou virando um termo, uma expressão técnica do mundo econômico-financeiro. Significa o inesperado, o incompreensível e, no limite, o impossível.

O momento pelo qual passa o Brasil poderia, mutatis mutandis, ser designado como “cisne negro”.

Aconteceu algo inesperado, de difícil compreensão e de consequências imprevisíveis. O mercado financeiro se vê diante de um autêntico “black swan”, os jornalistas, de um grande “batão na cueca”. Todos nós porém diante da incerteza.

Na verdade, para ser mais preciso –ainda que paradoxal–, aconteceu algo inesperado-esperado. Todos sabíamos que tudo poderia acontecer a qualquer momento. Poderia. Possibilidade não é, naturalmente, realidade nem muito menos necessidade. Nem mesmo probabilidade. O que é possível pode ou não acontecer.

A realidade em geral é complexa. A realidade da política é particularmente complexa.

O fato é que o presidente da república, Michel Temer, e o senador por Minas Gerais e presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, foram delatados, segundo o jornal O Globo, com provas audiovisuais.

Segundo os delatores, ambos estavam comprovadamente empenhados em obstruir a justiça em pleno exercício de suas funções republicanas. O que é gravíssimo.

Mas, voltando ao cisne: o inesperado-esperado se confirmou como realidade, fato, e agora já é passado. Resta descobrir que consequências terá. As próximas horas serão decisivas.

A PGR (MPF) pediu a prisão do senador, de sua irmã e de um primo. Os dois últimos já foram conduzidos às dependências da PF. O caso de Aécio foi encaminhado pelo ministro Edson Fachin para ser decidido ainda hoje pelo plenário do STF. Foi entretanto suspenso de seu cargo e proibido de deixar o país bem como de entrar em contato com os demais investigados.

Michel Temer, segundo um senador do Acre que esteve com ele pela manhã, deve fazer um pronunciamento à nação assim que ouvir a mencionada gravação.

Todas as contas feitas, é improvável que Temer não caia, seja por impeachment seja por renúncia ou então por cassação (no julgamento da chapa Dilma-Temer, no dia 6-6). Mais difícil é fechar a conta de Aécio. É pouco provável que ele vá preso, mas isso quer dizer que há mais de 50% de chances que isso ocorra.

Indutivamente não podemos saber se o próximo cisne será branco ou negro.

PS: A PF demorou para entrar na casa do senador no Rio porque, como não havia ninguém, os policiais tiveram de esperar por um chaveiro. Ora, por que não arrombaram a porta? Porque se trata de um senador, do presidente de um partido ou de um político profissional do campo conservador?

ATUALIZAÇÃO: Na verdade, o ministro Edson Fachin não encaminhou o pedido de prisão de Aécio Neves ao plenário do STF. Ele apenas o indeferiu. O caso só será apreciado pelo STF, caso o procurador geral, Rodrigo Janot, recorra da decisão. Isso pode significar aliás que, tal como ocorrido com o deputado Eduardo Cunha, o caso Aécio venha a ser remetido ao juiz Moro.

mesquinharia moral

Mulheres iranianas protestam contra o relaxamento no uso da indumentária islâmica na capital

Editor do “Financial Times” desmascara Hitchens ao denunciar artimanhas metodológicas de “Deus Não É Grande”
por MICHAEL SKAPINKER

Dentro de dois anos, celebraremos o 150º aniversário da publicação de “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin. Um ano depois, fará 400 anos que Galileu observou quatro luas orbitando Júpiter e concluiu, como Copérnico, que a Terra não era o centro do universo.

Esses dois eventos destruíram a compreensão humana sobre a maneira pela qual nós e o mundo em que vivemos surgimos. Como observa Christopher Hitchens em “Deus Não É Grande”, as pessoas continuam a tentar subverter as conclusões de Darwin, com conceitos como o “design inteligente”, enquanto o fundamentalismo islâmico ameaça nossas vidas.

Hitchens conhece os textos sacros. Ele ama “a esplêndida liturgia da Bíblia do rei James”. Seu primeiro casamento foi celebrado por um padre ortodoxo grego, e o segundo, por um rabino gay. Mas agora tudo que deseja da religião é que ela o deixe em paz.

A recíproca, porém, não é verdadeira. Ele detesta a religião. Relata em detalhes sanguinolentos os pecados de seus praticantes, da sodomia de meninos à mutilação genital, passando pela cumplicidade em episódios de homicídio em massa.

Ele menciona como exemplo a história de Deus instruindo Abraão a sacrificar seu único filho, Isaac, e da intervenção do anjo que impede que ele consuma o ato no último momento. O fascínio por essa história está longe de ser surpreendente. Como uma divindade amorosa poderia ordenar coisa assim?

Outras pessoas compreendem a história de maneira diferente. Muitos alegam que sacrificar filhos era comum na época, e que a história de Abraão e Isaac representa na verdade uma injunção para pôr fim à prática. Da mesma maneira, Hitchens descreve a prescrição do “olho por olho, dente por dente”, que consta do Velho Testamento, como “brutal e estúpida”. Muitos estudiosos a encaram, porém, como um alerta contra vinganças excessivas.

Hitchens ou não está ciente dessas interpretações ou prefere não mencioná-las porque poderiam demonstrar que a religião também é capaz de promover o progresso.

O problema com a tese de Hitchens é como explicar os que a usam para fazer o bem. Como explica Martin Luther King? Eis: King não era realmente cristão. Sério? Em nenhum momento King sugeriu que aqueles que o criticavam seriam punidos neste mundo ou no próximo. Assim, “pelo menos no sentido real, em oposição ao nominal, ele não era cristão”.

Deixemos de lado a possibilidade de que a falta de interesse de King por vingança tenha derivado dos evangelhos; em lugar disso, empreguemos as ferramentas de um pensador que Hitchens recomenda: Karl Popper.

Popper afirmou que, para que qualquer teoria possa ser considerada científica, é necessário que seja passível de prova em contrário. Será que “a religião envenena tudo” é passível de prova em contrário? Potencialmente -bastaria que encontrássemos alguma coisa que a religião não envenenou, e veríamos como a teoria se sai. Martin Luther King não envenenou tudo. Ah, diz Hitchens, mas ele não era religioso.

Qualquer estudioso de Popper reconhece a artimanha: trata-se de uma hipótese “ad hoc”, criada para explicar fatos desconfortáveis que sirvam para refutar uma teoria.

E as pessoas que não crêem em qualquer deus e ainda assim fazem o mal? Hitchens não alega que o nazismo era cristão, mas dedica páginas à cumplicidade entre as igrejas e o nazismo, e ao número muito pequeno de líderes religiosos que se opuseram a ele. É tudo verdade, mas o nazismo continua responsável por seus crimes.

Quanto a Stálin, Hitchens diz, basta observar “a busca permanente de heréticos e promotores de cismas; a mumificação de líderes mortos como ícones e relíquias”. Isso nos lembra algo? Hitchens afirma que Stálin compreendia as superstições religiosas de seu povo e as imitava. Assim, King não era religioso, mas Stálin era. Se essa forma de mesquinharia intelectual e moral o agrada, o livro de Hitchens também o fará. [FOLHA 23/9/07]