O mundo por José Mujica

«Em sua nona videocoluna para a DW, o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, questiona-se como um mundo no qual a produtividade se multiplica à esteira da tecnologia não consegue socorrer suas crianças pobres. Para ele, os governos centrais são incapazes de superar suas visões de curto prazo e egoístas para resolverem o problema.»

Veja: Consciência Sul, DW.COM, 2/1/17

Política, razão e moral

Na guerra de marketing que é a campanha política, quem perde primeiro é a verdade. Melhor dizendo, a verdade perde mesmo antes de a guerra começar…


Antigamente, essa aversão dos políticos pela verdade me repugnava. Com o tempo, fui entendendo que a política, tal como a conhecemos (pelo menos a partir do fim da Idade Média), segue uma lógica própria, que pouco ou nada tem a ver com a verdade e com o bem (e o belo).

Política é a arte (ou a técnica) de conquistar e de manter o poder. A “boa” política busca o poder como meio para outros fins mais nobres. A “má” política busca o poder como meio para outros fins menos nobres. Entre uma e outra, encontra-se a política “pura”, aquela que busca o poder pelo poder, como fim em si mesmo.

Como me parece óbvio, na realidade, ou seja, de fato, concretamente, não existe uma política que seja apenas boa ou apenas má ou uma política que não seja nem uma coisa nem outra. Na realidade esses “tipos ideais” (Weber) se misturam das mais diversas maneiras.

Mas desse estado de coisas não se segue que a política seja irracional. A irracionalidade aparece na escolha, por parte dos políticos, dos seus fins. Pois os fins estão intimamente ligados a valores, dependendo de certo modo destes. E os valores, por sua vez, não são, em geral, criados ou apreendidos pela razão. Se fossem racionais, os valores –que, em geral, orientam nossa vida e, em especial, orientam a política– poderiam ser demonstrados cientificamente (quem, afinal, decide que valor é o mais nobre?). O que não parece ocorrer em parte alguma. Se ocorresse, não estaríamos vivendo sob o domínio de um relativismo generalizado, quase, por assim dizer, “absoluto” (cf. o “politeísmo dos valores”, de Weber).

Como indiquei, porém, a irracionalidade dos fins não determina a política, pois os meios escolhidos pelos políticos para a consecução de seus fins, esses sim podem ser analisados racionalmente. É a razão que pode decidir com competência quais são os fins mais eficazes e eficientes em vista de um fim predeterminado.

Com efeito, a razão não é nunca boa ou má, moral ou imoral, bela ou feia. Esses atributos convêm aos valores, que, como vimos, determinam a escolha dos fins. Sendo assim, Auschwitz pode ser considerado um empreendimento altamente racional, apesar de toda sua maldade, imoralidade e feiura.

Esse esclarecimento acerca da natureza dos valores e da racionalidade nos ajuda a compreender melhor a própria política e os políticos.

A verdade raramente é um fim político (vide a dificuldade das chamadas “comissões da verdade”). A verdade cada vez menos é um valor para nós, em geral, e para os políticos, em especial. Mesmo quando buscam o “bem comum”, os políticos tendem a optar ou pela omissão ou pela meia verdade ou, simplesmente, pela mentira.

A mesma coisa se poderia dizer, mutatis mutandis, sobre o bem e o belo.

Os políticos que assumem sem titubear esse modus operandi são conhecidos como realistas, como fazedores da Realpolitik. E aqueles que não o assumem, deixando-se dominar mais ou menos por escrúpulos morais ou estéticos, são conhecidos por idealistas.

Idealistas não são necessariamente morais, mas quase sempre moralistas. Realistas não são necessariamente imorais, mas quase sempre amorais.

Na verdade, mais uma vez seguindo Weber, aqui se poderia falar de dois tipos de moral. A moral realista baseia-se, ou melhor, deveria basear-se na responsabilidade política. E a moral idealista, por sua vez, baseia-se nas convicções morais, estéticas etc.

Ora, muitas vezes, as decisões e ações políticas baseadas em convicções, por mais nobres que estas sejam, revelam-se irresponsáveis. O exemplo clássico desse fenômeno é a convicção de sempre, em quaisquer circunstâncias, dizer a verdade. Como se sabe, a verdade, muitas vezes, tem consequências fatais –para terceiros. Se um mercenário me pergunta sobre o paradeiro de sua vítima, e respondo-lhe a verdade, eu me torno cúmplice de homicídio.

Em suma, o problema da relação entre política e moral é extremamente complexo, não podendo ser equacionado, muito menos resolvido, de modo por assim dizer “geométrico”. Na verdade, é necessária muita “finura”… Por isso, vou ficando por aqui.

Ninguém

Muita gente está estarrecida (como a professora Marilena Chaui), com o fato de que –apenas quinze meses depois da Primavera Brasileira– os conservadores tenham saído fortalecidos das eleições, sobretudo em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

Sinceramente, eu não estou. O movimento de 2013 se caracterizou justamente por seu apartidarismo, ou seja, por ser apolítico no sentido formal: os manifestantes saíram às ruas mais para protestar contra os políticos profissionais do que para fazer reivindicações a estes mesmos políticos. Era natural, portanto, que essa gente não se sentisse disposta a converter o seu inconformismo em votos.


Como informa o quadro acima, o número total de eleitores que votaram em branco ou anularam o voto ou simplesmente não votaram no primeiro turno chegou a quase trinta e nove milhões, ou seja, a mais de 27% do eleitorado brasileiro.

Parece-me razoável supor que boa parte dos manifestantes do ano passado pertença a esse universo enorme de eleitores que optaram por se calar agora.

Refiro-me a aqueles que efetivamente saíram às ruas para manifestar sua insatisfação e não àqueles que simplesmente foram na onda, para sentir-se parte de algo maior ou “fazer história” — registrando devidamente sua presença em selfies.

Mas é claro que esse fenômeno não é fácil de compreender, muito menos de definir, uma vez que não se identifica com nenhuma instituição política ou de qualquer outra natureza. É –ou foi– um movimento. Sem rosto (apesar dos milhões de selfies!). E sem nome. Ou melhor: o nome dessa legião é Ninguém.

Razão e política

Uma das coisas que mais chamam a atenção no debate político é a falta de coerência.

Não me refiro aos debates dos políticos profissionais, pois desses não espero coerência nenhuma, aliás, não espero nada mais do que um show de marketing.


Também não me refiro ao debate de e entre jornalistas como o Rex Fallaciae (também conhecido como Rex vero Transformationes), pois estes não fazem realmente jornalismo, mas política partidária; aliás, costumam declarar esse absurdo com muito orgulho: eu faço oposição!; aqui se faz oposição pra valer! — Credo.


Refiro-me sim ao debate entre cidadãos, amigos, colegas, conhecidos, no mundo real ou no virtual. Vou dar um exemplo.


Muitos esquerdistas convictos e até militantes defendem a tese segundo a qual no primeiro turno se deva votar ideologicamente e apenas no segundo, utilmente, e isso em qualquer cenário.


Na minha opinião, trata-se de uma contradição. Vejamos o cenário atual. A Dilma, segundo as últimas pesquisas, atingiu mais de 45% dos votos válidos. Uma delas constatou 47%. Como a curva da presidenta é ascendente, é de se esperar que ela esteja ainda acima desse número, mesmo que dentro da margem de erro.


Isso significa que a candidata à reeleição pode vencer o pleito já no primeiro turno, ou então deixar de vencer por uma margem muito pequena de votos.


Ora, os votos por convicção, ideológicos, “inúteis” desses esquerdistas podem até mesmo ultrapassar essa pequena margem. Portanto, esses votos poderiam decidir a eleição já no primeiro turno a favor da candidata, na qual, muito provavelmente, esses eleitores votarão no segundo turno.


Se é assim, então por que arriscar? Por que pôr em risco as políticas públicas inclusivas levadas a cabo pela Dilma e por seu partido?


Para fazer história? Fazer constar formalmente a própria opinião? Para fortalecer determinada agenda política?


Digamos que isso tudo faça algum sentido, o que eu duvido. A pergunta que resta é: o que adianta fazer história etc. se a eleição for vencida no segundo turno por um dos outros dois candidatos?


Alguns diriam que este é o preço da “revolução”; outros, que não se pode abdicar do idealismo político; outros ainda diriam que todos os candidatos viáveis não são mesmo de esquerda, inclusive a Dilma do PT.


Bom, na minha opinião, esses “contra-argumentos” são ainda mais ingênuos do que contraditórios.


Não se faz revolução alguma com as armas do próprio sistema que se pretende revolucionar. O idealismo político em geral é irresponsável, uma vez que tem como fim a própria convicção política em detrimento do bem comum (como é o caso aqui). E é claro que o PT e a Dilma não são de esquerda, ora essa; este não é um país socialista, e nem mesmo social-democrata (e é justamente por isso que as políticas sociais implantadas têm tanto valor).


Enfim, todas as contas feitas, o bem intencionado esquerdista convicto pode ser diretamente responsável pela derrota de um programa social inédito neste país por uma questão de simples orgulho ideológico.


Raro leitor, reflita comigo. Se é para entrar no jogo sujo da política real, desta suposta democracia representativa, depositando, digo, digitando o seu valioso (!) voto na urna neste domingo, então que o faça de modo racional, calculando com frieza as possíveis consequências de sua escolha.


As grandes corporações de mídia, os grandes bancos e as grandes empreiteiras não jogaram a toalha e certamente vão endurecer o jogo num eventual segundo tempo.


Boa sorte!

Situação inalterada

Segundo o IBOPE, no dia 26 de agosto a Dilma tinha 34% dos votos, e hoje, 23 de setembro, portanto um mês depois, ela tem 38%. A Marina, por sua vez, tinha 29%, a mesma porcentagem de votos de hoje. E com o Aécio se dá a mesma coisa: 19% tanto em agosto quanto agora. Também com os votos brancos não ocorreu nenhuma mudança: 7% nas duas datas. Já com a porcentagem de indecisos, um aumento significativo: de 5% para 8%. A margem de erro é de +-2 pontos percentuais.

Assim, depois de um mês de campanha na TV e no rádio, a situação é praticamente a mesma. O crescimento da Dilma pode ser reduzido à margem de erro: 36% a 36%. No cenário mais favorável, ela terá crescido 8 pontos: de 32% a 40%.


Note, porém, que essa possível diferença, na realidade, pode ser maior, pois ainda há que se subtrair os votos brancos e nulos do total de votos. Aliás, por que será que os institutos de pesquisa não fazem essa continha para o eleitor?


Quanto aos indeciso, bem, infelizmente, estes tendem a comportar-se como os demais, o que significa que eles não significam nada ou quase nada.


Mas por que “infelizmente”?, pergunta o raro leitor. Ora, porque a mencionada tendência sim significa alguma coisa: que os seres humanos tomamos decisões segundo certos padrões.


Claro, porém, que essa padronização não deveria causar espanto a ninguém, uma vez que toda pesquisa de opinião pressupõe desde sempre justamente isso, ou seja, que os humanos não somos livres.

Desonestidade intelectual sem fim

Comento, a seguir, artigo de Olavo de Carvalho (OC), publicado no Diário do Comércio em 15 de agosto de 2005, intitulado “Miséria intelectual sem fim”. O texto do autor vai em negrito; os meus comentários seguem no formato de citação (com avanço). Trata-se de comentários despretensiosos, que fiz a um ex-aluno, forte candidato a olavette.


Há quase meio século o mercado editorial brasileiro, e em conseqüência os debates jornalísticos e universitários, cujo alimento de base são os livros,

Isso não é mais verdade, depois da Internet (e os e-books etc.), e, na verdade, nem o era antes, pois a discussão acadêmica se baseia muito mais em obras não traduzidas do que nas publicadas no Brasil.

não refletem em nada o movimento das idéias no mundo, mas apenas o apego atávico da intelectualidade local a mitos e caoetes fabricados pela militância esquerdista para seu consumo interno e satisfação gremial.

Duvido muito que o OC possa falar com conhecimento de causa: que ideias circulam na Alemanha, nos países nórdicos, na Rússia, no Japão, África do sul etc.? O mundo, pra ele, são os países de fala inglesa.

Sem a menor dificuldade posso listar mais de quinhentos livros importantes, que suscitaram discussões intensas e estudos sérios nos EUA e na Europa,

Duvido muito. Que eu saiba, o OC não tem memória fotográfica; quinhentos livros relevantes é uma enormidade. Isso não existe. Desafio-o a mostrar o livro e a respectiva discussão (por estudiosos relevantes em órgãos relevantes)! 

e que permanecem totalmente desconhecidos do nosso público, pelo simples fato de que sua leitura arriscaria furar o balão da autolatria esquerdista e varrer para o lixo do esquecimento inumeráveis prestígios acadêmicos e literários consagrados neste país ao longo das últimas décadas.

E desconhecidos do próprio OC até pouco tempo, não é? Por quê? Ele não lia em inglês? Não tinha Internet? Além disso, o que ele não diz é que o mercado editorial esquerdopata tupiniquim também está muito atrasado em relação ao estrangeiro. Por quê? Isso não aumentaria o prestígio dos acadêmicos?

Esses livros dividem-se em sete categorias principais:
1. Obras essenciais de filosofia e ciências humanas que oferecem alternativas à ortodoxia marxista-desconstrucionista-multiculturalista dominante

Queria ver como OC demonstra o parentesco essencial entre essas três correntes ideológicas! E como se pode falar de ortodoxia com respeito a uma ideologia no mínimo complexa, ou mesmo eclética, como essa? Castoriadis e Badiou, p.ex., são marxistas, o último continua sendo comunista, e ambos não são desconstrucionistas nem relativistas etc.

(por exemplo, os livros de Eric Voegelin, Leo Strauss, Xavier Zubiri, Bernard Lonergan, Eugen Rosenstock-Huessy, Thomas Molnar, David Stove, Roger Scruton).

Um dos luminares da teologia da libertação, ou seja, da teologia marxista-desconstrucionista-multiculturalista, o jesuíta Ignácio Ellacuría, foi um pupilo do Zubiri. Mas é claro que OC não leu Ellacuría e não gostou.
2. Análises críticas dessa ortodoxia (Hilton Kramer, Roger Kimball, Keith Windschuttle, John M. Ellis, Mary Lefkowitz, Judith Reisman).
3. Pesquisas históricas sobre o movimento esquerdista internacional, baseadas nos documentos dos Arquivos de Moscou e outras fontes recém-abertas, (John Lewis Gaddis, John Earl Haynes, Stephen Koch, Harvey Klehr, R. J. Rummel, Christopher Andrew, Herb Romerstein, Ronald Radosh, Arthur Herman).

Como se todas as esquerdas do mundo fizessem parte de um único movimento! Nem as tais internacionais socialistas eram homogêneas. E como se a Rússia fosse a matriz de todos os movimentos esquerdistas do mundo!
4. Livros sobre o esquerdismo hoje em dia, com a descrição dos laços abrangentes que unem ao terrorismo e ao narcotráfico a esquerda chique da grande mídia, das fundações bilionárias e dos organismos dirigentes internacionais ( Unholy Alliance , de David Horowitz, Countdowmn to Terror , de Curt Weldon, Treachery , de Bill Gertz, Through the Eyes of the Enemy , de Stanislav Lunev).

OC fala como se a mera existência de livros fosse já uma prova de alguma coisa. E como se a direita não tivesse laços abrangentes com o crime! Você conhece alguma fundação bilionária de esquerda, raro leitor? Algum banqueiro esquerdista? E é difícil encontrar um criminoso maior do que um banqueiro…

5. Livros sobre a perseguição anti-religiosa no mundo e o fenômeno concomitante da expansão acelerada do cristianismo na Ásia e na África ( The Criminalization of Christianity , de Janet L. Folger, Persecution, de David Limbaugh, Megashift , de James Rutz, Jesus in Beijing , de David Aikman etc. etc.).

E o que isso tem que ver com o assunto? Entre os cristãos tem de tudo, esquerdistas e direitistas, corintianos e marcianos.

6. Livros sobre questões políticas em discussão aberta nos EUA, com repercussões mundiais mais que previsíveis (Men in Black , de Mark R. Levin, So Help Me God , de Roy Moore, Deliver Us From Evil , de Sean Hannity, Liberalism Is a Mental Disorder , de Michael Savage e, evidentemente, todos os livros de Ann Coulter).

Eu me divirto quando leio locuções jornalísticas como “mais que previsíveis” e “evidentemente”, sobretudo quando ocorrem na mesma frase. Os olavettes repetem essas coisas sem antes verificar do que se trata. Será mesmo coisa relevante? Relevante pra quem? O que se discute abertamente nos EUA é mesmo relevante para todos? E o que significa abertamente, na Fox?

7. Obras essenciais que deram novo impulso ao pensamento político conservador americano e europeu desde os anos 40, como as de Ludwig von Mises, Marcel de Corte, Willmore Kendall, Russel Kirk, Erik von Kuenhelt-Leddin, William F. Buckley Jr., M. Stanton Evans, Irving Babbit, Paul Elmer More e muitos outros. Neste ponto a ignorância dos nossos professores universitários chega a ser criminosa, como se viu na fraude coletiva do “Dicionário Crítico do Pensamento da Direita” (detalhes em www.olavodecarvalho.org/textos/naosabendo.htm).

Volto ao ponto inicial: a falta de tradução não implica desconhecimento nem desinteresse. E duvido muito que tudo o que OC considera importante seja mesmo importante de um ponto de vista mais geral. Aposto até que entre esses mesmos autores há quem menospreze outros da mesma lista. Como está fora da academia, OC não parece fazer ideia de como as coisas se passam nela. Aliás, digo mais, duvido que ele sequer conheça os periódicos acadêmicos mais relevantes da área!

Todos esses exemplos são de livros e autores bem conhecidos, amplamente debatidos na mídia americana e alguns na européia.

Isso não lembra alguma coisa? Aquele complexo de vira-lata típico de povos subdesenvolvidos? Se é americano, se é inglês, então é importante?

Cada uma das sete classes comportaria mais de cem outros títulos igualmente importantes. Não é exagerado concluir que, se o debate nacional ignora todas essas obras, das duas uma: ou ele é tão rico que pode prescindir delas, fartando-se numa pletora de produtos locais mais substanciosos, ou está tão abaixo do nível delas que não chega nem a suspeitar que devam ser lidas ou mesmo que existam.

Velha tática de manipulação (que deve ser conhecida por quem publicou obra de erística): redução a uma disjunção (ou/ou). Os vendedores também a usam: — você quer em verde ou em azul? — quando o sujeito não quer é nada. Eu acho até que algumas dessas obras sejam conhecidas pelos brasileiros; que algumas sejam consideradas importantes e outras não; que até deve ter havido alguma discussão em torno de uma ou de outra — das tais quinhentas (será que OC lê todos os periódicos acadêmicos brasileiros pertinentes?) –; há várias possibilidades, não apenas duas exclusivas.

Não é preciso perguntar qual das duas hipóteses é verdadeira.

Hehehe…

Qualquer estudante universitário afirmará resolutamente que se trata de autores desconhecidos no meio acadêmico brasileiro, portanto irrelevantes para quem já encheu seu pé-de-meia cultural com a moeda forte de Eduardo Galeano, Rigoberta Menchú e Emir Sader (sem contar, é claro, a ração diária de Foucaults e Derridas, invariável há cinqüenta anos).

Aí os olavetTes repetem o mesmo achincalhamento sem ler. Duvido que o Galeano possa ser considerado como uma bosta completa. E que Foucault e Derrida sejam também uns bostas completos. Não gostar deles é uma coisa, menosprezá-los é outra. Pra isso são necessários argumentos.

Resta ainda o fenômeno, mórbido em último grau, da polêmica de mão única. Sua fórmula é a seguinte: uma discussão qualquer aparece na mídia americana, conservadores e esquerdistas produzem dezenas de livros a respeito e a parte esquerdista é publicada no Brasil sem suas respostas conservadoras, simulando consenso universal em questões que, no mínimo, permanecem em disputa. O establishment cultural brasileiro materializa assim o koan budista de bater palmas com uma mão só. Isso é a norma, sobretudo, nas polêmicas anticristãs. Uma fajutice barata como O Papa de Hitler , de John Cornwell, teve várias edições e toda a atenção da mídia. Os muitos livros sérios que desmantelaram a farsa (sobretudo o do rabino David Dalin, The Myth of the Hitler Pope , e o do eminente filósofo Ralph McInnerny, The Defamation of Pius XII ) continuam inacessíveis e não foram nem mesmo mencionados na mídia soi-disant cultural.

A onisciência do OC é mesmo impressionante. Talvez o sr. McInnerny seja tão eminente quanto o próprio OC, vai saber. O que OC não parece perceber é que o mercado cultural e livreiro é um… mercado! Quem não publica aquilo que vende, simplesmente (se) quebra. Um “papa do Hitler” é coisa que vende, Assim como tudo que contiver fofoca, sexo, sangue etc. (Entrando um pouco no mérito da coisa: a questão não é que o papa tenha apoiado o nazismo e sim que ele não o tenha combatido com todas as forças. E ele efetivamente não o fez, ora. Isso é admitido até por defensores de Pio XII, ou seja, que ele não fez mais porque o enfrentamento poderia desencadear uma reação desproporcional de Hitler, o que poria mais vidas em risco. Esse argumento é meio esquisito, não? O mesmo vale, em minha opinião, para os últimos papas que acobertaram, sim senhor, os escândalos sexuais dos padres safados.)

Ninguém sequer noticiou que o próprio Cornwell, surpreendido de calças na mão, retirou muitas das acusações que fizera a Pio XII. No Brasil elas ainda são repetidas como verdades provadas.

Verdades provadas? Então prove! E daí que meia dúzia de manés apresente alguma tese como verdade provada? Será que todos os interessados têm de engolir a tese ou de responder a ela? Quer dizer que no Brasil todo mundo acredita na tese do Papa nazista?

Do mesmo modo, os filmes Farenhype 9/11 (www.fahrenhype911.com) e Michael Moore Hates America (www.michaelmoorehatesamerica.com), respostas devastadoras à empulhação fabricada por Michael Moore em Farenheit 9/11 , permanecem fora do alcance do público e não mereceram nem uma notinha nos jornais.

OC lê todos os jornais; impressionante! Duvido muito que os filmes do Moore sejam apenas empulhação. O cara é marqueteiro, quer vender, e por isso exagera mesmo, até distorce, inventa, mas diz também verdades. Mais ou menos como o faz o próprio OC. A diferença é que ao último não cabe nenhuma licença poética.

Resultado: o mais notório charlatão cinematográfico de todos os tempos, que nos EUA tem fama apenas de mentiroso criativo,

Muito provavelmente, isso também é uma mentira. Talvez entre os fascistas, os festeiros do chá etc., isso seja verdade. Mas isso é uma questão de preferência ideológica!

é citado como fonte respeitável até nas universidades.

Onde? Por quem? Na Anhanguera? Na Castelo Branco? Por quem, pelo nogueirinha? Existe algum artigo científico ou alguma tese que refira filme do Moore como fonte de informação na bibliografia?

É patético. Também cada nova intrujice anti-americana ou anti-israelense de Noam Chomsky é recebida como mensagem dos céus, mas ninguém pensa em publicar a coletânea The Anti-Chomsky Reader , de Peter Collier e David Horowitz, porque é impossível lê-la sem concluir que nem mesmo o Chomsky lingüista, anterior à sua transfiguração em pop star da esquerda, era digno de crédito.

Taí uma boa pedida: queria ver OC a uma mesa com Chomsky. Não sobre linguística, pois disso o OC não sabe nada. Mas sobre aquilo que ele acha que sabe. Chomsky tem o hábito de apresentar dados e fontes, um hábito que faria muito bem a OC. Veja o que ele faz neste artigo: cita autores e livros como se isso constituísse uma prova. Não passa de um argumento de autoridade, que, no caso, é apenas uma falácia.

Como esse estado anormal de privação de alimentos intelectuais essenciais vem se prolongando por mais de uma geração, o resultado aparece não só na degradação completa da produção cultural, hoje reduzida a show business e propaganda comunista, mas também nos indivíduos, notavelmente mais embotados e burros a cada ano que passa, quaisquer que fossem antes seus talentos e aptidões.

Como professor de olavettes, eu que o diga! Uma coisa que precisa ser explicada por OC é por que diabos toda a cultura, toda a educação têm de ser reduzidas à disjunção esquerda-direita… Há muita merda sendo publicada neste país, e no resto do mundo (os EUA devem ser os campeões da merdice!), mas há coisas boas também. E coisas que nada têm que ver com ideologia política.

Não hesito em declarar que, pela minha experiência pessoal, qualquer menino educado pela via do home schooling nos EUA está intelectualmente mais equipado do que a maioria dos “formadores de opinião” no Brasil, incluindo os luminares da grande mídia, os acadêmicos e os escritores de maior vendagem no mercado (imagino um debate entre qualquer deles e Kyle Williams, menino gordinho de quinze anos que, sem jamais ter freqüentado escola, faz sucesso como colunista político desde os doze – seria um massacre).

Boa parte das famílias americanas que optam por educar seus filhos em casa é religiosamente fundamentalista e/ou mórmon. Um exemplo apenas (do menino prodígio) não passa de caso anedótico; não prova nada.

Não é preciso dizer que a essas mesmas criaturas, aliás, incumbe a culpa pelo presente estado de coisas. A instrumentalização – ou prostituição – completa da cultura no leito da “revolução cultural” gramsciana não poderia ter outro resultado, exatamente como anunciei no meu livro de 1993, A Nova Era e a Revolução Cultural.

OC, o profeta! Li muito pouco do Gramsci. Pergunto-me se os olavettes o lerão ou simplesmente o jogarão no lixo. — veja: se Gramsci é um bosta, deve ser fácil refutá-lo, não? Se não é, mas é um cara perigoso, então não deve ser muito fácil refutá-lo. Nesse caso, porém, ele deveria ser refutado, não é? E o que os olavettes fazem diante dessa situação? Estudam Gramsci e se empenham em refutá-lo? Claro que não. Já o dão por refutado –pelo mestre–, e de uma vez por todas. Isso só demonstra que não entendem nada de filosofia. Não existe refutação definitiva em filosofia. Um olavette famoso, o jornalista Reinaldo Azevedo, escreveu certa vez que achava despropositada a discussão acerca da existência de Deus, uma vez que Tomás de Aquino já tinha resolvido a parada (!!!).

Por orgulho, vaidade, ressentimento, desonestidade, covardia, sem contar a inépcia pura e simples e a ambição insana de poder absoluto sobre a mente popular, a liderança intelectual esquerdista fechou o Brasil num isolamento provinciano e incapacitante,

Tenho 52 anos e nunca sofri nenhum constrangimento esquerdista em lugar algum. Será que tive apenas sorte, ou será que sou um imbecil completo, incapaz de perceber a própria lavagem cerebral? Não existe isolamento nenhum. Não existe monopólio nenhum. Existem panelinhas. A miséria existente, e a ditadura recente, explicam em parte a preponderância de panelinhas esquerdistas em certas áreas. O resto é manipulação (de OC). — Uma técnica muito eficaz de manipulação consiste justamente em transformar o medo (de coisas concretas) em angústia (medo indefinido). É o que o governo estadunidense fez depois do 11/9, e continua fazendo (todo mundo tem medo mas não sabe bem de quê), e é o que OC não se cansa de fazer: a esquerda é um poder maligno que está por toda parte, e pode engoli-lo a qualquer momento. Cuidado, talvez você esteja dormindo com ela! Faça um curso comigo, leia meu site, compre meus livros, e aprenda a identificar o inimigo íntimo. Saiba como não se deixar transformar num imbecil ou num idiota: saiba como se tornar um olavette!

sem o qual jamais teria sido possível esse paroxismo de inconsciência, essa apoteose da credulidade beócia, sem precedentes em toda a história universal, que foi a aposta maciça do eleitorado brasileiro na idoneidade do PT e na sabedoria infusa de um semi-analfabeto presunçoso.

É essa a explicação filosófica ociana da vitória do PT com o Lula? Uau, que profundidade! Que o Lula seja semianalfabeto e presunçoso, isso é lá verdade. Mas disso não se segue muita coisa, não é? Eu mesmo pensava coisas semelhantes. Depois tive de engolir o fato de que esse semianalfabeto fez coisas pelos miseráveis e pobres que ninguém antes fez. É um fato que o governo do PT tirou e está tirando milhões de pessoas da miséria absoluta. Mas para quem defende o trabalho escravo de crianças, como OC (na China, p.ex.), isso não deve significar muita coisa.

Mas a consciência, ao contrário do dinheiro, parece fazer tanto menos falta quanto mais escasseia.

Disso eu gosto nele, essas tiradas engraçadas, tipo Zé Simão…

Convocados quase que simultaneamente pelos dois house organs do esquerdismo brasileiro, que são os cadernos Mais! da Folha de S. Paulo e Prosa & Verso do Globo,

O Globo, um jornal de esquerda?! Putsgrila!!!

para analisar o fenômeno do descalabro petista, os representantes mais badalados daquela liderança, os mesmos que há trinta anos dominam o palco dos debates públicos no país, lançam as culpas em tudo, exceto, é claro, na hegemonia esquerdista e no seu próprio trabalho incansável de carcereiros da inteligência.
No Mais! , César Benjamin tem ao menos o mérito de reconhecer que a corrupção petista não vem de hoje, não é súbito desvio de uma linha de conduta honesta e sim um mal antigo, de raízes profundas. Mas, na hora de explicar suas causas, apela, sem notar que se contradiz, ao subterfúgio usual de acusar a estratégia de acomodação com o “neoliberalismo”, supostamente adotada pelo governo Lula.

Quer dizer que o descalabro do partido que está prestes a reeleger a presidenta é de ordem moral? Êita análise filosófica profunda, sô! Alguém poderia recomendar Max Weber ao OC? Não, não recomende não, pois não quero me responsabilizar por atos de violência descontrolada.

Reinaldo Gonçalves, economista da UFRJ, acha que o PT estaria melhor sem Lula, José Dirceu et caterva — intriga de família que, sinceramente, não é da nossa conta.
Paul Singer só se preocupa em recordar os bons tempos e tentar salvar a fé socialista. Sempre tive aliás a impressão de que os socialistas saem direto do pediatra para o geriatra. 
O Prosa & Verso não se contenta em ouvir os gurus de sempre. Anuncia mais um ciclo de conferências da série “O Olhar”, “Os Sentidos da Pauxão” etc. – organizado pelo indefectível Adauto Novaes – no qual esses campeões de tagarelice comentarão, desta vez, “O Silêncio dos Intelectuais”, sugerindo que o Brasil está mal porque eles têm falado muito pouco.

Participei de um desses ciclos e achei interessante. Bem diversificado, aliás.

Francisco de Oliveira explicita esse pensamento ao proclamar que a esquerda vem errando porque não trata com suficiente deferência os seus intelectuais – ele próprio, suponho, em primeiro lugar –, usando-os apenas como ornamentos em vez de se curvar às suas sábias lições.
O poeta Antônio Cícero divaga pelo passado histórico, exibindo sua incapacidade de discernir entre a Idade Média e o Renascimento e, quando vai chegando perto do assunto proposto, já acabou o artigo.

Hum… agora fiquei mesmo com vontade de ir ao original… Sou leitor do Cícero, e esse cara é sério e não é nada bobo. E não é esquerdista, muito menos irracionalista.

Sérgio Paulo Rouanet apela ao dever de “universalidade” dos intelectuais, que ele define como “pensar e agir em nome de todos”, como se a universalidade da verdade dependesse do apoio unânime das multidões e como se aquele dever não consistisse, com freqüência, em defender aquilo que todos rejeitam.

Concordo em termos, mas é preciso saber se ele entendeu direito o Rouanet. “Em nome de todos”, pelo menos assim fora de contexto, pode muito bem ser entendido como um imperativo categórico, ou seja, não em nome de todos os existentes em dado lugar e tempo, mas de absolutamente todos os seres racionais.

Renato Janine Ribeiro medita um pouquinho sobre “O que é ser intelectual de esquerda?” – decerto a mais interessante das perguntas para uma classe cuja principal tarefa é a contemplação extática do próprio umbigo.
Querem mais? Essas amostras bastam. A vacuidade, a falta de garra para apreender a substância dos fatos, a obscenidade espontânea e quase inocente com que esses sujeitos lambem em público o próprio ego grupal — tudo isso ilustra, ao mesmo tempo, a causa remota e o seu efeito presente: a total irresponsabilidade intelectual de ativistas ambiciosos desembocou, a longo prazo, numa degradação tamanha, que eles próprios, mergulhados nela, já não conseguem lembrar que a produziram fazendo exatamente o que estão fazendo agora.

Mas que desfecho mixuruca! Obscena foi a estratégia ociana para desqualificar vários intelectuais, resumindo papers inteiros em uma frase. Uma coisa que aprendi com um professor de filosofia, muito simples mas muito poderosa, foi perguntar-me, depois de ler alguma coisa, o seguinte: o que aprendi com isso? Sinceramente, eu não aprendi nada com esse artigo!

E você, raro leitor?

Carta a um futuro olavette [2]

Prezado P.,

Dando continuidade à nossa conversa sobre Olavo de Carvalho (OC), procurarei responder às suas indagações e provocações do modo mais objetivo possível.

Quando você diz que a biografia etc. do OC não lhe interessa, pois o que importa é a forma como ele explica as coisas e as dicas que dá, quando diz isso você está contradizendo o próprio OC. Porque, para o OC, não é possível pensar direito tendo uma vida torta.

Não me entenda mal: a vida pessoal dos filósofos também não me interessa em primeira linha (costumo falar disso a meus alunos). A questão é que alguns deles fazem da vida um argumento. É o caso do OC.
O OC usa e abusa do método ad hominem para criticar deus e o mundo. Menos a ele mesmo!

Faça o sadio exercício de voltar contra o filósofo todos os seus argumentos. Alguns passam no teste, outros não sobrevivem dois minutos. O OC comete um suicídio a cada parágrafo…

Além disso, eu só lhe contei coisas da biografia do OC que são relevantes para a compreensão do seu pensamento. A presença nele do pensamento astrológico e do tradicionalismo me parece evidente.

As teses básicas de Marx podem ser constatadas praticamente por qualquer trabalhador. Ou será que você não se sente explorado? Nunca teve a sensação de trabalhar mais do que precisa? Nunca se sentiu usado como uma mercadoria? Que liberdade você tem no trabalho e fora dele? Liberdade de ser empregado de X ou de Y? De escolher entre a marca X ou Y?

O conceito de natureza humana da Escola Austríaca e dos liberais em geral (econômicos e políticos) é de um cinismo atroz. Para eles, o homem é um ser egoísta, competitivo, que precisa de incentivo (negativo ou positivo) para fazer algo que preste, enfim, um individualista que, devidamente motivado, é capaz de sair da miséria e se tornar um Voegelin da vida. Desde, claro, que seus esforços se deem no seio de uma sociedade de mercado. Existiria uma lógica inerente à sociedade, ao conjunto de todos os indivíduos, ou seja, de todos os egoísmos, uma espécie de mão invisível, que o conduziria ao bom caminho, à vida reta, à anulação dos exageros, das anomalias. Uma perfeita sociedade de mercado seria uma sociedade perfeita.

Ora, meu caro, isso tudo é uma grande ilusão, uma grande mentira contada pelos donos do capital, ou seja, dos que comandam o mercado. Trata-se, a meu ver, de um “pensamento” ideológico.

Nos últimos tempos, a quase cada dois anos essa teoria é desmentida pela realidade. A cada dois anos, o sistema capitalista tem entrado em crise e o Estado chamado a tapar os buracos com trilhões de dólares, em parte simplesmente transferidos aos cofres dos grandes bancos. Não há mão invisível alguma! São milhões de mãos dos trabalhadores e pagadores de impostos que alimentam essa máquina infernal, e quando ela quebra em virtude do mau uso por parte de seus operadores, são as mesmas mãos que são chamadas a pagarem a conta.

Marx tem uma concepção de natureza humana menos cínica. Como põe mais peso no social, para ele o homem pode melhorar se antes a sociedade for melhorada.

Essas duas concepções (quase) antagônicas é que definem em parte os conceitos de direita e de esquerda.
Eu não aceito nenhuma das duas.

Mas o fato é que vivemos sob o domínio da primeira, da (neo)liberal, de direita. Vivemos sob o domínio do capital. Capitalismo é o nome da nossa civilização, a primeira planetária.

A sociedade capitalista centra-se no mercado. Tudo na nossa vida tende a tornar-se mercadoria, a começar por nós mesmos, por nossa força de trabalho, nossa criatividade etc.

Quem defende o liberalismo defende o status quo. Deve estar feliz com o estado geral de coisas neste mundo, com seus 6 bilhões de pobres e miseráveis.

O liberalismo é uma teoria anticristã. Não chego a tanto de dizer que o marxismo (de Marx) seja cristão. Mas de dizer que é menos desumano.

O argumento contábil do Olavo é uma obscenidade. O comunismo, que para ele é a realização perfeita do pensamento de Marx, teria matado violentamente centenas de milhões de pessoas etc. Em primeiro lugar, não faltam marxistas que deploram o regime comunista soviético. Em segundo, um livro contábil tem duas colunas: que tal colocar ao lado da “marxista” a “liberal”? Quantos milhões de pessoas foram mortas e são mortas todos os anos pelo capitalismo? Aliás, quantas o foram pela própria Igreja?

O futuro da civilização capitalista planetária é uma distopia, um “admirável mundo novo” como o do 1984, do Orwell.

O sonho dos esquerdistas de hoje é transformar o mundo numa Suécia. Qualquer comunista trocaria uma Cuba por uma Suécia…

Vá com calma com esse papo de “reduzido a nada”, “destruído” etc., quando o assunto é ciência ou filosofia. Isso não existe. Muito menos quando se trata de economia! Faça uma pesquisa e você verificará que os principais conceitos marxianos continuam sendo estudados e discutidos mundo afora. Inclusive pelos “austríacos”! Isso não lhe parece com um reconhecimento? Não de sua veracidade, mas de sua relevância. Aliás, negar a relevância histórico-científica ou política da obra de Marx me parece uma atitude psicótica, já que redunda na negação da realidade.

Queria saber de quais crimes do Lula você está falando. Mas, vamos lá, digamos que ele seja mesmo um grande criminoso; eu então lhe pergunto: será que ele é menos criminoso que os outros presidentes?; isso diminui alguma coisa nos avanços sociais que se deram sob seu governo?; o faminto que passou a comer mais se importa com isso?; o assunto é política ou moral?

Também acho que a tal da “teoria do domínio do fato” deveria ser estendida ao Lula. Acho mesmo que ele sabia do tal do mensalão. Portanto, deveria ser condenado e preso. Mas também acho que se isso fosse feito com todos os demais governantes, não sobraria quase ninguém. O primeiro mensalão conhecido na história recente do país foi a compra da reeleição do FHC. Eu ouvi o próprio FHC admitir que isso pode mesmo ter ocorrido, mas que ele não sabia. A mesma desculpa que o Lula daria depois. (O FHC e Lula têm uma coisa em comum: não praticaram crimes em proveito próprio, isto é, para o enriquecimento pessoal. Como o fizeram outros, como Collor, Maluf etc.)

O mensalão é, no fundo, uma piada. O nosso sistema político é um grande mensalão, é um verdadeiro toma-lá-dá-cá: fisiologismo, nepotismo, coronelismo e vários outros ismos.

Bom, mas talvez você saiba de outro tipo de crime… depois me conte. O que o seu amigo é obrigado a fazer (o que aconteceria se ele não obedecesse) foi e é também feito por muitos outros em governos municipais, estaduais e federais. Lembra-se do engavetador-mor da república? E ninguém consegue aprovar nenhuma CPI contra os tucanos em São Paulo. Por que será?

Mas procure fazer com o Lula o que você faz com o OC: foque-se não na vida, mas na obra. E não nas merdas, mas nas coisas boas. Ponha-se no lugar do miserável que passou a receber umas dezenas de reais, que, para ele, representa uma fortuna. Procure os índices sociais de instituições confiáveis. Veja, p.ex., a evolução do coeficiente de Gini.

Quanto ao Voegelin, lembro-me ter achado o seu conceito de gnosticismo amplo demais, quase equivalendo a um puro e simples antimodernismo. Ele parece ter assimilado a tese de que a filosofia moderna é eminentemente idealista e que o idealismo é regido pelo princípio da imanência, e disso tirou várias consequências, estendidas a toda a vida social e cultural do ocidente.

Pelo que me lembro, cabe distinguir entre gnose e gnosticismo. Houve uma gnose cristã e houve seitas gnosticistas pseudocristãs, maniqueístas etc. Estas últimas negavam a realidade da natureza em favor do sobrenatural. Voegelin, se não me engano, mistura as duas coisas, e aplica o reducionismo gnosticista à modernidade, afirmando que os modernos reduzem a realidade à natureza, em detrimento do sobrenatural (ele não usa essas palavras, creio). Ou seja, o gnosticismo moderno seria uma inversão do antigo, mas, essencialmente, ambos seriam a mesma coisa: um imanentismo (ora sobrenatural, ora natural) resultante de um dualismo maniqueísta original.

Se for isso mesmo, mantenho a minha posição (até melhor juízo): trata-se de uma generalização apressada, uma forma de tradicionalismo que desconhece as virtudes da modernidade. Como se fosse possível, fazendo tabula rasa de vários séculos, retornar a uma suposta idade de ouro. Enfim, posso estar redondamente enganado…

Para concluir, cada vez mais eu admiro a figura de Sócrates. Quer saber? Para mim, hoje, ele foi maior que Platão (que foi maior que Aristóteles). O maior de todos. Porque o seu saber era um não saber sapiente. Ele não ensinava doutrina alguma. Nunca fechava questão acerca de nada. Ele levava o interlocutor até certo ponto e depois o abandonava à própria reflexão, à própria experiência. Isso pra mim é que é filosofia! Não se trata de uma teoria que se possa aprender de alguém, algum ismo, algum sistema etc. Não, trata-se de uma experiência existencial, interior.

Em geral, a filosofia é confundida com o que vem depois, a tentativa de verter a experiência em palavras, num discurso compreensível para os outros.

Então, meu caro, alunos eu só tenho na escola, e lá eu aprendo mais do que eles!


Abraço,

e.