Drops de filosofia [12]

A querela dos universais
Chama-se de querela dos universais à disputa ocorrida na Idade Média, entre os escolásticos, acerca do estatuto ontológico (realidade) dos universais. Havia três partidos principais.
Os realistas defendiam a tese segundo a qual os universais são logicamente anteriores às coisas e não dependem destas.
Contrariamente, os nominalistas e conceitualistas defendiam a tese segundo a qual os universais são posteriores às coisas, sendo, no limite, meros nomes ou ficções criadas com a finalidade de ordenar ou classificar as coisas.
O partido dos realistas moderados defendia a tese intermediária, segundo a qual os universais estão nas próprias coisas e dependem destas.
A tese nominalista, p. ex., de Occam, e a realista moderada, p. ex., de Aristóteles e Tomás, implicam alguma forma de abstração: os universais são extraídos das próprias coisas por abstração ou por indução.
A tese realista, p. ex., de Platão, implica alguma forma de intuição: os universais são conhecidos por recordação (anamnesis platônica) ou por iluminação (Agostinho).
O debate em torno dos universais está em curso, e a remissão à escolástica faz-se necessária tanto do ponto de vista histórico quando do sistemático.
·         A querela dos universais
o   Universalia ante res
§  Realismo [ou idealismo metafísico: Platão, John Scotus]
·         Os universais são reais [têm ser], sendo anteriores às coisas e independentes destas
o   Teoria da reminiscência [iluminação, intuição]
o   Universalia in rebus
§  Realismo moderado [Aristóteles, Alberto, Tomás]
·         Os universais estão nas coisas, mas não são independentes destas
o   Teoria da abstração
§  NB: Para Tomás, os universais antecedem as coisas [ante res] na mente divina, estão nas coisas [in rebus] e sucedem as coisas [post rem] na mente humana
o   Universalia post rem
§  Nominalismo [Rosceline]
·         Os universais não são reais, e sim meros nomes [flatus vocis]
§  Conceitualismo [Occam, Locke]
·         Os universais têm natureza psicológica, servindo para classificar as  coisas
·         Teoria da abstração

Drops de filosofia [5]

Idealismo e realismo
Do ponto de vista da gnosiologia (teoria do conhecimento ou epistemologia geral), o idealismo consiste naquela posição teórica ou tese segundo a qual o sujeito cognoscente constitui (determina ou condiciona) o seu objeto, enquanto o realismo consiste na posição teórica ou tese contrária, ou seja, naquela segundo a qual o objeto determina ou condiciona o sujeito. No primeiro caso, o sujeito é considerado ativo e espontâneo; no segundo, passivo e receptivo.
Do ponto de vista metafísico, idealismo e realismo são sinônimos. Assim, o idealismo platônico, por exemplo, consiste num realismo das ideias ou dos universais (universalia ante res).
§  Idealismo vs. Realismo
o   Metafísica/ontologia/lógica
§  Idealismo = realismo das idéias ou dos universais
·         Algum universal é real: Platão; Frege
§  Nominalismo
·         Os universais não são reais: Occam
o   Gnosiologia/epistemologia
§  Realismo
·         O objeto determina ou condiciona o sujeito
o   Sujeito passivo [receptivo]
§  Idealismo
·         O sujeito constitui [determina (realmente) ou condiciona (formalmente)] o objeto
o   Sujeito ativo [espontâneo]

Drops de filosofia [3]

Triângulo de Platão
O triângulo de Platão é uma representação esquemática, por meio de uma figura geométrica (triângulo equilátero), da estrutura básica da metafísica platônica, tal como esta é depreendida da obra República, mais especificamente, do mito ou alegoria da caverna. O triângulo representa, assim, a articulação dos três elementos ou momentos fundamentais da teoria das ideias de Platão, associando cada um deles a um vértice do triângulo: a um dos vértices inferiores, a alma (pensar, eu, sujeito); ao outro, o mundo sensível (ser, natureza, objeto), e, ao vértice superior, o mundo suprassensível ou das ideias (ideia, absoluto, Deus).

O problema (representado pelo triângulo) de Platão consiste na diferença entre os elementos ou momentos indicados pelos vértices inferiores: como pode a alma suprassensível conhecer cientificamente (epistéme) o mundo sensível, ou seja, a respectiva “essência” ideal.

A tese ou resposta platônica a esse problema se apoia em duas teorias apresentadas na forma de mitos: o da reminiscência (anamnesis) e o da participação (relação original-cópia: metexis). Assim, por um lado, a alma pode obter conhecimento epistêmico do mundo porque, ao entrar em contato com este, ela se lembra das ideias que contemplou antes de nascer, e, por outro, as coisas do mundo são capazes de despertar a lembrança na alma porque são cópias, sombras das ideias.
·         Ver Drops de filosofia 2

S.Tomás de Aquino

Comemora-se hoje, 21-1, entre os católicos, o dia de São (ou Santo) Tomás de Aquino. Os luteranos o comemoram no dia 8-3. Tommaso D’Aquino nasceu em Roccasecca ou Belcastro, na Itália, no ano de 1224 ou 1225 e morreu na Abadía de Fossanuova, também na Itália, no dia 7-3-1274.  Padre dominicano, teólogo, filósofo, expoente máximo da escolástica, proclamado santo e cognominado Doctor Communis ou Doctor Angelicus pela Igreja Católica. Talvez seu maior mérito tenha sido a síntese que realizou entre o catolicismo e o aristotelismo, este último reintroduzido no Ocidente pelos pensadores árabes (Averroes, Avicena et al.). Sistematizou o conhecimento teológico e filosófico de sua época em suas duas Summae: a Summa Theologiae e a Summa Contra Gentiles.

Tanto o dialético Hegel quanto o analítico Russell não consideravam Tomás como um filósofo, mas sim como teólogo.

De fato, a diferença entre a teologia e a filosofia reside no fato de que a primeira não questiona seus pressupostos (a verdade revelada nas escrituras sagradas e, no caso do catolicismo, também na tradição apostólica). Mas é preciso acrescentar que, embora não aceite nenhum pressuposto sem crítica, ou seja, sem justificação, a filosofia não é possível sem pressuposto algum, ao passo que é possível uma filosofia fundada no absoluto.

Como quer que seja, é inegável o valor espiritual da obra do pensador aquinatense.

No século passado, estudiosos como o francês Étienne Gilson e o italiano Cornelio Fabro, por assim dizer, redescobriram a metafísica do Doutor Angélico: a filosofia do ser como ato ou a filosofia do ato de ser.

Grosso modo, trata-se do ser como tal em sua realidade operante, criativa, que não pode ser confundida com a categoria ou o conceito do ser. Do ser mesmo só podemos saber (conceitual ou categorialmente) que ele é, mas não o que ele é. O que as coisas são nos é dado por sua essência, essa sim concebível por conceitos. Natureza, essência, conceito, definição são conceitos afins. O ser transcende esse nível.

Para os escolásticos, os transcendentais consistem justamente numa espécie de supracategorias, de atributos ontológicos comutáveis entre si ou intercambiáveis. Segundo Tomás, são ele: res (a coisa), unum (o uno, a unidade), aliquid (alteridade), verum (o verdadeiro), bonum (o bem), e, last but not least, ens (o ente).

Esse assunto é muito delicado, principalmente para não especialistas como eu. Por exemplo, quando, logo acima, usei a expressão “espécie de supracategorias”, fui infeliz e corri o risco de levar o leitor a mal-entender o tomismo como se fora algum tipo de essencialismo. Pois a definição de um conceito (ou categoria) se obtém justamente pela especificação do gênero (p. ex., homem é animal [gênero] racional [espécie]). Parece que mesmo grandes tomistas, como Jacques Maritain, teriam sucumbido ao essencialismo, ao não atentarem para a diferença –destacada por Gilson e Fabro– entre ser (ato) e essência (potência).

Para finalizar esta nota, gostaria de lembrar outra sacada genial do Doutor Comum. Trata-se de sua contribuição para a chamada Querela do Universais.

Havia então duas posições antagônicas e mais uma terceira, intermediária; respectivamente, o nominalismo, o realismo e o conceptualismo. Para o nominalismo, os universais não passam de nomes, flatus voices, convenções fonéticas que usamos para classificar as coisas singulares; para o realismo, ao contrário, os universais são transcendente (Platão) ou imanentemente (Aristóteles) reais, e, finalmente, para o conceptualismo, os universais são representações mentais abstraídas das coisas.

Tomás de Aquino, fazendo valer a potência lógica de seu intelecto, sintetizou, então, as três posições conflitantes numa única: os universais existem antes das coisas (ante rem), na mente de Deus, como “ideias platônicas”; nas coisas (in re), como “essências aristotélicas”, e depois das coisas (post rem), na mente do homem, como “ideias humeanas”.

de platão a mangabeira

por OLAVO SCHOPENHAUER DE CARVALHO

Depois que os brasileiros tiraram o último lugar entre estudantes secundários de 32 nacionalidades, os progressos da ignorância pátria não cessaram de assombrar o mundo. O “Índice Global de Talentos” da consultorias Economist Intelligence Unit e Heidrick & Struggles mostra que o Brasil é um dos países com menor capacidade de criar ou atrair mentes brilhantes. Num total de trinta concorrentes, estamos em 23º lugar.

Não me venham com as explicações econômicas de sempre. “Nêfte paíf”, recordista mundial de professores universitários per capita (um para cada oito alunos), a classe dos intelectuais subsidiados prospera dia-a-dia desde que a USP chegou ao poder com Fernando Henrique e nunca mais saiu de cima de nós. Os dois fatores estão interligados. À progressiva míngua de talentos corresponde o vigoroso crescimento da máfia intelectual ativista. “Ativista” não quer dizer mentalmente ativo, mas “politicamente participante”, isto é, o sujeito que tem a generosidade de ocupar quantos cargos públicos lhe ofereçam, de embolsar todas as verbas estatais disponíveis e de assinar todos os manifestos que se publiquem em favor de pessoas envolvidas solidariamente nas duas tarefas anteriores.

Desde o tempo de O Imbecil Coletivo, já documentei tão amplamente a inépcia grotesca das figuras mais badaladas da intelectualidade nacional, que oferecer novas provas seria redundância. Mas não resisto a apontar o exemplo do prof. Roberto Mangabeira Unger, que de certo modo condensa na sua desengonçada pessoa todo esse fenômeno sociológico.

Outro dia, rememorando Platão, escrevi que filósofo é o indivíduo que tenta encontrar um princípio de ordem na sua própria alma e então – só então – diagnosticar ou mesmo tentar curar a desordem do mundo. Com essa idéia na cabeça, tomei um susto quando li a declaração do supracitado Mangabeira: “Para ajudar a transformar o Brasil, em primeiro lugar tenho que transformar a mim mesmo.”

Será que o Mangabeira virou filósofo após tê-lo parecido tão bem?, perguntei. Na continuação, porém, o iluminado esclarecia o sentido da transformação interior a que almejava: “Sou um homem sem charme num país de charmosos. Isso é uma séria complicação. Eu preciso aprender a ter charme.”

Platão, logo após seu fracasso político juvenil, descobriu que não estaria apto a orientar governantes enquanto não encontrasse dentro de si a raiz que o ligava ao fundamento último da existência. Tal foi a meta a que dirigiu seus esforços de uma vida inteira. O guru presidencial, em contraste, sente que para o desempenho de suas altas responsabilidades não lhe falta senão o que pode haver de mais exterior e efêmero. Sem querer, ele enuncia aí o princípio supremo da pedagogia filosófica nacional, que Machado de Assis já havia resumido na “Teoria do Medalhão”: o ser é nada, o parecer é tudo. Tal é a distância que separa Atenas de Brasília.

Guiada por tipos que não são nem mesmo o Mangabeira Unger mas aspiram a sê-lo quando crescerem, a inteligência brasileira entrou em parafuso, veio ao solo e, rompendo-lhe a superfície, mergulhou na treva infernal da estupidez auto-satisfeita. Desde então nossas universidades, sustentadas pelo dinheiro público, despejam anualmente no mercado milhões de imbecis qualificados para a devoção ao Che, o consumo de drogas e o culto emocionado da sua própria superioridade moral, medida pela raiva assassina que sentem do restante da espécie humana. Nessas condições, a educação nacional, hoje em dia, só se distingue do crime organizado porque o crime é organizado. [Jornal do Brasil, 4/10/07]

o que é o triângulo de platão

O triângulo de Platão é uma representação esquemática, por meio de uma figura geométrica (triângulo equilátero), da estrutura básica da metafísica platônica, tal como esta é depreendida da obra “República”, mais especificamente do mito ou alegoria da caverna. O triângulo representa, assim, a articulação dos três elementos ou momentos fundamentais da teoria das idéias de Platão, associando cada um deles a um vértice do triângulo: a um dos vértices inferiores, a alma (pensar, eu, sujeito); ao outro, o mundo sensível (ser, natureza, objeto), e, ao vértice superior, o mundo supra-sensível ou das idéias (idéia, absoluto, Deus).

O problema (representado pelo triângulo) de Platão consiste na diferença entre os elementos ou momentos indicados pelos vértices inferiores: como pode a alma supra-sensível conhecer cientificamente (epistéme) o mundo sensível, ou seja, a respectiva “essência” ideal?

A tese ou resposta platônica a esse problema se apóia em duas teorias apresentadas na forma de mitos: o da reminiscência (anamnesis) e o da participação (relação original-cópia: metexis). Assim, por um lado, a alma pode obter conhecimento espistêmico do mundo porque, ao entrar em contato com este, ela se lembra das idéias que contemplou antes de nascer, e, por outro, as coisas do mundo são capazes de despertar a lembrança na alma porque são cópias, sombras das idéias.

educação como conversão da alma


Platão. A República. 2. ed. São Paulo: Difel, 1973, p. 109-11.

Trata-se de um trecho do Livro VII de A República, que vem logo após o relato do “mito” da caverna. No diálogo, as falas na primeira pessoa são de Sócrates e de seus interlocutores, Glauco e Adimanto, irmãos mais novos de Platão. O texto transcrito.

— Agora, meu caro Glauco — continuei — cumpre aplicar ponto por ponto essa imagem ao que dissemos mais acima, comparar o mundo que a vista nos revela à morada da prisão e a luz do fogo que a ilumina ao poder do Sol. No que se refere à subida à região superior e à contemplação de seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma ao lugar inteligível, não te enganarás sobre o meu pensamento, uma vez que também desejas conhecê-lo. Deus sabe se ele é verdadeiro. Quanto a mim, tal é minha opinião: no mundo inteligível, a idéia do bem é percebida por último e a custo, mas não se pode percebê-la sem concluir que é a causa de tudo quanto há de direito e belo em todas as coisas; que ela engendrou, no mundo visível, a luz e o soberano da luz; que, no mundo inteligível, ela própria é soberana e dispensa a verdade e a inteligência, e que é preciso vê-la para conduzir-se com sabedoria na vida particular e na vida pública.

— Partilho de tua opinião — replicou – à medida que posso.

— Pois bem!, compartilha-a também neste ponto, e não te espantes com o fato de aqueles que são alçados a estas alturas não mais quererem ocupar-se dos negócios humanos e suas almas aspirarem incessantemente a permanecer no alto. Isto é muito natural se nossa alegoria for exata.

— Com efeito, é muito natural — disse ele.

— Mas então?, pensas ser espantoso que um homem, que passa das contemplações divinas às miseráveis coisas humanas, tenha falta de graça e pareça inteiramente ridículo, quando, ainda com a vista perturbada e insuficientemente acostumado às trevas circundantes, é forçado a entrar em disputa, diante dos tribunais ou alhures, acerca das sombras de justiça ou das imagens que projetam estas sombras, e combater as interpretações que delas fornecem os que nunca viram a própria justiça?

— Não há nada de espantoso nisso.

— Com efeito — prossegui — um homem sensato recordar-se-á que os olhos podem perturbar-se de duas maneiras e por duas causas opostas: pela passagem da luz à obscuridade e pela passagem da obscuridade à luz; e, tendo refletido que sucede o mesmo com a alma, quando avistar uma, perturbada e impedida de discernir certos objetos, não rirá tolamente, porém examinará antes se, proveniente de uma vida mais luminosa, ela está, por falta de hábito, ofuscada pelas trevas, ou se, passando da ignorância à luz, está cega pelo brilho demasiado vivo; no primeiro caso, julgá-la-á feliz, em razão do que ela experimenta e da vida que leva; no segundo, há de lastimá-la, e se quisesse rir à custa dela, suas troças seriam menos ridículas do que se incidissem sobre a alma que volta da morada da luz.

— Isto que é falar — disse ele — com muita sabedoria.

— Devemos, pois, se tudo isto for verdade, concluir o seguinte: a educação não é de nenhum modo o que alguns proclamam que ela seja; pois pretendem introduzi-la na alma, onde ela não está, como alguém que desse a visão a olhos cegos.

— É o que pretendem, com efeito.

— Ora – reatei — o presente discurso mostra que cada um possui a faculdade de aprender e o órgão destinado a este uso, e que, semelhante a olhos que só pudessem voltar-se com o corpo inteiro das trevas para a luz, este órgão também deve desviar-se com a alma toda daquilo que nasce, até que se torne capaz de suportar a visão do ser e do que há de mais luminoso no ser; e é isso que nós chamamos o bem, não é?

–Sim.

— A educação é, portanto, a arte que se propõe este fim, a conversão da alma, e que procura os meios mais fáceis e mais eficazes de operá-la; ela não consiste em dar a vista ao órgão da alma, pois que este já o possui; mas como ele está mal disposto e não olha para onde deveria, a educação se esforça por levá-lo à boa direção.

— Assim parece — disse ele.