Assassinato da memória nacional

A Folha publicou hoje uma nota de repúdio, de minha autoria, a um artigo de Olavo de Carvalho. Abaixo, o original e, em seguida, a versão publicada:

“Lamentável a publicação, na seção Opinião da edição de hoje, 17-6-2014, do artigo ‘Assassinos da inteligência’, do jornalista Olavo de Carvalho. Esse autor defende a tese negacionista da ‘ditabranda’, que fere o senso comum e os direitos humanos. Afirma com todas as letras que o regime militar matou ‘400 terroristas’, ‘a maioria deles de armas na mão’, uma inverdade histórica que ofende os familiares das vítimas da ditadura, em particular, e os cidadão de bem, em geral. Não vejo como um artigo desses possa estimular o debate, e acho muito duvidoso que reflita alguma tendência do pensamento contemporâneo. A não ser que o anticomunismo raivoso, que confunde esquerda, esquerdismo, marxismo e comunismo, entre outras coisas, possa ser considerado pensamento.”

“Olavo de Carvalho defende a tese negacionista da ditadura, que fere o senso comum e os direitos humanos. Afirma com todas as letras que o regime militar matou ‘400 terroristas’, ‘a maioria deles de armas na mão’, uma inverdade que ofende os familiares das vítimas da ditadura, em particular, e os cidadãos de bem, em geral. Não vejo como um texto desses possa estimular o debate e acho muito duvidoso que reflita alguma tendência do pensamento contemporâneo.”

Desonestidade intelectual sem fim

Comento, a seguir, artigo de Olavo de Carvalho (OC), publicado no Diário do Comércio em 15 de agosto de 2005, intitulado “Miséria intelectual sem fim”. O texto do autor vai em negrito; os meus comentários seguem no formato de citação (com avanço). Trata-se de comentários despretensiosos, que fiz a um ex-aluno, forte candidato a olavette.


Há quase meio século o mercado editorial brasileiro, e em conseqüência os debates jornalísticos e universitários, cujo alimento de base são os livros,

Isso não é mais verdade, depois da Internet (e os e-books etc.), e, na verdade, nem o era antes, pois a discussão acadêmica se baseia muito mais em obras não traduzidas do que nas publicadas no Brasil.

não refletem em nada o movimento das idéias no mundo, mas apenas o apego atávico da intelectualidade local a mitos e caoetes fabricados pela militância esquerdista para seu consumo interno e satisfação gremial.

Duvido muito que o OC possa falar com conhecimento de causa: que ideias circulam na Alemanha, nos países nórdicos, na Rússia, no Japão, África do sul etc.? O mundo, pra ele, são os países de fala inglesa.

Sem a menor dificuldade posso listar mais de quinhentos livros importantes, que suscitaram discussões intensas e estudos sérios nos EUA e na Europa,

Duvido muito. Que eu saiba, o OC não tem memória fotográfica; quinhentos livros relevantes é uma enormidade. Isso não existe. Desafio-o a mostrar o livro e a respectiva discussão (por estudiosos relevantes em órgãos relevantes)! 

e que permanecem totalmente desconhecidos do nosso público, pelo simples fato de que sua leitura arriscaria furar o balão da autolatria esquerdista e varrer para o lixo do esquecimento inumeráveis prestígios acadêmicos e literários consagrados neste país ao longo das últimas décadas.

E desconhecidos do próprio OC até pouco tempo, não é? Por quê? Ele não lia em inglês? Não tinha Internet? Além disso, o que ele não diz é que o mercado editorial esquerdopata tupiniquim também está muito atrasado em relação ao estrangeiro. Por quê? Isso não aumentaria o prestígio dos acadêmicos?

Esses livros dividem-se em sete categorias principais:
1. Obras essenciais de filosofia e ciências humanas que oferecem alternativas à ortodoxia marxista-desconstrucionista-multiculturalista dominante

Queria ver como OC demonstra o parentesco essencial entre essas três correntes ideológicas! E como se pode falar de ortodoxia com respeito a uma ideologia no mínimo complexa, ou mesmo eclética, como essa? Castoriadis e Badiou, p.ex., são marxistas, o último continua sendo comunista, e ambos não são desconstrucionistas nem relativistas etc.

(por exemplo, os livros de Eric Voegelin, Leo Strauss, Xavier Zubiri, Bernard Lonergan, Eugen Rosenstock-Huessy, Thomas Molnar, David Stove, Roger Scruton).

Um dos luminares da teologia da libertação, ou seja, da teologia marxista-desconstrucionista-multiculturalista, o jesuíta Ignácio Ellacuría, foi um pupilo do Zubiri. Mas é claro que OC não leu Ellacuría e não gostou.
2. Análises críticas dessa ortodoxia (Hilton Kramer, Roger Kimball, Keith Windschuttle, John M. Ellis, Mary Lefkowitz, Judith Reisman).
3. Pesquisas históricas sobre o movimento esquerdista internacional, baseadas nos documentos dos Arquivos de Moscou e outras fontes recém-abertas, (John Lewis Gaddis, John Earl Haynes, Stephen Koch, Harvey Klehr, R. J. Rummel, Christopher Andrew, Herb Romerstein, Ronald Radosh, Arthur Herman).

Como se todas as esquerdas do mundo fizessem parte de um único movimento! Nem as tais internacionais socialistas eram homogêneas. E como se a Rússia fosse a matriz de todos os movimentos esquerdistas do mundo!
4. Livros sobre o esquerdismo hoje em dia, com a descrição dos laços abrangentes que unem ao terrorismo e ao narcotráfico a esquerda chique da grande mídia, das fundações bilionárias e dos organismos dirigentes internacionais ( Unholy Alliance , de David Horowitz, Countdowmn to Terror , de Curt Weldon, Treachery , de Bill Gertz, Through the Eyes of the Enemy , de Stanislav Lunev).

OC fala como se a mera existência de livros fosse já uma prova de alguma coisa. E como se a direita não tivesse laços abrangentes com o crime! Você conhece alguma fundação bilionária de esquerda, raro leitor? Algum banqueiro esquerdista? E é difícil encontrar um criminoso maior do que um banqueiro…

5. Livros sobre a perseguição anti-religiosa no mundo e o fenômeno concomitante da expansão acelerada do cristianismo na Ásia e na África ( The Criminalization of Christianity , de Janet L. Folger, Persecution, de David Limbaugh, Megashift , de James Rutz, Jesus in Beijing , de David Aikman etc. etc.).

E o que isso tem que ver com o assunto? Entre os cristãos tem de tudo, esquerdistas e direitistas, corintianos e marcianos.

6. Livros sobre questões políticas em discussão aberta nos EUA, com repercussões mundiais mais que previsíveis (Men in Black , de Mark R. Levin, So Help Me God , de Roy Moore, Deliver Us From Evil , de Sean Hannity, Liberalism Is a Mental Disorder , de Michael Savage e, evidentemente, todos os livros de Ann Coulter).

Eu me divirto quando leio locuções jornalísticas como “mais que previsíveis” e “evidentemente”, sobretudo quando ocorrem na mesma frase. Os olavettes repetem essas coisas sem antes verificar do que se trata. Será mesmo coisa relevante? Relevante pra quem? O que se discute abertamente nos EUA é mesmo relevante para todos? E o que significa abertamente, na Fox?

7. Obras essenciais que deram novo impulso ao pensamento político conservador americano e europeu desde os anos 40, como as de Ludwig von Mises, Marcel de Corte, Willmore Kendall, Russel Kirk, Erik von Kuenhelt-Leddin, William F. Buckley Jr., M. Stanton Evans, Irving Babbit, Paul Elmer More e muitos outros. Neste ponto a ignorância dos nossos professores universitários chega a ser criminosa, como se viu na fraude coletiva do “Dicionário Crítico do Pensamento da Direita” (detalhes em www.olavodecarvalho.org/textos/naosabendo.htm).

Volto ao ponto inicial: a falta de tradução não implica desconhecimento nem desinteresse. E duvido muito que tudo o que OC considera importante seja mesmo importante de um ponto de vista mais geral. Aposto até que entre esses mesmos autores há quem menospreze outros da mesma lista. Como está fora da academia, OC não parece fazer ideia de como as coisas se passam nela. Aliás, digo mais, duvido que ele sequer conheça os periódicos acadêmicos mais relevantes da área!

Todos esses exemplos são de livros e autores bem conhecidos, amplamente debatidos na mídia americana e alguns na européia.

Isso não lembra alguma coisa? Aquele complexo de vira-lata típico de povos subdesenvolvidos? Se é americano, se é inglês, então é importante?

Cada uma das sete classes comportaria mais de cem outros títulos igualmente importantes. Não é exagerado concluir que, se o debate nacional ignora todas essas obras, das duas uma: ou ele é tão rico que pode prescindir delas, fartando-se numa pletora de produtos locais mais substanciosos, ou está tão abaixo do nível delas que não chega nem a suspeitar que devam ser lidas ou mesmo que existam.

Velha tática de manipulação (que deve ser conhecida por quem publicou obra de erística): redução a uma disjunção (ou/ou). Os vendedores também a usam: — você quer em verde ou em azul? — quando o sujeito não quer é nada. Eu acho até que algumas dessas obras sejam conhecidas pelos brasileiros; que algumas sejam consideradas importantes e outras não; que até deve ter havido alguma discussão em torno de uma ou de outra — das tais quinhentas (será que OC lê todos os periódicos acadêmicos brasileiros pertinentes?) –; há várias possibilidades, não apenas duas exclusivas.

Não é preciso perguntar qual das duas hipóteses é verdadeira.

Hehehe…

Qualquer estudante universitário afirmará resolutamente que se trata de autores desconhecidos no meio acadêmico brasileiro, portanto irrelevantes para quem já encheu seu pé-de-meia cultural com a moeda forte de Eduardo Galeano, Rigoberta Menchú e Emir Sader (sem contar, é claro, a ração diária de Foucaults e Derridas, invariável há cinqüenta anos).

Aí os olavetTes repetem o mesmo achincalhamento sem ler. Duvido que o Galeano possa ser considerado como uma bosta completa. E que Foucault e Derrida sejam também uns bostas completos. Não gostar deles é uma coisa, menosprezá-los é outra. Pra isso são necessários argumentos.

Resta ainda o fenômeno, mórbido em último grau, da polêmica de mão única. Sua fórmula é a seguinte: uma discussão qualquer aparece na mídia americana, conservadores e esquerdistas produzem dezenas de livros a respeito e a parte esquerdista é publicada no Brasil sem suas respostas conservadoras, simulando consenso universal em questões que, no mínimo, permanecem em disputa. O establishment cultural brasileiro materializa assim o koan budista de bater palmas com uma mão só. Isso é a norma, sobretudo, nas polêmicas anticristãs. Uma fajutice barata como O Papa de Hitler , de John Cornwell, teve várias edições e toda a atenção da mídia. Os muitos livros sérios que desmantelaram a farsa (sobretudo o do rabino David Dalin, The Myth of the Hitler Pope , e o do eminente filósofo Ralph McInnerny, The Defamation of Pius XII ) continuam inacessíveis e não foram nem mesmo mencionados na mídia soi-disant cultural.

A onisciência do OC é mesmo impressionante. Talvez o sr. McInnerny seja tão eminente quanto o próprio OC, vai saber. O que OC não parece perceber é que o mercado cultural e livreiro é um… mercado! Quem não publica aquilo que vende, simplesmente (se) quebra. Um “papa do Hitler” é coisa que vende, Assim como tudo que contiver fofoca, sexo, sangue etc. (Entrando um pouco no mérito da coisa: a questão não é que o papa tenha apoiado o nazismo e sim que ele não o tenha combatido com todas as forças. E ele efetivamente não o fez, ora. Isso é admitido até por defensores de Pio XII, ou seja, que ele não fez mais porque o enfrentamento poderia desencadear uma reação desproporcional de Hitler, o que poria mais vidas em risco. Esse argumento é meio esquisito, não? O mesmo vale, em minha opinião, para os últimos papas que acobertaram, sim senhor, os escândalos sexuais dos padres safados.)

Ninguém sequer noticiou que o próprio Cornwell, surpreendido de calças na mão, retirou muitas das acusações que fizera a Pio XII. No Brasil elas ainda são repetidas como verdades provadas.

Verdades provadas? Então prove! E daí que meia dúzia de manés apresente alguma tese como verdade provada? Será que todos os interessados têm de engolir a tese ou de responder a ela? Quer dizer que no Brasil todo mundo acredita na tese do Papa nazista?

Do mesmo modo, os filmes Farenhype 9/11 (www.fahrenhype911.com) e Michael Moore Hates America (www.michaelmoorehatesamerica.com), respostas devastadoras à empulhação fabricada por Michael Moore em Farenheit 9/11 , permanecem fora do alcance do público e não mereceram nem uma notinha nos jornais.

OC lê todos os jornais; impressionante! Duvido muito que os filmes do Moore sejam apenas empulhação. O cara é marqueteiro, quer vender, e por isso exagera mesmo, até distorce, inventa, mas diz também verdades. Mais ou menos como o faz o próprio OC. A diferença é que ao último não cabe nenhuma licença poética.

Resultado: o mais notório charlatão cinematográfico de todos os tempos, que nos EUA tem fama apenas de mentiroso criativo,

Muito provavelmente, isso também é uma mentira. Talvez entre os fascistas, os festeiros do chá etc., isso seja verdade. Mas isso é uma questão de preferência ideológica!

é citado como fonte respeitável até nas universidades.

Onde? Por quem? Na Anhanguera? Na Castelo Branco? Por quem, pelo nogueirinha? Existe algum artigo científico ou alguma tese que refira filme do Moore como fonte de informação na bibliografia?

É patético. Também cada nova intrujice anti-americana ou anti-israelense de Noam Chomsky é recebida como mensagem dos céus, mas ninguém pensa em publicar a coletânea The Anti-Chomsky Reader , de Peter Collier e David Horowitz, porque é impossível lê-la sem concluir que nem mesmo o Chomsky lingüista, anterior à sua transfiguração em pop star da esquerda, era digno de crédito.

Taí uma boa pedida: queria ver OC a uma mesa com Chomsky. Não sobre linguística, pois disso o OC não sabe nada. Mas sobre aquilo que ele acha que sabe. Chomsky tem o hábito de apresentar dados e fontes, um hábito que faria muito bem a OC. Veja o que ele faz neste artigo: cita autores e livros como se isso constituísse uma prova. Não passa de um argumento de autoridade, que, no caso, é apenas uma falácia.

Como esse estado anormal de privação de alimentos intelectuais essenciais vem se prolongando por mais de uma geração, o resultado aparece não só na degradação completa da produção cultural, hoje reduzida a show business e propaganda comunista, mas também nos indivíduos, notavelmente mais embotados e burros a cada ano que passa, quaisquer que fossem antes seus talentos e aptidões.

Como professor de olavettes, eu que o diga! Uma coisa que precisa ser explicada por OC é por que diabos toda a cultura, toda a educação têm de ser reduzidas à disjunção esquerda-direita… Há muita merda sendo publicada neste país, e no resto do mundo (os EUA devem ser os campeões da merdice!), mas há coisas boas também. E coisas que nada têm que ver com ideologia política.

Não hesito em declarar que, pela minha experiência pessoal, qualquer menino educado pela via do home schooling nos EUA está intelectualmente mais equipado do que a maioria dos “formadores de opinião” no Brasil, incluindo os luminares da grande mídia, os acadêmicos e os escritores de maior vendagem no mercado (imagino um debate entre qualquer deles e Kyle Williams, menino gordinho de quinze anos que, sem jamais ter freqüentado escola, faz sucesso como colunista político desde os doze – seria um massacre).

Boa parte das famílias americanas que optam por educar seus filhos em casa é religiosamente fundamentalista e/ou mórmon. Um exemplo apenas (do menino prodígio) não passa de caso anedótico; não prova nada.

Não é preciso dizer que a essas mesmas criaturas, aliás, incumbe a culpa pelo presente estado de coisas. A instrumentalização – ou prostituição – completa da cultura no leito da “revolução cultural” gramsciana não poderia ter outro resultado, exatamente como anunciei no meu livro de 1993, A Nova Era e a Revolução Cultural.

OC, o profeta! Li muito pouco do Gramsci. Pergunto-me se os olavettes o lerão ou simplesmente o jogarão no lixo. — veja: se Gramsci é um bosta, deve ser fácil refutá-lo, não? Se não é, mas é um cara perigoso, então não deve ser muito fácil refutá-lo. Nesse caso, porém, ele deveria ser refutado, não é? E o que os olavettes fazem diante dessa situação? Estudam Gramsci e se empenham em refutá-lo? Claro que não. Já o dão por refutado –pelo mestre–, e de uma vez por todas. Isso só demonstra que não entendem nada de filosofia. Não existe refutação definitiva em filosofia. Um olavette famoso, o jornalista Reinaldo Azevedo, escreveu certa vez que achava despropositada a discussão acerca da existência de Deus, uma vez que Tomás de Aquino já tinha resolvido a parada (!!!).

Por orgulho, vaidade, ressentimento, desonestidade, covardia, sem contar a inépcia pura e simples e a ambição insana de poder absoluto sobre a mente popular, a liderança intelectual esquerdista fechou o Brasil num isolamento provinciano e incapacitante,

Tenho 52 anos e nunca sofri nenhum constrangimento esquerdista em lugar algum. Será que tive apenas sorte, ou será que sou um imbecil completo, incapaz de perceber a própria lavagem cerebral? Não existe isolamento nenhum. Não existe monopólio nenhum. Existem panelinhas. A miséria existente, e a ditadura recente, explicam em parte a preponderância de panelinhas esquerdistas em certas áreas. O resto é manipulação (de OC). — Uma técnica muito eficaz de manipulação consiste justamente em transformar o medo (de coisas concretas) em angústia (medo indefinido). É o que o governo estadunidense fez depois do 11/9, e continua fazendo (todo mundo tem medo mas não sabe bem de quê), e é o que OC não se cansa de fazer: a esquerda é um poder maligno que está por toda parte, e pode engoli-lo a qualquer momento. Cuidado, talvez você esteja dormindo com ela! Faça um curso comigo, leia meu site, compre meus livros, e aprenda a identificar o inimigo íntimo. Saiba como não se deixar transformar num imbecil ou num idiota: saiba como se tornar um olavette!

sem o qual jamais teria sido possível esse paroxismo de inconsciência, essa apoteose da credulidade beócia, sem precedentes em toda a história universal, que foi a aposta maciça do eleitorado brasileiro na idoneidade do PT e na sabedoria infusa de um semi-analfabeto presunçoso.

É essa a explicação filosófica ociana da vitória do PT com o Lula? Uau, que profundidade! Que o Lula seja semianalfabeto e presunçoso, isso é lá verdade. Mas disso não se segue muita coisa, não é? Eu mesmo pensava coisas semelhantes. Depois tive de engolir o fato de que esse semianalfabeto fez coisas pelos miseráveis e pobres que ninguém antes fez. É um fato que o governo do PT tirou e está tirando milhões de pessoas da miséria absoluta. Mas para quem defende o trabalho escravo de crianças, como OC (na China, p.ex.), isso não deve significar muita coisa.

Mas a consciência, ao contrário do dinheiro, parece fazer tanto menos falta quanto mais escasseia.

Disso eu gosto nele, essas tiradas engraçadas, tipo Zé Simão…

Convocados quase que simultaneamente pelos dois house organs do esquerdismo brasileiro, que são os cadernos Mais! da Folha de S. Paulo e Prosa & Verso do Globo,

O Globo, um jornal de esquerda?! Putsgrila!!!

para analisar o fenômeno do descalabro petista, os representantes mais badalados daquela liderança, os mesmos que há trinta anos dominam o palco dos debates públicos no país, lançam as culpas em tudo, exceto, é claro, na hegemonia esquerdista e no seu próprio trabalho incansável de carcereiros da inteligência.
No Mais! , César Benjamin tem ao menos o mérito de reconhecer que a corrupção petista não vem de hoje, não é súbito desvio de uma linha de conduta honesta e sim um mal antigo, de raízes profundas. Mas, na hora de explicar suas causas, apela, sem notar que se contradiz, ao subterfúgio usual de acusar a estratégia de acomodação com o “neoliberalismo”, supostamente adotada pelo governo Lula.

Quer dizer que o descalabro do partido que está prestes a reeleger a presidenta é de ordem moral? Êita análise filosófica profunda, sô! Alguém poderia recomendar Max Weber ao OC? Não, não recomende não, pois não quero me responsabilizar por atos de violência descontrolada.

Reinaldo Gonçalves, economista da UFRJ, acha que o PT estaria melhor sem Lula, José Dirceu et caterva — intriga de família que, sinceramente, não é da nossa conta.
Paul Singer só se preocupa em recordar os bons tempos e tentar salvar a fé socialista. Sempre tive aliás a impressão de que os socialistas saem direto do pediatra para o geriatra. 
O Prosa & Verso não se contenta em ouvir os gurus de sempre. Anuncia mais um ciclo de conferências da série “O Olhar”, “Os Sentidos da Pauxão” etc. – organizado pelo indefectível Adauto Novaes – no qual esses campeões de tagarelice comentarão, desta vez, “O Silêncio dos Intelectuais”, sugerindo que o Brasil está mal porque eles têm falado muito pouco.

Participei de um desses ciclos e achei interessante. Bem diversificado, aliás.

Francisco de Oliveira explicita esse pensamento ao proclamar que a esquerda vem errando porque não trata com suficiente deferência os seus intelectuais – ele próprio, suponho, em primeiro lugar –, usando-os apenas como ornamentos em vez de se curvar às suas sábias lições.
O poeta Antônio Cícero divaga pelo passado histórico, exibindo sua incapacidade de discernir entre a Idade Média e o Renascimento e, quando vai chegando perto do assunto proposto, já acabou o artigo.

Hum… agora fiquei mesmo com vontade de ir ao original… Sou leitor do Cícero, e esse cara é sério e não é nada bobo. E não é esquerdista, muito menos irracionalista.

Sérgio Paulo Rouanet apela ao dever de “universalidade” dos intelectuais, que ele define como “pensar e agir em nome de todos”, como se a universalidade da verdade dependesse do apoio unânime das multidões e como se aquele dever não consistisse, com freqüência, em defender aquilo que todos rejeitam.

Concordo em termos, mas é preciso saber se ele entendeu direito o Rouanet. “Em nome de todos”, pelo menos assim fora de contexto, pode muito bem ser entendido como um imperativo categórico, ou seja, não em nome de todos os existentes em dado lugar e tempo, mas de absolutamente todos os seres racionais.

Renato Janine Ribeiro medita um pouquinho sobre “O que é ser intelectual de esquerda?” – decerto a mais interessante das perguntas para uma classe cuja principal tarefa é a contemplação extática do próprio umbigo.
Querem mais? Essas amostras bastam. A vacuidade, a falta de garra para apreender a substância dos fatos, a obscenidade espontânea e quase inocente com que esses sujeitos lambem em público o próprio ego grupal — tudo isso ilustra, ao mesmo tempo, a causa remota e o seu efeito presente: a total irresponsabilidade intelectual de ativistas ambiciosos desembocou, a longo prazo, numa degradação tamanha, que eles próprios, mergulhados nela, já não conseguem lembrar que a produziram fazendo exatamente o que estão fazendo agora.

Mas que desfecho mixuruca! Obscena foi a estratégia ociana para desqualificar vários intelectuais, resumindo papers inteiros em uma frase. Uma coisa que aprendi com um professor de filosofia, muito simples mas muito poderosa, foi perguntar-me, depois de ler alguma coisa, o seguinte: o que aprendi com isso? Sinceramente, eu não aprendi nada com esse artigo!

E você, raro leitor?

Carta a um futuro olavette [5]: postscriptum

— Sempre, desde que era astrólogo, OC [Olavo de Carvalho] fez listas de autores e livros e naquele estilo jornalístico: singularizando para elogiar, como em “um Jung” (sim, ele elogiava Jung), “um Guénon”; ou pluralizando para menosprezar, “os Fulanos” etc. A pergunta é: qual lista está valendo, apenas a última? Outra: todos os listados concordam entre si acerca do assunto em tela (p.ex., Zubiri com Weil, Lonergan com Strauss etc.)?

— Vários dos autores listados e recomendados por OC não são pouco conhecidos apenas no Brasil mas em todo o mundo. O curioso é que o OC não diz isso dos EUA, o país mais ignorante de todos os “desenvolvidos”. Duvido que lá se conheçam, proporcionalmente, esses autores mais do que nos outros (países desenvolvidos).

— Alguns desses autores já eram conhecidos no Brasil antes de serem referidos pelo OC, como Weil e o próprio Zubiri.

— Outra coisa que OC não diz é que nos EUA e nos países de língua inglesa em geral se pratica, de modo predominante, a chamada filosofia analítica, ou seja, um “estilo” de filosofia totalmente avesso aos filósofos que ele indica e que não tem o menor interesse por eles.

— “Kant é um burro”, teria dito OC. Não duvido nada que ele o tenha. Mas… Zubiri, Lonergan, Weil, Scruton, e provavelmente ainda outros autores que ele recomenda foram e são estudiosos de Kant. Que raio de idiota ou de imbecil perde tempo com um burro?

— OC alega poder relacionar 500 livros relevantes e desconhecidos no Brasil etc. Ele fala isso como se conhecesse toda a produção científica e filosófica disponível em todo o mundo e em todas as línguas. Aposto como ele desconhece completamente grande parte da produção filosófica em inglês mesmo e nos próprios EUA! Pergunte-lhe, p.ex., se ele leu Moral and Politics, de Vittorio Hoesle. E acho que posso eu mesmo relacionar vários livros importantes de que ele nem sequer ouviu falar.

Carta a um futuro olavette [4]

Caro P.,

Não, ódio não, meu caro. Graças a Deus não odeio ninguém. Digamos que o fato de alguns alunos* meus terem sido aliciados pela seita ociana [de OC, ou seja, Olavo de Carvalho] me tenha começado a incomodar… Incômodo é bem diferente de ódio, não é? (Eu não perderia o meu tempo com o OC se não fosse por um aluno ou um amigo, creia-me.)

Quanto aos livros dele, na verdade não tenho certeza de que me desfiz de todos. Devo ter uns 4 mil livros, e preciso mesmo selecionar o que vale ou não a pena guardar. Quando ele escrever uma obra de filosofia, talvez a compre e guarde. Vamos ver.

Eu sei o que o OC pensa do Gramsci. Em parte, até concordo com ele; em parte, acho um exagero paranoico. Mas não é isso que me interessa, e sim se os olavettes terão a liberdade e a coragem de fazer o próprio juízo sobre Gramsci. Para isso, teriam de ir ao original, ora.

Achei ótimo que os olavettes tenham se assumido como tais (“Olavettes”), pois assim não preciso me sentir constrangido.

Em filosofia, como em tudo, é muito mais fácil destruir do que construir. O que é a filosofia sem argumentos consistentes? Sem ideias claras e distintas? Não digo teoria no sentido de doutrina, sistema (embora nem todo sistema seja fechado). Que direito tem alguém de criticar os argumentos de seu interlocutor se não oferece nenhuma alternativa consistente?

Tenho a impressão de que OC tem muitas ideias preconcebidas, que em parte herdou de sua passagem pela astrologia, pelo perenialismo, sufismo etc., nas quais ele ainda crê firmemente, mas que não sabe como traduzi-las num discurso racional, comunicável.

O que vai contra essas ideias, ele critica, “destrói”, “reduz a nada”. Mas no lugar, não põe nada, limitando-se a fazer alusões a intuições profundas –que um dia desenvolverá, ou que só transmite oralmente a seus discípulos, ao modo da doutrina não escrita de Platão…

Enfim, como dizia um filósofo de Indiaquera, digo, Itaquera City: cada um com seus probrema!

Abraço,

e.

* Você acredita que um deles defendeu que o cigarro não faz mal, que essa ideia não passa de uma armação contra a indústria tabagista? Sabe por quê ele fez isso? Porque é o que OC ensina… Como ele fuma como uma chaminé e não consegue parar de fumar de jeito nenhum, começou a inventar histórias para se justificar. Primeiro, que o cigarro só fazia mal para magros (assim resolveu outro problema dele, a obesidade), depois, que tudo não passava de uma campanha mentirosa etc. Sem comentários!

Carta a um futuro olavette [3]

Caro P.,

Não esperava que você fosse defender OC. Pretendi apenas chamar a sua atenção para alguns pontos problemáticos da “obra” do OC.

OC usa a argumentação ad hominem como método, não no sentido falacioso mas no daquilo que ele chama de “paralaxe cognitiva”, o que, na verdade, não é nada mais que a velha conhecida “contradição pragmática”: identificar se o discurso contradiz a própria posição ou atitude do sujeito do discurso. P.ex., quando digo “eu não sei nada de português”, no ato mesmo de fazer essa afirmação eu a estou contradizendo, pois a faço em português.

O que lhe tenho sugerido é que aplique esse “método” ao próprio OC e a seus seguidores.

Reparei, p.ex., que entre seus discípulos há muitos que se dizem católicos tradicionalistas ou conservadores e, ao mesmo tempo, partidários do liberalismo político-econômico. Ora, meu caro, isso é uma contradição evidente, porque o magistério da Igreja CAR há muito condenou o liberalismo. (O distributivismo do Chesterton, baseado no princípio de subsidiariedade da doutrina social da Igreja, é algo bem diferente do liberalismo!)

Para mim, não só o liberalismo é anticatólico, mas anticristão. E não apenas isso: é imoral, como são imorais o capitalismo e o comunismo (sabendo embora que estes dois são fatos, enquanto o primeiro é uma ideologia). Mas não estou discutindo o tema, e sim chamando a atenção para um tipo de contradição muito comum na obra do OC e nos textos de seus alunos: um autointitulado X que nega X toda vez que abre a boca.

Eu havia decidido não ligar mais para o OC e a sua seita, mas, refletindo melhor, dei-me conta de que, como conhecedor das estratégias dessa “organização” e como professor, eu tenho o dever moral de alertar os (ex)alunos, (ex)colegas e amigos para o problema.

Mas não faço nenhuma questão de ficar discutindo o assunto. Só entro nele quando chamado a isso.

Abraço,

e.

Carta a um futuro olavette [2]

Prezado P.,

Dando continuidade à nossa conversa sobre Olavo de Carvalho (OC), procurarei responder às suas indagações e provocações do modo mais objetivo possível.

Quando você diz que a biografia etc. do OC não lhe interessa, pois o que importa é a forma como ele explica as coisas e as dicas que dá, quando diz isso você está contradizendo o próprio OC. Porque, para o OC, não é possível pensar direito tendo uma vida torta.

Não me entenda mal: a vida pessoal dos filósofos também não me interessa em primeira linha (costumo falar disso a meus alunos). A questão é que alguns deles fazem da vida um argumento. É o caso do OC.
O OC usa e abusa do método ad hominem para criticar deus e o mundo. Menos a ele mesmo!

Faça o sadio exercício de voltar contra o filósofo todos os seus argumentos. Alguns passam no teste, outros não sobrevivem dois minutos. O OC comete um suicídio a cada parágrafo…

Além disso, eu só lhe contei coisas da biografia do OC que são relevantes para a compreensão do seu pensamento. A presença nele do pensamento astrológico e do tradicionalismo me parece evidente.

As teses básicas de Marx podem ser constatadas praticamente por qualquer trabalhador. Ou será que você não se sente explorado? Nunca teve a sensação de trabalhar mais do que precisa? Nunca se sentiu usado como uma mercadoria? Que liberdade você tem no trabalho e fora dele? Liberdade de ser empregado de X ou de Y? De escolher entre a marca X ou Y?

O conceito de natureza humana da Escola Austríaca e dos liberais em geral (econômicos e políticos) é de um cinismo atroz. Para eles, o homem é um ser egoísta, competitivo, que precisa de incentivo (negativo ou positivo) para fazer algo que preste, enfim, um individualista que, devidamente motivado, é capaz de sair da miséria e se tornar um Voegelin da vida. Desde, claro, que seus esforços se deem no seio de uma sociedade de mercado. Existiria uma lógica inerente à sociedade, ao conjunto de todos os indivíduos, ou seja, de todos os egoísmos, uma espécie de mão invisível, que o conduziria ao bom caminho, à vida reta, à anulação dos exageros, das anomalias. Uma perfeita sociedade de mercado seria uma sociedade perfeita.

Ora, meu caro, isso tudo é uma grande ilusão, uma grande mentira contada pelos donos do capital, ou seja, dos que comandam o mercado. Trata-se, a meu ver, de um “pensamento” ideológico.

Nos últimos tempos, a quase cada dois anos essa teoria é desmentida pela realidade. A cada dois anos, o sistema capitalista tem entrado em crise e o Estado chamado a tapar os buracos com trilhões de dólares, em parte simplesmente transferidos aos cofres dos grandes bancos. Não há mão invisível alguma! São milhões de mãos dos trabalhadores e pagadores de impostos que alimentam essa máquina infernal, e quando ela quebra em virtude do mau uso por parte de seus operadores, são as mesmas mãos que são chamadas a pagarem a conta.

Marx tem uma concepção de natureza humana menos cínica. Como põe mais peso no social, para ele o homem pode melhorar se antes a sociedade for melhorada.

Essas duas concepções (quase) antagônicas é que definem em parte os conceitos de direita e de esquerda.
Eu não aceito nenhuma das duas.

Mas o fato é que vivemos sob o domínio da primeira, da (neo)liberal, de direita. Vivemos sob o domínio do capital. Capitalismo é o nome da nossa civilização, a primeira planetária.

A sociedade capitalista centra-se no mercado. Tudo na nossa vida tende a tornar-se mercadoria, a começar por nós mesmos, por nossa força de trabalho, nossa criatividade etc.

Quem defende o liberalismo defende o status quo. Deve estar feliz com o estado geral de coisas neste mundo, com seus 6 bilhões de pobres e miseráveis.

O liberalismo é uma teoria anticristã. Não chego a tanto de dizer que o marxismo (de Marx) seja cristão. Mas de dizer que é menos desumano.

O argumento contábil do Olavo é uma obscenidade. O comunismo, que para ele é a realização perfeita do pensamento de Marx, teria matado violentamente centenas de milhões de pessoas etc. Em primeiro lugar, não faltam marxistas que deploram o regime comunista soviético. Em segundo, um livro contábil tem duas colunas: que tal colocar ao lado da “marxista” a “liberal”? Quantos milhões de pessoas foram mortas e são mortas todos os anos pelo capitalismo? Aliás, quantas o foram pela própria Igreja?

O futuro da civilização capitalista planetária é uma distopia, um “admirável mundo novo” como o do 1984, do Orwell.

O sonho dos esquerdistas de hoje é transformar o mundo numa Suécia. Qualquer comunista trocaria uma Cuba por uma Suécia…

Vá com calma com esse papo de “reduzido a nada”, “destruído” etc., quando o assunto é ciência ou filosofia. Isso não existe. Muito menos quando se trata de economia! Faça uma pesquisa e você verificará que os principais conceitos marxianos continuam sendo estudados e discutidos mundo afora. Inclusive pelos “austríacos”! Isso não lhe parece com um reconhecimento? Não de sua veracidade, mas de sua relevância. Aliás, negar a relevância histórico-científica ou política da obra de Marx me parece uma atitude psicótica, já que redunda na negação da realidade.

Queria saber de quais crimes do Lula você está falando. Mas, vamos lá, digamos que ele seja mesmo um grande criminoso; eu então lhe pergunto: será que ele é menos criminoso que os outros presidentes?; isso diminui alguma coisa nos avanços sociais que se deram sob seu governo?; o faminto que passou a comer mais se importa com isso?; o assunto é política ou moral?

Também acho que a tal da “teoria do domínio do fato” deveria ser estendida ao Lula. Acho mesmo que ele sabia do tal do mensalão. Portanto, deveria ser condenado e preso. Mas também acho que se isso fosse feito com todos os demais governantes, não sobraria quase ninguém. O primeiro mensalão conhecido na história recente do país foi a compra da reeleição do FHC. Eu ouvi o próprio FHC admitir que isso pode mesmo ter ocorrido, mas que ele não sabia. A mesma desculpa que o Lula daria depois. (O FHC e Lula têm uma coisa em comum: não praticaram crimes em proveito próprio, isto é, para o enriquecimento pessoal. Como o fizeram outros, como Collor, Maluf etc.)

O mensalão é, no fundo, uma piada. O nosso sistema político é um grande mensalão, é um verdadeiro toma-lá-dá-cá: fisiologismo, nepotismo, coronelismo e vários outros ismos.

Bom, mas talvez você saiba de outro tipo de crime… depois me conte. O que o seu amigo é obrigado a fazer (o que aconteceria se ele não obedecesse) foi e é também feito por muitos outros em governos municipais, estaduais e federais. Lembra-se do engavetador-mor da república? E ninguém consegue aprovar nenhuma CPI contra os tucanos em São Paulo. Por que será?

Mas procure fazer com o Lula o que você faz com o OC: foque-se não na vida, mas na obra. E não nas merdas, mas nas coisas boas. Ponha-se no lugar do miserável que passou a receber umas dezenas de reais, que, para ele, representa uma fortuna. Procure os índices sociais de instituições confiáveis. Veja, p.ex., a evolução do coeficiente de Gini.

Quanto ao Voegelin, lembro-me ter achado o seu conceito de gnosticismo amplo demais, quase equivalendo a um puro e simples antimodernismo. Ele parece ter assimilado a tese de que a filosofia moderna é eminentemente idealista e que o idealismo é regido pelo princípio da imanência, e disso tirou várias consequências, estendidas a toda a vida social e cultural do ocidente.

Pelo que me lembro, cabe distinguir entre gnose e gnosticismo. Houve uma gnose cristã e houve seitas gnosticistas pseudocristãs, maniqueístas etc. Estas últimas negavam a realidade da natureza em favor do sobrenatural. Voegelin, se não me engano, mistura as duas coisas, e aplica o reducionismo gnosticista à modernidade, afirmando que os modernos reduzem a realidade à natureza, em detrimento do sobrenatural (ele não usa essas palavras, creio). Ou seja, o gnosticismo moderno seria uma inversão do antigo, mas, essencialmente, ambos seriam a mesma coisa: um imanentismo (ora sobrenatural, ora natural) resultante de um dualismo maniqueísta original.

Se for isso mesmo, mantenho a minha posição (até melhor juízo): trata-se de uma generalização apressada, uma forma de tradicionalismo que desconhece as virtudes da modernidade. Como se fosse possível, fazendo tabula rasa de vários séculos, retornar a uma suposta idade de ouro. Enfim, posso estar redondamente enganado…

Para concluir, cada vez mais eu admiro a figura de Sócrates. Quer saber? Para mim, hoje, ele foi maior que Platão (que foi maior que Aristóteles). O maior de todos. Porque o seu saber era um não saber sapiente. Ele não ensinava doutrina alguma. Nunca fechava questão acerca de nada. Ele levava o interlocutor até certo ponto e depois o abandonava à própria reflexão, à própria experiência. Isso pra mim é que é filosofia! Não se trata de uma teoria que se possa aprender de alguém, algum ismo, algum sistema etc. Não, trata-se de uma experiência existencial, interior.

Em geral, a filosofia é confundida com o que vem depois, a tentativa de verter a experiência em palavras, num discurso compreensível para os outros.

Então, meu caro, alunos eu só tenho na escola, e lá eu aprendo mais do que eles!


Abraço,

e.

Carta a um futuro olavette [1]

A seguir, reproduzo uma “carta” originalmente endereçada a um ex-aluno, ora forte candidato a se tornar mais um olavette. A aparente fragmentariedade do texto se deve ao fato de, como toda resposta, subtender muitas coisas. Decidi publicá-la por achar que o caso desse ex-aluno, P., como o chamarei, está infelizmente longe de ser único ou raro. Se for útil para pelo menos uma pessoa já terá valido a pena.

Caro P.,

Não sou especialista em Aristóteles, do qual aliás conheço apenas o básico, para avaliar o livro do Olavo de Carvalho (OC). Mas ele mesmo diz, em algum lugar, que suas ideias sobre o estagirita se baseiam em indicações, antigas, de filósofos árabes e, recentes, do Mario F. dos Santos. Em todo caso, para mim, história da filosofia não é filosofia, e a obra em questão é de história da filosofia.

Eu tomaria mais cuidado com o adjetivo “grande” (ou “pequeno”) ao atribuí-lo a filósofos e pensadores. “Grande”, para mim, cabe a Sócrates, Platão, Aristóteles, ao “burro” do Kant e a mais uns poucos. (O OC talvez pudesse ser o criado de quarto de um deles…)

Nem toda interpretação da “realidade” é de natureza filosófica. A filosofia começa, aliás, discutindo a própria “realidade”: se existe, qual sua natureza, o papel do intérprete etc. A maior parte do que OC publica tem muito pouco de filosofia.

Eu não dou a mínima para a filosofia acadêmica (se é que existe filosofia na academia!); sigo nisso os grandes.

Kant dizia que não se pode ensinar filosofia, mas apenas a filosofar. Infelizmente, é a filosofia herdada, morta, que se ensina na academia. E não me parece que OC faça algo muito diferente. Tive vários “olavettes” como alunos, e eles sempre estiveram entre os piores, incapazes de pensar por si mesmos, cheios de preconceitos, erros crassos e jargões.

Na verdade, meu caro, ninguém ensina ninguém. O professor pode apenas sensibilizar o aluno, e oferecer as condições (ambiente, instrumental etc.) para que este possa começar a filosofar. O aluno aprende ou não, mas ninguém pode se ativar por ele! Tudo que lhe venha de fora não é filosofia viva, mas conhecimento histórico, morto, que ele decora e depois esquece.

Essa desculpa do OC, de que ele não teria tempo para escrever livros, é ela mesma preguiçosa, hehe. Se alguma coisa não lhe falta é a capacidade e a vontade de escrever. Tratados são desnecessários, mas algumas boas sínteses bem que ele podia escrever, não acha? Mas cadê elas? Cadê, aliás, o tal d’Olho do Sol?

Você diz que OC assume o que faz. Bem, eu também manteria cautela quanto a isso. Como lhe disse, ele reescreve a própria biografia de tempos em tempos. Não se trata apenas de mudar de ideia!

Veja: quando o conheci, OC era astrólogo. Sim, ele aprofundou o estudo da astrologia (psicologia, simbologia, metafísica etc.), mas isso se deu aos poucos. No começo, era mesmo um fazedor de horóscopos (um amigo tem uma fita gravada com o horóscopo feito pelo OC), autor de artigos para a revista Planeta (onde difundia barbaridades como a falsa Gnose de Princeton). Quando abriu a Escola Júpiter, começou a dar cursos de formação intelectual. Nessa época, descobriu a obra do esoterista francês René Guénon. Talvez esse encontro tenha sido um dos mais importantes de sua vida. E eu duvido que ele admita tudo o que se passou desde então.

Foi aí que o OC escreveu aqueles livrinhos sobre tradição e tradicionalismo. Começou a estudar e a divulgar a obra do suíço Frithjof Schuon, de quem se tornou discípulo, juntamente com vários alunos (como todo líder carismático, OC sempre teve discípulos). Eles foram para os EUA, onde o Schuon tinha uma Tariqa, uma escola esotérica muçulmana, sufi. (Você deve saber que OC, não por acaso, escreveu uma biografia de Maomé.)

Schuon era para OC um deus na terra, um santo, um grande iniciado. Agora, ele diz que o Schuon era na verdade uma espécie de espião, alguém que foi enviado aos EUA para corrompê-lo por dentro. — O que OC tem a dizer sobre isso?

É que eu me desfiz de todos os livros do OC (e eu tinha todos ou quase todos), senão seria fácil demonstrar essa radical “mudança de ideia”.

Na verdade, o OC foi desligado da tariqa pelo próprio Schuon. Preste atenção nisso. Quando alguém diz isso ao OC, ele responde que tem um documento que prova ter saído de lá numa boa. Ou seja, ele acaba se entregando ao demonstrar interesse em manter uma boa relação com o emissário do capeta.

Pouco antes, OC entrou para a ordem dos irmãos Shah (Idries etc.). Uma ordem supostamente sufi, com um método peculiar, heterodoxo, de desenvolvimento espiritual. Depois escreveu que se tratava de magia negra. (Rapaz, se eu puxar pela memória, não para de vir coisas…)

O suposto tradicionalismo católico do OC vem da época do perenialismo (Guénon, Schuon). Não digo que ele não tenha fé (quem sou eu para afirmar isso?), mas sim que ele se apega ao tradicionalismo católico em virtude da doutrina metafísica daqueles autores e, em especial, do filho de Ananda Coomaraswamy, Rama.

OC vai abandonando pelo caminho os alunos que não o seguem em suas “mudanças de ideia”. Converse com alguns dessas épocas (astrológica, tradicionalista etc.), e depois faça o seu julgamento.

OC chegou a dizer que escrevia na primeira pessoa do plural, o eu majestático, justamente porque se tratava de trabalhos impessoais, com os quais não teria, de fato, nenhuma relação existencial. Isso não me parece nada com “assumir os erros”.

Mas a coisa vem de antes, meu caro. Dizem que ele nunca foi jornalista, como sempre afirmava. Não teria passado de um copidesque.

Você leu seus livros de transição (da fase esotérica para a anticomunista), especialmente O jardim das aflições? Eu tenho a curiosidade de saber como aparecem os EUA nas outras edições, depois da primeira, desse livro. Acho improvável que ele mantenha sua posição original. Naquela época, os EUA ainda eram para ele o suprassumo da decadência, da era moderna, de ferro, kali-yuga. Agora, são o bastião da liberdade e da defesa dos direitos do indivíduo. Uau!

Eu mesmo me deixei influenciar pelo discurso anticomunista do OC e de outros autores, como o Rei Azedo, digo, Reinaldo Azevedo. Aos poucos, fui me informando melhor, interpretando mais critica e autonomamente a “realidade” e, assim, libertei-me dessa dialética diabólica entre esquerdismo e direitismo.

Em vez de ler apenas as citações feitas pelo OC, leia os originais. Leia Marx, p.ex. É inegável que Marx foi um grande economista (isso ninguém nega!), e também um humanista. Os ataques ad hominem do OC são esperneios doentios que nada têm de filosóficos. (Você sabe que eu não sou materialista, marxista, ateu etc.)

Eu era um almofadinha antilulista. Agora, embora não feche os olhos para as faltas e equívocos do seu governo, reconheço os avanços sociais efetuados por Lula. Queria ver o OC ir falar mal do Lula no sertão nordestino! Lá e em muitos outros lugares do Brasil, Lula é um deus. Pessoas que passavam fome, agora têm o que comer e um dinheirinho pra comprar mais alguma coisa. Nenhum outro governante fez coisa parecida. E olha que é o mínimo! Não sei como é que um cristão possa ver com maus olhos esse tipo de política social. (E eu não sou petista nem lulista nem esquerdista!)

Quanto ao cenário acadêmico, você não está totalmente errado, mas vá com mais cuidado… O que quase não se encontra são fascistas como OC, aquela direita raivosa, anticomunista, americanista, sionista etc. Isso, de fato, é coisa rara. Mas há muita gente de direita, sim, ora. O tal do esquerdismo preponderante é muito mais uma posição humanista do que político-ideológica. As pessoas associam desenvolvimento social (eliminação da miséria, igualdade de condições, distribuição de renda, educação básica etc.) à esquerda ou à centro-esquerda (no máximo, à centro-direita). Na área das ciências sociais, encontram-se de fato mais esquerdistas militantes.

Eu tô fora disso tudo. Não sou nem de direita nem de esquerda. Quase sempre, voto nulo. Para mim, Cristo era um anarquista não violento: a César o que é de César… Cristo é o meu presidente, o meu sacerdote, o meu médico, professor etc. A política partidária pressupõe o Estado, e o Estado é intrinsecamente violento, ou seja, anticristão. Voltaremos a conversar sobre isso.

Em suma: fascismo anticomunista do OC é violento e anticristão.

Mas não serei eu a demonizá-lo. Isso seria fazer o jogo dele. “Não resistais ao mal”! Deixe que ele esperneie… e que os olavettes lambe-botas aprendam quando quebrarem a cara de um jeito ou de outro. Talvez quando ele mudar de ideia novamente?

Na PUC, pelo menos na pós-graduação em filosofia, não encontrei quase ninguém de esquerda, muito menos militante. Aliás, com todos os problemas e deficiências, uma coisa eu tenho de admitir: a maioria dos professores que tive lá ama o que faz, gosta mesmo da filosofia, de dar aula etc. Não encontrei nenhum líder carismático, e sei bem que com boas intenções se pavimenta o caminho para o inferno, mas, quer saber, não foi o pior dos mundos.

O que me desanima é esse patológico apego à história! Sim, é importante estudar os grandes filósofos mortos, a história da filosofia é até mesmo indispensável, mas isso tudo não é ainda filosofia! Quando pergunto aos alunos: e vocês, o que acham, concordam? Eles ficam atônitos! Como assim, eu, um zé ninguém, concordar ou discordar de Kant?!

A discussão entre especialistas não tem fim. Sempre vai aparecer alguém para discordar: não, não, Platão não disse nada disso, o que ele quis dizer era uma coisa bem diferente etc. Aposto como há vários autores que discordam radicalmente das interpretações do Voegelin, p.ex. (Modestamente, acho exagerada a crítica que ele faz ao tal do gnosticismo.) Então, meu caro, estou fora. Eu uso os mortos para tentar fazer algo de vivo: supondo-se que Platão pensasse mesmo X, o que se segue? O que isso tem que ver com a realidade, com a nossa realidade, o que eu, nós pensamos de X, o que fazemos dele na nossa VIDA etc.

Para finalizar, nem tudo nos “novos filósofos” é porcaria, P. O próprio Foucault, sobretudo na sua última fase, tem coisas interessantes e aproveitáveis.

Não sou ninguém para dar conselhos. Mas creio que fazemos muito bem em manter nossa mente alerta e aberta, evitando o “maniqueísmo” e toda forma de dogmatismo burro e emburrecedor.

Certamente OC tem também coisas interessantes e aproveitáveis, mas eu não tenho tempo nem saco para ficar garimpando pérolas em meio a tanto lixo ideológico.

Uma vez escrevi a OC agradecendo-lhe por um belo artiguinho de Natal, que me deixou embevecido. Mas também já lhe escrevi para dizer que ele não passava de um “imbecil individual”.

Espero que não se tenha assustado com tudo isso!

Abraço do seu ex-professor,

Edson