sobre a Natividade

“Deus está morto. Deus continua morto”? [A Gaia Ciência, Friedrich W. Nietzsche]

SIM

por OSWALDO GIACOIA JUNIOR

“NÃO ERRAMOS nós, como em meio a um nada infinito?”. No mesmo texto em que o louco de Nietzsche anuncia o assassinato de Deus, surge outra pergunta, mais incisiva: “Não são então essas igrejas mausoléus e criptas de Deus?”, indagação que culmina no paradoxo que encerra o aforismo: “Procuro Deus, procuro Deus…”.

Busca trágica, cada vez menos compreensível, na medida em que nos enredamos num humanismo autista. Obcecados em desmascarar o divino, assumimos a condição de produtores de nossa própria existência. Mas, com isso, vem à luz o elemento que, há alguns séculos, permanecia latente: a aliança entre o niilismo e o domínio absoluto da razão instrumental.

O sonho emancipatório das luzes, a altivez da crítica, a que tudo deve ser submetido, desandou na barbárie de duas guerras mundiais num único século. A mesma “ratio” calculatória, capaz de solucionar o problema da fome no mundo, condena à exclusão e à miséria mais da metade de seus habitantes. O humanismo esclarecido degenerou no Holocausto e hoje patrocina a guerra civil legal, num estado de exceção permanente.

Fica claro que esse humanismo é metafísica -e, com o esgotamento desta, perece também a dimensão do ideal e do idealismo na desertificação das utopias. É nisso que resulta a perda da transcendência. Pois transcender é determinação constitutiva do existir, de modo que, desgarrados, tornamo-nos progressivamente desumanos, infra-humanos, inumanos.

E assim nos dispomos uma vez mais a celebrar no Natal a festa máxima da cristandade. Estamos em condições de fazê-lo com boa consciência? Em que medida, para além dos hábitos de consumo, a Natividade pode ser vivida por nós como um novo começo? Como uma esperança que perpetuamente se renova? Como nos postamos hoje em relação à transcendência, aquele âmbito em que, existencialmente, se abre o horizonte do possível para uma experiência do sagrado, de Deus e dos deuses, para além de nosso delírio de onipotência?

Nosso afã humanista pôs em fuga Deus e os deuses, emudecidos, obstinadamente de costas para nós. Seu silêncio não é senão o eco de nossa mudez. Sartre cunhou o lema do humanismo contemporâneo: vivemos num plano em que existem unicamente os homens, em que a escolha humana define nossa essência e nosso futuro.

Mas não é também verdade que a Terra, totalmente esclarecida, irradia o infortúnio triunfal, pairando à beira do abismo de uma crise ecológica de dimensões cósmicas? Nietzsche, o Anticristo, nunca foi tão paradoxalmente atual -ele não cessou de gritar nos ouvidos moucos do homem moderno sua distância em relação a uma experiência efetiva de Natividade.

Impávidos, precipitamo-nos a passos de gigante na transição para o Super-Homem pós-humano, artefato da nanotecnologia do “homo faber”. Incapazes de viver até o fim as possibilidades do humano na história, atrevemo-nos irrefletidamente a projetar nosso destino e futuro. Pergunto-me se, atolados no hedonismo consumista, estaríamos em condições de acolher um verdadeiro Emanuel.

No ápice de sua realização, o humanismo contemporâneo ofusca a consciência da alienação que ele próprio engendra. Como resultado, estamos nos tornando cegos e surdos para a abertura do único âmbito extático em que nos seria ainda possível uma remissão do pesadelo em que nos lançou nosso programa de emancipação.

Afinal, o sonho de dominação da natureza, com refundação racional da sociedade, se tornou apocalíptico -escatologia macabra em que nosso poder-fazer pode efetivar um extermínio talvez irreversível das condições de nossa existência. Hoje, não carecemos mais de células pluripotentes de embriões humanos para produzir concretamente o eterno retorno do mesmo. Será que teremos como prometer, responsavelmente, que uma vida humana possa nascer sobre a Terra sob a forma de futuras gerações de seres humanos?

Gostaria muito de que ainda pudéssemos fazê-lo. Pois assim poderíamos nos desejar mutuamente, de todo o coração e em seu espírito mais autêntico, um feliz e abençoado Natal. [FOLHA 22/12/07]

clube da verdade

por SIMON BLACKBURN*

O pós-modernismo emergiu da idéia de que enxergamos as coisas através de filtros coloridos pelas forças ocultas e sombrias de classe social, gênero, cultura ou língua. A partir disso, ele viajou até a atitude irônica e desapegada de tratar a verdade como não mais do que uma narrativa, os fatos como infinitamente elásticos e o mundo como um texto aberto a múltiplas interpretações.

Postulou que nossos padrões de razão, que nos são tão caros, não passam de depósito histórico contingente, que algum tipo de relativismo nos é intelectualmente imposto ou que a própria verdade não passa de construção social.

Escrevo no tempo pretérito, já que muitos afirmam que os fatos de 11 de setembro de 2001 jogaram essas idéias por terra. Esses acontecimentos fizeram as pessoas se recordar de que existem crenças que precisamos afirmar. Precisamos da verdade, da razão e da objetividade, e precisamos que elas estejam do nosso lado. A academia se tornou menos aberta aos pluralismos descontraídos.

Enquanto nos anos 1980 e 1990 uma atitude brincalhona de que vale tudo dominava as partes mais fracas das humanidades, hoje é uma retidão rigorosa que dá o tom.

Com freqüência, as idéias refletem a política –e, politicamente falando, o pós-modernismo pode ser visto como reflexo da culpa pós-colonial, o que significa não apenas que erramos ao impor a racionalidade e a ciência ocidental a outros povos mas também que a racionalidade e a ciência deles tinham valor igual ao nosso.

Se isso for correto, então a reação contrária constatada hoje pode constituir a versão filosófica do neoconservadorismo, que forma um paralelo com as celebrações das virtudes do império feitas por historiadores dos tempos atuais.

Acabam de surgir vários livros que giram em torno da verdade e da razão, ambos temas que estão de volta à agenda com força total. É possível que seja uma virtude não dissimular e não mentir –falar o que você vê como o vê, mesmo que não consiga deixar de vê-lo com olhar enviesado.

Mas as profissões pós-modernistas de adesão à verdade costumam soar insinceras. Se a frágil embarcação de nosso intelecto é atirada de um lado a outro pelas tempestades da história e da cultura, por que deveríamos prezar especialmente qualquer lugar em que ela nos faz abicar? Por que deveríamos nos preocupar em passar nossas vidas distinguindo o verdadeiro do falso?

O arguto Nietzsche ficou perplexo pelo fato de que nos preocupamos, sim, prezando a verdade mesmo quando, na selva darwiniana, um contador de verdades freqüentemente está em desvantagem diante do manipulador e do mentiroso.

A observação de outros primatas mendazes confirma sua visão. Isso significa que temos que pregar a honestidade. Ela está inscrita em nossos mandamentos, não em nossos genes.

Nossa pregação nem sempre funciona; e ela se mostra especialmente ineficaz nas selvas do comércio e da política.

Parte daí o divertido e instrutivo livro The Lying Ape: An Honest Guide to a World of Deception [O macaco mendaz: um guia honesto para um mundo de falsidade, Icon Books, 212 págs., 9,99 libras, R$ 41], do jornalista Brian King, que traça uma lista longa e estarrecedora das mentiras deslavadas que falsificadores, vendedores e políticos já tentaram impor a outras pessoas, muitas vezes com sucesso.

Embora King, com razão, se sinta ultrajado com a falsidade, ele observa que uma dieta à base de verdades rigorosas poderia ser um tanto quanto difícil de engolir. Ele cita a observação de Oscar Wilde de que “falar a verdade faz você ser muito impopular no clube”.

E, como observa King, contar mentiras deslavadas é apenas a manifestação mais grosseira disso. Suponho que o melhor conselho a dar aos candidatos a mentirosos é que enganem a si mesmos primeiro; então, não precisarão mentir, mas apenas dizer em que acreditam.

Manipular a informação
Ainda outro tipo de vício é a capacidade de supor que as palavras possuem significados que elas não têm –algo que é de grande valia para políticos e administradores.

Aquilo ao qual costuma se dar o nome de “spin” (manipulação de informação, ou interpretação diferente de uma informação, especialmente quando feita por políticos ou seus assessores) é outra coisa ainda. Em sua versão mais inocente, pode ser apenas uma forma enviesada de verdade.

O fascinante livro Saving Persuasion: A Defense of Rhetoric and Judgement [Salvando a persuasão: Uma defesa da retórica e do julgamento, Harvard University Press, 290 págs., 29,95 libras, R$ 122], do teórico político da Universidade Yale Bryan Garsten, trata das longas tradições de atacar ou defender a retórica e o lugar que ela ocupa na vida humana.

De fato, a retórica foi o termo clássico usado para designar o “spin“, embora viesse acompanhada da implicação de persuasão, e não de logro proposital. Ela se tornou parte dos roteiros de estudos medievais, e seu domínio com freqüência foi visto como meta importante da educação completa.

Garsten traça uma distinção entre a persuasão, que espera operar com o julgamento ponderado da platéia e que é perfeitamente legítima, e as práticas de logro, manipulação e bajulação da platéia, cada uma das quais, à sua maneira, espera levar a platéia, de maneira ilegítima, a passar ao largo do uso pleno e livre dessa capacidade de avaliação e julgamento.

A persuasão mostra o orador tirando vantagem justa do perfil emocional, moral ou cognitivo particular de uma platéia; ela é inevitável em qualquer discussão, especialmente em qualquer debate moral ou político. Torna-se negativa apenas quando tira vantagem injusta do mesmo perfil, por exemplo ao distorcer ou negar informações ou ao manipular emoções e preconceitos.

Kant negou a existência de qualquer distinção importante nessa área: para ele, ou você apela para padrões de razão imutáveis e universais ou você manipula e engana.

Padrões escassos
O problema é que, quer sejam ou não encontrados na aritmética, na lógica e até mesmo na ciência, esses padrões universais esperados são escassos quando se trata de qualquer questão interessante de política, religião e moral.

Considera-se com freqüência que o pós-modernismo critica a verdade e a ciência. É essa a visão apresentada no valioso livrinho Why Truth Matters [Por que a verdade é importante, Continuum, 192 págs., 12,99 libras, R$ 53], dos editores do site cético butterfliesandwheels.com, Ophelia Benson e Jeremy Stangroom.

Os dois preparam um contra-ataque instigante, fazendo-nos lembrar que, quando se trata de uma guerra pelos corações e as mentes, as convicções básicas do bom senso e da ciência derrotam as sutilezas filosóficas sem nenhuma dificuldade. Enquanto Brian King nos choca com seus mentirosos, Benson e Stangroom expõem uma “galeria de enganadores” paralela composta de construtivistas sociais que analisam como grupos e indivíduos participam da criação de sua própria realidade percebida.

Esses “enganadores” incluem a feminista Sandra Harding e o neopragmatista Richard Rorty, mas seu expoente principal certamente é o filósofo da ciência francês Bruno Latour. A confusão de palavras e coisas proposta por Latour o levou até a beira do abismo
de negar que tenha existido dinossauros antes de o termo “dinossauro” ter sido cunhado.

Presume-se que um argumento semelhante demonstraria que ninguém antes de Crick e Watson possuiu DNA.

Por que a verdade é importante é um excelente exemplo de filosofia bem feita mas também, o que não é coincidência, feita de maneira acessível e instigante. A verdade tem importância, nos diz o livro, “não de uma maneira maçante, movida pelo dever e perfunctória, mas num sentido real e vivido –’nos pulsos’, como dizia Keats”.

Em Justice in Robes [A justiça de toga, Harvard University Press, 320 págs., 22,95 libras, R$ 93], o professor Ronald Dworkin reapresenta suas idéias sobre moralidade e lei e as defende contra os adversários que acumulou ao longo de sua carreira respeitada.

O foco do livro em vários momentos é a legislação americana, gerando disputas intrincadas que agradarão mais ao especialista do que ao leitor geral.

Dworkin recomenda que confiemos em nossas convicções comuns, mais do que nos aventuremos nas águas revoltas da alta teoria filosófica. Não estou certo de quão útil é esse conselho, já que pós-modernistas como Rorty ou teóricos literários como Stanley Fish dificilmente irão discordar dele.

O que procuram demonstrar é que a condição humana implica que se trabalhe desde o interior de qualquer “forma de vida” que tenhamos recebido da cultura e da história; para eles, Dworkin não faz mais que aconselhar os peixes a nadar.

Um trabalho final e um tanto quanto diferente é Human Nature: Fact and Fiction [Natureza humana: fatos e ficções, Continuum, 224 págs., 9,99 libras, R$ 41], editado pelo professor de literatura inglesa Robin Wells e o professor de genética molecular John Joe McFadden. Contribuíram para o livro uma galáxia de biólogos, teóricos da evolução e figuras literárias.

Os ensaios tiveram sua origem em palestras dadas numa conferência, de modo que o foco é um pouco indistinto. Em alguns momentos, a impressão que se tem é que se trata do velho problema da natureza versus criação.

Todos concordam em que a imaginação é “uma coisa boa” e que isso exige alguma explicação, já que não é evidente qual seria a utilidade de contar histórias numa selva, onde a consciência do aqui e do agora parece superar em valor a capacidade de imaginar o “era uma vez”.

A questão provavelmente não é tão difícil assim de entender, já que refletir sobre situações imaginadas pode nos preparar para a eventualidade de ocorrerem na vida real. A exposição a histórias também treina a moral e as emoções. Mas o livro contém vários pequenos ensaios sensíveis e sensatos.

Qual verdade?
Então, será que o mundo está novamente em condições de ouvir a verdade com segurança? Devemos nos precaver com as abstrações. Talvez a resposta correta à pergunta de Pilatos –”o que é a verdade?”– seja indagar por qual verdade ele se interessa. Se a pergunta disser respeito a fatos históricos, então deverá ser respondida de uma maneira; se for uma pergunta científica, existem outros métodos a ser empregados e assim por diante.

É verdade que esses métodos são nossos, aqui e agora. Mas, se um crítico tiver métodos melhores para usar, que nos fale deles. Se não, enquanto pudermos refletir sobre nossa história e sobre a deles, a reflexão não precisa ser desmerecedora. Pelo contrário -o resultado pode ser inteiramente válido.

Podemos nos orgulhar dos padrões científicos, pois vejam o que eles nos capacitaram a descobrir e a fazer! Podemos nos orgulhar de nossos padrões éticos, pois vejam como conseguimos nos sensibilizar em relação a males e injustiças que antes passavam despercebidos!

Nossas opiniões são falíveis e nossos julgamentos estão longe de ser perfeitos, mas o remédio para qualquer uso imperfeito deles consiste em usá-los ainda mais. Se nossa política for suficientemente boa para que se possa conservar a manipulação, a ignorância, o medo e o ódio fora dela, então somos animais que se corrigem a si mesmos. Ou, pelo menos, assim esperamos. [*Professor de filosofia na Universidade de Cambridge e autor de, entre outros, “Verdade – Um Guia para os Perplexos” (Civilização Brasileira). Este texto saiu no “Financial Times”. Tradução de Clara Allain. (FOLHA 3/9/06)]

o sagrado e o humano

É a teoria de René Girard, me parece, que mais urgentemente precisa ser debatida, agora que o triunfalismo ateísta está eliminando todos os nuances

por ROGER SCRUTON

Não causa surpresa o fato de pessoas decentes, céticas, ao observarem o ressurgimento em nossos tempos de cultos supersticiosos, do conflito entre liberdades seculares e éditos religiosos, e do radicalismo islâmico assassino, se mostrarem receptivas às polêmicas anti-religiosas de Richard Dawkins, Christopher Hitchens e outros. O “sono da razão” trouxe monstros, como Goya previu em sua gravura.

Hitchens é um homem inteligente e altamente erudito que reconhece que o argumento mais útil para ele era bastante conhecido há 200 anos. Mas pensadores do Iluminismo, tendo mostrado que as alegações da fé não contavam com fundamentação racional, não desdenharam a religião, como alguém poderia desdenhar uma teoria refutada. A facilidade com que as doutrinas comuns da religião podem ser refutados os alertou para a idéia de que a religião não é, em essência, uma questão de doutrina, mas outra coisa. E decidiram descobrir o que poderia ser.

Para os pensadores no período imediato pós-Iluminismo, não era fé, mas fés, no plural, que compunham a essência básica da teologia. Para os pensadores pós-Iluminismo, os sistemas de crença monoteísta não estavam relacionados aos mitos e rituais antigos da mesma forma que a ciência para a superstição, ou a lógica para a magia. Em vez disso, eles eram cristalizações de uma necessidade emocional. Um mito não descreve o que aconteceu em algum período obscuro antes da contagem humana de tempo, mas algo que acontece sempre e repetidamente. Ele não explica as origens causais de nosso mundo, mas recita sua permanente importância espiritual.

Se você olhar para a religião antiga desta forma, então inevitavelmente sua visão do cânone judaico-cristão muda. A história da criação no Gênesis é facilmente refutada como relato de eventos históricos: como pode haver dias sem sol, homem sem mulher, vida sem morte? Mas lida como mito, este texto aparentemente ingênuo revela ser um estudo da condição humana.

Mitos e rituais, escreveu Hegel, são formas de autodescoberta, por meio das quais entendemos o lugar do indivíduo em um mundo de objetos e a liberdade interior que condiciona tudo o que fazemos. A ascensão do monoteísmo a partir das religiões politeístas da antiguidade não é apenas uma forma de descoberta, mas de autocriação, à medida que o espírito aprende a reconhecer a si mesmo no todo das coisas e a superar sua finitude.

Entre estas primeiras incursões na antropologia da religião e estudos posteriores, dois pensadores se destacam como fundadores de um novo empreendimento intelectual – um empreendimento que parece não ter sido notado por Hitchens, Dawkins ou Daniel Dennett. Os pensadores são Friedrich Nietzsche e Richard Wagner, e o empreendimento intelectual é o de mostrar o lugar do sagrado na vida humana e o tipo de conhecimento e entendimento que nos chega por meio da experiência das coisas sagradas.

A lição que ambos os pensadores extraíram dos gregos é de que é possível subtrair os deuses e suas histórias da religião grega sem tirar o mais importante. Esta coisa tinha sua realidade primária não em mitos, teologia ou doutrina, mas nos rituais, nos momentos que ficam fora do tempo, nos quais a solidão e a ansiedade do indivíduo humano são confrontadas e superadas por meio de uma imersão no grupo. Ao chamar estes momentos de “sagrados”, nós reconhecemos tanto seu complexo significado social quanto o alívio que fornecem à alienação.

A tentativa de Nietzsche e Wagner de entender o conceito do sagrado foi levada adiante não por antropólogos, mas por teólogos e críticos. É a teoria de René Girard, me parece, que mais urgentemente precisa ser debatida, agora que o triunfalismo ateísta está eliminando todos os nuances.

Em “A Violência e o Sagrado” (1972), Girard começa com uma observação que nenhum leitor imparcial da Bíblia judaica ou do Alcorão pode deixar de fazer, que é a de que a religião pode oferecer paz, mas tem suas raízes na violência. O Deus apresentado nestes textos é freqüentemente irado, dado a acessos de destruição. Ele faz exigências ultrajantes e sanguinárias – como a exigência para que Abraão sacrifique seu filho Isaac. Ele é obcecado por genitália e inflexível em que deva ser mutilada em sua honra.

Pensadores como Dawkins e Hitchens concluíram que a religião é a causa desta obsessão sexual e violência, e que os crimes cometidos em nome da religião podem ser vistos como a refutação definitiva dela. Nem tanto, argumenta Girard. A religião não é a causa da violência, mas a solução para ela. A violência vem de outra fonte e não há sociedade sem ela desde a primeira tentativa dos seres humanos viverem juntos. O mesmo pode ser dito da obsessão religiosa com a sexualidade: a religião não é a causa, mas uma tentativa de resolvê-la.

Como Nietzsche, Girard vê a condição primitiva da sociedade como uma de conflito. É do esforço para resolver este conflito que nasce a experiência do sagrado. Esta experiência nos vem de muitas formas -ritual religioso, oração, tragédia – mas sua verdadeira origem está nos atos de violência comunal. As sociedades primitivas são invadidas pelo “desejo mimético”, à medida que rivais lutam para igualar as aquisições materiais e sociais do outro, acentuando o antagonismo e precipitando o ciclo de vingança.

A solução é identificar uma vítima, alguém marcado pelo destino como sendo de fora da comunidade e portanto merecedor da vingança contra ela, que pode ser alvo do desejo de sangue acumulado, e que pode conduzir o ciclo de retribuição ao fim. O bode expiatório é a forma da sociedade de recriar a “diferença” e portanto se restaurar. Ao se unirem contra o bode expiatório, as pessoas são libertadas de suas rivalidades e reconciliadas. Por meio de sua morte, o bode expiatório purga a sociedade de sua violência acumulada. A santidade resultante do bode expiatório é o eco de longo prazo do temor reverente, do alívio e da religação visceral à comunidade que foi experimentada com sua morte.

Segundo Girard, a necessidade do bode expiatório sacrificial está implantada na psique humana, originária da tentativa de formar uma comunidade durável na qual a vida moral pode ser buscada com sucesso.

Em muitas histórias do Velho Testamento, nós vemos os antigos israelitas lidando com este ímpeto sacrificial. As histórias de Caim e Abel, de Abraão e Isaac e de Sodoma e Gomorra são resíduos de conflitos estendidos, nos quais o ritual foi desviado da vítima humana e ligado primeiro a sacrifícios animais, depois às palavras sagradas. Por este processo uma moralidade viável surgiu da competição e conflito, e das rivalidades viscerais da predatoriedade sexual.

Logo, a experiência do sagrado não é um resíduo irracional de medos primitivos, nem uma forma de superstição que algum dia será eliminado pela ciência. Ela é a solução para a agressão acumulada que existe no coração das comunidades humanas. É assim que Girard explica a paz e celebração que acompanha o ritual da comunhão – o senso de renovação que sempre precisa ser ele mesmo renovado. Girard descreve características profundas da condição humana, que podem ser observadas também nos cultos do mistério da antiguidade e nos templos locais do hinduísmo, assim como no “milagre” cotidiano da Eucaristia.

Há muitos elementos na teoria de Girard que podem ser criticados – como a idéia de que as instituições humanas podem ser explicadas pela cr
iação de mitos. Mas tais críticas não influenciam, ao que me parece, o descaso com que as idéias de Girard são tratadas.

Eu suspeito que, como Nietzsche, Girard nos recordou das verdades que preferiríamos esquecer – em particular, a verdade de que a religião não se trata basicamente de Deus, mas do sagrado, e que a experiência do sagrado pode ser suprimida, ignorada e mesmo profanada, mas nunca destruída. [Prospect Magazine 9/8/07]

chamada de papers

I ENCONTRO NACIONAL FILOSOFIA SEM FRONTEIRAS

ÚLTIMA CHAMADA (prazo de entrega dos resumos – 30 de julho)

21-23 de novembro de 2007/ Recife, Pernambuco
TEMA: A Filosofia e o Trágico

O Encontro Nacional Filosofia Sem Fronteiras é uma promoção do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Esse Encontro tem como objetivos divulgar a filosofia no país, notadamente no Nordeste, estimular a pesquisa entre professores e estudantes e aprofundar a discussão sobre temas variados, iniciando sua primeira versão com abordagem acerca da filosofia e do trágico. Tem a finalidade, ainda, de buscar uma articulação entre os GTs da ANPOF, de modo que os pesquisadores tenham possibilidades de intercambiar conhecimentos através de experiências diversificadas.

CONFERÊNCIAS
21 de novembro: Prof. Roberto Machado (UFRJ)
22 de novembro : Profª. Sandra Luna (UFPB)
23 de novembro: Prof. Gabriel Trindade (UFPB)

Normas e Prazos
Os resumos – tanto das mini-conferências como das comunicações – devem conter no máximo 350 e no mínimo 220 palavras, no sistema Word, Times New Roman, fonte 12 e espaço simples. As comunicações devem ser enviadas até o dia 30 de julho de 2007 para o e-mail do Departamento de Filosofia da UFPE, philosophia@ufpe.br ou para o endereço eletrônico do Encontro, filosofiasemfronteiras@gmail.com Os resumos das Mini-Conferências deverão ser direcionados aos endereços eletrônicos dos respectivos coordenadores de mesas. Devem conter, ainda, no início da página, o título da comunicação ou mini-conferência; a titulação do autor(a); a instituição à qual está vinculado(a) e a condição acadêmica (professor(a) ou estudante) e indicar a respectiva mesa à qual submete o texto. Não serão aceitos trabalhos que não obedeçam às regras e aos prazos estabelecidos. As fichas de inscrição – bem como outras informações – estão disponíveis no site do Programa de Pós-Graduação em Filosofia http://www.propesq.ufpe.br/hp/filosofia no campo vermelho à esquerda da página, nos link EVENTOS para a programação, normas, prazos e fichas de inscrição. Depois de preenchidas, as fichas deverão ser enviadas para os endereços eletrônicos citados acima, e uma cópia, juntamente com o resumo, para o endereço fornecido abaixo (a remessa por correio não substitui o envio do resumo por via eletrônica). No caso das fichas pode-se usar o recurso copiar, colar e enviar por arquivo.

A Universidade disponibiliza 120 lugares para estudantes no Núcleo de Apoio a Eventos, no interior da própria UFPE. Todas as demais informações, inclusive hotéis, estão disponíveis no site: http://www.propesq.ufpe.br/hp/filosofia , na área Eventos, à esquerda da página.

Secretaria do Evento
Maria Betânia Souza, Juliana Melo e Márcio Batista
Departamento de Filosofia da UFPE
Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) 15º andar
Av. Acadêmico Hélio Ramos s/n – Cidade Universitária
Recife – PE CEP. 50740-530
Tel. 081.2126.8296; 2126.8297
FAX. @2126.8298
E-mail: philosophia@ufpe.br e filosofiasemfronteiras@gmail.com

carta aberta

De: Pe. Edélcio Serafim Ottaviani (Dr. em Filosofia, assessor de Pastoral Universitária da PUCSP e coordenador do Curso de Filosofia do UNIFAI)

Para: Prof. Felipe Aquino (Da TV Canção Nova)

São Paulo, 1 de maio de 2007

Sr. Felipe Aquino,

Penso que talvez nem leia esta carta, vista a enxurrada de manifestações que deve ter recebido repudiando a sua, que chegou ao meu conhecimento em abril. Porém, ainda que minhas palavras não cheguem aos seus ouvidos, dar-me-ia por contente se tocassem a outros, muitas vezes influenciados por seus livros e emissões na TV. Na verdade, não o conheço e nunca havia ouvido falar do senhor. Porém, como suas palavras atingiram três das pessoas que mais admiro na história da Igreja latino-americana, não pude me furtar de dar minha contribuição ao que se apresenta como uma reflexão muito propícia sobre a espiritualidade que anima a Práxis e a Teologia da Libertação.

Em e-mail datado de 15 de abril, o senhor procura se explicar — e até mesmo se desculpar — sobre o teor de sua missiva endereçada a D. Pedro Casaldáliga. É interessante observar que sua desculpa se dirige às pessoas que se sentiram ofendidas pela forma como se referiu a D. Luciano e a D. Ivo Lorscheiter, por exemplo, mas em nenhum momento à memória deles. Ao mesmo tempo, ataca D. Pedro Casaldáliga por sua “falta de ética” ao permitir que a carta se tornasse pública. Interessante esta alocução: geralmente, nas sociedades mais repressivas, condenam-se as pessoas que não cumprem à risca aquilo que prescreve a lei, sem considerar as condições que as impedem de fazê-lo. Diz-se que é ético ser transparente, mas se esta forma de ser contradiz ou questiona o exercício do poder imperante, usa-se deste mesmo poder para calá-lo ou reprimi-lo. É possível que também se use de um espaço da mídia, de palestras e da literatura para passar uma ideologia contrária à Práxis da Libertação; mas, quando se usa desta mesma mídia para defendê-la e denunciar os discursos totalitários que fazem da religião um instrumento de alienação, então isso é taxado de antiético. Não, Sr. Aquino, aqui não se trata de burlar a ética, mas de tornar público aquilo que é dito ao pé do ouvido e feito nas coxias, pois “não há nada de encoberto que não venha a ser descoberto, nem de oculto que não venha a ser revelado. O que vos digo às escuras, dizei à luz do dia: o que vos é dito aos ouvidos, proclamai-o sobre os telhados” (Mt 10, 26-27). Na verdade, isso vale tanto para o bem como para o mal. É preciso que a realidade venha à luz, e creio que é justamente esta realidade que discursos como o seu querem velar. Suas palavras atingiram pessoas públicas e de real valor para história da Igreja Católica, não somente latino-americana, mas universal. Por isso, é ético, sim, tornar pública esta discussão, ainda mais quando se usa da mídia para passar mensagens subliminares que têm o
intuito de desacreditar a Práxis e a Teologia da Libertação. E sabemos que, pela ética da comunicação, esse tipo de mensagem não é bem visto, pois induz o receptor a assimilar de forma acrítica uma informação.

Dito isto, farei apenas algumas considerações a respeito de D. Pedro Casaldáliga, D. Paulo e D. Luciano, que foram mencionados explicitamente em sua missiva.

No que se refere a D. Pedro, seu testemunho de vida que já fala por si. Penso que, como bispo, e mesmo tendo jurado obediência ao papa, isto não o dispensa de alertar e mesmo de questionar palavras, ações e determinações do próprio Santo Padre. Aliás, encontramos tal precedente na Carta de Paulo aos Gálatas, por meio da qual tomamos consciência do fato que envolveu o apóstolo e o primeiro papa da Igreja:

“Mas quando Cefas veio a Antioquia, eu o enfrentei abertamente, porque ele se tornara digno de censura. Com efeito, antes de chegarem alguns vindos da parte de Tiago, ele comia com os gentios, mas quando chegaram, ele se subtraía e andava retraído, com medo dos circuncisos. Os outros judeus começaram também a fingir junto com ele, a tal ponto que até Barnabé se deixou levar por sua hipocrisia” (Gl 2, 11-13).

Pelo que me consta, D. Pedro Casaldáliga de forma alguma chamou o papa de hipócrita. O tom de suas palavras foi de alerta, mas certamente bem mais ameno do que o utilizado por Paulo, que o fez explicitamente em relação ao primeiro Sumo Pontífice da Igreja. Como diz o Cardeal Walter Kasper:

“A obediência a estas declarações (trata-se das declarações de caráter geralmente obrigatório da doutrina da fé e do ensinamento moral sobre a situação concreta) não pode ser simplesmente obediência de fé no sentido de fides divina et catholica. Estas declarações não são, por causa disso, relegadas ao domínio do não-reprimível e do arbitrário. Elas não são também puramente disciplinares. Da parte do católico é requisitada uma certa disponibilidade religiosa interna em relação a estas declarações e uma certa aprovação em relação a elas; mas disponibilidade e aprovação que implicam uma certa co-responsabilidade espiritual e moral. Disto decorre, e por meio de um exame profundamente amadurecido de sua consciência, que o cristão individual pode chegar a um julgamento diferente das instruções do ministério instrutivo da Igreja; isto faz parte da tradição teológica a mais ortodoxa.”[1]

Ao pedir que D. Pedro Casaldáliga acate sem questionar todas as determinações disciplinares do Santo Padre, o senhor também o convida a retirar-se da Igreja, pois como disse: “seria mais conveniente e coerente deixar o redil que o Papa conduz”. Não pude deixar de entrever e de ouvir nesta frase o eco do período mais duro da ditadura militar: “Brasil, ame-o, ou deixe-o!” Na verdade, suas palavras podem ser traduzidas no seguinte: ou se aceitam as coisas da forma como estão, ou deixe o território em que se pisa. Ao pedir que D. Pedro Casaldáliga volte ao seu país, desconsiderando a sua vida voltada para a libertação dos mais explorados deste país, o senhor age como os mais pérfidos representantes do regime totalitário da década de 70. Espero, Sr. Aquino, que haja um momento em sua vida, nos retiros espirituais, que esta reflexão bata fundo em seu coração.

Não bastasse isso, suas palavras mantêm o tom totalitário de quem só vê as coisas a partir de uma única perspectiva, de um único ângulo: ao pedir que D. Pedro volte para sua Espanha “tão longe de Deus, tão atéia, tão descristianizada”, o senhor poderia estender o convite ao Sumo Pontífice, pois não me parece que a Alemanha esteja em situação muito diferente do que a do povo catalão. No artigo “O Renascimento da Religião”, no semanário Der Spiegel, o jornalista Rainer Traub trata da diminuição da freqüência de adeptos das Igrejas Históricas na Alemanha, em particular da católica, num total de 5,5 milhões de fiéis desde 1990, não obstante o acréscimo da população. Na verdade, o jornalista atesta um fenômeno comum em países ditos secularizados da Europa: o renascimento de uma “religiosidade extra-eclesiástica”.[2]

De forma ideológica, o senhor coloca questões delicadas e polêmicas num mesmo roldão: aborto, eutanásia, casamento de homossexuais, ordenação de mulheres… Na verdade, não é que, para nós, teólogos e filósofos da libertação, essas coisas “não tenham nenhum valor… Que horror!”, como disse na primeira carta. Na verdade, acreditamos que, com questões tão delicadas, não se pode opinar pelo viés do “pode ou não pode”. Só as pessoas de visão tosca tocariam nessas questões sem ao menos problematizá-las. O compromisso da Práxis e da Teologia da Libertação é de trazer à luz todos os olhares sobre esses fenômenos; aliás, “trazer à luz”, para os gregos, como disse Heidegger em Ser e Tempo § 44, equivale à a-létheia, sem-velamento, sem-esquecimento, ou seja à verdade.

No que diz respeito a D. Paulo — “embora ainda descansando entre nós” (palavras suas) — a sua visão obtusa só me fez pensar no
que disse o filósofo Nietzsche, em sua “Segunda Consideração Intempestiva: Da utilidade e desvantagem da história para a vida”. Neste escrito, sempre atual, ele analisa como o instinto de justiça histórica, presente na terceira forma de se reportar à vida, isto é, a maneira crítica (kritischer Standpunkt), pode, por mãos, voz e maneiras grosseiras, ocasionar uma grande injustiça histórica. Diz o filósofo alemão:

“Quem vos obriga a julgar? E ainda além — colocai-vos à prova, apenas para ver se podeis ser justos, se vós o quiserdes! Enquanto juízes, precisaríeis permanecer superiores em relação ao que deve ser julgado; mas vós apenas chegastes depois. Os convidados que chegam por último à mesa devem com razão ficar com os últimos lugares: e vós quereis ter os primeiros lugares? Então fazei ao menos o que há de mais elevado e mais grandioso; talvez se vos conceda neste caso realmente um lugar, mesmo se vós chegares por último.”[3]

Por um ato corajoso, ainda em plena ditadura militar, a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, tendo à frente Cardeal D. Paulo Evaristo Arns, unida aos representantes de outras profissões religiosas, publicou um verdadeiro processo político da ditadura militar brasileira. Este livro relata todos os nomes das vítimas, bem como as maneiras de torturar, matar e sepultar centenas de presos políticos que pensavam diferentemente do poder militar vigente. “BRASIL NUNCA MAIS” trata da falta de sentimento ético e da indiferença dos militares e das oligarquias econômicas em relação ao sofrimento do povo brasileiro e constitui um verdadeiro tesouro de informações, recolhendo a tragédia de centenas de pessoas que não conseguiram fugir do país.

Na verdade, o espírito deste livro é o mesmo que animou a Práxis da Libertação a discernir o tempo favorável, o kairós, para anunciar de uma forma afirmativa o Evangelho de Jesus Cristo — de forma afirmativa, para rebater as críticas que Nietzsche dirigiu à Igreja por sua forma reativa de ser, isto é, julgando negativamente o mundo real em nome de um mundo ideal. Maldizendo a vida; maldizendo, como o senhor disse “as uniões homossexuais, a ordenação de mulheres… Que horror”, sem um mínimo de finesse para tratar dessas questões, apesar dos avanços da emancipação feminina e da luta contra todo preconceito e discriminação que têm marcado a sociedade contemporânea.

Mas, o que faz Nietzsche aqui em nossa reflexão? Não estaria ele depondo contra os defensores da Práxis e da Teologia da Libertação? Para os incautos, apresento-lhes as palavras do Filósofo e Teólogo Paul Valadier, padre jesuíta e professor do Instituto Sèvres de Paris e, portanto, alguém insuspeito de fazer apologia da Teologia da Libertação. Ao ser questionado sobre a possibilidade de conciliar Nietzsche e o Cristianismo, Valadier nos diz:

Não me parece possível nem desejável querer “conciliar Nietzsche e o Cristianismo”. Isso não é possível, porque seria ir contra as suas afirmações mais constantes e mais fundamentais; salvo deformar totalmente seu pensamento e operar “recuperações” realmente deslocadas, desrespeitosas do “pathos da distância” que exigia Nietzsche com o real, ou seja, com o pensamento de outrem. Não desejável, porque assim se procederia a esse esmagamento das diferenças que Nietzsche lastimava tanto e em que ele via um perigo da modernidade; a impossibilidade de reconhecer que se tem inimigos lhe parecia típico da mentalidade de escravo, incapaz de suportar a alteridade, sempre tentando trazê-la para si. Conciliar Nietzsche com o cristianismo consistiria, então, em dar razão a Nietzsche contra o cristianismo, pois se demonstraria que, como cristãos, nós somos incapazes de suportar a diferença, e que nós somos então escravos. Afirmar isso não é diabolizar Nietsche, mas, bem ao contrário, reconhecer que, como adversário “rigoroso” do cristianismo, ele oferece ao cristão a possibilidade de dirigir sobre si mesmo um olhar crítico, e então, de entrar eventualmente numa “metamorfose” de si, fecunda, enquanto ela lhe permite progredir em sua própria adesão ao cristianismo, livrando-se das ambigüidades ou das posições teológicas que fazem esse cristianismo perder sua credibilidade (por exemplo, um modo de fixar o homem em seu pecado para poder anunciar-lhe a salvação, o que consiste em anunciar primeiro uma “nova má”, antes e como condição da “boa nova” evangélica…) Em particular, a forte tese nietzscheana, segundo a qual foi o próprio cristianismo que provocou a “morte de Deus” (a Gaia Ciência), deve conduzir os cristãos e as Igrejas a interrogarem-se sobre seus discursos e sobre sua prática: não apresentam eles com freqüência um Deus não crível, contribuindo, assim, para uma descrença, ou seja, para um ateísmo que eles deploram ao mesmo tempo?[4]

Para concluir, no que se refere a D. Luciano, o que falar do bispo que me crismou, que me ordenou diácono e depois presbítero, já como arcebispo de Mariana, e que considero meu pai na fé? Minha defesa de D. Luciano, se é que uma vida que fala por si mesma precise de defesa, diz respeito à ousadia com que o senhor o julga, assim como os outros bispos: “um a um dos que erraram o caminho, o Espírito Santo está retirando do palco”. Sr. Aquino, que Teologia o anima a escrever tamanhas heresias? Quer dizer que, para o senhor, a morte destes bispos foi um castigo do Pai agindo pela força do Espírito Santo? O senhor encara a morte como castigo? O que dizer então da morte de cruz de Jesus Cristo? Com suas idéias, o senhor não estaria trazendo de volta a idéia do Deus da Retribuição, tão refutada pelos escritos sapienciais? E, afinal, que atos justos, no dizer de Nietzsche, o senhor fez para anunciar tamanho veredicto?

Quantas madrugadas o senhor passou em claro dando sopa para os pobres depois de um dia exaustivo de trabalho? Quantas foram as vezes que o senhor foi à cadeia visitar os padres franceses que tomaram as dores do nosso povo, enquanto que muitos de nós nos fechávamos em nossas casas com medo dos militares e da prisão? Quantas vezes o senhor deu as próprias meias para que um mendigo não sentisse frio nos pés? Quantas vezes o senhor discursou na Assembléia da UNICEF, em Paris, demonstrando como as Comunidades de Base eram, para as crianças que andavam perdidas e vagando nas ruas, a família que não tinham e a esperança de um futuro melhor? Quantas vezes o senhor se ajoelhou frente ao telefone para falar com o papa que estava a milhares de quilômetros dali? Quantas vezes o senhor soube, a exemplo de Jesus, olhar com carinho o jovem que partiu triste por não ter conseguido deixar os seus bens, sabendo que ele deixara para trás o que havia de melhor? Por acaso o senhor tem a consciência de que nascer de família nobre e abastada, de ser descendente de um antigo senador do império, de falar várias línguas, doutorar-se numa universidade do exterior, de nada valem diante do estar na presença do Senhor? Quantas vezes soube ver na Práxis e na Teologia da Libertação, não a adequação cristalizada de uma teologia já sistematizada, madura e por isso mesmo enrijecida como uma velha e boa senhora que aos poucos vai perdendo a visão? Quantas vezes o senhor se permitiu, mesmo com quase sessenta anos, contemplar o frescor jovial de uma teologia que procurou voltar ao fervor evangélico das comunidades primitivas, ainda que reconhecendo nela certa imprudência e transgressão, mas sabendo que toda hybris (desmesura) alarga os limites e amplia o campo de visão? Tudo isso e muito mais é D. Luciano.

Sr Aquino, com estas palavras espero ter contribuído para que as novas gerações estudem e entendam qual é a espiritualidade que anima a Práxis e a Teologia da Libertação. Fiz questão de separar os termos, pois toda ação (práxis) é contextualizada e necessita das luzes da reflexão (teologia) para que não se transforme numa atitude imprudente, e que a reflexão, distante do mundo real da ação, não se transforme num pensamento inoperante. Espero ter
contribuído para que as novas gerações vejam que, para ser verdadeiramente cristão, não basta observar a lei, mas é preciso resgatar o espírito que a anima. Na verdade, criticando os nossos queridos bispos, o senhor nos prestou um grande favor: demonstrou que a reflexão teológica latino-americana e sua opção preferencial pelos pobres, inspirada em Medellín e reafirmada em Puebla, não morreu; e que, de forma dinâmica, continua a atuar entre nós. Dito isto, termino esta carta-reflexão, citando mais uma vez o grande filósofo alemão:

“Somente a partir da suprema força do presente tendes o direito de interpretar o passado: somente na mais intensa tensão de vossas qualidades mais nobres, desvendareis o que há no passado digno de ser conhecido e conservado. O igual pelo igual. De outro modo, vós conduzireis o passado para baixo juntamente convosco. (…) Portanto: a história, escreve-a o homem experiente e superior. Quem não vivenciou algo maior e mais elevado do que tudo também não saberá interpretar nada grandioso e elevado no passado. A sentença do passado é sempre oracular: apenas como construtores do futuro, como conhecedores do presente, vós a compreendereis (…) Vós tereis o suficiente para ponderar e inventar, na medida em que meditais sobre aquela vida futura, mas não requisiteis à história que ela vos mostre o ‘como?’, o ‘com que?’. Se ela, ao contrário, vos imiscuir na história dos grandes homens, então aprendereis dela um comando supremo para amadurecer e para escapar daquele encanto educacional paralisante da nossa época, que vê sua utilidade em não vos deixar amadurecer para dominar e explorar a vós, os imaturos. E se desejais biografias, então não aquelas com o refrão ‘o senhor tal e tal e uma época’, mas aquelas em que os frontispícios deveriam chamar-se ‘um guerreiro contra seu tempo’.[5]

Que o Senhor que vê as coisas como elas são nos dê a graça de vermos tudo isso não com nossos olhos, mas por meio dos mesmos olhos que nos darão a conhecer um dia a intenção dos nossos corações.

Obrigado pela atenção,
Pe Edélcio Ottaviani

[1]KASPER, Walter. Die Bleibende herausforderung durch das II. Vatikanische Konzil. Zur Hermeneutik der Konzilaussagen, dans G.W HUNOLD &W. KORFF (éd.), Die Welt für morgen, Munich, p. 423. Apud BÖCKLE, Franz. Le magistère de L’Église en matière morale. Révue Théologique de Louvain, Louvain – Belgique, n. 19, p. 16. 1988.
[2] TRAUBE, Rainer. O Renascimento da Religião. Der Spiegel. Disponível em: http://www.arquivothomazmagalhães.kit.net/thomaz_magalhaes/pag – 1246056 – 008.html; acesso em 18/2/07.
[3] NIETZSCHE, F. Segunda Consideração Intempestiva § 6. RJ: Relume&Dumará, 2003, p. 56.
[4] UNISINOS. Nietzsche o filósofo do martelo e do crepúsculo. On line, São Leopoldo, ano IV, n. 127, 13 de dezembro de 2004. Disponível em: http://www.unisinos.br/ihuonline/uploads/edicoes/1158266308.88word.doc; acesso em 1º de maio de 2007.
[5] NIETZSCHE, F. Segunda Consideração Intempestiva § 6, p. 57-58.