Violência e ideologia

Gostaria de chamar a atenção do raro leitor para as colunas do filósofo e jornalista Hélio Schwartsman na Folha de S.Paulo. Usei o plural porque ele escreve (colunas, artigos e, provavelmente, até editoriais) para esse jornal quase todos os dias da semana, salvo engano, menos segundas e quintas. Além disso, mantém uma coluna semanal, às quintas (temporariamente suspensa), no site da Folha.

Os textos do Hélio destoam do restante da Folha e das publicações jornalísticas em geral. Embora curtos, podem ser caracterizados como artigos de fundo, nos quais informação de qualidade vem acompanhada por análise cuidada. Somos informados sobre diferentes áreas do conhecimento, das neurociências à filosofia da mente, passando pelo direito e pela medicina, p.ex. Mas sempre de um modo prático, ou melhor, “aplicado” a casos concretos do cotidiano –da política, da economia etc.

Não concordo com mais da metade do que o Hélio diz, mas acho tudo muito estimulante. Ele tende a supervalorizar a ciência, e, naturalmente, tem mais afinidade com a chamada filosofia analítica. Na minha opinião, não consegue escapar do cientificismo nem do relativismo –o que representa um grande problema. Mas, enfim, vamos ao que interessa.

Na sua coluna de 16-2, “Especulação precoce“, Hélio Schwartsman tece considerações sobre a polêmica em torno da “justiça pelas próprias mãos” por parte de cidadãos brasileiros, como no caso do garoto que foi amarrado a um poste no Rio (já houve outro caso). Começa observando tratar-se de uma disputa ideológica. E, para caracterizar esse tipo de contenda, dispara uma frase certeira:

… as pessoas já sacam suas respostas antes mesmo de formularmos uma pergunta.

Em seguida, o nosso colunista caracteriza também as duas posições-padrão dos políticos em relação à criminalidade:

Para a esquerda, condições socioeconômicas como pobreza, desemprego, desigualdade e educação são os principais fatores a explicar a criminalidade. Já para a direita, delinquência se resolve é com polícia.

É uma caracterização esquemática, mas igualmente correta. No parágrafo seguinte, então, o Hélio avança um argumento típico dele, nessa sua nova fase “cientificista” a que me referi acima:

Precisamos nos conformar que o cérebro abusa mesmo dos automatismos heurísticos. O problema surge quando se considera que muitas questões relativas à criminalidade têm respostas empíricas estabelecidas, mas nossas convicções políticas fazem com que não as enxerguemos.

Com automatismos heurísticos, o filósofo-jornalista quer significar aqueles hábitos, quase instintivos, que nossa espécie foi desenvolvendo ao longo de milhares de anos de evolução, relativos a estratégias de solução de problemas (de sobrevivência). Isso quer dizer, então, que, em nossas posições políticas, nós tendemos a nos deixar enganar por esquemas evolucionários inconscientes. A ponto de ter nossa visão obnubilada para os dados empíricos disponíveis.

(Na minha opinião, esse tipo de argumento “evolucionista” é no mínimo problemático, pois, embora não seja científico, deixa de fora o próprio sujeito do conhecimento pretensamente científico: por que essa tese valeria para os políticos mas não para os cientistas? Que mágica permitiria a estes últimos escapar do autoengano evolucionário?)

Nosso autor aponta, em seguida, os respectivos pontos fracos das duas posições-padrão. Para desgosto da esquerda,

é fraco o elo entre economia e violência, como mostra Steven Pinker em “Melhores Anjos”. Dados de EUA, Canadá e Europa Ocidental revelam que melhoras econômicas quase não têm efeito sobre as taxas de homicídios. Há, isto sim, uma correlação bem modesta entre os índices desemprego e os crimes contra o patrimônio.

(Uma candidata melhor do que a pobreza seria a desigualdade social.) Mas a solução da direita

também traz problemas. É claro que, em algum nível, melhorar o policiamento reduz crimes. Mas isso só funciona até certo ponto. Se você o excede, desperdiça dinheiro público e estraga inutilmente a vida de um monte de gente.

Enfim, segundo Hélio Schwartsman, a dura realidade dos fatos, da empiria, refutaria nossas intuições mais primitivas acerca das causas da criminalidade bem como as posições ideológicas nelas direta ou indiretamente fundadas.

Voltarei ao assunto –de que, aliás, já tratei– em outros posts. Aqui apenas pretendi apresentar ao raro leitor um trabalho jornalístico diferenciado.