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Della MIRANDOLA, Pico [1463-94]. Oração sobre a dignidade do homem

[1] O homem é justamente dito e considerado um grande milagre e um animal deveras maravilhoso […] O sumo Pai e Arquiteto Deus já havia fabricado, segundo leis de arcana sabedoria, essa casa mundana da divindade, esse templo augustíssimo que nós vemos. Já havia guarnecido a região supraceleste de inteligências, havia infundido de almas eternas os globos etéreos, havia povoado com uma grande multidão de animais de todas as espécies as partes cheias de excrementos e de refugos do mundo inferior.

[2] Mas, completado o trabalho, o artífice desejava que houvesse alguém capaz de entender o motivo de uma obra tão grande, de apreciar a sua beleza, de admirar a sua grandeza. Por isso, depois de fazer todas as outras coisas (como atestam Moisés e Timeu), pensou por último em criar o homem. Mas entre os arquétipos não havia com que formar a nova progênie humana; nem, entre os tesouros, algo que pudesse ser deixado como herança ao novo filho; nem onde pudesse colocar esse contemplador do universo, entre todos os lugares do mundo inteiro. Tudo já estava ocupado: tudo já havia sido distribuído às ordens supremas, médias, ínfimas…

[3] Por isso, o maravilhoso Autor decidiu finalmente que, para aquele que nada poderia receber que lhe fosse próprio, daria o que fosse comum, o que havia sido dado particularmente aos outros. Tomou assim o homem, obra de figura indistinta, e, colocando-o no meio do mundo, assim lhe falou: “Ó Adão, não te demos nem um lugar determinado, nem um aspecto próprio, nem qualquer dom especial, para que possas ter e possuir aquele lugar, aquele aspecto, aqueles dons que tenhas conscientemente ansiado, segundo o teu desejo e segundo o teu sentimento. A natureza dos outros viventes, já definida, está tolhida pelas leis por nós prescritas: tu, não limitado por qualquer constrição, poderás, segundo o teu arbítrio, a cujo poder eu te confiei, definir a tua natureza…”

[4] “Nós não te fizemos nem celeste nem terreno, nem mortal nem imortal, para que tu, quase árbitro e honorário plasmador e fundador de ti mesmo, possas encontrar a forma que preferires. Poderás degenerar até horrendos graus inferiores; poderás regenerar-te nos divinos graus superiores, segundo a decisão do teu ânimo…”

[5] Ao homem que nascia, o Pai deu as diversas sementes de toda espécie de vida. Segundo forem por ele cultivadas, lançarão raízes e produzirão nele os próprios frutos: se aquelas sementes forem vegetais, tornar-se-á planta; se sensuais, bruto; se racionais, subirá ao nível de animal celeste; se intelectuais, será anjo e filho de Deus. E se, não satisfeito com o destino das criaturas, recolher-se ao centro da sua unidade, tornando-se espírito uno com Deus, na solitária caligem do Pai, sobrelevará todos os seres. Quem não admirará esse nosso camaleão?

ficino

FICINO, Marsílio [1443-99]. Teologia platônica

[1] A alma é tal que se agarra às coisas superiores sem deixar as inferiores; e assim nela se ligam as coisas superiores com as inferiores. De fato, ela é imortal e móvel, e, portanto, de um lado concorda com as coisas superiores, do outro, com as inferiores. E se concorda com ambas, deseja ambas…

[2] E quando adere ao divino — porque espiritualmente está unida a ele, e união espiritual gera cognição — conhece o divino. Quando preenche os corpos, move-os intrinsecamente e vivifica-os; ela é, portanto, o espelho das coisas divinas, vida das coisas mortais e conexão de umas com as outras…

[3] Tal natureza parece sumamente necessária na ordem do mundo: para que, depois de Deus e dos anjos e acima do corpo e das qualidades que se dissipam no tempo e no espaço, sirva de termo médio adequado: um termo que de certa maneira seja dividido pelo transcorrer do tempo e, todavia, não dividido pelo espaço.

[4] É ela que se insere entre as coisas mortais sem ser mortal, posto que se insere íntegra, e não dividida, e assim mesmo, íntegra e não dispersa, dele se retira. E uma vez que, enquanto sustenta os corpos, adere também ao divino, é senhora dos corpos, não companheira. Esse é o máximo milagre da natureza.

[5] Outras coisas abaixo de Deus são, cada uma em si, uma entidade singular: a alma é simultaneamente todas as coisas. Tem em si a imagem das coisas divinas, das quais depende, e as razões e os exemplos das coisas inferiores, que de certa maneira ela mesma produz. Fazendo-se intermediária de todas as coisas, possui a faculdade de todas as coisas… Mas uma vez que é a verdadeira conexão de todas, quando migra para uma não deixa a outra, mas migra de uma para a outra e sempre as conserva todas, de modo que, justamente, pode denominar-se o centro da natureza, a intermediária de todas as coisas, a cadeia do mundo, o rosto de tudo, o nó e a cópula do mundo.