um papa astucioso

Papa Bento 16 conhece bem a psicologia de um ateu, com quem dialoga em sua última encíclica

por MARCELO COELHO

DISCORDO COM todas as forças da minha razão das doutrinas do Vaticano. Mas uma coisa não posso negar: Bento 16 é um intelectual respeitável, que fala uma linguagem compreensível para os que discordam dele.

Leio sua última encíclica, disponível na internet (www.vatican.va), e intitulada Spe Salvi. É o ponto de partida para uma bela e astuta ruminação em torno de temas que qualquer pessoa irreligiosa haverá de achar interessantes.

Bento 16 faz uma pergunta dramática: será que queremos, de fato, uma vida eterna? Ele sabe que ninguém tem vontade de morrer. Mas uma vida eterna… Não seria uma chatice monumental?

Lendo esses primeiros parágrafos, vi que o papa conhece bem a psicologia de um ateu. É com um ateu, na verdade, que ele dialoga.

Sei que você despreza a vida eterna. Talvez você pense que será uma sucessão infinita de beatitudes no tempo. A velha imagem do sujeito tocando harpa num céu azul.

Mas pense em outro tipo de experiência: aqueles momentos de plenitude que, quando apaixonados ou felizes, sentimos ao contemplar o mar, o céu, uma criança dormindo. Imagine-se esse instante perfeito, fora do tempo, do tempo humano; é isso a salvação.
Pode-se acreditar ou não na promessa. Mas é mais sedutora do que uma infinitude de horas num paraíso desinteressante.

A encíclica de Ratzinger prossegue. Acreditar na promessa de salvação não é simplesmente achar que ela vai acontecer. A própria crença já muda as coisas. Não se trata de ter fé numa simples “informação”, transmitida pelo Evangelho, mas de engajar-se numa “performação”.

A raposa do Vaticano utiliza, nesse momento, os conceitos do filósofo Austin (1911-1960). Austin distingue diferentes “atos de linguagem”: há o informativo, pelo qual alguém diz algo a respeito do mundo, e o “performativo”.

Na categoria dos atos “performativos” estão frases que, como diz seu livro mais famoso, “fazem coisas com palavras”. Por exemplo: “Está encerrada a sessão”. “Eu os declaro marido e mulher”. Uma vez pronunciada a frase, algo real aconteceu.

Pois bem, o Evangelho, segundo Ratzinger, também é “performativo”. Afirmar a salvação da alma também “faz coisas” com uma frase. Aí começo a discordar. Um “enunciado performativo” só funciona quando a autoridade que o enuncia é reconhecida por todos. Se o prefeito Kassab achar que é o novo Messias e declarar que todos os paulistanos estão salvos, tenho o direito de considerar que seu “enunciado performativo” não passa de um delírio.

Mas é claro que o papa está convicto do poder performativo da palavra de Cristo. E não está totalmente errado nisso: os Evangelhos têm um poder de transformação maior do que qualquer discurso de Kassab.

Mas não se trata, para Ratzinger, de uma competição entre autoridades de diferente estatura. O “enunciado performativo” envolve, diz o papa, mais do que uma convicção individual. E nisso ele está certo: trata-se de um vasto acordo coletivo.

Boa deixa para o papa condenar o protestantismo. Reduzindo a questão da fé a uma questão de persuasão pessoal, os protestantes se tornam incapazes de aprender o conteúdo transformador da fé cristã.

Trata-se, diz o papa, de uma distorção moderna. A partir do século 16, começou-se a considerar o programa do cristianismo como “uma busca egoísta da salvação que se recusa a servir os outros”.

Qual a raiz dessa distorção? Ratzinger agora mostra suas garras. A raiz está na idéia cientificista de Francis Bacon, retomada por Kant e Marx, de que o homem poderá dominar a natureza. E com isso poderá refazer, em novos termos, uma aliança com Deus, livre do pecado original, confiante na razão.

Falta espaço para explicar o resto. A encíclica do papa merece ser lida. Do meu ponto de vista, nada se sustenta. Ratzinger confunde razão com ciência e liberdade com pecado.

Posso dar exemplos de liberdade que não se voltam para o mal (este é um dos preconceitos mais arraigados no pensamento conservador, que, em nome da liberdade, compactua com o mal), e posso acreditar que o ser humano, apesar de falível, tem na razão de que dispõe um instrumento melhor do que a fé. Mas o assunto é longo, e a encíclica de Ratzinger não é a pior leitura que se possa fazer às vésperas de 2008. [FOLHA 26/12/07]

fim da globalização?

Grandes mudanças políticas freqüentemente começam com pequenas dúvidas. Tal dúvida está começando a se fazer ouvir na campanha presidencial americana. O comércio livre, diz Hillary Clinton, talvez não seja tão bom afinal. Poderia ser um sinal do início do fim da globalização?

por GABOR STEINGART

Foi o filósofo Lao Tsu que disse: “Uma viagem de mil quilômetros começa com um único passo”. O mesmo pode ser dito de movimentos políticos. Em seu estado embrionário, freqüentemente não passa de uma dúvida no coração político. A Guerra Fria é um bom exemplo: o ceticismo crescente com a política de confronto eventualmente deu início à détente.

A China de hoje também deve sua própria existência às dúvidas. O líder do Partido Comunista Deng Xiaoping parou de acreditar no poder de Mao e Marx para construir um Estado viável. E os colonos britânicos no Novo Mundo ainda seriam britânicos hoje se não tivessem suas dúvidas sobre as boas intenções do país mãe. As dúvidas viraram raiva, a raiva levou à guerra e, no final, nasceu o país que conhecemos hoje como Estados Unidos.

Uma dúvida similar agora entrou na campanha presidencial -e pode levar a mudanças de proporções históricas. A candidata presidencial democrata Hillary Clinton distanciou-se da idéia do comércio livre, uma filosofia que deu forma à visão de mundo americana desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A teoria sustenta que o comércio entre nações automaticamente aumenta a riqueza de todos os participantes e que qualquer forma de comércio é melhor do que nenhum comércio. Todo presidente americano desde Harry S. Truman passou boa parte de seu tempo eliminando restrições alfandegárias e barreiras comerciais.

Não seria exagero dizer que a globalização de hoje é um produto do comércio livre. Sempre houve um consenso geral apartidário no que concerne as questões fundamentais de política econômica. O ex-presidente Bill Clinton continuou a tradição de seus predecessores quando uniu os EUA, México e Canadá sob o Acordo de Comércio Livre Norte Americano (Nafta).

A candidata Hillary Clinton, entretanto, agora está rompendo com o legado de seus predecessores, inclusive seu marido. Ela não acredita mais que o comércio com outras nações é automaticamente benéfico para seu próprio país. A antiga teoria não é mais verdadeira, disse recentemente ao Financial Times. Se ela se tornar presidente, pretende retirar-se das negociações de comércio mundial que começaram em Doha, Qatar. Em sua opinião, “não é uma opção” adotar uma política comercial que se inicie onde o atual presidente George W. Bush deixá-la.

A ameaça da terceirização
De acordo com pesquisas de opinião, a maioria dos eleitores dos dois lados têm as mesmas dúvidas que Clinton. O enorme déficit comercial americano -e isso em um país que já exportou mais do que qualquer outro- deixou sua marca na psique americana. A maior exportação dos EUA atualmente parece ser a de empregos bem pagos de sua classe média. A tendência que começou com operários expandiu-se para engenheiros de software e atingirá banqueiros de investimento e pesquisadores farmacêuticos, diz Alan Blinder, professor de Princeton e ex-vice-diretor do banco central americano, Federal Reserve. De acordo com Blinder, até 40 milhões de empregos americanos -representando o dobro de pessoas que estão trabalhando atualmente no setor industrial- talvez tenham que enfrentar a ameaça da terceirização.

Em 2001, quando Blinder ainda era crente, escreveu: “Como 99% dos economistas desde os tempos de Adam Smith, sou defensor do comércio livre da cabeça aos pés”. Para acompanhar a mudança de opinião de Blinder e Hillary Clinton, vale a pena fazer uma visita a um dos andares superiores de um prédio do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em Cambridge. Há um longo corredor com os retratos de todos os economistas dos últimos séculos, inclusive Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx. O corredor eventualmente leva a um escritório onde um senhor de 92 anos e gravata borboleta senta-se em sua mesa comendo sushi. Professor Paul A. Samuelson foi consultor de vários presidentes, inclusive Eisenhower e Kennedy e, em 1970, recebeu o Prêmio Nobel de Economia. A leitura de seu livro texto é obrigatória para todo aluno de economia.

Samuelson lê as estatísticas de importação e exportação com a mesma atenção que os mortais ordinários assistem as previsões do tempo. Ele monitora as imagens de satélite da economia e tenta diferenciar entre tornados e furacões. E ele previu há muito que estamos prestes a enfrentar uma tsunami econômica -uma onda de pressão que se formou sob as águas e está ganhando força a cada dia. Se esperarmos até que a onda gigante chegue às nossas praias, será tarde demais. A força dessa tsunami econômica vai destruir muitas coisas, diz ele, inclusive o que resta da indústria americana. O que ficará para trás, no melhor dos casos, será o que Samuelson chama de “uma economia de escritório americana”.

Então ele pensa que a globalização é um jogo no qual uma parte ganha e a outra perde? Não, respondeu ao terminar seu sushi. A fortuna do mundo continuará crescendo. Mas, acrescenta, infelizmente não se aplicará a todos os grupos de uma sociedade.

Mas os lucros da globalização não superam as perdas? Não, respondeu, não mais. De acordo com Samuelson, as conseqüências da globalização para os EUA já são negativas há um tempo. Comparado com as economias crescentes da Ásia, o país agora está em uma situação de “ganhar e perder”. A Ásia, diz Samuelson, está ganhando força econômica enquanto os EUA perdem seus bens.

Hillary Clinton, crítica do comércio livre, agora baseia seus argumentos nos de Samuelson. Os questionamentos dele agora são dela.

Uma coalizão de questionadores
A coalizão de questionadores tornou-se maioria nos EUA. Muitos agora criticam a teimosia dos defensores do comércio livre, antes considerados formuladores de política. Mesmo dentro do Partido Republicano eles são vistos como ideólogos defendendo um princípio só pelo princípio. “O próximo presidente deve compreender que não há comércio livre sem comércio justo”, diz o candidato republicano à presidência Mike Huckabee.

As dúvidas sentidas e expressadas por políticos automaticamente levam a políticas corretas? Infelizmente, não. A dúvida também pode significar a destruição, como exemplifica o ex-presidente da Rússia Mikhail Gorbachev. O reformista soviético não mais acreditava que o sistema baseado na economia planejada e controlada por serviços de inteligência poderia produzir riqueza. No entanto, foi incapaz de oferecer uma alternativa. O ambiente soviético desmoronou, a produção industrial idem. No final, os russos estavam em pior situação do que antes do colapso da União Soviética.

O cuidado também é aconselhado no debate do comércio livre. O protecionismo -ou isolamento econômico americano- seria um remédio fatal. Se vencer as eleições, Hillary Clinton talvez devesse pegar uma página do livro de Deng Xiaoping, grande reformista da China. Ele tinha dúvidas sobre tudo, inclusive sobre sua própria visão de mundo. Em sua vida, Deng favoreceu uma política de pequenos passos. “Ninguém tomou essa estrada antes. É necessário prosseguir com cautela”, disse. [Der Spiegel 12/12/07]

“duvido que marx ganhasse o nobel”

“É preciso chegar aos 75 para começar a entender alguma coisa”, diz o economista sueco Assar Lindbeck

por LOLA GALÁN

Assar Lindbeck (nascido em Lulea, Suécia, 1930) é um dos gurus do Estado do bem-estar social, um tema sobre o qual escreveu dezenas de livros e centenas de artigos. Membro do Comitê Nobel durante 25 anos, Lindbeck aproveitou ao máximo, com visitas aos museus do Prado e Thyssen, sua estada em Madri, convidado pela Fundação Carolina, para dar uma aula sobre as perspectivas do modelo social europeu.

El País – Os Nobel de economia não são Nobel de verdade. Foram criados pelo Banco Central sueco em 1969. Alfred Nobel nunca pensou em premiar economistas, apesar de na sua época ter havido grandes figuras nessa disciplina.
Assar Lindbeck – Sim. Pessoas muito inteligentes, com grandes dons de observação, mas na realidade o desenvolvimento da economia, sua transformação em uma ferramenta rigorosa, é coisa da segunda metade do século 20.

EP – O senhor acredita que Karl Marx teria merecido o Nobel?
Lindbeck – É uma pergunta muito difícil. Não sei. Duvido. Ele teve intuições brilhantes. Foi capaz de entender até que ponto a inovação tecnológica estava mudando de maneira drástica a estrutura econômica. Mas foi ingênuo, porque pensou que, depois de introduzidas as inovações e quando a massa do capital tivesse se consolidado, bastaria administrá-lo. Não viu a necessidade constante de inovação e de investimento.

EP – Também se enganou em relação às contradições internas do capitalismo, que continua vivo e com boa saúde.
Lindbeck – Sim, o capitalismo não deixou de se espalhar pelo mundo. Mas tem cada vez mais problemas. Um deles é a falta de disciplina dos mercados financeiros. Muitos atores nesses mercados assumem riscos demais e isso afeta a economia. Foi o que vimos com a crise do mercado imobiliário nos EUA. De vez em quando os mercados criam problemas para o conjunto da economia.

EP – Então há necessidade de mais regulamentação?
Lindbeck – É preciso fazer algo. Creio que seria necessária uma inspeção financeira mais qualificada para ver os riscos e poder intervir a tempo. Há muita gente inteligente inventando instrumentos financeiros cada vez mais sofisticados. O ruim é que não são bastante inteligentes para prevenir seus riscos.

EP – As pessoas comuns se preocupam mais com a manutenção e o desenvolvimento do Estado do bem-estar social. Um tema em que vocês, suecos, foram pioneiros; continuam avançando?
Lindbeck – Não. O modelo sueco não é muito diferente do dos países do norte da Europa. A Espanha, assim como Grécia e Portugal, está um pouco atrás. A única coisa que difere no sistema sueco é sua generosidade na proteção às famílias com filhos. A licença-maternidade [remunerada com pagamento total] é de 14 meses, e há muitas ajudas para pais com filhos pequenos. Mas há países como a França que têm ajudas parecidas.

EP – A Espanha deu passos à frente ultimamente, mas falta muito por fazer. Suponho que poder cuidar dos filhos com mais tranqüilidade tenha um impacto nessa sociedade.
Lindbeck – Sim. É o que propiciou nas sociedades nórdicas que a presença das mulheres no mercado de trabalho alcance quase 80%. Houve outro elemento que tornou isso possível: a proteção que o Estado dá aos idosos. Porque estiveram tradicionalmente aos cuidados das mulheres. Quer dizer, nosso modelo favoreceu a emancipação feminina.

EP – Todo mundo se olha no espelho sueco e considera esse modelo um grande sucesso social.
Lindbeck – Até certo ponto. Neste momento temos um problema: a utilização indevida dos subsídios. Veja que em três países europeus que afirmam oferecer uma excelente cobertura de saúde a seus cidadãos, Holanda, Noruega e Suécia, ocorrem os índices mais elevados de licenças por doença. As pessoas estão saudáveis, mas pedem licença médica. Há uma tremenda indignidade. Na Suécia as pessoas faltam ao trabalho em média 22 dias por ano, quando no Japão a média é de apenas três. Os dois casos são extremos. Mas não é só a licença por enfermidade. No meu país os pais podem faltar ao trabalho quando os filhos estão doentes. Isso é muito bom, mas na prática as pessoas ficam em casa mesmo quando a criança já se recuperou completamente. Toda essa farsa está destruindo o Estado do bem-estar social. As pessoas se aposentam muito cedo em muitos países europeus, vão para casa com 55 anos ou menos; outros ficam no seguro-desemprego mesmo que consigam obter um trabalho. E as pessoas consideram isso normal. Fizemos uma pesquisa há pouco tempo para saber se os cidadãos achavam normal pedir licença por doença sem estar doentes, e 60% dos pesquisados disseram que sim.

EP – O que significa que o sistema não funciona quando não há um compromisso real das pessoas de defendê-lo. Um compromisso que existia no início.
Lindbeck – Sabemos por que isso acontece. Quando se criou o Estado do bem-estar social, depois da Segunda Guerra Mundial, as pessoas estavam acostumadas a trabalhar para se manter. Só recorriam à ajuda em caso de necessidade, porque as leis sociais assim o ditavam. Com o tempo essas leis foram sendo relaxadas. As pessoas começaram a considerar correto viver de subsídios. Aí passaram a enganar o Estado do bem-estar. É o que aconteceu nos últimos dez ou 15 anos na Suécia.

EP – Por que o senhor acredita que isso ocorre? Tem algo a ver com a imigração?
Lindbeck – Não tem nada a ver, absolutamente. O que acontece é que os subsídios são muito altos em relação aos salários. Em muitos casos a diferença entre o seguro-desemprego e o salário é de apenas 10%. Às vezes não há diferença nenhuma.

EP – Então o que se pode fazer?
Lindbeck – Há soluções. Uma é reduzir os subsídios; outra, aumentar os controles. Mas isso é muito difícil, porque a maioria dos doentes tem sintomas que nenhum médico pode comprovar: 60% das licenças são por dores nas costas e por depressão. Uma solução que estão utilizando os britânicos e americanos é pagar subsídios a quem trabalha, isto é, incentivar quem trabalha.

EP – E as pessoas que realmente precisam?
Lindbeck – É preciso fazer alguma coisa, porque estamos em uma situação verdadeiramente crítica. Na Suécia fizemos estudos e há regiões em que as pessoas faltam ao trabalho em média três dias por ano, e outras, com os mesmos níveis de atendimento de saúde, em que faltam em média 54 dias. Sem que haja qualquer diferença na saúde das pessoas.

EP – A Suécia decidiu ficar fora do euro. Como está sendo?
Lindbeck – Mais cedo ou mais tarde entraremos na União Monetária Européia, mas não me parece catastrófico estar fora. Seremos admitidos quando quisermos. O maior problema é que nossas exportações não aumentaram tanto quanto a média européia nos últimos cinco anos, mas as exportações são 40% do PIB.

EP – Aos 77 anos o senhor continua sendo professor na Universidade de Estocolmo. O que acha da aposentadoria aos 65 anos?
Lindbeck – Me parece uma loucura. A expectativa de vida aumentou muito. E os jovens, pelo menos na Suécia, não se incorporam ao mercado de trabalho aos 16 anos como antes. Agora os estudantes não trabalham antes dos 27. A vida produtiva é curta demais, e isso custa caríssimo. Além disso, como eu digo, é preciso chegar aos 75 pa
ra começar a entender alguma coisa. [EL PAÍS 28/11/07]

nova encíclica critica ateísmo

por VALQUÍRIA REY
da BBC Brasil, em Roma

O papa Bento 16 fez uma dura crítica ao ateísmo em um documento divulgado nesta sexta-feira, dizendo que a doutrina, que nega a existência de Deus, foi responsável por algumas das piores formas de crueldade e injustiça na história moderna.

A crítica foi feita na segunda encíclica criada pelo papa Bento 16, intitulada Spe Salvi (Salvos Graças à Esperança), publicada em oito idiomas, incluído o português e dirigida a bispos, padres e diáconos de todo o mundo e, por meio deles, a todos os fiéis.

Dividido em oito capítulos, o documento de 75 páginas condena o mal e o pessimismo do mundo e diz que o homem deve ter esperança e fé em Deus.

De acordo com o papa, o ateísmo dos séculos 19 e 20 é um protesto “compreensível” contra Deus “diante do sofrimento deste mundo”.

Mas, “a pretensão de a humanidade poder e dever fazer aquilo que nenhum Deus faz e nem é capaz de fazer é presunçosa e intrisecamente não verdadeira”, afirma o papa no documento.

“Não é por acaso que desta premissa tenham resultado as maiores crueldades e violações da justiça, mas funda-se na falsidade instrínseca desta pretensão. Um mundo que deve criar a justiça por sua conta, é um mundo sem esperança.”

No capítulo em que fala sobre a transformação da fé-esperança cristã no tempo moderno, o papa cita outro notório ateu, o pai do comunismo, o pensador alemão Karl Marx, que “não falhou só ao deixar de idealizar os ordenamentos necessários para o mundo novo”.

“O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanence sempre liberdade, inclusive para o mal”, assinalou o pontífice.

“Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato, o homem não é o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis.”

No documento, o papa também faz um apelo em defesa do meio ambiente, pedindo empenho por um mundo livre dos venenos e contaminações que poderiam destruir o presente e o futuro.

A segunda encíclica foi lançada quase dois anos depois da primeira, Deus Caritas Est – Deus é Amor, publicada em janeiro de 2006, que focava no amor erótico e espiritual nas relações pessoais, assim como no papel da Igreja em organizações de caridade.

O pontífice trabalhou no documento durante suas últimas férias na localidade de Lorenzago di Cadore, na cordilheira alpina dos Dolomitas.

As encíclicas são documentos pontifícios que tratam de temas doutrinários como fé, costumes, culto e doutrina social.

Na Igreja Católica é o segundo documento mais importante, depois das constituições apostólicas.

A terceira encíclica, sem data confirmada de publicação deverá ser de “caráter social”, como confirmou o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi.

Trechos
20. O século XIX não perdeu a sua fé no progresso como nova forma da esperança humana e continuou a considerar razão e liberdade como as estrelas-guia a seguir no caminho da esperança. Todavia a evolução sempre mais rápida do progresso técnico e a industrialização com ele relacionada criaram, bem depressa, uma situação social completamente nova: formou-se a classe dos trabalhadores da indústria e o chamado «proletariado industrial», cujas terríveis condições de vida foram ilustradas de modo impressionante por Frederico Engels, em 1845. Ao leitor, devia resultar claro que isto não pode continuar; é necessária uma mudança. Mas a mudança haveria de abalar e derrubar toda a estrutura da sociedade burguesa. Depois da revolução burguesa de 1789, tinha chegado a hora para uma nova revolução: a proletária. O progresso não podia limitar-se a avançar de forma linear e com pequenos passos. Urgia o salto revolucionário. Karl Marx recolheu este apelo do momento e, com vigor de linguagem e de pensamento, procurou iniciar este novo passo grande e, como supunha, definitivo da história rumo à salvação, rumo àquilo que Kant tinha qualificado como o « reino de Deus ». Tendo-se diluída a verdade do além, tratar-se-ia agora de estabelecer a verdade de aquém. A crítica do céu transforma-se na crítica da terra, a crítica da teologia na crítica da política. O progresso rumo ao melhor, rumo ao mundo definitivamente bom, já não vem simplesmente da ciência, mas da política – de uma política pensada cientificamente, que sabe reconhecer a estrutura da história e da sociedade, indicando assim a estrada da revolução, da mudança de todas as coisas. Com pontual precisão, embora de forma unilateralmente parcial, Marx descreveu a situação do seu tempo e ilustrou, com grande capacidade analítica, as vias para a revolução. E não só teoricamente, pois com o partido comunista, nascido do manifesto comunista de 1848, também a iniciou concretamente. A sua promessa, graças à agudeza das análises e à clara indicação dos instrumentos para a mudança radical, fascinou e não cessa de fascinar ainda hoje. E a revolução deu-se, depois, na forma mais radical na Rússia.


21. Com a sua vitória, porém, tornou-se evidente também o erro fundamental de Marx. Ele indicou com exactidão o modo como realizar o derrubamento. Mas, não nos disse, como as coisas deveriam proceder depois. Ele supunha simplesmente que, com a expropriação da classe dominante, a queda do poder político e a socialização dos meios de produção, ter-se-ia realizado a Nova Jerusalém. Com efeito, então ficariam anuladas todas as contradições; o homem e o mundo haveriam finalmente de ver claro em si próprios. Então tudo poderia proceder espontaneamente pelo recto caminho, porque tudo pertenceria a todos e todos haviam de querer o melhor um para o outro. Assim, depois de cumprida a revolução, Lenin deu-se conta de que, nos escritos do mestre, não se achava qualquer indicação sobre o modo como proceder. É verdade que ele tinha falado da fase intermédia da ditadura do proletariado como de uma necessidade que, porém, num segundo momento ela mesma se demonstraria caduca. Esta « fase intermédia » conhecemo-la muito bem e sabemos também como depois evoluiu, não dando à luz o mundo sadio, mas deixando atrás de si uma destruição desoladora. Marx não falhou só ao deixar de idealizar os ordenamentos necessários para o mundo novo; com efeito, já não deveria haver mais necessidade deles. O facto de não dizer nada sobre isso é lógica consequência da sua perspectiva. O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de facto, o homem não é só o produto de condições económicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições económicas favoráveis.

22. Encontramo-nos assim novamente diante da questão: o que é que podemos esperar? É necessária uma autocrítica da idade moderna feita em diálogo com o cristianismo e com a sua concepção da esperança. Neste diálogo, também os cristãos devem aprender de novo, no contexto dos seus conhecimentos e experiências, em que consiste verdadeiramente a sua esperança, o que é que temos para oferecer ao mundo e, ao contrário, o que é que não podemos oferecer. É preciso que, na autocrítica da idade moderna, conflua também uma autocrítica do cristianismo moderno, que deve aprender sempre de novo a compreender-se a si mesmo a partir das próprias raízes. A este respeito, pode-se aqui mencionar somente alguns indícios. Antes de mais, devemos perguntar-nos: o que é que signific
a verdadeiramente « progresso »; o que é que ele promete e o que é que não promete? No século XIX, já existia uma crítica à fé no progresso. No século XX, Teodoro W. Adorno formulou, de modo drástico, a problematicidade da fé no progresso: este, visto de perto, seria o progresso da funda à megabomba. Certamente, este é um lado do progresso que não se deve encobrir. Dito de outro modo: torna-se evidente a ambiguidade do progresso. Não há dúvida que este oferece novas potencialidades para o bem, mas abre também possibilidades abissais de mal – possibilidades que antes não existiam. Todos fomos testemunhas de como o progresso em mãos erradas possa tornar-se, e tornou-se realmente, um progresso terrível no mal. Se ao progresso técnico não corresponde um progresso na formação ética do homem, no crescimento do homem interior (cf. Ef 3,16; 2 Cor 4,16), então aquele não é um progresso, mas uma ameaça para o homem e para o mundo. [Folha Online 30/11/2007 – 12h37]

volver a los 17???

por JOSÉ ARBEX

Karl Marx alertou sobre o fato de que o capitalismo desenvolveria ao máximo as forças produtivas, até o momento em que o modo de produção, baseado na propriedade privada e na busca incessante de lucro, se tornaria um impedimento ao seu livre desenvolvimento; se o capitalismo não fosse substituído por outro sistema, mais desenvolvido e mais humano – isto é, o socialismo -, as forças produtivas seriam transformadas em forças destrutivas. Vamos entender isso um pouco melhor.

Em linhas bem gerais e esquemáticas: as forças produtivas são a própria natureza, a ciência e a técnica (ct) e o próprio ser humano. Ao longo da história, o ser humano, na luta para domesticar a natureza, organizou-se das mais distintas formas, assim desenvolvendo a ct. A maneira pela qual as sociedades se organizam (modo de produção) sempre corresponde a um determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas. Por exemplo: o capitalismo, na era industrial, permitiu o tremendo desenvolvimento da ct, até o ponto que conhecemos hoje; tal desenvolvimento não poderia ter acontecido, digamos, no feudalismo, pois a condição para o desenvolvimento da indústria foi a existência simultânea do burguês empreendedor e do trabalhador assalariado, isto é, o modo de produção capitalista.

A coisa toda funciona bem até o ponto em que o crescimento das forças produtivas é emperrado pelo modo de produção. Aqui, surge uma questão vital: o capitalismo é capaz de desenvolver ao infinito a ciência e a técnica. Daí, muitos concluem que o socialismo não está colocado na ordem do dia, segundo o raciocínio de Marx, para quem só pode haver a revolução no caso de uma contradição entre a evolução das forças produtivas e o modo de produção. Mas esse argumento é vulgar. Para o marxismo, não há uma equiparação, uma equivalência, um sinal de igualdade entre as forças produtivas. O ser humano é o centro da preocupação de Karl Marx.

Isso significa que o desenvolvimento da ct só tem significado se ele servir para aumentar o bem-estar do ser humano, seu acesso às riquezas culturais e naturais, às condições dignas de vida. Não é, em hipótese alguma, aquilo que o capitalismo produz.

É verdade que o ser humano criou uma estação espacial, lançou robôs interplanetários, domina vastas áreas da biologia, é capaz de obras monumentais etc. etc. E daí? Vamos nos deter, por exemplo, na questão alimentar, a mais básica e sagrada para todo ser humano.

Em 1950, quando o planeta era habitado por 2,5 bilhões de pessoas, a humanidade em seu conjunto era capaz de produzir uma quantidade média de 2.500 calorias por dia por habitante. Hoje, quando somos 6 bilhões, somos capazes de produzir 2.750 calorias por dia por habitante. Isto é, mesmo com o acelerado crescimento, produzimos mais alimentos do que o necessário, graças às novas tecnologias. Mas aumenta o número de famintos no mundo. As resoluções da ONU já não falam em “erradicar a fome”, como postulavam até o início dos anos 80, mas falam em alimentar “metade dos famintos”. Como eles são calculados na casa do bilhão, então a ONU condena a morrer de fome pelo menos 500 milhões de seres humanos!

É a isso que Marx se referia, quando falava em crescimento das forças destrutivas. O mesmo raciocínio pode ser estendido a todos os outros setores vitais, como medicina e saúde, educação, lazer etc. Os benefícios do capitalismo só são estendidos aos que têm dinheiro para pagar por eles. E mesmo assim, quando o sistema é tomado em seu conjunto, vemos que a competição desenfreada entre os vários grupos capitalistas conduz o planeta ao desastre global.

É esse o quadro que indica a total, urgente, vital atualizada da revolução. Se a experiência soviética sucumbiu, isso não significa o fim da luta pelo socialismo, nem prova o suposto fracasso histórico do marxismo. Prova, apenas, que o socialismo é incompatível com a burocratização da sociedade, com o autoritarismo; em uma palavra, com o stalinismo. Ao contrário, mais do que nunca vigora a alternativa posta por Rosa Luxemburgo e por todos os marxistas que não se deixam seduzir pelo canto vulgar das possibilidades impossíveis do capitalismo: socialismo ou barbárie! [Clube Mundo 21/11/07]

outubro, nunca mais

por DEMÉTRIO MAGNOLI

Não foi principalmente a Internacional, hino socialista, mas a Marselhesa, que acompanhou as jornadas revolucionárias da Rússia de 1917. Quando, há 90 anos, no 7 de novembro (25 de outubro, pelo antigo calendário juliano), os bolcheviques tomaram o poder em Petrogrado, narrou-se o evento como a sequência inevitável da Revolução Francesa de 1789. A nossa era histórica afigurava-se como uma longa transição entre o poder dos homens de “sangue azul” e a sociedade sem Estado ou classes sociais prometida pelos comunistas.

Octavio Paz assinalou que a modernidade, insurgindo-se contra a tradição, alçou a idéia de ruptura como seu valor supremo. Sob essa lógica, gerações de iconoclastas instauraram uma nova tradição: a tradição da ruptura. Eis o motivo pelo qual a noção de revolução experimentou, ela própria, uma revolução: a palavra, do latim revolutio, que nomeava a trajetória orbital dos planetas, no seu ciclo de eterno retorno, converteu-se no signo da mudança radical, que cria o novo absoluto a partir das ruínas do velho.

A modernidade, definida em 1789, ergueu-se sobre o tenso compromisso entre os princípios da liberdade e da igualdade. A Revolução de Outubro, em nome da igualdade, aboliu completamente a liberdade. Ela não foi moderna e seu arcaísmo refletiu-se no culto ao Líder. Karl Marx ofereceu a uma classe, o proletariado, a chave da História. Lenin transferiu-a para um Partido, o veículo da verdade final. Stalin, o czar vermelho, concluiu o movimento, guardando-a em seu próprio bolso. O corpo embalsamado de Lenin repousa, até hoje, num mausoléu de mármore na Praça Vermelha.

Intelectuais de esquerda, saudosos dos tempos de glória de Stalin, justificam o “socialismo real” sob o argumento de que o sistema totalitário acelerou a modernização industrial e, no fim, propiciou a vitória na guerra contra o nazismo. Nas sete décadas da URSS, o PIB do país cresceu menos que o dos EUA ou o do Brasil. A crise de fome que acompanhou a coletivização rural soviética só foi superada pelas tragédias incomensuráveis da China maoísta. Uma falsa narrativa da Segunda Guerra Mundial contamina, persistentemente, manuais de história e livros didáticos escritos pelos órfãos de Outubro. A URSS fez a guerra ao nazismo apenas depois que a aliança com a Alemanha foi rompida, por iniciativa de Hitler. Ela nunca venceria sem o fluxo de abastecimento bélico dos Estados Unidos.

Marx imaginou o socialismo como uma transição para o comunismo, o “reino de abundância” no qual trabalho e prazer se tornariam faces inextricáveis da plenitude da experiência humana. A URSS flertou com a militarização do trabalho, proibiu a organização sindical independente e ergueu o sistema do Gulag para promover a conquista da Sibéria. Walt Rostow estava certo quando qualificou o socialismo como uma “doença da modernização do capitalismo”. As suas manifestações atuais, especialmente na China, continuam a fascinar uma esquerda que se recusa a aprender com a história.

É um equívoco comum traduzir a oposição entre capitalismo e socialismo como uma alternativa entre mercado e Estado. Não existe mercado sem Estado, a não ser na forma primitiva do escambo. Estado sem mercado é o que existiu, e fracassou, na URSS. A abolição do mercado gerou uma desastrosa alocação de investimentos e destruiu os impulsos de criatividade e inovação. A economia soviética ruiu sob o peso de uma imensa massa inútil de cimento, aço e máquinas. O segredo da eficiência do capitalismo está na teia de empresas pequenas e médias que não podem ser replicadas pelo Estado-Leviatã. A esquerda que não entendeu isso procura no capitalismo de Estado um sucedâneo para o socialismo.

A liberdade é indivisível. No poder, os bolcheviques esmagaram primeiro a liberdade da “burguesia” e, em seguida, a do “proletariado”. A URSS converteu-se numa prisão de seus cidadãos, enquanto os comunistas, no mundo inteiro, proclamavam o caráter “burguês” da democracia. No Ocidente, em contraste, a democracia propiciou o desenvolvimento dos movimentos sociais, que transformaram por dentro o capitalismo. É por isso que, com a universalização dos direitos políticos e sociais, desapareceram tanto o Estado liberal do século XIX como o impulso da revolução socialista.

O “socialismo científico” declarou-se proprietário da história e impugnou a crítica, definindo os opositores como inimigos do futuro. Na URSS, os dissidentes foram declarados “loucos” e internados em manicômios, pois a divergência, quando não era traição, tinha de ser doença. As farsas judiciais dos Processos de Moscou, nos anos 30, tiveram o apoio de quase todos os intelectuais de esquerda no Ocidente que, mesmo conscientes das falsificações grosseiras, preferiram incorporar-se à marcha inevitável do “exército da história”. Os herdeiros desses intelectuais seguem disponíveis para escrever o elogio de fuzilamentos sumários, se a causa é boa e o ditador, amigo.

A utopia comunista percorreu um ciclo completo, encerrado com a queda do Muro de Berlim. Depois daquele evento, os partidos comunistas renegaram o dogma da ditadura do proletariado, extirparam o marxismo-leninismo de seus programas e trocaram seus nomes de batismo, na esperança de reescrever a própria história. Essa operação de linguagem desatualiza a Revolução de Outubro, remetendo-a, de uma vez por todas, para o passado. Outubro, agora, é só um mês no calendário. [Clube Mundo 12/11/07]

o valor do trabalho

por ANTONIO DELFIM NETTO

GOSTEMOS OU não, há algumas idéias que foram sendo internalizadas pelos indivíduos, que, por sua própria ação, se transformaram lentamente em “cidadãos”, quer dizer, exigentes de liberdade, de justiça e de um nível razoável de igualdade. A organização social foi incorporando instituições que, dinamicamente, levaram à construção daqueles valores, mas que, também, proviam a subsistência dos cidadãos. A maximização do bem-estar geral exige não apenas o exercício da liberdade, a sensação de segurança e justiça, o sentimento de inclusão produzido pela relativa igualdade mas também, e significativamente, a eficiência da estrutura produtiva.

O processo histórico seletivo, quase biológico, que transformou o indivíduo em cidadão mostrou que o mais eficiente sistema produtivo compatível com a liberdade individual é a economia de mercado, o que se chama de “capitalismo”.

Nela, movendo-se por sinais (preços) e incentivos adequados, os cidadãos acomodam a sua atividade. A maior virtude da “economia de mercado” é que ela não foi inventada. Foi “descoberta” na atividade prática exigida pela necessidade de sobrevivência, muito antes de o indivíduo transformar-se em “cidadão”. Está na origem dessa construção o papel que se espera do Estado constitucional nos dias de hoje:

1º) que com tributação leve a utilize de forma eficiente para cumprir as tarefas que só ele pode fazer: a) proporcionar bens públicos fundamentais, como segurança interna e externa, justiça razoável e estabilidade do valor da moeda e b) construir a infra-estrutura quando a taxa de retorno social do investimento é incapaz de atrair o setor privado, e 2º) que dê ênfase na sua ação às necessidades dos mais pobres, provendo-lhes recursos temporários para uma subsistência digna, simultaneamente com a criação de mecanismos que lhes dê a oportunidade de se libertarem desse constrangimento. O imperativo ético da ação do Estado começa na “assistência”, mas termina na “libertação”.

Devemos ao velho Karl duas idéias fundamentais que ajudam a entender o nosso problema: 1ª) que o “capitalismo” está longe de ser uma organização natural, como supõem alguns de nossos economistas. E 2ª) que o trabalho não é apenas uma atividade para atender às necessidades do homem, mas a sua primeira necessidade, a “condição natural de sua vida”! É isso que inspira o pensamento keynesiano: todos têm o direito (não o “favor”) de exercer um trabalho decente, o que, infelizmente, a “mão invisível” não pode garantir. [FOLHA 19/9/07]