Rex fallaciae

No post O que há de velho na “nova” direita [1], referi-me ao pseudo-jornalista Reinaldo Azevedo (doravante, RA). De lá para cá, notei que vários amigos do Feicebuque seguem esse senhor. Seguem-no não só no sentido da rede social, mas no sentido ideológico. O que, como professor de filosofia, preocupa-me deveras.

Para inteirar-me do que estava sendo dito, fui ler a coluna em questão (Assim não dá, Vladimir!, na Folha de S.Paulo de 21-2-14). A seguir, comento alguns trechos.

O alvo do senhor Azevedo, pois que ele sempre tem um alvo, é, desta feita, o filósofo Vladimir Safatle (doravante, VS), professor da USP. Mais especificamente, a coluna que este escreveu (Os vivos e os mortos) para o mesmo jornal em 18-2-14.

A primeira coisa que devemos perguntar é por que Safatle foi escolhido como alvo da semana? E o senhor Reinaldo não nos deixa esperando; logo na primeira linha, declara o motivo:

Vladimir Safatle, possível candidato do PSOL ao governo de São Paulo […]

Trata-se, raro leitor, não se engane, de uma autêntica declaração de guerra. RA não tem escrúpulos em dizer que, para ele, o que importa é a política, mais especificamente, o que ele chama de economia política. Chega a recriminar políticos da oposição (anteriormente ao governo do PT, da situação) por reconhecerem os acertos de políticos da situação (antes, da oposição) e de fazer alianças com estes. No seu blogue só são aceitos comentários concordantes, jamais críticas; atualmente, só oposicionistas podem postar seus comentários lá. Como ele diz: o nome dessa atitude é política.

Ocorre que de um jornalista não se espera política, mas a verdade dos fatos. Quem está disposto a esconder ou a distorcer a verdade com vistas a um fim supostamente maior, no caso, a luta político-partidária, não merece a confiança do leitor nem a do eleitor. Para não falar (desculpe o vício de linguagem) do maquiavelismo consistente em santificar os meios pelos fins.

Conheço RA desde os tempos da revista República, depois Primeira Leitura, da qual, aliás, fui assinante. Revistas bem editadas, com uma linha editorial –neoliberal– bem definida, ou seja, uma publicação acima da média. Financiada pelo banqueiro “Mendonção”, teve a publicação suspensa em 2006. Vejamos o que nos conta a Wikipedia sobre essas revistas:

Primeira Leitura era uma revista mensal brasileira de política, economia e cultura que sucedeu a antiga Revista República. Sua última edição circulou em junho de 2006.O períodico era caracterizado pelo viés assumidamente liberal de seu editor-chefe Reinaldo Azevedo e por trazer informações importantes sobre assuntos politicamente relevantes tanto no plano nacional como internacional. O períodico, além disso, pautou sua atuação jornalística por críticas contundentes ao Partido dos Trabalhadores e a Lula entre os anos de 2003 e 2006.
Em razão de ser chefiado e editado, até setembro de 2004, pelo ex-ministro das Comunicações da gestão FHC (Luiz Carlos Mendonça de Barros), o periódico era tido como sendo ligado aoPSDB e por ele controlado. Seus editores se defendiam veementemente de tal acusação, alegando terem independência editorial e alegando a transferência do controle da revista para novos proprietários, sem qualquer ligação jurídica ou econômica com a sigla.
Em março de 2006, irrompeu o chamado escândalo da Nossa Caixa, que consistiria num suposto esquema de manipulação de verbas publicitárias do Banco Nossa Caixa em favor de deputados da base aliada do governador Geraldo Alckmin.[carece de fontes] Alegou-se que a revista Primeira Leitura era uma das beneficiadas, embora isso seja negado pelo editor da publicação, Reinaldo Azevedo.[carece de fontes]O encerramento da publicação, em junho de 2006 (em razão da alegada ausência de anunciantes) foi tido como problemático por seus leitores e por segmentos conservadores e liberais do Brasil(que alegam estar o ambiente jornalístico brasileiro dominado por veículos que, implícita ou explicitamente, apóiam o Partido dos Trabalhadores e a gestão Lula).

Note, raro leitor, que mantive as ressalvas [carece de fontes]. Se fosse um pseudo-jornalista, eu daria como fonte a Veja, a Globo ou coisa parecida. Mas se trata aqui apenas de situar o leitor; tendo interesse, é fácil aprofundar a pesquisa.

Voltando à coluna, RA chama VS de mentiroso, afirmando que os políciais não mataram ninguém nos protestos citados pelo último. Começa esclarecendo o caso de Cleonice, uma gari, que teria morrido em Belém de infarto:

Varria rua quando houve um confronto entre manifestantes e a PM. Inalou alguma quantidade de gás lacrimogêneo e teve infarto depois disso, mas não por causa disso. O filósofo deve conhecer a falácia lógica já apontada pelos escolásticos: “post hoc ergo propter hoc” -“depois disso, logo por causa disso”. Nem tudo o que vem antes é causa do que vem depois. É como no filme “Os Pássaros”, de Hitchcock. Tudo se dá depois da chegada da loura, mas a loura é inocente, Vladimir! A notícia sobre a morte está aqui (is.gd/6QWqQM).

De vez em quando, RA arrisca-se nas águas da filosofia, tendo como recurso apenas a boia dos manuais do ensino médio. Acusa pois VS de ter incorrido em falácia, mais especificamente, na falácia da correlação coincidente. Segundo o pseudo-filósofo, a gari não teria morrido por causa do gás lacrimogênio, mas sim… por que mesmo? Ele não o diz. Limita-se a dizer que tudo não passou de uma infeliz correlação coincidente –aquilo que na linguagem coloquial chamamos simplesmente de coincidência.

Ora, quem, em tese, está mais perto da verdade, VS –que estabelece uma relação causal entre o gás lacrimogênio e o infarto da senhora Cleonica– ou RA –que simplesmente nega a causalidade, apelando, sem justificação, para a simples coincidência? O raro leitor provavelmente concordará comigo que, se tivéssemos de apostar em um dos dois, sem mais informações, o primeiro receberia a maioria das fichas. O mais lógico –e ético– seria porém concluir pela maior probabilidade da causação e não da coincidência.

Como disse, “sem mais informações”. E aí voltamos ao que disse mais acima. RA cita como fonte de informação o portal G1, ou seja, as Organizações Globo.

Wait a moment! Um jornalista não deveria recorrer a uma fonte primária em vez de a um jornal, aliás, a um grande jornal, reconhecidamente comprometido com a oposição? Mas, ainda assim, parece que RA não leu a sua “fonte”… Uma vez que nela se declara explicitamente que o secretário de saneamento do município, Luiz Otávio Mota Pereira, informou ainda que:

a morte [da senhora Cleonice] pode ter sido provocada pelo susto com o tumulto na manifestação.

O secretário, segundo o jornal, baseou-se em relatórios médicos. Ué, então, quem estabeleceu a relação causal entre a ação policial e a morte da gari não foi VS mas… os médicos! Não é incrível? E isso segundo o portal da Globo…

RA prossegue tratando dos demais casos de morte, um a um, com a mesma estratégia manipuladora –citando jornais como fonte etc.

Depois, RA volta o seu arsenal para outro ponto do artigo de VS. Cito a passagem (da coluna de VS) em questão:

não consta que suas mortes tiveram força para gerar indignação naqueles que, hoje, gritam por uma bisonha ‘lei de antiterrorismo’ no Brasil. Para tais arautos da indignação seletiva, tais mortes foram ‘acidentais’ […]. Mas a morte do cinegrafista, ao menos na narrativa que assola o país há uma semana, não foi um acidente infeliz e estúpido […]

Fuzila, então, RA:

“Não consta que tiveram” é um coquetel molotov na língua pátria. Isso é com ele. A morte de Andrade não foi um acidente. O destino do artefato eram os policiais. Vladimir parece achar que a farda cassa dos PMs a sua condição de humanos. Indignação seletiva é a dele. Segundo acusa, estão usando a “morte infeliz de alguém” para “criminalizar a revolta da sociedade brasileira”. O PSOL e os “black blocs” não são “a sociedade brasileira”. De resto, na ordem democrática, é uma tolice afirmar que a “revolta” está sendo criminalizada. Se ela incidir em práticas puníveis pelo Código Penal, os crimes se definem pelos atos, não pelas vontades.

Um caminhão de falácias e impropriedades de várias ordens em um único parágrafo! Em primeiro lugar, a morte do cinegrafista foi sim um acidente, infeliz e trágico, mas um acidente (ou um incidente, se quiserem). O próprio RA, sem se dar conta, admite-o ao dizer que o alvo eram os policiais. Ora, se o cinegrafista não era o alvo, então, logicamente, ele foi atingido acidentalmente.

Em segundo, em parte alguma de sua coluna, VS subtraiu aos policiais a dignidade humana. Apenas postulou que a farda dos policiais estaria sendo usada pela mídia para tratar os manifestantes com menos dignidade, ou seja, como se fossem todos criminosos e –como se mesmo os criminosos não fossem seres humanos!

Em terceiro, para desgosto de RA, o PSOL e os black blocs são sim a sociedade brasileira, assim como ele, VS, eu e você, raro leitor: nós todos somos a sociedade brasileira! Mas na cabeça de RA, do astrólogo Olavo de Carvalho, dos olavetes e da “nova” direita, não, a sociedade não somos todos, mas apenas alguns. (Não é preciso dizer, creio, que a esquerda não “pensa” muito diferente disso.) Não é necessário ser filósofo nem lógico para perceber a contradição entre o discurso pretensamente democrático e essa tese elitista.

Em quarto e último lugar, os crimes se definem sim pelas vontades, a saber, pelas vontades dos juízes. As leis precisam ser aplicadas, e, para isso, elas são interpretadas –em cada caso. Basta ver o que se passa no julgamento do chamado mensalão.

Nos últimos dois parágrafos de sua catastrófica coluna, RA perde-se totalmente:

Sim, eu sei: malho em ferro frio ao cobrar que esquerdistas façam um debate ao menos factualmente honesto. Eu nunca me esqueço de um emblema desse modo que eles têm de argumentar. Até havia pouco, em defesa da legalização do aborto no Brasil, sustentavam que 200 mil mulheres morriam a cada ano vítimas de tal procedimento. Em fevereiro de 2012, a ministra das Mulheres, Eleonora Menicucci, levou tais números mentirosos à ONU (is.gd/qHYt5S). Um dia me enchi e peguei os dados do Ministério da Saúde sobre mortes de mulheres e suas causas e fiz as contas. Os abortistas haviam multiplicado por 200 o numero de óbitos em decorrência do aborto (is.gd/6Iu4EJ).

Começa com outra falácia, desta vez, ad hominem, afirmando que, por serem de esquerda, certas pessoas são intelectualmente incapazes e desonestas. Incrível.

Em seguida, recorre não à lógica mas à matemática (dos manuais do ensino fundamental), para refutar a tese segundo a qual 200 mil mulheres morreriam anualmente, no Brasil, em consequência da prática ilegal do aborto. E sabe qual é a fonte do nosso Oswald de Souza? O Ministério da Saúde! Mas como é que esse ministério, ou qualquer outro, poderia saber quantas mulheres morrem de tal procedimento? Se é ilegal, quem é que se sujeitaria a confessar o real motivo da morte? Mutatis mutandis, dá-se como nos casos de estrupo, que com certeza devem ocorrer em número bem maior do que o oficial.

Mas o pior nem é isso. O pior é que RA canta vitória concluindo que as mortes em decorrência de aborto não passariam de mil. Acho que o raro leitor concordará comigo que uma morte por aborto ilegal já seria demais, não? Mas mil?!

Não estou aqui discutindo o mérito dessa –espinhosa– questão bioética, mas apenas mostrando o absurdo da argumentação reinaldiana.

Por fim, RA conclui com uma piada:

A mentira é mais útil às causas das esquerdas do que a verdade. Não fosse assim, homicidas como Lênin, Stálin, Trótski ou Mao Tse-tung não seriam cultuados ainda hoje. Isso tudo é um pouco constrangedor, mas, como escreve Janio de Freitas, continuarei tentando.

Depois da Guerra do Iraque, aquela que foi perpetrada sob a mentirosa alegação de que Saddam Hussein possuía um enorme arsenal de armas de destruição em massa, e depois das revelações do Snowden, isso só pode ser mesmo uma piada.

Vou recomendá-la ao Zé Simão!

Pessoas

“Tudo pelo Estado, nada contra o Estado.” [Mussolini]

“Tudo pela nação, nada contra a nação.” [Salazar]

“Tudo pela humanidade, nada contra a nação.” [Fernando Pessoa]

“Tudo pela humanidade, nada contra a pessoa.” [eu]

clube da verdade

por SIMON BLACKBURN*

O pós-modernismo emergiu da idéia de que enxergamos as coisas através de filtros coloridos pelas forças ocultas e sombrias de classe social, gênero, cultura ou língua. A partir disso, ele viajou até a atitude irônica e desapegada de tratar a verdade como não mais do que uma narrativa, os fatos como infinitamente elásticos e o mundo como um texto aberto a múltiplas interpretações.

Postulou que nossos padrões de razão, que nos são tão caros, não passam de depósito histórico contingente, que algum tipo de relativismo nos é intelectualmente imposto ou que a própria verdade não passa de construção social.

Escrevo no tempo pretérito, já que muitos afirmam que os fatos de 11 de setembro de 2001 jogaram essas idéias por terra. Esses acontecimentos fizeram as pessoas se recordar de que existem crenças que precisamos afirmar. Precisamos da verdade, da razão e da objetividade, e precisamos que elas estejam do nosso lado. A academia se tornou menos aberta aos pluralismos descontraídos.

Enquanto nos anos 1980 e 1990 uma atitude brincalhona de que vale tudo dominava as partes mais fracas das humanidades, hoje é uma retidão rigorosa que dá o tom.

Com freqüência, as idéias refletem a política –e, politicamente falando, o pós-modernismo pode ser visto como reflexo da culpa pós-colonial, o que significa não apenas que erramos ao impor a racionalidade e a ciência ocidental a outros povos mas também que a racionalidade e a ciência deles tinham valor igual ao nosso.

Se isso for correto, então a reação contrária constatada hoje pode constituir a versão filosófica do neoconservadorismo, que forma um paralelo com as celebrações das virtudes do império feitas por historiadores dos tempos atuais.

Acabam de surgir vários livros que giram em torno da verdade e da razão, ambos temas que estão de volta à agenda com força total. É possível que seja uma virtude não dissimular e não mentir –falar o que você vê como o vê, mesmo que não consiga deixar de vê-lo com olhar enviesado.

Mas as profissões pós-modernistas de adesão à verdade costumam soar insinceras. Se a frágil embarcação de nosso intelecto é atirada de um lado a outro pelas tempestades da história e da cultura, por que deveríamos prezar especialmente qualquer lugar em que ela nos faz abicar? Por que deveríamos nos preocupar em passar nossas vidas distinguindo o verdadeiro do falso?

O arguto Nietzsche ficou perplexo pelo fato de que nos preocupamos, sim, prezando a verdade mesmo quando, na selva darwiniana, um contador de verdades freqüentemente está em desvantagem diante do manipulador e do mentiroso.

A observação de outros primatas mendazes confirma sua visão. Isso significa que temos que pregar a honestidade. Ela está inscrita em nossos mandamentos, não em nossos genes.

Nossa pregação nem sempre funciona; e ela se mostra especialmente ineficaz nas selvas do comércio e da política.

Parte daí o divertido e instrutivo livro The Lying Ape: An Honest Guide to a World of Deception [O macaco mendaz: um guia honesto para um mundo de falsidade, Icon Books, 212 págs., 9,99 libras, R$ 41], do jornalista Brian King, que traça uma lista longa e estarrecedora das mentiras deslavadas que falsificadores, vendedores e políticos já tentaram impor a outras pessoas, muitas vezes com sucesso.

Embora King, com razão, se sinta ultrajado com a falsidade, ele observa que uma dieta à base de verdades rigorosas poderia ser um tanto quanto difícil de engolir. Ele cita a observação de Oscar Wilde de que “falar a verdade faz você ser muito impopular no clube”.

E, como observa King, contar mentiras deslavadas é apenas a manifestação mais grosseira disso. Suponho que o melhor conselho a dar aos candidatos a mentirosos é que enganem a si mesmos primeiro; então, não precisarão mentir, mas apenas dizer em que acreditam.

Manipular a informação
Ainda outro tipo de vício é a capacidade de supor que as palavras possuem significados que elas não têm –algo que é de grande valia para políticos e administradores.

Aquilo ao qual costuma se dar o nome de “spin” (manipulação de informação, ou interpretação diferente de uma informação, especialmente quando feita por políticos ou seus assessores) é outra coisa ainda. Em sua versão mais inocente, pode ser apenas uma forma enviesada de verdade.

O fascinante livro Saving Persuasion: A Defense of Rhetoric and Judgement [Salvando a persuasão: Uma defesa da retórica e do julgamento, Harvard University Press, 290 págs., 29,95 libras, R$ 122], do teórico político da Universidade Yale Bryan Garsten, trata das longas tradições de atacar ou defender a retórica e o lugar que ela ocupa na vida humana.

De fato, a retórica foi o termo clássico usado para designar o “spin“, embora viesse acompanhada da implicação de persuasão, e não de logro proposital. Ela se tornou parte dos roteiros de estudos medievais, e seu domínio com freqüência foi visto como meta importante da educação completa.

Garsten traça uma distinção entre a persuasão, que espera operar com o julgamento ponderado da platéia e que é perfeitamente legítima, e as práticas de logro, manipulação e bajulação da platéia, cada uma das quais, à sua maneira, espera levar a platéia, de maneira ilegítima, a passar ao largo do uso pleno e livre dessa capacidade de avaliação e julgamento.

A persuasão mostra o orador tirando vantagem justa do perfil emocional, moral ou cognitivo particular de uma platéia; ela é inevitável em qualquer discussão, especialmente em qualquer debate moral ou político. Torna-se negativa apenas quando tira vantagem injusta do mesmo perfil, por exemplo ao distorcer ou negar informações ou ao manipular emoções e preconceitos.

Kant negou a existência de qualquer distinção importante nessa área: para ele, ou você apela para padrões de razão imutáveis e universais ou você manipula e engana.

Padrões escassos
O problema é que, quer sejam ou não encontrados na aritmética, na lógica e até mesmo na ciência, esses padrões universais esperados são escassos quando se trata de qualquer questão interessante de política, religião e moral.

Considera-se com freqüência que o pós-modernismo critica a verdade e a ciência. É essa a visão apresentada no valioso livrinho Why Truth Matters [Por que a verdade é importante, Continuum, 192 págs., 12,99 libras, R$ 53], dos editores do site cético butterfliesandwheels.com, Ophelia Benson e Jeremy Stangroom.

Os dois preparam um contra-ataque instigante, fazendo-nos lembrar que, quando se trata de uma guerra pelos corações e as mentes, as convicções básicas do bom senso e da ciência derrotam as sutilezas filosóficas sem nenhuma dificuldade. Enquanto Brian King nos choca com seus mentirosos, Benson e Stangroom expõem uma “galeria de enganadores” paralela composta de construtivistas sociais que analisam como grupos e indivíduos participam da criação de sua própria realidade percebida.

Esses “enganadores” incluem a feminista Sandra Harding e o neopragmatista Richard Rorty, mas seu expoente principal certamente é o filósofo da ciência francês Bruno Latour. A confusão de palavras e coisas proposta por Latour o levou até a beira do abismo
de negar que tenha existido dinossauros antes de o termo “dinossauro” ter sido cunhado.

Presume-se que um argumento semelhante demonstraria que ninguém antes de Crick e Watson possuiu DNA.

Por que a verdade é importante é um excelente exemplo de filosofia bem feita mas também, o que não é coincidência, feita de maneira acessível e instigante. A verdade tem importância, nos diz o livro, “não de uma maneira maçante, movida pelo dever e perfunctória, mas num sentido real e vivido –’nos pulsos’, como dizia Keats”.

Em Justice in Robes [A justiça de toga, Harvard University Press, 320 págs., 22,95 libras, R$ 93], o professor Ronald Dworkin reapresenta suas idéias sobre moralidade e lei e as defende contra os adversários que acumulou ao longo de sua carreira respeitada.

O foco do livro em vários momentos é a legislação americana, gerando disputas intrincadas que agradarão mais ao especialista do que ao leitor geral.

Dworkin recomenda que confiemos em nossas convicções comuns, mais do que nos aventuremos nas águas revoltas da alta teoria filosófica. Não estou certo de quão útil é esse conselho, já que pós-modernistas como Rorty ou teóricos literários como Stanley Fish dificilmente irão discordar dele.

O que procuram demonstrar é que a condição humana implica que se trabalhe desde o interior de qualquer “forma de vida” que tenhamos recebido da cultura e da história; para eles, Dworkin não faz mais que aconselhar os peixes a nadar.

Um trabalho final e um tanto quanto diferente é Human Nature: Fact and Fiction [Natureza humana: fatos e ficções, Continuum, 224 págs., 9,99 libras, R$ 41], editado pelo professor de literatura inglesa Robin Wells e o professor de genética molecular John Joe McFadden. Contribuíram para o livro uma galáxia de biólogos, teóricos da evolução e figuras literárias.

Os ensaios tiveram sua origem em palestras dadas numa conferência, de modo que o foco é um pouco indistinto. Em alguns momentos, a impressão que se tem é que se trata do velho problema da natureza versus criação.

Todos concordam em que a imaginação é “uma coisa boa” e que isso exige alguma explicação, já que não é evidente qual seria a utilidade de contar histórias numa selva, onde a consciência do aqui e do agora parece superar em valor a capacidade de imaginar o “era uma vez”.

A questão provavelmente não é tão difícil assim de entender, já que refletir sobre situações imaginadas pode nos preparar para a eventualidade de ocorrerem na vida real. A exposição a histórias também treina a moral e as emoções. Mas o livro contém vários pequenos ensaios sensíveis e sensatos.

Qual verdade?
Então, será que o mundo está novamente em condições de ouvir a verdade com segurança? Devemos nos precaver com as abstrações. Talvez a resposta correta à pergunta de Pilatos –”o que é a verdade?”– seja indagar por qual verdade ele se interessa. Se a pergunta disser respeito a fatos históricos, então deverá ser respondida de uma maneira; se for uma pergunta científica, existem outros métodos a ser empregados e assim por diante.

É verdade que esses métodos são nossos, aqui e agora. Mas, se um crítico tiver métodos melhores para usar, que nos fale deles. Se não, enquanto pudermos refletir sobre nossa história e sobre a deles, a reflexão não precisa ser desmerecedora. Pelo contrário -o resultado pode ser inteiramente válido.

Podemos nos orgulhar dos padrões científicos, pois vejam o que eles nos capacitaram a descobrir e a fazer! Podemos nos orgulhar de nossos padrões éticos, pois vejam como conseguimos nos sensibilizar em relação a males e injustiças que antes passavam despercebidos!

Nossas opiniões são falíveis e nossos julgamentos estão longe de ser perfeitos, mas o remédio para qualquer uso imperfeito deles consiste em usá-los ainda mais. Se nossa política for suficientemente boa para que se possa conservar a manipulação, a ignorância, o medo e o ódio fora dela, então somos animais que se corrigem a si mesmos. Ou, pelo menos, assim esperamos. [*Professor de filosofia na Universidade de Cambridge e autor de, entre outros, “Verdade – Um Guia para os Perplexos” (Civilização Brasileira). Este texto saiu no “Financial Times”. Tradução de Clara Allain. (FOLHA 3/9/06)]

“não somos racistas”

por DEMÉTRIO MAGNOLI

O SOCIÓLOGO português Boaventura de Sousa Santos é um dos tantos intelectuais que exercita o duplipensar, defendendo os direitos humanos em Israel com igual vigor com que aplaude a repressão em Cuba. Há dias, ele escreveu na Folha que os negros “são pobres porque são negros”, ecoando a doutrina difundida pela Secretaria da Igualdade Racial.

Essa “verdade oficial” é o alvo da crítica precisa de Ali Kamel no livro “Não Somos Racistas” (Nova Fronteira, 2006). Kamel confia na força dos argumentos e nunca cede ao lugar-comum. Primeiro, desmonta a operação básica dos racialistas: a junção das categorias censitárias “pretos” e “pardos” numa “raça negra” que desafia tanto a ciência como a consciência dos brasileiros, expressa na autodeclaração de cor. Depois, desnuda uma a uma as manipulações estatísticas da moda, demonstrando que a pobreza no Brasil não é um fruto do racismo. Entre tantos, um número deveria provocar reflexão nos racialistas: os pobres que se declaram “brancos” somam 19 milhões (são 4 milhões os pobres que se declaram “pretos”). Na lógica de Boaventura de Sousa Santos, “os brancos são pobres porque são brancos”, pois não?

O título do livro não é uma negação de que o racismo existe em todo lugar onde há seres humanos, mas um gesto de indignação contra a sugestão de que o ódio racial seja um componente da identidade brasileira. Essa sugestão, contudo, desempenha papel crucial no empreendimento racialista de construção de uma nação dividida em duas “raças” polares. Argumentos não são bem vistos entre os gerentes da linha de montagem das raças.

Um sociólogo americano atuante no Brasil indicou o caminho ao classificar os críticos das leis raciais como “elite branca”. Em recente debate na Unicamp, um dirigente do Movimento Negro Unificado apontou os “judeus” como articuladores da carta pública contra essas leis. Em Salvador, semana passada, líderes de manifestação pró-cotas raciais exigiam a “eliminação” dos “demônios brancos”.

Em tempos de calúnia fácil, escrever tal livro é um ato de coragem, ainda mais se o autor ocupa um cargo executivo no jornalismo das Organizações Globo. Uma coragem cívica, necessária. Em Ruanda, gritos isolados contra a “elite tutsi” prenunciaram o genocídio. Estamos bem longe disso. Mas, quando o Estado define identidades raciais, explorando o desamparo e o ressentimento, tudo se acelera. As novas fronteiras legais, traçadas entre os pobres, passam dentro dos ônibus, das escolas públicas e das favelas, produzindo inimigos ilusórios, mas perigosamente próximos. É preciso deter os incendiários antes do incêndio. [FOLHA 24/8/06]