Política, razão e moral

Na guerra de marketing que é a campanha política, quem perde primeiro é a verdade. Melhor dizendo, a verdade perde mesmo antes de a guerra começar…


Antigamente, essa aversão dos políticos pela verdade me repugnava. Com o tempo, fui entendendo que a política, tal como a conhecemos (pelo menos a partir do fim da Idade Média), segue uma lógica própria, que pouco ou nada tem a ver com a verdade e com o bem (e o belo).

Política é a arte (ou a técnica) de conquistar e de manter o poder. A “boa” política busca o poder como meio para outros fins mais nobres. A “má” política busca o poder como meio para outros fins menos nobres. Entre uma e outra, encontra-se a política “pura”, aquela que busca o poder pelo poder, como fim em si mesmo.

Como me parece óbvio, na realidade, ou seja, de fato, concretamente, não existe uma política que seja apenas boa ou apenas má ou uma política que não seja nem uma coisa nem outra. Na realidade esses “tipos ideais” (Weber) se misturam das mais diversas maneiras.

Mas desse estado de coisas não se segue que a política seja irracional. A irracionalidade aparece na escolha, por parte dos políticos, dos seus fins. Pois os fins estão intimamente ligados a valores, dependendo de certo modo destes. E os valores, por sua vez, não são, em geral, criados ou apreendidos pela razão. Se fossem racionais, os valores –que, em geral, orientam nossa vida e, em especial, orientam a política– poderiam ser demonstrados cientificamente (quem, afinal, decide que valor é o mais nobre?). O que não parece ocorrer em parte alguma. Se ocorresse, não estaríamos vivendo sob o domínio de um relativismo generalizado, quase, por assim dizer, “absoluto” (cf. o “politeísmo dos valores”, de Weber).

Como indiquei, porém, a irracionalidade dos fins não determina a política, pois os meios escolhidos pelos políticos para a consecução de seus fins, esses sim podem ser analisados racionalmente. É a razão que pode decidir com competência quais são os fins mais eficazes e eficientes em vista de um fim predeterminado.

Com efeito, a razão não é nunca boa ou má, moral ou imoral, bela ou feia. Esses atributos convêm aos valores, que, como vimos, determinam a escolha dos fins. Sendo assim, Auschwitz pode ser considerado um empreendimento altamente racional, apesar de toda sua maldade, imoralidade e feiura.

Esse esclarecimento acerca da natureza dos valores e da racionalidade nos ajuda a compreender melhor a própria política e os políticos.

A verdade raramente é um fim político (vide a dificuldade das chamadas “comissões da verdade”). A verdade cada vez menos é um valor para nós, em geral, e para os políticos, em especial. Mesmo quando buscam o “bem comum”, os políticos tendem a optar ou pela omissão ou pela meia verdade ou, simplesmente, pela mentira.

A mesma coisa se poderia dizer, mutatis mutandis, sobre o bem e o belo.

Os políticos que assumem sem titubear esse modus operandi são conhecidos como realistas, como fazedores da Realpolitik. E aqueles que não o assumem, deixando-se dominar mais ou menos por escrúpulos morais ou estéticos, são conhecidos por idealistas.

Idealistas não são necessariamente morais, mas quase sempre moralistas. Realistas não são necessariamente imorais, mas quase sempre amorais.

Na verdade, mais uma vez seguindo Weber, aqui se poderia falar de dois tipos de moral. A moral realista baseia-se, ou melhor, deveria basear-se na responsabilidade política. E a moral idealista, por sua vez, baseia-se nas convicções morais, estéticas etc.

Ora, muitas vezes, as decisões e ações políticas baseadas em convicções, por mais nobres que estas sejam, revelam-se irresponsáveis. O exemplo clássico desse fenômeno é a convicção de sempre, em quaisquer circunstâncias, dizer a verdade. Como se sabe, a verdade, muitas vezes, tem consequências fatais –para terceiros. Se um mercenário me pergunta sobre o paradeiro de sua vítima, e respondo-lhe a verdade, eu me torno cúmplice de homicídio.

Em suma, o problema da relação entre política e moral é extremamente complexo, não podendo ser equacionado, muito menos resolvido, de modo por assim dizer “geométrico”. Na verdade, é necessária muita “finura”… Por isso, vou ficando por aqui.

Desmilitarização da polícia

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo de hoje, 31-1, Barbara Gancia trata da violência da Polícia Militar contra os jovens de baixa renda, em sua maioria, pardos e negros. O parte mais interessante se encontra no final do artigo, quando a jornalista cita o especialista em segurança pública, consultor do governo FHC, antro­pólogo e professor da UERJ, Luiz Eduardo Soares, que defende, como prioridade ab­soluta, a desmilitarização (embora não o desarmamento) da polícia:

O objetivo do Exército é defender o território. Para cumprir essa função, ele se or­ganiza para mobilizar grandes con­tingentes com máxima celeridade sob ordens vindas de um só coman­do. Sua estrutura organizacional é totalmente verticalizada. O exérci­to luta contra o inimigo. Já a polícia é outro tipo de instituição. Seu pa­pel é prestar serviço, fazer ronda, patrulhamento, diagnosticar pro­blemas, mediar conflitos, dialogar e evitar a judialização [sic].

Não sei o que significa a palavra, a meu ver bem infeliz, “judialização” (tomo-a como corruptela de “judicialização”), mas o argumento do professor Soares é claro e convincente. As Forças Armadas, em geral, são o braço forte do Estado, que, como mostrou Max Weber, caracteriza-se pelo monopólio da violência física.
Um professor de filosofia que conheci na década de 1980, também no Rio, ia bem mais longe que Weber, que evitava a todo custo juízos de valor. Esse professor, também alemão, dizia que o Exército é simplesmente imoral. Ele queria dizer que se trata de uma instituição cuja existência só se justifica em estado de exceção, de conflito internacional, guerra.
Para muitos intelectuais, como o grande antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro, que defendia a construção pelo Brasil da bomba atômica, essa posição pode parecer mais que ingênua, até irresponsável. Mas, na verdade, trata-se apenas de uma visão de mundo mais racional e humana.
Ontem, lembrei aqui de Gandhi. O grande líder espiritual da Índia era radicalmente contra toda forma de violência. Mas não me parece que ele fosse ingênuo, muito menos irresponsável. E me parece também que, “apesar” de todo seu idealismo, ele tenha conseguido resultados bem “realistas”, não?
Como quer que seja, a ação persistentemente desabrida e descontrolada da PM, especialmente contra nossos jovens, já me parece suficiente para justificar sua pura e simples extinção.