Relativismo absoluto

Na sua coluna de hoje, 2-2, no jornal Folha de S.Paulo (Logicamente impecável), Hélio Schwartsman refuta o contra-argumento do rabino Michel Schlesinger e do cardeal dom Odilo Scherer (Onde estava o homem?, Folha, 27-1-2014) contra o chamado “argumento do mal”.
Os próprios Schlesinger e Scherer resumem esse argumento por meio da pergunta: “Como se pode ainda acreditar em Deus depois de Auschwitz?” Schwartsman, por sua vez, expõe-o de modo mais técnico, como um argumento da forma modus tollens (mais precisamente, modus tollendo tollens) ou, simplesmente, da negação do consequente:
Se P, então Q.
Ora, não Q (= Q é falso, ou não é o caso de que Q).
Logo, não P (= P é falso, ou não é o caso de que P).
“Preenchendo” agora a forma lógica, temos que:
Se existe Deus (por definição, um Ser supremo, onipotente, onisciente e benevolente), então não existe o mal.
Ora, o mal existe.
Logo, Deus não existe.
A negação do consequente consiste, aí, em negar a inexistência do mal, ou seja, em afirmar a sua existência.
O argumento de Schlesinger e Scherer contra o argumento do mal é por assim por eles resumido: “A Shoá [no caso, o Holocausto] não foi obra de Deus ou de anjos malvados: foi de homens com ideologias desumanas, de pessoas incapazes de enxergar o outro”.
Depois de criticar a fragilidade desse contra-argumento, Hélio faz a apologia do argumento do mal: “A forma lógica do raciocínio […] é impecável. Se as premissas são verdadeiras, a conclusão necessariamente também o é. Daí que, para esboçar uma resposta, é preciso negar a onipotência/onisciência de Deus, sua benevolência ou a existência do mal”.
Será mesmo tão simples assim?
De fato, o silogismo é infalível, desde que as premissas sejam verdadeiras. Se suas premissas forem verdadeiras, a conclusão será necessariamente verdadeira.
Mas, em primeiro lugar, a lógica não tem nada que ver com a verdade de proposições, e sim com a validade de argumentos. Para sabermos se as premissas de um argumento são verdadeiras, temos de recorrer a outros meios.
Com base em quê, então, afirma-se que se há um deus onipotente, onisciente e benevolente então não existe o mal? Não é com base na lógica, porque não há incompatibilidade lógica nenhuma entre uma coisa (a proposição “existe um deus onipotente etc.”) e outra (“existe o mal”).
Os a(nti)teístas, até onde sei, nunca responderam a essa questão!
A questão, na verdade, é ainda mais radical do que parece.* O argumento pressupõe não apenas a existência do mal, mas antes a possibilidade de conhecermos o mal, ou seja, de discernirmos o que é bom e o que não é.
A situação, portanto, é a seguinte. Ou o a(nti)teísta entrega os pontos –uma vez que não pode justificar o próprio argumento (de onde/como/ por que sei que existe o mal — e o bem?)–, ou continua se vangloriando de sua lógica vazia (formal) enquanto assume o relativismo absoluto.
Mas então surge outro problema: “relativismo absoluto” é uma contradição nos termos…
*NOTA: Na verdade, o argumento do mal pressupõe não apenas a existência do mal e do bem e a possibilidade de sabermos a diferença entre um e outro, mas pressupõe um caminhão de outras coisas, a começar pelos princípios lógicos que possibilitam o próprio argumento. — Mas que diabos são esses princípios?