País estranho

Deliciosa a crônica de hoje, 16-2, do Pratinha (Antonio Prata) –filho do Pratão (Mário Prata)– na Folha (“Estiagem“). Em poucos parágrafos, o moço passeia com tranquilidade por temas espinhosos como civilização ou barbárie e esperança ou cinismo. Selecionei apenas dois, esperando com isso não ferir os direitos autorais de ninguém:

De amor eu não sofro, mas trago o peito apertado. Nosso país está estranho, minha amiga. Coisas horrendas andam acontecendo e, em vez de as pessoas pensarem em como impedir que coisas horrendas aconteçam de novo, querem é infligir coisas horrendas a quem as infligiu. No fundo, o que exigem não é justiça nem mesmo vingança, mas o direito ao seu quinhãozinho de barbárie, como crianças que reclamam: “Por que ele pode brincar na gangorra e eu não?”; “Por que ele pode brincar de Gomorra e eu não?”. Mais dia, menos dia, vou abrir o jornal e ver alguém defendendo o linchamento como uma forma de democracia direta.

Acho que você ia se sentir bem deslocada por aqui. Na atual estiagem, só o cinismo cresce, como os cactos. Faz sentido: a esperança não tem lugar nessa época que preza tanto a eficiência. A esperança é deficitária. Não é verdade que seja a última a morrer: morre todo dia, toda hora, em toda parte (para renascer, depois, noutro lugar), feito o amor de Paulo Mendes Campos. Já o cinismo é investimento seguro. Como pode se frustrar quem não deseja? O cínico está em paz –como os mortos.

O autor refere-se, claro, à (in)justiça com as própria mãos perpetrada por alguns cidadãos brasileiros e pela respectiva apologia por parte da “nova” direita. Nosso país está estranho; nosso país é estranho. Precisamos urgentemente meditar sobre o que somos, como viemos a ser o que somos e o que queremos para as futuras gerações. Tudo indica que a eficiência capitalista não se confunde com democracia, república e estado de direito. Voltarei ao tema (liberalismo econômico versus democracia) mais tarde; por assim dizer, não gostaria de jogar um balde d’água na estiagem poética do Antonio Prata.