O problema do problema

Nos posts sobre Santo Tomás e a filosofia do ser, falei de problemas e questões filosóficos. Muito se tem falado sobre o papel do problema e da problematização (ou da questão e do questionamento) na prática filosófica. Até nas disciplinas mais técnicas, como Didática ou Metodologia do Trabalho Científico, esse tema é recorrernte. Podemos falar, assim, de um autêntico problema do problema.
O professor da PUC-SP Mario González, uruguaio com doutorado na Alemanha, escreveu um livro inteiro sobre o problema do problema. Trata-se de A filosofia a partir de seus problemas (São Paulo: Loyola). É um trabalho interessante, em que se pretende mostrar que não há filosofia nem filósofo sem problemas filosóficos, e que a melhor maneira de se estudar e praticar filosofia é justamente a partir dos problemas filosóficos.
Dos problemas, veja bem, e não das respostas dadas a esses problemas.
Muito bem, essa tese é de fato pertinente e fecunda, mas não está destituída de problemas. Por ora, vou mencionar apenas um par deles.
O professor González, como já disse, acredita que a filosofia só pode ser praticada a partir dos problemas filosóficos, mas, ao que parece, para ele a fonte dos problemas filosóficos são os filósofos, ou melhor, os textos filosóficos.
Os textos, veja bem, e não a — realidade!
Para resumir, tudo se passa como se, para o ilustre professor pontifício, filosofia e história da filosofia se confundissem.
No entanto, a própria história da filosofia mostra com clareza que os grandes filósofos problematizam antes de tudo a própria realidade e não os textos dos filósofos mortos. E mesmo quando o fazem, quando praticam história da filosofia (como Hegel ou Heidegger), eles não o fazem visando a verdade do texto mas sim a verdade como tal. Daí a sem-cerimônia como os filósofos tratam a obra de seus colegas…
Ao final do livro, a título de exemplo do método por ele proposto, o nosso professor republica alguns artigos de sua autoria. Um deles, já bem conhecido dos estudantes de filosofia, o excelente Uma aula sobre Kant (publicado originalmente na revista Integração, da USJT; disponível para download aqui).
Ora, esses adendos ao livro demonstram que o que se faz a partir dos problemas dos filósofos mortos não é filosofia, mas história da filosofia. A aula sobre Kant do professor González não é uma aula de filosofia, mas de história da filosofia.
Futuramente, voltarei ao tema e ao livro em questão. Para concluir, não posso deixar de observar o seguinte. O próprio autor admite ter ainda dificuldades com o português. É compreensível. O que não é compreensível é que uma editora como a Loyola publique um livro com tantos erros! A começar do título.