psicogênese das idéias

LOCKE, John [1632-1704]. Ensaio sobre o entendimento humano [1690]

[1] Em primeiro lugar, os sentidos permitem o ingresso de idéias específicas, começando a decorar aquele ambiente vazio; e a mente, familiarizando-se pouco a pouco com algumas idéias, coloca-as na memória e dá-lhes nomes.

[2] A seguir, outras idéias apresentam-se à mente, que as abstrai daquelas primeiras, e aprende gradualmente a empregar os nomes gerais. Dessa maneira, a mente abastece-se de idéias e de linguagem, ou seja, dos materiais sobre os quais exercerá a sua faculdade discursiva. E o emprego da razão torna-se cada dia mais evidente, à medida que aumentam os materiais sobre os quais ela opera.

[3] Mas mesmo que a aquisição de idéias gerais, o emprego de nomes gerais e a razão ordinariamente cresçam juntos, não vejo, todavia, como isso possa de algum modo demonstrar que essas idéias sejam inatas.

[4] Reconheço que existem certas verdades cujo conhecimento reside na mente há muito tempo, mas isso se dá de uma maneira que demonstra como essas verdades não são absolutamente inatas. Na verdade, se prestarmos atenção nelas, descobriremos que verdades dessa espécie se compõem de idéias que absolutamente não são inatas, mas adquiridas: uma vez que as primeiras idéias são aquelas que as crianças têm em seguida à impressão das coisas exteriores com as quais se relacionam mais freqüentemente, e que mais freqüentemente se impõem aos seus sentidos.

[5] Dentre as idéias adquiridas desse modo, a mente vem a descobrir que algumas são concordantes, ao passo que outras são discordantes; e isso, provavelmente, a partir do momento em que começa a fazer uso da memória e é capaz de receber e reter idéias distintas.

[6] Mas quer isso aconteça naquele momento ou não, é certo ao menos que as crianças formam essa espécie de juízo muito tempo antes de aprender a usar as palavras e antes de chegar àquela que comumente chamamos idade da razão. Uma vez que uma criança, antes de saber falar, tem tanta certeza da diferença que existe entre as idéias de doce e amargo (ou seja, que o doce não é amargo) quanto terá mais tarde, quando falar, e disser que o absinto e os confeitos não são a mesma coisa.

tabula rasa

LOCKE, John [1632-1704]. Ensaio sobre o entendimento humano [1690]

[1] Alguns consideram, como opinião incontestável, que na inteligência existem certos princípios inatos, certas noções primárias, também denominadas noções comuns, caracteres, por assim dizer, impressos em nossa mente, que a alma recebe desde o primeiro momento da sua existência, carregando-os consigo no mundo.

[2] Se os meus leitores estivessem livres de todo preconceito, para convencê-los da falsidade dessa suposição bastaria que eu lhes mostrasse como os homens podem adquirir todos os conhecimentos que possuem simplesmente utilizando as suas faculdades naturais, sem recorrer a nenhuma noção inata; e como podem chegar à certeza, sem precisar de tais noções ou princípios originais.

[3] Posto que, no meu entender, todos facilmente concordarão que seria impróprio supor inatas as idéias das cores em uma criatura a quem Deus deu a vista e o poder de receber essas idéias através dos olhos, a partir dos objetos externos. E não seria menos irracional atribuir a certas impressões naturais e a certos caracteres inatos o conhecimento que temos de muitas verdades, quando podemos observar em nós mesmos a existência de faculdades apropriadas para nos fazer conhecer aquelas verdades com a mesma facilidade e certeza do que se estivessem impressas na mente desde a origem…

[4] Não há opinião mais comumente aceita do que aquela segundo a qual existem princípios, tanto especulativos quanto práticos (pois estamos nos referindo a ambos), com os quais todos os homens concordam e daí se deduz que esses princípios devem ser impressões constantes que a alma do homem recebe junto com a própria existência, e que ela os traz consigo para o mundo de modo tão necessário e real como traz todas as suas faculdades naturais…

[5] Mas o pior é que o argumento do consenso universal – do qual se faz uso para demonstrar que existem princípios inatos – parece-me uma demonstração do fato de que não existe nenhum princípio semelhante, uma vez que não existe nenhum princípio sobre o qual universalmente todos os homens estejam de acordo.

[6] E, para começar pelas noções especulativas, eis aqui dois célebres princípios de demonstração aos quais, mais do que a qualquer outro, atribui-se a qualidade de princípios inatos. O primeiro: tudo o que é é. O segundo: é impossível que uma coisa que é ao mesmo tempo não seja. Essas duas proposições passaram por máximas universalmente aceitas tão constantemente que, sem dúvida, parecerá estranho que alguém ouse contestar-lhes esse título. Todavia, tomarei a liberdade de dizer que, longe de essas duas proposições alcançarem um consenso geral, existe uma grande parte do gênero humano que nem as conhece.

[7] Em primeiro lugar, é evidente que as crianças e os idiotas não têm a menor percepção desses princípios e absolutamente não pensam neles: o que basta para destruir esse universal consenso, que deveria ser o dado concomitante e necessário de todas as verdades inatas.

[8] Dizer que existem verdades impressas na alma que a alma não percebe ou absolutamente não entende me parece ser quase uma contradição, uma vez que o ato de imprimir, se significa alguma coisa, não é mais do que o modo de fazer com que certas verdades sejam percebidas. De fato, imprimir alguma coisa na mente sem que a mente perceba é, na minha opinião, ininteligível. Portanto, se as crianças e os idiotas têm uma alma, uma mente, que reúne em si tais impressões, é preciso que as crianças e os idiotas inevitavelmente percebam essas impressões, conheçam necessariamente tais verdades e com elas concordem; mas como isso não acontece, é evidente que tais impressões absolutamente não existem.

[9] Porque, se não forem noções impressas naturalmente, como podem ser inatas? E se as noções estão impressas, como podem ser desconhecidas? Dizer que uma noção está impressa na mente e ao mesmo tempo dizer que a alma absolutamente não a conhece, e que até aquele momento nunca se dera conta dela, significa fazer dessa impressão um simples nada. Não se pode dizer de nenhuma proposição que está na mente, se esta ainda não a percebeu de alguma maneira e da qual nunca teve consciência…

[10] Se as máximas especulativas de que falamos no capítulo anterior não são aceitas por todos, como consenso efetivo, como provamos há pouco, isso é muito mais evidente no que se refere aos princípios práticos, que estão bem longe de receber uma aceitação universal. E acredito que seria muito difícil citar uma norma moral que seja um consenso tão geral e imediato como a máxima o que é é, ou que possa passar por uma verdade tão manifesta quanto o princípio é impossível que a mesma coisa seja e não seja. Isso mostra claramente que o privilégio de serem inatos convém muito menos aos princípios da prática do que àqueles da especulação; e que se tem maior razão de duvidar que os primeiros estejam naturalmente impressos na mente do que se duvida dos segundos…

[11] Para saber se existe algum princípio moral com o qual todos os homens concordem, recorro a quem quer que possua um conhecimento mesmo que modesto da história do gênero humano, e que, por assim dizer, tenha olhado para além da fumaça da chaminé da sua casa. Assim, onde estaria uma verdade de ordem prática que fosse universalmente aceita sem nenhuma dúvida ou dificuldade? Como deveria ser se fosse inata?

[12] Um outro motivo que me leva a duvidar que exista algum princípio inato da prática é que, segundo penso, não teríamos como propor uma regra moral cuja razão não se pudesse legitimamente questionar; o que seria totalmente ridículo e absurdo se tais princípios fossem inatos, ou mesmo simplesmente evidentes por si só, posto que todo princípio inato deve ser tão evidente por si mesmo que não necessite de nenhuma prova para confirmar a sua verdade, nem de qualquer razão para ser recebido com completo consenso…

[13] Além disso, se essas regras da moral são inatas e estão impressas na nossa mente, não posso entender como os homens possam chegar a violá-las tranqüilamente e com plena confiança. Considerai um exército que saqueia uma cidade e vereis que tipo de respeito pela virtude, ou princípio moral, e que remorso de consciência demonstra por todos os crimes que comete. A pilhagem, o homicídio, o estupro são apenas brincadeiras para pessoas a quem se deu imunidade de qualquer punição e censura.

[14] Por acaso não existiram nações inteiras, mesmo entre as mais civilizadas, que julgaram totalmente permitido enjeitar as suas crianças e deixá-las morrer de fome ou ser devoradas por animais ferozes? Como era consentido que as colocassem no mundo? Existem ainda hoje países em que recém-nascidos são enterrados vivos com suas mães se estas morrem no parto; ou que são mortos se um pretenso astrólogo declara que nasceram sob uma má configuração astral. Em outros lugares, o filho mata seu pai e sua mãe, sem nenhum remorso, quando eles chegam a uma certa idade… E Garcilaso de la Vega conta que certo povo do Peru costumava deixar vivas as mulheres feitas prisioneiras para fazer delas concubinas, engordava os filhos que tinha com elas e depois os comia, dando o mesmo tratamento à mãe quando esta parava de ter filhos. As virtudes pelas quais os Tupinambás acreditavam merecer o paraíso eram as de vingar-se dos seus inimigos, e comê-los no maior número possível. Não dispunham nem mesmo de um nome para designar Deus e não tinham religião nem culto. Aqueles que os turcos canonizam e colocam entre
os santos levam uma vida que não se poderia descrever sem ferir o pudor…

[15] Quem se der ao trabalho de ler a história do gênero humano e com olhar desapaixonado examinar a conduta dos vários povos da Terra se convencerá de que (exceto aqueles deveres que são absolutamente necessários para manter unida a sociedade e que, de resto, são depois freqüentemente violados por sociedades inteiras, vis-à-vis outras sociedades) não deveria mencionar qualquer princípio moral, nem imaginar qualquer regra de virtude que, em algum canto do mundo, não seja desprezada ou contrariada pela prática geral de sociedades humanas inteiras, governadas por máximas de vida prática totalmente opostas àquelas das outras sociedades.

[16] Suponhamos, portanto, que a mente seja uma folha em branco, desprovida de caracteres, sem nenhuma idéia. De que modo receberá as idéias?

[17] De onde e como as adquire na prodigiosa quantidade que a imaginação do homem sempre ativa e sem limites oferece numa variedade quase infinita? De onde extraiu todos esses materiais da razão e do conhecimento? Respondo: da experiência. É esse o fundamento de todos os nossos conhecimentos; daí extraem a sua origem primeira. As observações que fazemos, seja acerca dos objetos exteriores sensíveis, seja acerca das operações interiores da nossa mente, que percebemos e sobre as quais nós mesmos refletimos, abastecem a nossa inteligência de todos os materiais do pensamento.