Velhas e aparentes

Em sua coluna (“Superar divisões“) na Folha de S.Paulo de hoje, 25-2, Vladimir Safatle começa falando das divisões internas à(s) esquerda(s). Mas termina, ao que parece, extrapolando a esquerda, ao comparar a esquerda progressista com a direita liberal.

Com efeito, Safatle acha irônico que, no Brasil, os liberais sejam contra as liberdades individuais. Diz ele:

[…] o Brasil, com suas idiossincrasias, é um país no qual os liberais são, no fundo, contra as liberdades individuais.
Por aqui, ser liberal é, via de regra, ser contra o aborto, criticar o casamento homossexual, desconfiar das discussões sobre o Estado radicalmente laico, ridicularizar o embate contra a destruição da vida privada na esteira do “combate ao terrorismo” e ser contra a legalização das drogas. Por essas ironias do destino, quem defende liberdade individual no cenário político-partidário brasileiro é a esquerda.

E eu, modestamente, acho irônico que o Safatle ache irônico essa conduta. Sim, porque, para o liberalismo, trata-se única e exclusivamente da “liberdade” econômica. O liberalismo, em geral, só defende a liberdade individual enquanto esta for compatível com a liberdade econômica, ou seja, com o livre funcionamento do mercado.

A “nova” direita brasileira mostra bem isso: seus membros são hiperliberais em termos econômicos e ultraconservadores em termos culturais, éticos e políticos. Quando se refere à liberdade individual, o liberal tem em mente a “liberdade” de escolher entre uma calça Lee e uma Levi’s, entre Coca e Pepsi, Globo e Record, Corinthians e Palmeiras, FHC ou Lula… já entendeu, não é, raro leitor?

Mas a ironia é maior ainda quando se considera que esse estado de coisas não é, de maneira alguma, uma “idiossincrasia” do Brasil, como alega Safatle. O conservadorismo dos liberais brasileiros é tão superficial e hipócrita quanto o progressismo da esquerda europeia, p.ex. Todos as liberdades mencionadas pelo professor da USP são compatíveis com a sociedade centrada no mercado, ou seja, com o capitalismo.

Não é por acaso, pois, que liberais conservadores se digam cristãos ao mesmo tempo que defendem a usura (os juros bancários brasileiros só podem ser justificados pelo risco… de morte!), e que esquerdistas progressistas defendam o aborto ao mesmo tempo que se dizem cristãos (como a dona Marta Suplicy, p.ex.).

O buraco é bem mais embaixo. Precisamos ir além dessas diferenças aparentes para encontrar a verdadeira raiz do problema. Safatle parece intuir essa necessidade quando conclui que tais

elementos do cenário nacional demonstram como há um rearranjo possível do espectro político, à condição de superar velhas dicotomias.

Superar as velhas e, embora violentas, aparentes dicotomias entre esquerda política (focada na luta de classes) e esquerda libertária (centrada na ecologia), bem como entre a esquerda e a direita.

Voltarei ao assunto, mas, na minha opinião, a superação dessas divisões não pode ser encontrada num meio termo, ou seja, no caso do conflito entre esquerda e direita, a solução não está no centro.

É isso que se chama Quarta Via: nem um nem outro nem a mistura dos dois –nem esquerda nem direita nem centro. Utopia?