harmonia preestabelecida


LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm [1646-1716]. Cartas (1696)

[1] Expliquei a harmonia que existe entre alma e corpo por meio de uma comparação entre a harmonia desses dois entes e aquela de dois pêndulos de diferente estrutura, que sempre indicariam exatamente a mesma hora no mesmo instante.

[2] Isso poderia acontecer de três modos: 1) interligando-os de modo que fossem obrigados a oscilar contemporaneamente; 2) encarregando um homem de ajustar um a partir do outro; 3) construindo-os desde o início de maneira tão exata e perfeita que pudessem harmonizar-se em virtude da sua estrutura. Este é sem dúvida o modo melhor. Eis como alma e corpo podem se harmonizar.

[3] 1) Pela influência de um sobre o outro, o que está de acordo com a opinião comum nas escolas, mas é inexplicável.

[4] 2) Pelo cuidado que Deus tomasse continuamente em ajustar um a partir do outro segundo o sistema das causas ocasionais, de modo que o estado de um daria a Deus motivo para provocar no outro as impressões correspondentes: seria um milagre contínuo pouco adequado à sabedoria divina e à ordem das coisas.

[5] 3) Por um ajuste exato de cada um desses dois entes separadamente, de modo que eles possam combinar entre si em virtude da sua própria natureza: este é o mais belo e o mais digno de Deus. É o meu sistema da harmonia preestabelecida.

percepções inconscientes


LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm [1646-1716]. Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano [1701-4]

[1] Existem mil indícios que nos levam a julgar que temos, a cada momento, uma infinidade de percepções, mas sem apercepção e sem reflexão – ou seja, modificações na alma das quais não nos damos conta porque as impressões são ou muito pequenas ou muito numerosas ou muito próximas, de modo que não se consegue distingui-las senão parcialmente; apesar disso, não deixam de fazer sentir os seus efeitos e de se fazer sentir ao menos confusamente em seu conjunto.

[2] Dessa maneira, o hábito faz com que não prestemos atenção ao movimento de um moinho ou a um jato de água, quando ficamos na sua vizinhança por algum tempo. Não é que esse movimento não continue atingindo os nossos órgãos e que não aconteça algo na alma que responde por eles, devido à harmonia da alma e do corpo; mas essas impressões que estão na alma e no corpo, desprovidas da atração da novidade, não são fortes o bastante para chamar a nossa atenção e a nossa memória, atraídas por objetos mais interessantes.

[3] De fato, toda atenção exige memória e, muitas vezes, quando não somos avisados, por assim dizer, para prestar atenção a alguma das nossas percepções presentes, deixamo-las passar sem refletir e também sem notá-las; mas se alguém logo depois nos avisa e nos faz reparar em algum ruído que se ouve, lembramo-nos dele e damo-nos conta de tê-lo percebido um pouco antes. Assim, existiriam em nós percepções das quais não nos apercebemos imediatamente, derivando a apercepção apenas da advertência após um certo intervalo, por menor que ele seja…

[4] Nunca se dorme tão profundamente que não se tenha alguma sensação – mesmo que fraca e confusa – e nunca acordaríamos com o maior barulho do mundo se não tivéssemos a percepção do início desse barulho, por menor que fosse, assim como nunca se partiria uma corda com o maior esforço, se não fosse estendida e alongada ao menos um pouco por meio de esforços mínimos, ainda que a pequena tensão que estes provocam não se manifeste.

[5] Essas pequenas percepções, pelas suas conseqüências, são, portanto, de eficácia maior do que se pensa. São elas que formam aquele não sei quê, aqueles gostos, aquelas imagens das qualidades dos sentidos, claras no seu conjunto, mas confusas nas suas partes, aquelas impressões que os corpos externos provocam em nós e que encerram o infinito, aqueles vínculos que todo ser tem com todo o resto do universo.

o quebra-cabeça das mônadas 1

Leibniz: Vida

Sob um certo aspecto, pode-se denominar o século XVII a era das damas. A vida de Gottfried Wilhelm Leibniz também se insere nessa perspectiva. Não que tivesse se relacionado com cortesãs e amantes. Em todo caso, nada sabemos de quaisquer excessos desse gênero. Nem que tivesse desposado alguma mulher mais ou menos importante. Ao contrário, permaneceu solteiro toda sua vida, o que o condenava a uma triste existência em hospedarias. Mas amava comunicar suas descobertas científico-naturais e filosóficas e seus sucessos diplomáticos a mulheres bem-afortunadas, com as quais mantinha uma intensa convivência e uma vasta correspondência. Contam-se entre elas uma imperatriz, uma rainha e, ainda, uma duquesa, esposas de príncipes eleitores, princesas eleitoras e, enfim, princesas comuns. Nas cartas a essas damas, quase nunca se encontra uma palavra de galantaria ou de cortejo. Leibniz está sempre voltado para seu tema, pois é possuído por ele. Leibniz é totalmente um homem do espírito.

Isso já começou cedo. Como Pascal, Leibniz também foi uma criança-prodígio. Como ninguém quisesse ensinar-lhe o latim, com oito anos soletrava para si mesmo nessa língua. Deparando com um livro de Lívio, ilustrado com gravuras em cobre, adivinhava os significados das palavras das legendas. Depois, voltava ao texto para decifrar, palavra por palavra, o seu sentido. Também a lógica, com sua “tábua dos conhecimentos”, desperta seu vivo interesse. Já com quinze anos vai para a universidade estudar jurisprudência. Mas essa não era sua única intenção. Desde logo, atina com o problema filosófico que, daí em diante, o ocuparia constantemente. A ciência filosófica achava-se, então, entre Aristóteles, que punha o conceito de finalidade no centro das atenções, e Descartes, que partia da causalidade mecânica. Num passeio solitário em Rosental, próximo de Leipzig, ocorre a Leibniz que era necessária uma decisão entre ambos. Pode ser que não tenha resolvido o problema naquela ocasião ou, mesmo, que o Leibniz posterior não reclamava mais a alternativa mas a síntese entre aquelas posições antagônicas — de qualquer forma, permanece o fato de que Leibniz tenha encontrado, já aos quinze anos de idade, o ponto de vista decisivo de seu futuro trabalho filosófico. Ao lado disso, continua estudando sua jurisprudência com vistas a laurear-se. Mas os doutos professores da Universidade de Leipzig o consideram muito jovem. Segundo outros relatos, a mulher do decano é que, por antipatia, teria impedido sua promoção. Assim, como narra um biógrafo, “pegou o que era seu e foi-se embora” para a Universidade Altdorf, perto de Nuremberg, e presta lá, sob a admiração dos professores, um brilhante exame. Oferecem, imediatamente, uma cátedra ao jovem de vinte e um anos; mas ele não quer se meter nas amarras de um cargo acadêmico e recusa.

A vida subseqüente de Leibniz é altamente dispersa. Provisoriamente, ainda que protestante, atua como conselheiro político do príncipe eleitor e do arcebispo de Mainz. Depois, aceita um convite da corte de Hanôver e permanece, até sua morte, no serviço da casa dos Welfen. Sua atividade é diversificada, abrangendo, em grande parte, missões diplomáticas que o levam a Paris, a Viena, a Berlim e a Munique. Seus relatórios não se dirigem, freqüentemente, apenas a seus comitentes, mas também às nobres damas anteriormente mencionadas. Além disso, Leibniz é encarregado da redação de memorandos sobre causas políticas e jurídicas. Leibniz tinha exercido atividades diplomáticas semelhantes já em Mainz. É desse tempo o memorando aventureiro em que sugere ao rei da França conquistar o Egito — naturalmente na intenção secreta de, por meio disso, dissuadi-lo da Alemanha. O rei francês, com efeito, não toma nenhum conhecimento do memorando. Mas Napoleão, mais de um século depois, deve ter-se reportado a ele em seus planos. É característico de Leibniz que sua intenção, onde quer que venha a atuar politicamente, sempre termine em equilíbrio. Visa a um sistema de povos, em que cada nação pudesse realizar sua missão em união com as outras: uma harmonia de todos os povos cristãos, a paz mundial.

Oficialmente, Leibniz ocupava o posto de bibliotecário da corte, tanto em Hanôver quanto em Welfenbüttel. Mas era um chefe de biblioteca estranho. Conta-se que ficava extremamente irritado, quando alguém tinha a extravagante idéia de tomar um livro emprestado. Além disso, Leibniz é encarregado da redação de uma história da casa dos Welfen. Consegue, aliás, com base nas fontes, descobrir alguns fatos importantes para a casa do príncipe eleitor. Mas, então, perde-se no geral. A história da casa dos Welfen, argumenta, não pode ser tratada sem conexão com a história do solo sobre o qual rege. Por isso, antes de todo empenho histórico, tem-se de pesquisar a geologia. Mas isso também não lhe basta, pois sendo o território dos Welfen uma parte da terra, tem-se de investigar, antes de todas as coisas, a gênese da terra. Assim, o historiador da casa dos Welfen é levado, por uma conclusão lógica a seus olhos plausível, a descrever a história originária da terra. Não admira, portanto, que Leibniz pouco se tenha detido na história concreta e que o príncipe eleitor, já impaciente, constantemente perguntasse pelo progresso do trabalho; pois para este, como para os príncipes em geral, importa mais a glória de sua casa do que a origem do mundo.

Ao mesmo tempo, Leibniz ocupa-se da missão de promover uma reunificação das igrejas separadas: primeiramente, a luterana e a reformada, depois, a protestante e a católica e, enfim, a européia ocidental e a grega. Também isso corresponde a seu pensamento harmonizador. Nesse campo, contudo, não teve muita sorte. Os antagonismos eram ainda demasiadamente grandes para que ele pudesse superá-los por meio de seus escritos apaziguantes e suas negociações conciliadoras.

Ao lado de tudo isso, prosseguem os esforços científicos de Leibniz, ampliando-se, em grande medida, no aspecto organizacional. Por toda parte, em Viena, Dresde, Berlim, Petersburgo, Leibniz fomenta a fundação de academias e desenvolve planos precisos para isso. Mas apenas a Academia Prussiana de Ciências, a princípio sob outro nome, se torna realidade ainda em seu tempo de vida. Leibniz foi seu primeiro presidente. Para seu financiamento, propõe medidas grotescas: impostos sobre calendário e fogos de artifício, sobre amoreiras, sobre passaportes e aguardente. Mas não se agradece a Leibniz por todos esses seus esforços. Ele é cada vez mais excluído do trabalho da academia; nem mesmo sendo convidado — ele, o presidente — para a sessão inaugural.

É admirável que um homem tão multiplamente ocupado ainda encontre tempo para, com calma, dedicar-se a estudos científicos. Mas isso aconteceu, e numa tal amplidão que, desde Aristóteles, nunca mais tinha sido alcançada e que, depois de Leibniz, também nunca mais será realizada. Frederico, o Grande, diz dele: “Ele representa por si um academia inteira.” Matemática, física e mecânica, geologia e mineralogia, jurisprudência e economia nacional, ciências da lingüística e da história, teologia e filosofia são praticadas por ele do mesmo modo. No campo da matemática, sucede-lhe uma importante descoberta: o cálculo diferencial. A isso, contudo, associa-se uma disputa desagradável com Newton e seus seguid
ores; cada lado reivindica para si a prioridade da invenção. Leibniz, a par disso, alcança êxito na construção de uma máquina de calcular e de um submarino. A isso se soma uma extensa e douta correspondência que o mantém em contato com quase todos os nomes de destaque no mundo científico. Nada menos que 15000 cartas são ainda conservadas.

Mas a significação propriamente efetiva de Leibniz reside em seus trabalhos filosóficos. Inventa uma escrita conceitual, um “alfabeto dos pensamentos humanos”, ou seja, siglas para cada conceito e, com isso, torna-se o precursor da logística e semântica modernas. Mas sua descoberta permanece apenas uma iniciativa. Mesmo na filosofia metafísica, para ele essencial, Leibniz não chega a uma grande obra conclusiva. Seus ensaios, em sua maioria, são escritos de oportunidade, respostas a perguntas e observações de amigos e, novamente, sobretudo das bem-afortunadas damas ou homens de influência, como o príncipe Eugênio. Leibniz suspende a publicação de um tratado contra Locke, já pronto, ao saber da morte de seu opositor. Como obra completa, aparece — ao lado de pequenos escritos — apenas a Teodicéia, que, incentivada por conversas com a rainha Sofia Carlota, da Prússia, o torna famoso em sua época.

A respeito de sua aparência, Leibniz relata em uma autobiografia simulada: “É franzino; de estatura mediana; tem um rosto pálido; quase sempre de mãos frias; tanto os pés como os dedos de suas mãos, segundo as proporções das restantes partes de seu corpo, demasiado longos e delgados; e nenhuma disposição para o suor. Sua voz é fraca e mais fina e clara do que forte; é também maleável, mas não suficientemente modulada; os fonemas guturais e o k são para ele difíceis de pronunciar.” Um biógrafo, seu contemporâneo, completa esse retrato: “Ficou calvo prematuramente e tinha no alto da cabeça uma protuberância do tamanho de um ovo de pomba. Tinha ombros largos e caminhava sempre de cabeça inclinada, como se fosse corcunda. Comia muito e, quando não era obrigado, bebia pouco. Como nunca administrou uma casa própria, não era exigente em relação a comida, mandando-a trazer da própria hospedaria a seus aposentos.”

Dos últimos anos de vida de Leibniz, relata o mesmo biógrafo: “Estudava sem interrupção e, freqüentemente, não deixava a cadeira o dia todo. Creio que, em decorrência disso, se formou um furúnculo ou ferida aberta na perna direita. Isso lhe provocava dores ao andar. Procurou curar-se, aplicando sobre a ferida nada menos do que mata-borrão. Isso bastou para que ele pegasse uma forte gota. Procurava aliviar-se desta, por sua vez, estendendo-se calmamente na cama e, para poder estudar nessa posição, acabava dobrando as pernas. Para evitar as dores e tornar os nervos insensíveis, porém, mandou fazer torniquetes e cingi-los nos lugares em que sentia dores. Creio que, assim, tenha machucado seus nervos, de modo que, por fim, mal pudesse pôr os pés no chão, jazendo quase sempre na cama.”

Imagina-se que um homem tão versátil e tão bem relacionado, intimamente ligado a cortes e casas principescas, fosse obter também um túmulo suntuoso quando morresse, em 1716, com 70 anos. Mas nada disso ocorreu: a corte manteve-se afastada e Leibniz foi enterrado na quase total indiferença. [WEISCHEDEL, W. A escada dos fundos da filosofia. São Paulo: Angra, 1999. p. 163-172.]

o quebra-cabeça das mônadas 2

Leibniz: Pensamento

Quando se pergunta qual foi a contribuição filosófica de Leibniz, obtém-se provavelmente a seguinte resposta: o desenvolvimento de uma monadologia. Perguntando-se, a seguir, o que seria isso, a resposta soa mais ou menos assim: uma doutrina algo estranha sobre coisinhas esquisitas, denominadas mônadas, que deveriam representar o princípio da realidade. Insistindo-se, ainda, em perguntar, em geral não se obtém mais do que silêncio. Por isso, uma exposição do pensamento de Leibniz tem, antes de tudo, de tornar compreensível o que ele queria dizer com sua doutrina das mônadas e, principalmente, o que o levou a interpretar a realidade do modo monadológico, próprio dele.

Leibniz, a princípio, entra em contradição — a respeito de um ponto decisivo — com seu grande predecessor, o filósofo francês Descartes. Este pensava apreender a realidade das coisas de modo satisfatório, quando ele as concebia como extensas. Essa visão, objeta Leibniz, carece de complementação. A mera extensão não explica como uma coisa oferece resistência ao tato, nem mesmo como, no caso de um animal, pode se tornar ativa por si mesma. Para incluir também esse momento na interpretação da realidade, Leibniz introduz o conceito de força. As coisas são reais porque nelas operam forças ou, por assim dizer, pontos de força. Por trás da realidade visível se manifesta, assim, uma realidade verdadeira, genuína: o mundo das forças invisíveis.

Com isso foi dado um primeiro passo na direção de um entendimento do conceito de mônada. O ponto de força, com base no qual Leibniz interpreta a realidade, são as menores unidades. Mas não do gênero da matéria, da qual Leibniz supõe se possa dividir ao infinito. Muito mais, as mônadas são unidades originárias, indivisíveis. A palavra grega para unidade é monás. É por isso que Leibniz designa esses pontos de força de mônadas.

Leibniz dá mais um passo nessa compreensão quando considera, em especial, um determinado domínio da realidade: o dos seres vivos, dos organismos. Neles se expressa, de modo privilegiado, a força que reside em seu interior. Cada um deles tem um centro, um princípio ativo, uma unidade em si, que dirige e organiza tudo que acontece com esse ser vivo. Agora — assim conclui Leibniz a seguir —, tem-se de conceber toda a realidade em analogia com o organismo; pois o morto tem de ser compreendido com base no vivo e não, inversamente, o vivo com base no morto. Então, os pontos de força no ente morto são do mesmo gênero dos pontos de força nos organismos. Todas as menores unidades, as mônadas, são viventes.

Sob essa perspectiva se chega a uma grandiosa vitalização do mundo. “Toda a natureza é plena de vida.” Leibniz descreve isso de modo bem intuitivo: “Cada fragmento de matéria pode ser apreendido, por assim dizer, como um jardim repleto de plantas ou como um aquário cheio de peixes. Mas cada ramo de planta, cada membro de animal, cada gota de seus humores constitui, novamente, um tal jardim e um tal aquário. E ainda que a terra e o ar entre as plantas do jardim ou a água entre os peixes do aquário não sejam eles mesmos nem planta nem peixe, contêm, todavia, plantas e peixes, só que de uma tenuidade imperceptível para nós. Assim, não há nada de desértico, de infrutífero, nada de morto no universo.” A riqueza infinita da realidade, porém, decorre do número infinito de mônadas viventes, das quais nenhuma é igual à outra. Isso provocou a seguinte observação irônica de Hegel: “A proposição de que não há duas coisas que sejam iguais entre si choca a imaginação tanto quanto a anedota sobre o paço real, no qual Leibniz a teria pronunciado e, assim, motivado as damas a tentar encontrar, entre as folhas das árvores, duas que fossem iguais. Bons tempos aqueles para a metafísica, quando se ocupava com ela nas cortes e não se necessitava de nenhum outro esforço para provar suas proposições do que comparar folhas de árvores!”

Em sua consideração da realidade, Leibniz deixou de fora até aqui um importante domínio do ser: o ser espiritual. Mas como também pertence ao conjunto da realidade, Leibniz terá de admiti-lo em sua concepção. Conforme seu princípio, de que o inferior deva ser explicado pelo superior, tem de tentar explicar todo o real em analogia com o espírito. À essência do espírito pertence tanto o ter representações bem como a tendência de passar de uma representação a outra. Se, agora, a essência da mônada é explicada com base no espírito, então se tem de atribuir a toda mônada esses dois momentos da representação e da tendência ou apetição. E, de fato, Leibniz assim interpreta a realidade. O que é propriamente real no real aparente é a mônada enquanto ponto de força vivente, assinalada por meio da representação e da apetição.

Essa concepção causa certa estranheza. Deve-se aceitar, segundo ela, que a cadeira, a mesa, a cama não seriam as coisas materiais tais quais nos aparecem. O real nelas consistiria, muito mais, nos pontos de força, dotados de capacidade representativa ou percepção e de apetição. Esse pensamento, por mais estranho que pareça, constitui a idéia fundamental de Leibniz. A estranheza permanece a mesma, ainda que Leibniz alegue que os pontos de força nas coisas mortas teriam apenas representações confusas, comparáveis às representações que se mantêm no homem, mesmo quando este desmaia.

Por meio da distinção entre representações confusas e claras, Leibniz chega a uma peculiar graduação no domínio das mônadas. Abaixo de todas, estão as mônadas com representações exclusivamente confusas, as “mônadas simples ou nuas”. Elas formam o mundo inorgânico. Acima delas, eleva-se o mundo do vivente, dos organismos, cujas mônadas já têm, ao lado de muitas representações confusas, algumas representações claras. Isso vale ainda mais no caso do homem, pois seu conhecimento se dá precisamente de modo que sua mônada central, isto é, a mônada que rege todas as outras mônadas no homem, passe das representações confusas para as claras. Deus, porém, a mônada originária, tem exclusivamente representações claras. Ele vê a realidade assim como ela em verdade é, ou seja, como o grande reino das mônadas.

Com sua concepção monadológica, contudo, Leibniz depara com uma dificuldade: a convivência das mônadas torna-se um problema. Não se teria de admitir que as mônadas exerçam influência umas sobre as outras, já que, no mundo visível, as coisas também se influenciam entre si? Leibniz, porém, nega essa possibilidade e, isso, justamente porque pensa o conceito de força de modo conseqüente. Tudo o que acontece com a mônada desenvolve-se a partir dela mesma, assim como tudo que uma pena exerce, provém de sua força interna. Para a mônada, tudo “tem de surgir de seu próprio fundamento”. Assim, porém, nenhuma mônada pode sofrer influência de outra e, por conseguinte, nem exercer uma tal influência. Utilizando uma metáfora, Leibniz expressa esse estado de coisas de maneira plástica: “As mônadas não têm janelas, através das quais algo pudesse entrar nelas ou sair delas.” Elas são totalmente autárquicas.

Mas, então, Leibniz tem de explicar como é que se chega, no caso das mônadas dotadas de representações claras, à aceitação de um mundo externo. Para esse fim, inventa a hipótese segundo a qual toda mônada, desde o princípio, conteria de modo confuso em seu interior a representação de todas as outras mônadas e, assim, de toda a realidade. Nela está presente o mundo inteiro; ela é “um espelho eterno e vivo do universo”, um “microcosmo” e, mesmo, enquanto compreende tudo em si, “uma pequena deidade”. A isso, que ela desde sempre representa, pertence não apenas o que é real atualmente, mas também o que já foi alguma vez e o que será. A mônada está “grávida de futuro, carregada com passado”. Concretamente, isso significaria, por exemplo, que a mônada central de um europeu traz em si a representação confusa de um pedaço de madeira depositado há mil anos na costa chinesa.

Mas essa visão de mundo não é um tanto temerária? Se toda mônada existe fechada em si, sem relação com as outras, não se teria de acabar num completo solipsismo? Se as outras mônadas não se comunicam, de onde sabe a mônada dotada de consciência que o mundo por ela representado interiormente também exista na realidade? O mundo, então, não seria afinal uma mera representação, sem existência real? E Leibniz não seria, assim, compelido a um idealismo absoluto, segundo o qual toda realidade fora do sujeito único é uma mera aparência?

Leibniz não fornece mais nenhuma informação. Atém-se firmemente, sem fundamentação, à idéia de um mundo real com infinitas mônadas. Mas levanta a questão de como é possível que este mundo de mônadas não seja dominado pela desordem completa, pelo puro caos. E responde com dois pensamentos: por um lado, afirma que a toda mônada é dada, desde sua origem, a lei interna que regula tudo o que lhe acontece; por outro, introduz a idéia da harmonia preestabelecida, segundo a qual tudo o que se passa nas mônadas infinitamente diversas foi acordado desde o princípio umas com as outras. Assim, por exemplo, se dois homens se olham reciprocamente, isso não significa — no sentido da doutrina das mônadas — que se tenham aberto reciprocamente. Muito mais, isso quer dizer que na mônada central do primeiro homem está estabelecido desde sua origem que, nesse momento, seja elevada à clareza a representação confusa — que já existia nela desde sempre — da mônada central do segundo homem, o mesmo valendo para a mônada central deste último.

Mas em que se fundamentaria essa harmonia preestabelecida? O que daria sustentação à totalidade das mônadas em seu acordo recíproco? Como não poderia deixar de ser, Leibniz responde a essa pergunta como homem de seu tempo, ou seja: lançando mão do conceito de Deus. Se as leis internas das mônadas singulares e sua harmonia recíproca já devam ser estabelecidas desde o princípio, isso só pode acontecer por meio de Deus, enquanto criador. A idéia de criação constitui, assim, o alicerce que sustenta a doutrina das mônadas.

Para assegurar essa unidade suprema de seu sistema, Leibniz empenha-se em demonstrar a existência de Deus. A sua primeira prova lembra a de Anselmo de Canterbury: “Tenho de possuir uma idéia de Deus ou de um ser perfeito. Mas a idéia desse ser inclui todas as perfeições possíveis, e a existência é uma delas. Portanto, esse ser existe.” Uma segunda prova parte do princípio de que há verdades e seres eternos, como as verdades matemáticas. Aquilo que elas expressam também deve ter uma origem. Essa origem, contudo, não pode ser nada mais que o intelecto de Deus, “a região das verdades eternas”, pois contém “a idéia de todas as coisas possíveis”. Além disso, Deus é demonstrado como o fundamento da contingência que há no mundo, uma vez que a existência do contingente pressupõe uma razão suficiente que a transcenda: Deus. Enfim, uma última prova — a especificamente leibniziana — toma por base o sistema da harmonia preestabelecida. Esse sistema exige um espírito ordenador que harmonize reciprocamente tudo que aconteça no mundo das mônadas, e esse espírito é justamente Deus.

Com base na doutrina das mônadas e no pensamento da harmonia preestabelecida também são determinadas a natureza e a atuação de Deus. Deus é, por assim dizer, o grande matemático que calcula tudo que se torna mundo, que desenvolve as leis internas para cada mônada e que harmoniza a totalidade das mônadas. Ao mesmo tempo, para Leibniz, Deus é também a origem de todas as mônadas, que surgem dele “por meio de uma permanente irradiação”, na qual, como observa Schelling, “Deus é concebido como uma nuvem grávida de realidade”. Numa outra perspectiva, a criação do mundo das mônadas é explicada por meio do fato de que Deus produz uma quantidade infinita de pontos de vista, cada qual representando uma mônada. O mundo, dessa perspectiva, é a multiplicidade da visão divina.

Tudo isso leva à pergunta pela razão de o mundo, sendo proveniente de Deus, conter tanto sofrimento, infortúnio e mal. É o problema da teodicéia, da justificação de Deus que ocupa a época de Leibniz de modo particularmente urgente. Leibniz quer resolvê-lo afirmando que na totalidade de um mundo finito, por causa de sua própria finitude, nem tudo poderia ser perfeito do mesmo modo. Por isso, seria necessário para Deus misturar ao bem também o mal e o infortúnio. Apesar disso, Leibniz está certo de que Deus, dentre a infinidade de mundos possíveis, tenha escolhido o melhor possível. “O bem leva Deus a criar; esse mesmo bem, combinado com a sabedoria, leva-o a criar o melhor.” Esse otimismo será mais tarde objeto de escárnio por parte de Voltaire, em seu Cândido, em vista do caráter dúbio da realidade.

Também Hegel é repleto de críticas a Leibniz. Denomina a doutrina das mônadas um “romance metafísico”. E, considerando que todos os contrários seriam unificados, aparentemente sem esforço, por Leibniz, em Deus, sem antes terem despontado enquanto tais, escreverá em tom maldoso: “Deus é, por assim dizer, a valeta para a qual confluem todas as contradições.” [WEISCHEDEL, W. A escada dos fundos da filosofia. São Paulo: Angra, 1999. p. 163-172.]