credo quia absurdum

“Quando a questão da verdade é posta de modo objetivo, a reflexão é dirigida objetivamente para a verdade como um objeto com o qual aquele que conhece está relacionado. Contudo, a reflexão não está focada na relação, mas na questão se é a verdade com a qual aquele que conhece está relacionado. Se apenas o objeto com que ele está relacionado é verdadeiro, o sujeito considera-se estar na verdade.

Quando a questão da verdade é levantada subjetivamente, a reflexão é dirigida subjetivamente para a natureza da relação individual; se apenas o modo dessa relação está na verdade, o indivíduo está na verdade mesmo que ele esteja assim relacionado com o que não é verdade.

Tomemos como exemplo o conhecimento de Deus. Objetivamente, a reflexão é dirigida ao problema se esse objeto é o Deus verdadeiro: subjetivamente, a reflexão é dirigida para a questão se o indivíduo está relacionado com uma coisa de tal maneira que a sua relação é na verdade uma relação com Deus […]

O indivíduo que escolhe prosseguir o caminho objetivo entra no processo de aproximação completo pelo qual se tenta revelar Deus objetivamente. Mas isso é totalmente impossível, porque Deus é um sujeito e, portanto, existe para a subjetividade apenas na interioridade. A ênfase objetiva incide no QUE é dito; a ênfase subjectiva, no COMO é dito. Essa distinção se mantém mesmo no domínio estético e recebe uma expressão precisa no princípio de o que é em si mesmo verdade pode na boca de tal e tal pessoa tornar-se falso […]

Objetivamente, o interesse está focado unicamente no pensamento-conteúdo; subjetivamente, na interioridade. No seu máximo, esse “como” interior é a paixão do infinito, e a paixão do infinito é a verdade. Mas a paixão do infinito é completa subjetividade, e, assim, a subjetividade torna-se a verdade […]

Apenas na subjetividade existe determinação para procurar o fator e não o seu conteúdo, pois o seu conteúdo é precisamente ele próprio. Dessa forma, a subjetividade e o seu “como” subjetivo constitui a verdade […]

Eis aqui tal definição de verdade: uma incerteza objetiva agarrada rapidamente a um processo de apropriação da mais apaixonada interioridade é a verdade, a verdade mais elevada que um indivíduo pode atingir… Mas a definição de verdade acima é uma expressão equivalente da fé. Sem riscos não há fé. A fé é exatamente a contradição entre a paixão infinita da interioridade individual e a incerteza objetiva. Se sou capaz de captar Deus objetivamente, não acredito; mas, precisamente porque não sou capaz de fazer isso, tenho de acreditar […]

Sem risco não há fé, e quanto maior o risco maior a fé; quanto maior é a segurança objetiva, menor é a interioridade (pois a interioridade é precisamente subjetividade), e quanto menor é a segurança objetiva, mais profunda é a interioridade possível. Quando é em si mesmo paradoxal, o paradoxo é repelido pelo indivíduo em virtude do seu absurdo, e a paixão correspondente à interioridade é a fé.

Quando acreditou que havia um Deus, Sócrates agarrou-se rapidamente à incerteza objetiva com toda a paixão da sua interioridade, e é justamente nessa contradição e nesse risco que a fé tem as suas raízes. Agora é de forma diferente. Em vez da incerteza objetiva, há aqui uma certeza, a saber, que objetivamente é absurdo; e esse absurdo, agarrado rapidamente na paixão da interioridade, é fé. A ignorância socrática é uma espécie de brincadeira genial em comparação com a seriedade perante o absurdo; e a interioridade existencial socrática é uma frivolidade grega em comparação com a enérgica gravidade da fé.

Devido a sua repulsão objetiva, o absurdo é precisamente a medida da intensidade da fé na interioridade. Suponha um homem que deseje adquirir a fé; deixe a comédia começar. Ele deseja ter fé, mas deseja também proteger-se por intermédio de uma investigação objetiva e do seu processo de aproximação. O que ocorre?

Com a ajuda do processo de aproximação, o absurdo torna-se algo diferente; torna-se provável, torna-se progressivamente provável, torna-se extrema e enfaticamente provável. Agora ele está pronto a acreditar nisso, e aventura-se a afirmar para si mesmo que não acredita como os sapateiros e os alfaiates e o povo simples acredita, mas apenas após uma longa deliberação. Agora ele está pronto a acreditar nisso; e, vejam só, agora se tornou completamente impossível acreditar nisso. Algo que seja quase provável, ou provável, ou extrema e enfaticamente provável, e algo que ele pode quase conhecer, ou tão bem como conhecer, ou extrema e enfaticamente quase conhecer ― mas é impossível acreditar… [Søren Kierkegaard em “Concluding Unscientific Postscript”, trad. de Álvaro Nunes, citada livremente]