desejos para 2008

Em tempos de aquecimento global, turistas da catástrofe visitam lugares que podem de repente sumir do mapa

por JOÃO PEREIRA COUTINHO

O ANO de 2007 aproxima-se do seu final e é provável que exista alguma ansiedade entre os leitores. Onde passar o Réveillon? E o que fazer em 2008 para que o ano seja realmente especial?

Não tremam, leitores: de acordo com as últimas tendências, é preciso variar no turismo. Paris? Roma? Londres ou Nova York? Interessantes, sim. Convencionais, sem dúvida. Mas, nas palavras de Ken Shapiro, editor da “Travel Age West” citado pela imprensa inglesa, a verdadeira moda e o verdadeiro desafio estão no “turismo-catástrofe”.

O raciocínio de Shapiro é exemplar: se o aquecimento global está a destruir o planeta Terra, não seria preferível visitar alguns locais que, amanhã de manhã ou, talvez, depois de amanhã, já não existirão no nosso mundo?

Os turistas da catástrofe aumentaram estrondosamente em 2007. E os locais visitados cobrem os quatro cantos da Terra: da Antártida ao Kilimanjaro, sem esquecer as Maldivas ou a Patagônia, milhares de visitantes apressam-se a ver neve (Kilimanjaro) ou terra não coberta por água (Maldivas) para que um dia possam contar aos netos como era o mundo nos inícios do século 21.

Claro que essa conversa toda pressupõe um cenário otimista: a existência de netos no século 22. Digo otimista porque, nas conversas sobre o clima, é impossível não perceber a verdadeira causa da tragédia.

E a verdadeira causa somos nós, humanos, que diariamente contribuímos para o fim do mundo com nossos comportamentos egoístas e insensatos. A crença inocente de que existirão seres humanos no século 22 é suficientemente atroz para encher de repugnância qualquer ambientalista. Seres humanos? Daqueles que vivem e respiram? Mas a Terra não seria um local imensamente mais aprazível sem eles?

O jornalista Alan Weisman respondeu afirmativamente no livro “The World Without Us”, um dos sucessos editoriais de 2007. Idéia de Weisman: imaginar o momento em que os humanos saem de cena e a mãe-natureza fica entregue ao seu destino. Em 300 páginas, a tese de Weisman é demolidora: se os humanos se extinguirem de um momento para o outro (um vírus, uma guerra, um surto de esterilidade), será possível observar melhor o rastro de destruição que deixaram.

Mas será possível observar mais: a forma como a mãe-natureza consegue lidar com os estragos, sarando as feridas e recompondo os seus ecossistemas. Em alguns séculos, a natureza consegue corrigir a destruição humana que durou milênios.

Confesso-me conquistado pela tese de Weisman. E, nos últimos dias de 2007, questiono honestamente se a humanidade não deveria formular dois desejos para 2008. Primeiro, comprar o pacote completo de “turismo-catástrofe” e dizer adeus a uma calota de gelo ou a um urso-polar. E, depois, dizer finalmente adeus ao planeta em suicídio coletivo e mundial. Com a certeza redentora de que os ursos e as calotas continuariam depois de nós. [FOLHA 26/12/07]

a dança das cadeiras

por JOÃO PEREIRA COUTINHO

Todos os anos, quando dezembro caminha para o fim, eu penso apenas no princípio. Como acomodar em casa os livros e as revistas que virão com 2008? Só existe um caminho: pela limpeza metódica dos livros e das revistas que ficaram de 2007.

Dito e feito: em cinco horas de labuta, acumulo cem livros, talvez mais, que rumarão para a biblioteca do bairro, para estantes de amigos, para o caixote do lixo. E depois trato das revistas, enfiando em sacos plásticos quilos e quilos de inutilidade impressa e salvando apenas uma mão cheia de artigos memoráveis. Quando anoitece, a casa está mais vazia e a porta de entrada mais cheia. Que venha o novo ano!

Mas então encontro entre os despojos de 2007 um soldado perdido de 2003. Um jornal, um anônimo jornal do dia 4 de setembro daquele ano, a mendigar leitura e atenção. Sento-me no sofá, vou folheando as páginas. Banalidades. Em Portugal, os partidos políticos discutiam ainda a ausência de armas de destruição maciça no Iraque. Na China, um tufão fizera 32 vítimas. Na Rússia, novos atentados em trem da capital. E a multinacional Avon, em enquete mundial, concluía que as mulheres brasileiras são as mais preocupadas com a estética. Valerá a pena guardar o jornal do dia 4, com as notícias do dia anterior?

Sim, talvez valha. Sobretudo quando o meu pai morreu no dia anterior. Dia 3 de setembro, recordo agora. A lembrança instala-se no momento em que fecho as páginas do jornal. E eu pergunto por que estranho motivo o guardei. Mistério. Talvez porque guardo mais do que seria necessário, ou desejável. Ou talvez para ilustrar, em todos os sentidos possíveis da palavra, como os dramas pessoais valem pouco quando o mundo inteiro avança na sua perfeita normalidade. Indiferente a nós e à nossa patética existência. Armas no Iraque. Tufões na China. Atentados na Rússia. Beleza no Brasil.

É a melhor explicação. Porque não é apenas o mundo que avança. Apesar de tudo, nós avançamos com ele e as perdas serão compensadas pelos presentes que virão. Não, não falo dos presentes que se embrulham no papel da época e se oferecem como manda a tradição natalícia. Falo dos outros, que se reúnem à mesa. Os sobreviventes. E que todos os anos, quando a noite de Natal se aproxima, sentem a ansiedade crescente de encontrar mais uma cadeira vazia.

Mas será que existem mesmo cadeiras vazias? Desde 2003 que a ansiedade regressa todos os anos. E, todos os anos, quando a noite chega e a família se reúne, eu posso jurar que encontro no rosto dos que ficaram o reflexo dos que partiram. Os gestos do meu pai. As expressões dele. As histórias e as memórias que eu conto, que eu escuto, que eu volto a contar. E existe sempre um comediante de serviço que aponta para a minha pobre cabeça e proclama, provavelmente embalado pelo álcool, ou pela nostalgia, que o cabelo do cronista, como o cabelo do meu pai, também me está a abandonar.

É justo assim. Não falo do cabelo, falo de fim. E falo de vós, leitores, a quem desejo um Natal feliz. Brindemos juntos em nome dos ausentes. Mas brindemos, sobretudo, em nome dos presentes. São eles que um dia brindarão por nós. [pensata 24/12/07]

a arte de recomeçar

Nobreza humana não está na coragem com que recebemos o infortúnio, mas na nossa capacidade de prosseguir

por JOÃO PEREIRA COUTINHO

OS PESADELOS acontecem. Uns tempos atrás, um conhecido escritor português contava-me que, chegando ao aeroporto de Caracas, o seu laptop foi roubado sem deixar rastro. Mas o pior não foi o laptop. Nunca é. O pior foi o conteúdo do laptop: um romance original, ou uma parte generosa dele, que só existia no computador. Nenhuma cópia de segurança em casa. Nenhum manuscrito. Nada de nada capaz de compensar a perda absoluta. Meses de trabalho, anos de trabalho, perdidos em segundos.

Ouvi o infortúnio com certo horror e fascínio. E depois recordei a mais bela história intelectual da Inglaterra do século 19, que sinceramente me comove até às lágrimas. Aconteceu com Thomas Carlyle, o notável historiador escocês, tal como ele a relata nas suas memórias. Durante anos de intenso labor e habitando uma pobreza excessiva, Carlyle completara o primeiro volume da sua história da Revolução Francesa. Contara com a ajuda do filósofo John Stuart Mill, que emprestara livros e dinheiro. E quando Stuart Mill, no final da odisséia, pediu de empréstimo o único manuscrito do trabalho para ler, aquele manuscrito que consumira a saúde e a juventude de Carlyle, este o emprestou, grato e honrado.

Foi uma hora funesta. No dia seguinte, Mill regressava, branco como um fantasma, para comunicar que o manuscrito fora acidentalmente consumido pelas chamas.

A descrição que Carlyle nos deixou nas “Reminiscences” ainda hoje emociona qualquer cristão: o estoicismo com que a notícia é recebida, apesar da mortificação interior; as três horas de conversa esforçadamente banal, como se fosse Mill a necessitar de consolo; e quando este deixou finalmente a casa do historiador, para infinito alívio do casal, a mulher de Carlyle, incapaz de fingir normalidade, abraçando um homem destroçado e chorando com o dramatismo que apenas concedemos às óperas clássicas. E as palavras de Carlyle, finalizando a cena, dirigidas a um Deus em que ele, para tragédia sua, não acreditava.

Mas a história não acaba aqui. A história acaba na minha estante, quando folheio, com uma reverência absoluta, a sua história da Revolução Francesa. Porque, depois da notícia das chamas, Carlyle sentou-se à mesa e recomeçou a partir das cinzas. Cada palavra, cada linha. Cada página.

Hoje, quando releio esse monumento de erudição, paixão e estilo, não encontro apenas um dos mais poderosos relatos sobre a glória e a miséria de 1789: as aspirações igualitárias e libertadoras da Bastilha que terminaram, como usualmente terminam, no terror das guilhotinas.

Encontro a evidência de que a nobreza do espírito humano não está na coragem com que recebemos o infortúnio. Mas na forma como o recebemos e, apesar de tudo, somos capazes de continuar. Mesmo quando o mundo nos parece perdido.

Livros de auto-ajuda? Sim, leitores; afinal, eles existem. Nas minhas piores horas, olho para esse volume aparentemente anônimo entre tantos volumes anônimos e há uma gratidão silenciosa e interior que me faz, tantas vezes, recomeçar. [FOLHA 24/10/07]

vamos trocar de mundos?

Portugal e Brasil podiam voltar a unir-se em certas épocas, oferecendo um ao outro o que não têm isoladamente

por JOÃO PEREIRA COUTINHO

O MUNDO não é justo. Existe fome, existe guerra, existe doença. Existe Fidel, existe Chávez, existe Mugabe. A minha conta bancária já conheceu melhores dias. Saramago continua a publicar. Daniel Galera também. A atriz Maria Fernanda Cândido não me telefona. E o Natal brasileiro não tem frio nem neve. Ó brasileiros, mas vocês não têm vergonha?

Pelos vistos, não. Uma amiga brasileira telefona e informa, com certo orgulho na voz, que o Brasil está quente. As praias estão lotadas. E os brasileiros andam nus pelas ruas, ou seminus, como Pedro Álvares Cabral os encontrou. Ou, como Zé Celso gosta de apresentá-los ainda, tanto faz. E na Europa?

Frio. Os termômetros desceram aos negativos. Cai neve em certas regiões. O cenário ideal para o Natal, com lareira acesa, intimidade e o barbudo a voar com as renas, de chaminé em chaminé. E charutos, e conhaque, e peru assado. Qualquer brasileiro normal já teria emigrado a esta altura do ano, reclamando o seu cenário Charles Dickens. Natal com praia e caipirinha é o supremo anticlímax. É como dormir com Monica Bellucci e acordar com Madeleine Albright. Pode? Infelizmente, não posso rir. A Europa também não. Portugal, muito menos. E, quando chega fevereiro, é a vez de os brasileiros se rirem dos portugueses.

Carnaval no Rio. Samba. Calor e transpiração. O frio continua na Europa, mas os portugueses gostam de imitar o clima tropical que não têm. Todos os anos, com temperaturas negativas, existem escolas de samba nas principais cidades lusitanas. Eu gosto de ver os desfiles, não só pelas meninas semidespidas que dançam, mas para adivinhar o momento em que elas desmaiam com o frio. Já assisti a desfiles sob chuva intensa. Granizo. Neve. Furacões. Mas a alegria não pára. Ou, melhor, só pára quando é preciso chamar os bombeiros e quebrar os cubos de gelo em que se transformaram os foliões.

Por isso, proponho: há 200 anos, a família real deixou Lisboa para fugir aos franceses. Chegou ao Rio, instalou a corte e, 14 anos depois, os dois países disseram adeus para todo o sempre. Falta de inteligência, não?

Portugal e Brasil podiam voltar a unir-se em certas épocas do ano, oferecendo um ao outro o que nenhum deles tem isoladamente. Claro, o tamanho do Brasil não cabe em Portugal. Mas Portugal tem a União Européia, ou seja, um continente inteiro. Em dezembro, Portugal poderia oferecer o clima da Europa e o cenário perfeito para um Natal sem bermuda ou chinelão. No Carnaval, o Brasil poderia oferecer o calor dos trópicos aos portugueses, ajudando meu país a baixar a taxa de mortalidade sazonal por gripes, pneumonias e infecções carnavalescas. [FOLHA 19/12/07]

fuzilar é preciso?

A pergunta vale a todos os totalitarismos, de esquerda ou direita, que apostaram na criação da sociedade perfeita

por JOÃO PEREIRA COUTINHO

JANTO EM Lisboa. No meio do jantar, alguém confessa certa atração por Che Guevara, um dos homens mais bonitos da história. A mesa concorda. Eu também. E depois acrescento que tanta beleza só tinha um defeito. Os fuzilamentos. “Se o Che não tivesse fuzilado tanto”, afirmo, entre duas garfadas, “talvez ainda fosse mais bonito”.

Escândalo entre os comensais. Che Guevara, o herói das cami- setas e da foto hagiográfica de Alberto Korda, transformado em criminoso?

Não vale a pena contar a história: qualquer criança alfabetizada sabe que a revolução cubana, ao contrário da portuguesa, não se fez com flores; fez-se com balas, execuções sumárias, campos de concentração e outros engenhos que Ernesto Guevara copiou da União Soviética e da China, dois paraísos que ele admirava com fervor. Opinião minha? Longe disso. Fatos. É o próprio Guevara quem, nos seus relatos, partilha orgulhosamente com os leitores alguns momentos de bravura: momentos em que a construção do “homem novo” em Cuba, na África, na Bolívia exigia o derramamento de sangue e a pura destruição de outras vidas. Encostar uma arma à cabeça de um ser humano indefeso e disparar sem hesitar: haverá coisa mais brava do que essa?

Eis a questão. O ponto já não está em saber se Guevara matou em abundância. O próprio confessa que sim, e a história confirma. O ponto está em saber se Guevara fez bem em matar abundantemente. A pergunta, aliás, não se limita a Che Guevara. Ela é extensível aos totalitarismos, de esquerda ou de direita, que atravessaram o século 20 e apostaram na criação de uma sociedade perfeita.

A utopia terrena desculpa tudo? Desculpa a violência e o crime? De Robespierre a Stálin, de Hitler a Mao, sem esquecer os comediantes sinistros da América Latina, como Fidel ou o próprio Guevara, cuja ferocidade horrorizava até o próprio Fidel, a resposta foi várias vezes afirmativa. Não se fazem omeletes sem quebrar alguns ovos, dizia Lenin nos seus momentos de humor.

E dizem aqueles que, mesmo sabendo dos crimes de Guevara, entendem que o propósito era nobre. Por isso, Guevara sobrevive como figura pop. Sim, o homem era bonito. E, sim, a ignorância histórica ajuda sempre à consagração dos carrascos.

Mas Guevara sobrevive porque existe ainda uma superioridade moral do comunismo sobre outras expressões totalitárias, a começar pelo fascismo e pelo nazismo. Razões? O comunismo opôs-se a ambos, apesar do pacto germano-soviético de 1939 (que Hitler esqueceu ao invadir a União Soviética, e que esqueceram os que preferem não recordar o dueto entre Stálin e o tio Adolf).

E o comunismo, ao contrário do nazismo e do fascismo, também transporta uma promessa igualitária de salvação terrena que sempre foi um ópio para intelectuais. Apesar das tragédias conhecidas.

Quarenta anos depois da morte de Guevara, a pergunta é inevitável: fuzilar é preciso? Escutando em volta as saudades pelo Santo Che, ainda existe por aí muita gente que apertava o gatilho de cabeça limpa. [FOLHA 10/10/07]

multiculturalismo 1

O mundo de todos os perigos

por JOÃO PEREIRA COUTINHO

Navegar é preciso, dizia o poeta. Morrer não é preciso, digo eu. Chego a Londres para uns dias de “flânerie” inocente e leio nos jornais que Gillian Gibbons desejaria ficar no Sudão, se deixassem.

Primeira pergunta: quem é Gillian Gibbons? Ora, ora. Difícil esquecer, leitores: Gillian, professora inglesa de meia idade, deixou Inglaterra e foi para o Sudão dar aulas em colégio privado, o sonho de qualquer pessoa racional. Certo dia, cometeu a imprudência de convidar os alunos a batizar um inocente ursinho de peluche. Os alunos escolheram “Muhammad” e a professora, denunciada e presa pelas autoridades, foi acusada de blasfémia e incitamento à rebelião. A proeza, normalmente, costuma dar cadeia e punição física. A justiça sudanesa pedia 3 anos de prisão e 40 chicotadas públicas para Gillian. A multidão enlouquecida, mais moderada, recusava a prisão e as chicotadas; e clamava simplesmente pela morte da professora.

Levada a tribunal, Gillian teve sorte e conheceu 15 dias de presídio, posteriormente perdoados mediante extradição imediata para Inglaterra. E foi no momento da partida que Gillian confessou a sua mágoa: se as autoridades deixassem, ela ficaria em Cartum. O seu coração estava com os sudaneses, disse ela. Bonito, bonito. E eu tenho a certeza que a multidão enlouquecida que se foi despedir da professora ao aeroporto também gostaria que ela tivesse ficado. Se o coração estava com os sudaneses, por que não deixar também as mãos, os pés, os braços, as pernas e a cabeça?

Mas Gillian não ficou. E, se não ficou, é importante colocar uma segunda pergunta: para onde, agora? Alguém como Gillian Gibbons não se contenta em viver no Ocidente corrupto onde, inexplicavelmente, todo o mundo deseja entrar. O Ocidente é chato e, mais do que chato, não tem o exotismo “puro” e “selvagem” que é possível encontrar em África, sobretudo no Sudão e, dentro do Sudão, no inesquecível Darfur. Nós, no Ocidente, temos estados de direito, liberdades cívicas e políticas, separação entre a Igreja e o Estado, separação de poderes, eleições limpas e regulares etc. etc. etc. Não apedrejamos mulheres adúlteras. Não apedrejamos homossexuais. Não cortamos os membros de ladrões incompetentes. Não temos por hábito enforcar criminosos na praça pública. Será possível viver neste caldo morno sem morrer de tédio ao final da tarde?

O problema é que o resto do mundo não está fácil para Gillian. Sobretudo se a professora inglesa tem particular talento para cometer “gaffes” entre os nativos. Sentado num café simpático junto a Picadilly, folheio os jornais do dia e encontro no “Daily Telegraph”, junto às declarações lacrimejantes da professora, um guia salvífico para turistas multiculturais. Gestos e comportamentos a evitar quando o turista multicultural, de sacola ao ombro, parte pelo mundo na busca do Outro.

Primeiro, o Outro pode não gostar de beijos ou carícias. Na Arábia Saudita, por exemplo, homens e mulheres devem evitar dar aos mãos em público, para não falar de ósculos apaixonados, com língua ou sem ela. Ainda no Oriente Médio, está fora de questão apontar para os sapatos quando se fala com alguém, uma forma indireta de chamar sujo ao outro, ou reles, ou rasteiro. Na China, é pecado oferecer relógios de presente. No México, prata. Na Índia, objetos de pele. No Japão, pecado é abrir os presentes na cara de quem os oferece. Mas grave, mesmo grave, é usar um lenço em público para assoar o nariz. Melhor usar as mãos. Ou a manga do casaco. Ou não ter sinusite.

De resto, caro leitor, não coma com a mão esquerda em África. Ou na Índia. A mão esquerda é “indigna”, isto é, usada para outro tipo de atividades (sorry, canhotos). E, pela vossa saúde, nunca batam na cabeça de um budista: a cabeça é o lugar da alma e pode haver mortes se o fizerem inocentemente, embora seja quase irresistível dar um tapa num budista. E se o leitor é empresário com interesses orientais, cuidado: quando um japonês oferece seu cartão pessoal, é ofensivo não perder uns segundos a examinar atentamente o cartão. Guardá-lo de imediato é considerado insultuoso para um japonês, e para os seus antepassados, e para os antepassados dos antepassados, e para bairros inteiros, de Kagoshima a Hakodate.

E, escusado será dizer, se o leitor tenciona batizar um ursinho de peluche no Sudão com o nome do Profeta, mude de idéias: o nome do Profeta não deve ser usado em vão. Só para coisas sérias e sagradas. Como apedrejar mulheres adúlteras. Cortar os membros de ladrões incompetentes. Enforcar criminosos em público. E, claro, partir em safari com as autoridades locais para matar uns milhares de negros pelas pradarias do Darfur. [pensata 10/12/07]

10 dias a mais para viver

Meu celular está no fundo do rio Tejo desde o 1º de janeiro, resolução que cumpri nas primeiras horas da madrugada

por JOÃO PEREIRA COUTINHO

O NATAL está próximo e eu, em gesto altruísta, tenciono falar com os meus leitores. Literalmente. Podem marcar o +351917363. Só existe um problema: o meu celular está no fundo do rio Tejo desde o 1º de janeiro de 2007. Resolução anual que cumpri nas primeiras horas da madrugada: em estado etílico razoável, parei o carro na ponte de Lisboa e bati recorde olímpico no lançamento do bicho. Ele voou como um pássaro ferido e desapareceu nas águas. Telefonem, leitores. Talvez uma sereia os atenda.

Arrependido? Não. Aliviado. Durante um ano inteiro, não fui importunado por chamadas impróprias a horas impróprias. Não li mensagens mal pensadas e mal escritas. Os meus amigos, inicialmente críticos, passaram a aparecer (fisicamente) e a conversar (presencialmente). E não tive de responder à pergunta mais selvagem da civilização ocidental (“Querido, onde está?”).

Melhor: se as estatísticas servem para alguma coisa -cada adulto utiliza 240 horas de celular por ano- a poupança não foi apenas econômica. Foi mental. Duzentas e quarenta horas são dez dias a mais para viver.

Infelizmente, os outros ainda não seguiram o meus exemplos e eu sou constantemente agredido por conversas alheias. Quem janta com quem. Quem dorme com quem. Quem tem saudades de quem.

E quando não são conversas, são os toques do aparelho: temas pop; temas clássicos; temas clássicos em versão pop; tiros; gritos; risadas. Dizem que o toque de celular é expressão de personalidade. Será? Então bem-vindos ao manicômio.

Mas por pouco tempo. Cientistas israelenses descobriram o que eu há muito esperava: o celular pode provocar câncer. Nas páginas do “American Journal of Epidemiology”, foi pela primeira vez estabelecida uma ligação séria entre o uso prolongado do aparelho e alguns tumores nas glândulas salivares.

E a melhor parte da descoberta é que os especialistas ouvidos a respeito avisam que o celular não provoca apenas danos no próprio; também pode afetar terceiros: gente inocente, como eu, e dramaticamente exposta aos campos eletromagnéticos que podem despertar leucemia ou algum tumor cerebral.

Por outras palavras: durante décadas, fanáticos vários acabaram com o fumo em cafés ou restaurantes porque o vício, alegadamente, prejudicava os “fumantes passivos”. Se as descobertas israelenses ganharem força de lei, eu serei o primeiro a bater no ombro do companheiro falador. E a dizer-lhe, com a educação possível, para ele calar a boca e rumar para o rio Tejo. A vingança serve-se líquida. [FOLHA 12/12/07]