Razão e política

Uma das coisas que mais chamam a atenção no debate político é a falta de coerência.

Não me refiro aos debates dos políticos profissionais, pois desses não espero coerência nenhuma, aliás, não espero nada mais do que um show de marketing.


Também não me refiro ao debate de e entre jornalistas como o Rex Fallaciae (também conhecido como Rex vero Transformationes), pois estes não fazem realmente jornalismo, mas política partidária; aliás, costumam declarar esse absurdo com muito orgulho: eu faço oposição!; aqui se faz oposição pra valer! — Credo.


Refiro-me sim ao debate entre cidadãos, amigos, colegas, conhecidos, no mundo real ou no virtual. Vou dar um exemplo.


Muitos esquerdistas convictos e até militantes defendem a tese segundo a qual no primeiro turno se deva votar ideologicamente e apenas no segundo, utilmente, e isso em qualquer cenário.


Na minha opinião, trata-se de uma contradição. Vejamos o cenário atual. A Dilma, segundo as últimas pesquisas, atingiu mais de 45% dos votos válidos. Uma delas constatou 47%. Como a curva da presidenta é ascendente, é de se esperar que ela esteja ainda acima desse número, mesmo que dentro da margem de erro.


Isso significa que a candidata à reeleição pode vencer o pleito já no primeiro turno, ou então deixar de vencer por uma margem muito pequena de votos.


Ora, os votos por convicção, ideológicos, “inúteis” desses esquerdistas podem até mesmo ultrapassar essa pequena margem. Portanto, esses votos poderiam decidir a eleição já no primeiro turno a favor da candidata, na qual, muito provavelmente, esses eleitores votarão no segundo turno.


Se é assim, então por que arriscar? Por que pôr em risco as políticas públicas inclusivas levadas a cabo pela Dilma e por seu partido?


Para fazer história? Fazer constar formalmente a própria opinião? Para fortalecer determinada agenda política?


Digamos que isso tudo faça algum sentido, o que eu duvido. A pergunta que resta é: o que adianta fazer história etc. se a eleição for vencida no segundo turno por um dos outros dois candidatos?


Alguns diriam que este é o preço da “revolução”; outros, que não se pode abdicar do idealismo político; outros ainda diriam que todos os candidatos viáveis não são mesmo de esquerda, inclusive a Dilma do PT.


Bom, na minha opinião, esses “contra-argumentos” são ainda mais ingênuos do que contraditórios.


Não se faz revolução alguma com as armas do próprio sistema que se pretende revolucionar. O idealismo político em geral é irresponsável, uma vez que tem como fim a própria convicção política em detrimento do bem comum (como é o caso aqui). E é claro que o PT e a Dilma não são de esquerda, ora essa; este não é um país socialista, e nem mesmo social-democrata (e é justamente por isso que as políticas sociais implantadas têm tanto valor).


Enfim, todas as contas feitas, o bem intencionado esquerdista convicto pode ser diretamente responsável pela derrota de um programa social inédito neste país por uma questão de simples orgulho ideológico.


Raro leitor, reflita comigo. Se é para entrar no jogo sujo da política real, desta suposta democracia representativa, depositando, digo, digitando o seu valioso (!) voto na urna neste domingo, então que o faça de modo racional, calculando com frieza as possíveis consequências de sua escolha.


As grandes corporações de mídia, os grandes bancos e as grandes empreiteiras não jogaram a toalha e certamente vão endurecer o jogo num eventual segundo tempo.


Boa sorte!