ética sentimental

HUME, David [1711-76]. Tratado sobre a natureza humana [1748]

[1] Recentemente, teve início uma controvérsia, mui digna de ser examinada, acerca dos fundamentos gerais da moral, quanto a se derivariam eles da razão ou do sentimento; se nós alcançamos o seu conhecimento por meio de uma série de argumentos e da indução ou então por meio de um sentimento imediato e de um apurado sentido interno; se, como todo bem fundamentado juízo de verdade e de falsidade, tal conhecimento é o mesmo para todos os seres dotados de razão e inteligência, ou se, a exemplo da percepção do belo e do feio, ele se baseia inteiramente na estrutura e na constituição particular dos homens.

[2] Os argumentos apresentados por ambas as partes são tão plausíveis que eu tendo a suspeitar que tanto uns como os outros podem ser sólidos e satisfatórios e que tanto a razão quanto o sentimento participam de quase todas as determinações e conclusões morais.

[3] É provável que a sentença final que julga os caracteres e as ações amáveis ou odiosas, dignas de apreço ou de desaprovação, aquela que nelas imprime a marca da honra ou da infâmia, da aprovação ou da censura, aquela que torna a moral um princípio ativo e que faz com que a verdade seja a nossa felicidade e o vício a nossa infelicidade, é provável, digo, que essa sentença final dependa de algum sentido ou sentimento interno, posto universalmente pela natureza em todos os homens.

[4] Mas para preparar o caminho para tal sentimento e alcançar um justo discernimento dos seus sujeitos, achamos que muitas vezes é necessário que seja precedido de muitos raciocínios, que se façam cuidadosas distinções, que se tirem conclusões certas, que se coloquem em confronto objetos distantes, que se examinem relações muito complexas e que se determinem e comprovem fatos de caráter geral…

[5] Mas, ainda que essa questão, que diz respeito a princípios gerais da moral, seja importante e digna de atenção, é inútil que nós, no momento, preocupemo-nos com semelhantes investigações. De fato, se tivermos tanta sorte, no decorrer dessa investigação, a ponto de descobrir a verdadeira origem da moral, ver-se-á então facilmente em que parte o sentimento e a razão entram em todas as determinações de tal natureza.

[6] Para alcançar esse resultado, procuraremos seguir um método muito simples; analisaremos aquele conjunto de qualidades que constituem aquilo que, na vida comum, denominamos mérito pessoal; consideraremos toda qualidade da mente que possa tornar o homem objeto tanto de estima e afeto quanto de ódio e desprezo, cada hábito ou sentimento ou faculdade que, se atribuído a alguém, envolva louvor ou desaprovação, e possa entrar ou em um panegírico ou em uma sátira do seu caráter ou do seu comportamento.

[7] A viva sensibilidade sobre esse ponto, que se acha tão amplamente distribuída entre os homens, dá a um filósofo suficiente segurança de poder não errar muito ao formular o catálogo das qualidades em questão ou de não incorrer no perigo de apresentar incorretamente os objetos da sua contemplação; basta que ele entre no seu coração por um momento e considere se desejaria ou não que lhe fosse atribuída esta ou aquela qualidade e que esta ou aquela imputação partisse de um amigo ou de um inimigo…

[8] O raciocínio não tem outra tarefa senão a de descobrir as circunstâncias que são comuns a tais qualidades, em um sentido ou no outro, de prestar atenção àquilo para o qual convergem de um lado as qualidades que comportam estima e do outro as qualidades que comportam desaprovação, e, portanto, de alcançar o fundamento da ética e de encontrar aqueles princípios gerais dos quais derivam por fim toda desaprovação e toda aprovação.

[9] Uma vez que essa última é uma questão de fato e não de ciência abstrata, nós podemos esperar algum resultado somente se seguirmos o método experimental, deduzindo máximas gerais a partir da comparação de casos particulares.

[10] O outro método científico, com que primeiro se estabelece um princípio geral abstrato que depois se ramifica numa variedade de inferências e conclusões, pode ser em si mesmo o mais perfeito, mas adapta-se menos à imperfeição da natureza humana e é habitualmente fonte de ilusão e erro nesta como em outras matérias.

[11] Os homens a esta altura já se curaram da sua paixão por hipóteses e por sistemas de filosofia da natureza e só prestarão atenção aos argumentos derivados da experiência. É o momento agora de tentarem uma reforma semelhante em todas as investigações morais e de rejeitarem qualquer sistema de ética, por mais sutil e engenhoso que seja, que não se mostre fundado nos fatos e na observação.

bundle theory

HUME, David [1711-76]. Tratado sobre a natureza humana [1748]

[1] Gostaria muito de perguntar aos filósofos que baseiam a maior parte dos seus raciocínios na distinção entre substância e acidente e imaginam que nós tenhamos idéias claras acerca de uma e de outro se a idéia de substância nos vem das impressões de sensações ou das impressões de reflexão.

[2] Se nos é transmitida pelos sentidos, que nos digam quais e de que modo; se for percebida pelos olhos, deve ser uma cor; se pelos ouvidos, um som; se pelo paladar, um sabor; e assim para os demais sentidos. Quero crer que ninguém desejará sustentar que a substância seja ou uma cor ou um som ou um sabor.

[3] A idéia de substância, se realmente existir, deve, portanto, derivar de uma impressão de reflexão. Mas as impressões de reflexão reduzem-se às nossas paixões ou emoções, nenhuma das quais pode representar uma substância.

[4] Logo, não temos nenhuma idéia de substância que seja distinta daquela de uma coleção de qualidades particulares, nem podemos atribuir-lhe nenhum outro significado quando falamos ou raciocinamos sobre ela.

[5] Uma idéia de substância, assim como a de modo, não é mais que uma coleção de idéias simples unidas pela imaginação, e que têm um nome particular a elas atribuído, com o qual podemos evocar em nós mesmos e nos outros essa coleção.

[6] Mas a diferença entre todas essas idéias consiste em que as qualidades particulares que formam uma substância são comumente relacionadas a algo desconhecido, a que se supõe sejam intrínsecas.

[7] Ou seja, se reconhecer-se que essa função não pode ter lugar, pensa-se que,
pelo menos, está estrita e indissoluvelmente unida por relações de contigüidade e causalidade: por isso, quando descobrimos que alguma nova qualidade simples tem a mesma conexão com as outras, imediatamente nós a juntamos a elas, mesmo que não estivesse presente em nossa primeira representação daquela substância.

[8] Assim, a idéia do ouro pode inicialmente ser a de uma certa cor amarela, de um certo peso, de uma certa maleabilidade e fundibilidade; mas, descoberta a sua solubilidade em água-régia, juntamos essa qualidade às outras, supondo que ela pertença à substância como se desde o início a sua idéia tivesse feito parte daquela idéia complexa.

[9] O princípio de união, sendo considerado como a parte principal e até mesmo constitutiva da idéia complexa, permite a junção de qualquer qualidade que se apresente depois, que passa assim a ser compreendida naquela idéia complexa como as outras que lá estavam antes.

sinuca psicológica

HUME, David [1711-76]. Tratado sobre a natureza humana [1748]

[1] Temos aqui uma bola de bilhar parada sobre uma mesa e uma outra bola se movimenta rapidamente em direção a ela; as duas bolas se chocam e aquela que estava parada ganha movimento. Esse é um exemplo da relação de causa e efeito tão perfeito quanto qualquer outro entre aqueles que podemos conhecer por meio da sensação e por meio da reflexão. Portanto, passemos a examiná-lo.

[2] É evidente que as duas bolas se tocaram antes que o movimento fosse transmitido à bola parada e que não houve intervalo entre os movimentos da primeira e da segunda bola. Logo, a contigüidade no tempo e no espaço é uma circunstância exigida para que se produza uma causa qualquer. Também é evidente que o movimento que é causa precede o movimento que é efeito. Assim, a prioridade no tempo é outra circunstância que se exige de toda causa.

[3] Mas isso não é tudo. Façamos a prova com outras bolas quaisquer, da mesma espécie, em circunstâncias iguais, e verificaremos que o impulso de uma produz o movimento da outra. Eis, portanto, uma terceira circunstância, ou seja, a da conjunção constante entre a causa e o efeito. Qualquer objeto semelhante à causa produz sempre algum objeto semelhante ao efeito. Nessa causa não posso descobrir nada além dessas circunstâncias de contigüidade, prioridade e conjunção constante.

[4] A primeira bola está em movimento e toca a segunda; imediatamente, a segunda põe-se em movimento, e quando faço a prova com a mesma ou com outras bolas semelhantes, na mesma circunstância ou em circunstâncias semelhantes, verifico que depois do movimento e do choque de uma segue-se sempre o movimento da outra. De qualquer lado que eu veja, e por mais que examine, não posso encontrar mais nada. É isso o que ocorre quando a causa e o efeito estão presentes aos sentidos.

[5] Vejamos, agora, no que se baseia a nossa inferência quando concluímos, a partir da presença de um desses movimentos, que o outro existiu ou existirá. Suponhamos que eu veja uma bola que se movimenta em linha reta em direção à outra; imediatamente concluo que elas se chocarão e que a segunda se porá em movimento. Essa é a inferência da causa para o efeito; e são da mesma natureza todos os raciocínios que fazemos na condução da vida; sobre isso se baseia toda a nossa crença na história e daí deriva toda filosofia, com exceção da geometria e da aritmética. Se pudéssemos explicar a inferência que fazemos do choque das duas bolas, também seríamos capazes de explicar essa operação da mente em todos os outros casos.

[6] Um homem que fosse criado como Adão, no pleno vigor da sua inteligência, mas sem experiência, não seria capaz de inferir, a partir do movimento e impulso da primeira bola, o movimento da segunda. Não existe na causa nada que a razão veja e nos leve a inferir o efeito. Se fosse possível tal inferência, ela equivaleria a uma demonstração, posto que estaria fundada somente na comparação das idéias.

[7] Mas nenhuma inferência da causa para o efeito equivale a uma demonstração. Eis uma prova evidente disso. A mente pode conceber que um efeito qualquer tenha por trás uma causa qualquer e que um evento qualquer acompanhe outro; ora, tudo quanto concebemos é possível, ao menos no sentido metafísico; mas onde quer que ocorra uma demonstração, o contrário é impossível e implica contradição.

[8] Portanto, não existe demonstração para uma conjunção qualquer de causa e efeito. E esse é um princípio geralmente admitido pelos filósofos. Logo, teria sido necessário que Adão (salvo em caso de uma inspiração divina) tivesse tido experiência do efeito sucessivo ao choque das duas bolas. Ele deveria ter visto, em outros casos, que quando uma bola se choca com outra a segunda sempre se põe em movimento.

[9] Se tivesse visto um número suficiente de casos desse gênero [jogo de bilhar], toda vez que visse uma bola se movimentando em direção a uma outra, [Adão] concluiria sem hesitar que a segunda iria movimentar-se. O seu intelecto anteciparia a sua vista e formaria uma conclusão conforme a sua experiência passada.

[10] Daí resulta, então, que todos os raciocínios que dizem respeito à causa e ao efeito estão fundados na experiência e que todos os raciocínios que derivam da experiência estão fundados na suposição de que o curso da natureza continuará a ser uniformemente o mesmo. Nós concluímos que causas semelhantes, em circunstâncias semelhantes, produzirão sempre efeitos semelhantes. Pode ser oportuno agora considerar o que nos leva a formular uma conclusão de tão infinita amplitude.

[11] É evidente que Adão, com todo o seu saber, jamais poderia ter demonstrado que o curso da natureza deve continuar a ser uniformemente o mesmo e que o futuro deve ser conforme o passado. Nunca se pode demonstrar que é falso aquilo que é possível; e é possível que o curso da natureza possa mudar, a partir do momento em que nós podemos conceber tal mudança.

[12] Mas digo mais e afirmo que Adão não teria conseguido provar com quaisquer argumentos prováveis que o futuro deva ser conforme o passado.

[13] Todos os argumentos prováveis estão fundados na suposição de que existe conformidade entre o futuro e o passado e logo não podem provar tal suposição. Essa conformidade é uma questão de fato e, se tiver de ser provada, não admitirá outra prova senão aquela extraída da experiência. Mas a nossa experiência do passado não pode provar nada para o futuro, a não ser com base na suposição de que existe uma semelhança entre passado e futuro. Portanto, esse é um ponto que absolutamente não admite prova alguma e que nós damos por aceito sem qualquer prova.

3. colóquio hume

Belo Horizonte/MG, 28 a 31 de agosto de 2007
Universidade Federal de Minas Gerais

PROMOÇÃO:
Grupo Hume (UFMG-CNPq) e Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFMG

APOIO:
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – FAFICH/UFMG, Departamento de Filosofia/UFMG, Curso de Especialização em Temas Filosóficos/UFMG, PAIE/UFMG, FAPEMIG, Capes, CNPq.

INSCRIÇÕES:
As inscrições para exibição de painéis devem ser feitas até o dia 10 de agosto de 2007 e a inscrição para participação como ouvinte deverá ser feita até o dia 28 de agosto de 2007, ambas pelo e-mail: grupohume@gmail.com

Programa:

Dia 28 /08/2007 — terça-feira
13:30 Abertura
14h00 Palestra: Prof. Dr. Wade Robison (Rochester/EUA)
Hume, Descartes, and Adam
16h00 Intervalo
16h30 Palestra: Prof. Dr. João P. Furtado (UFMG)
Leituras e leitores em torno da idéia de liberdade

Dia 29/08/2007 — quarta-feira
9h30 Palestra: Prof. Dr. Renato Lessa (IUPERJ)
Variações céticas na escritura de ensaios: conversas entre Michel de Montaigne e David Hume
11h00 Palestra: Prof. Dr. Cícero Araújo (USP)
Hume e o tema da “civilização”
12h30 Almoço
14h00 Palestra: Prof.ª Dr.ª Isabel Limongi (UFPR)
Regras gerais, reflexão e ceticismo no livro I do Tratado da Natureza Humana
15h30 Intervalo
16h00 Palestra: Prof. Dr. Adriano Naves de Brito (Unisinos)
Hume e o universalismo na moral: por uma abordagem não-kantiana
17h30 Palestra: Prof. Dr. André Klaudat (UFRGS)
Os fundamentos da filosofia moral de Hume

Dia 30/08/2007 — quinta-feira
9h30 Palestra: Prof. Dr. João Paulo Monteiro (USP)
On the Interpretation of Hume
Debatedor: Prof. Dr. Silvio Marques (UFSCAR)
11h30 Palestra: Prof. Dr. Silvio Chibeni (Unicamp)
Um tipo de “geografia mental”: comentários sobre a ciência da natureza humana de Hume
13h00 Almoço
14h30 Palestra: Prof.ª Dr.ª Sara Albieri (USP)
Impressões, idéias e o conhecimento do mundo exterior: a correção de Hume à teoria de Locke
Debatedor: Prof. Dr. Jaimir Conte (UFRN)
16h30 Intervalo
17h00 Apresentação de painéis

Dia 31/08/2007 — sexta-feira
9h30 Palestra: Prof. Dr Tito Magri (La Sapienza/Roma)
The Structure of Imagination in Book I of the Treatise
Debatedora: Profa. Dra. Déborah Danowski (PUC-Rio)
11h30 Palestra: Prof. Dr. João Carlos Salles (UFBA)
Naturalismo e Filosofia
13h00 Almoço
14h30 Palestra: Prof.ª Dr.ª Lívia Guimarães (UFMG)
Ceticismo e crença religiosa em Hume
16h00 Intervalo
16h30 Palestra: Prof. Dr. José Raimundo Maia Neto (UFMG)
A influência de Locke no ceticismo religioso de Hume no “Dos Milagres”
18h00 Palestra: Prof. Dr. David Owen (University of Arizona/EUA)
Belief and the Passions
Debatedor: Prof. Dr. Paulo Margutti (FAJE/UFMG)

revista sképsis

O GT Ceticismo da ANPOF vem anunciar à comunidade filosófica nacional o lançamento de sua revista Sképsis – Revista de Filosofia, que já se encontra disponível em versões impressa e on line: www.revista-skepsis.com

Trata-se de uma revista semestral destinada a veicular o debate entre os membros do GT e os demais interessados na temática do ceticismo, cujas submissões serão bem-vindas. O primeiro número contém artigos de Oswaldo Porchat, Plínio Smith, Danilo Marcondes, José Raimundo Maia Neto e Robert Fogelin, bem como a tradução de um breve texto de Hume e ainda um
“book symposium” com resenhas em torno do livro Do começo da filosofia e outros ensaios, de Plínio Smith.