Um lógico na ilha da fantasia

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O Estado de São Paulo: VIDA&

Domingo, 10 fevereiro de 2008

Um lógico na ilha da fantasia

Pensador brasileiro com mais reconhecimento no exterior, Newton da Costa tem seus livros reeditados

por DANIEL PIZA

No final dos anos 50, Newton da Costa já era formado em Engenharia e Matemática e colaborador de publicações francesas quando procurou o reitor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) com uma proposta. Queria trazer professores estrangeiros, como seu mentor Marcel Guillaume, para ajudar a montar um centro de pesquisa de lógica e matemática em Curitiba. O reitor vetou o projeto e justificou: “Pode citar qualquer especialista estrangeiro em qualquer assunto, e lhe dou o nome de alguém aqui melhor do que ele.” Newton pensou em replicar: “Einstein?” Preferiu ficar quieto.

Em 2002, o respeitado jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung publicou uma matéria sobre ele. Título: “Newton ist brasilianer.” Era um trocadilho com o nome de Isaac Newton, o físico inglês: “Newton é brasileiro.”

As duas histórias mostram uma constante na vida de Newton da Costa, hoje aposentado, prestes a completar 79 anos, vivendo em Florianópolis “como se vivesse numa ilha da fantasia”. Ele é o pensador brasileiro mais respeitado mundialmente, reconhecido pelo desenvolvimento da lógica paraconsistente, hoje utilizada em diversos sistemas computadorizados. Mas é pouco conhecido no Brasil, onde há quem diga que nem sequer existe um filósofo brasileiro (ou então se chama de filósofo qualquer professor de filosofia).

Isso, no entanto, começa a mudar. Em março, a editora Hucitec lança as reedições de três de seus livros: Introdução aos Fundamentos da Matemática, de 1961, revisado em 1976; Ensaio sobre os Fundamentos da Lógica, de 1979, considerado seu livro mais importante; e Lógica Indutiva e Probabilidade, de 1990. Newton da Costa, em entrevista ao Estado, também diz ter ficado contente com a citação de seu nome pelo cineasta José Padilha, diretor de Tropa de Elite e engenheiro de formação, como uma das personalidades mais influentes do Brasil em enquete da revista Época.

O curioso é que Newton Carneiro Affonso da Costa nunca precisou deixar o País para desenvolver uma teoria de fama mundial. Nascido em Curitiba em 16 de setembro de 1929, ele, “mau aluno”, atribui ao ambiente familiar sua curiosidade e independência. A mãe era professora de literatura francesa; a tia, de literatura inglesa; outra tia, de literatura portuguesa. Um tio, Milton Carneiro, dava aulas de filosofia. O pai, funcionário público, gostava de matemática e do positivista francês Auguste Comte. O irmão mais velho de Newton, Haroldo, se tornaria geômetra.

“Na hora da refeição, só falávamos sobre esses assuntos”, lembra Newton. “Minha mãe proibia usar a primeira pessoa, ficar falando o que tinha feito durante o dia. Ela queria que se falasse sobre idéias, sobre política, filosofia, literatura.” Foi numa conversa com o tio que surgiu a dúvida que embasaria toda sua carreira: o que é o conhecimento – em especial, o conhecimento científico? A conversa era sobre a impossibilidade de uma pessoa provar que existe e que a existência não passa de ilusão dos sentidos. E um livro logo daria impulso a essas questões: Discurso do Método, de Descartes, que Newton leu aos 15 anos. “Li, reli, li e reli de novo.”

Autores
Brotava ali o filósofo da lógica, um caso raro entre intelectuais brasileiros de pensador metódico, sistemático. Ainda na adolescência, Newton descobriu os cinco autores que até hoje diz que mais o influenciaram: W.V. Quine, Rudolf Carnap, Karl Popper, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein. São todos da escola conhecida como “filosofia analítica”, que nas primeiras décadas do século 20 se dedicou a abordar questões filosóficas com auxílio da matemática. No Brasil, poucos foram os seguidores dessa linha de pensamento. O maior de todos é, sem dúvida, Newton da Costa, professor da Universidade de São Paulo por 30 anos.

Mas foi para a Universidade Estadual de Campinas que ele doou quase toda sua biblioteca de lógica e matemática, incluindo documentos importantes de sua carreira. Num cômodo – “meu cubículo”, como chama – de seu apartamento no centro de Florianópolis, onde vive há cinco anos, restam apenas os livros dos autores que mais o marcaram. Lá está o quinteto analítico, com destaque em número de volumes para Russell. Numa prateleira, vê-se uma montagem feita por alunos de uma foto de Newton diante de Russell – um encontro que nunca houve na realidade, embora fosse um dos maiores sonhos do brasileiro. “Russell foi, de longe, o autor que mais li, mesmo sem concordar com tudo. Era um gênio e escrevia como ninguém.”

Com quem, então, mais concordou? “Com Wittgenstein, sem dúvida. O Wittgenstein do Tractatus Logico-Philosophicus (1921), não dos outros livros.” Isso porque o pensador austríaco vislumbrava uma lógica com contradições, diferente da versão ortodoxa – e essa foi uma abertura fundamental para o conceito de “paraconsistência”. Russell, quando leu o tratado de Wittgenstein, decretou: “Ou você é um louco ou um gênio.” Wittgenstein também teve discussões agudas com Popper, outro autor a quem Newton deve muito, não só por uma filosofia da ciência que diz que “nenhuma explicação é suficiente”, mas também por livros como A Sociedade Aberta e seus Inimigos, uma crítica liberal ao marxismo.

Além do quinteto, estão ali autores como Kurt Gödel, o austríaco naturalizado americano cuja “teoria da incompletude” abalou os alicerces da matemática clássica em 1931, ao mostrar que um sistema de valores não pode ser consistente se se pretender completo. Sem ele, como sem outros grandes matemáticos como Henri Poincaré e F. Enriques, a lógica paraconsistente não existiria. As demais estantes do escritório trazem algumas centenas de livros que tratam justamente das idéias de Newton, além das traduções dos dez volumes que escreveu até agora. São livros em chinês, russo, romeno, alemão… Não há Mangabeira Unger que possa disputar com ele em termos de referência no exterior.

Complexo
Mas não são apenas livros de filosofia que Newton conserva. Edições de Shakespeare e do Dom Quixote de Cervantes estão em destaque. A grande literatura e a música clássica – “Sou dos três Bs, Bach, Beethoven e Brahms” – são os prazeres culturais de Newton, que nas horas de folga também gosta de escrever poemas com o sobrenome dinamarquês da mãe, Eriksen. Ao lado, vê-se um livro em espanhol sobre as campanhas militares de Napoleão. “Leio tudo sobre Napoleão desde criança”, conta Newton. “Como toda pessoa com complexo de inferioridade, sou fã de Napoleão. Ele foi um gênio da estratégia.”

Como assim, complexo de inferioridade? Um pensador que construiu uma obra sólida num país periférico e ganhou reputação mundial, da qual não hesita em demonstrar orgulho, tem complexo de inferioridade? “Pois é, eu tenho. É como unha encravada, você tem e pronto. Uma vez conversei com um amigo psicanalista sobre isso e perguntei a ele: ‘Se eu não tivesse esse complexo, teria feito a minha obra?’ Ele respondeu: ‘Isso não dá para dizer.’ Então, se é assim, não posso fazer nada.” E tome livros sobre Napoleão.

Engenheiro formado, Newton começou a trabalhar na construtora do sogro, que lhe disse que em dez anos ele garantiria sua independência financeira. Newton não suportou ficar mais de um ano. “Dinheiro não importa para mim; nunca importou.” O desprendimento material não impediu esse professor com aparência de professor – que passa os dias dentro de casa lendo e escrevendo e dá uma palestra por semana – de ter uma vida confortável, de ter criado dois filhos, um economista e uma química, e de ser um avô carinhoso, que apresenta sorridente uma das netas, Isabela. Um pedestre que cruze por Newton da Costa numa dessas ruas do centro de Florianópolis com nomes de matemáticos (Praça Benjamin Constant, Rua Trompowski, etc.) não imagina que esse afável senhor de camisa social e calça de elástico seja um dos maiores lógicos do mundo.

O que tira Newton do sério é o atraso do Brasil, especialmente o desprezo ao trabalho intelectual. “Hoje você liga a rádio ou a TV e só ouve debilóides”, diz. Crítico do governo Lula, que acha que tem sorte de acontecer num período de prosperidade mundial, ele discorda em especial do pensamento socialista, citando Popper e economistas como Ludwig von Mises. “Só o capitalismo permite mobilidade social. Se a economia for impulsionada, tudo o mais se ajeita”, diz. “Mas agora o Lula é de centro-direita…”, ironiza, declarando-se de “centro-esquerda” e afirmando que votaria democrata nos EUA.

Em 1957, Newton se licenciou em Matemática pela UFPR; em 1960, se doutorou. Nessa época começou a se propor o desafio de desenvolver um sistema formal que levasse em conta as contradições, embora o nome “paraconsistência” só fosse surgir em 1974. O termo até então era “inconsistência”, e desde Gödel uma série de matemáticos mundo afora tentava chegar a essa teoria. Foi quando Newton tomou contato com a “lógica fuzzy”, também chamada de “difusa” ou “booleana”, que da mesma forma lida com estados intermediários entre o verdadeiro e o falso. Ela foi estruturada em 1965 por um professor da Universidade da Califórnia, Lofti Zadeh, cujos trabalhos Newton resenhou para publicações alemãs e brasileiras.

Nomes
“A fuzzy pode ser vista como uma versão mais específica da lógica paraconsistente”, afirma Newton. “Eu já provei isso.” O que ele alega é que sua teoria vai além de um modelo matemático; é um sistema filosófico, que discute conceitos a fundo e tenta, por exemplo, resolver problemas da dialética de Hegel. Newton também diz ter sido inspirado pela leitura de Marx e Freud. O termo “paraconsistência” foi sugerido por um amigo peruano, também filósofo da lógica, Francisco Miró Quesada. Significa “ao lado da consistência”, algo como “quase-consistência”. Na visão de Newton, a razão não pode provar nenhuma verdade absoluta, mas pode demonstrar a existência de uma “quase-verdade”, uma descrição mais próxima aos fatos. “Se explodir uma bomba atômica no prédio vizinho”, exemplifica, “é muito provável que você seja varrido para longe.”

Mas esse pragmatismo não significa que nosso conhecimento possa determinar muitas coisas com precisão. “Nem mesmo o contorno do seu corpo é definido. Alguém a anos-luz daqui só vê uma mancha no lugar onde você está. Você é uma mancha de elétrons, e há elétrons escapando de você o tempo todo.” Newton faz um gesto rápido com a mão. “Viu, acabei de pegar um elétron seu.” E solta outra de suas risadas, tão velozes quanto sua fala. Se você acha que um lógico deve ser uma pessoa fria ou impassível, é porque não conheceu Newton da Costa.

A palavra “paraconsistência”, assim como “fuzzy”, começou a ganhar vida própria de uns tempos para cá. É o destino de muitas teorias, como a Relatividade de Einstein – não raro explicada como “tudo é relativo”, o que o físico alemão jamais afirmou. No caso da paraconsistência, passou a ser utilizada como uma espécie de afirmação da irracionalidade, da rejeição ao método, da impossibilidade de qualquer forma de conhecimento. “Uma vez recebi abraços efusivos de um italiano, que disse que minha teoria tinha mudado a vida dele. Depois li o livro do sujeito e aquilo não tinha nada a ver com o que penso.”

Sistemas
Newton da Costa, afinal, é um defensor da razão, que define como união da faculdade lógica com o senso crítico; e diz que sua lógica complementa a clássica. “Em situações de comportamento padrão, a paraconsistente se reduz à lógica clássica.” É por isso que decisões – em computadores de robôs e sistemas de controle de vôo, para citar duas áreas que já utilizam lógica difusa e/ou paraconsistente – podem de fato ser tomadas.

Os processadores trabalham com um sistema binário, 0 (desativado) ou 1 (ativado), mas, graças a esses modelos matemáticos mais complexos, seguem funcionando mesmo quando recebem “inputs” opostos (“pare” e “avance”, por exemplo). A lógica paraconsistente não elimina a opção entre duas alternativas, mas possibilita que mais variáveis sejam avaliadas no processo de decisão, trabalhando com o que Newton chama de “probabilidade pragmática”. A experiência é que põe a razão à prova.

Newton critica os que usam a palavra lógica numa acepção falsa, como “Futebol não tem lógica” – significando que não é previsível. Para ele, a razão trabalha com a lógica ao menos para sistematizar as experiências. “O chato da irracionalidade é que ela não tem critérios”, resume, acentuando que seu trabalho é voltado para o conhecimento científico. Diz até que a indução faz parte da racionalidade: “Sem a indução não seríamos nada. Na pré-história, depois que o tigre-de-dente-de-sabre atacou um homem pela terceira vez, eles concluíram: tigres-de-dente-de-sabre são perigosos. E saíram correndo (risos). Sem isso não haveria racionalidade.”

Isso não significa que Newton não reconheça que haja eventos além da racionalidade. Por isso, diz não ser ateu e acreditar, “como Einstein, numa força da natureza”; e gosta de citar uma frase de Gabriel Marcel: “Filosofar é antes participar de um mistério do que resolver um problema.” Nem a ciência escapa. “Os resultados científicos são sempre aproximados”, escreve no livro Lógica Indutiva e Probabilidade. “A verdade é sempre parcial e provisória.” Mas a razão pode funcionar, sim; o conhecimento existe. “Nem eu mesmo imaginava que a lógica paraconsistente pudesse ter tanta aplicação no mundo real.” Hoje, nada parece mais lógico.

o Natal não é um delírio

“Deus está morto. Deus continua morto”? [A Gaia Ciência, Friedrich W. Nietzsche]

NÃO

por JOÃO HELIOFAR DE JESUS VILLAR

PARECE QUE nada está mais na moda do que falar mal de Deus.

O mundo assiste a um novo e estranho fenômeno: o ateísmo militante, evangelista. O que se vê não é apenas o discreto ceticismo inaugurado por David Hume ou o racionalismo que se levantou a partir do iluminismo na Europa. O ateísmo tornou-se militante, irado, e quer que Deus desapareça. Não se trata mais de uma filosófica declaração de que Deus está morto, mas de um imperativo de que Ele deve ser enterrado.

Talvez nunca se tenham dedicado, simultaneamente, tantas linhas para atacar e destruir a fé em geral e o cristianismo em particular. Em edições sucessivas, Richard Dawkins, Sam Harris, Christopher Hitchens e Daniel Dennett pregam agressivamente o evangelho ateísta, cuja luz consiste em esclarecer ao mundo que Deus não passa de uma invenção humana.

E nociva. Segundo o novo evangelho, a religião é incompatível com a ciência, obscurantista em sua essência, imoral e causadora das guerras e dos conflitos mais penosos vividos na experiência humana. Deus é um delírio, afirma Dawkins, e a religião envenena tudo, sustenta Hitchens. Intriga nisso tudo o silêncio, quase monástico, nas hostes cristãs. Essas acusações são irrespondíveis?

Tome-se a suposta incompatibilidade da fé em Deus com a ciência. Newton, Kepler, Lavoisier, Mendel, Galileu e tantos outros não eram cristãos? Todos conceberam a ciência a partir da idéia de que o universo foi criado por um ser racional e, por isso, é regido por leis e princípios que podem ser apreendidos racionalmente.

Como o ateísmo explica a magnífica racionalidade do universo, que se expressa em linguagem matemática?

A fé judaico-cristã, aliás, foi a primeira a excluir a natureza da esfera do sagrado e possibilitar sua observação, manipulação e estudo. Além disso, as grandes universidades nasceram em igrejas: Paris, Bologna, Oxford, Harvard e Princeton eram seminários cristãos.

A religião envenenou Michelangelo, Dante, Bach, a arquitetura gótica e tantas outras realizações inconcebíveis sem a fé cristã?

A sociedade ocidental jamais poderá ser compreendida sem os valores herdados do cristianismo. A compaixão, por exemplo, brilhantemente ilustrada na parábola do bom samaritano. Seu berço não poderia ser a Grécia. Os espartanos deixavam os bebês que nasciam mais débeis para morrer ao relento e Platão flerta abertamente com a eugenia em “A República”. É o cristianismo que afirma a misericórdia como um valor inegociável, que constitui o gérmen para o serviço social, a expansão dos hospitais etc.

Mas a escravidão não foi tolerada por séculos pela cristandade? Na verdade, a escravidão foi um fenômeno histórico universal: na China e em toda a Ásia, na África e, inclusive, entre os índios da América pré-colombiana.

Não encontrou oposição na Grécia, nem mesmo em seu momento mais luminoso. Nunca foi questionada.

Quando se torna controversa pela primeira vez? A reação vem inicialmente dos quackers, no século 18, e, em seguida, a concepção de que todos os homens foram criados iguais inspirou o pietista William Wilberforce a lutar tenazmente contra o mal no Parlamento inglês até vencê-lo completamente.

Na verdade, o assalto ateísta não se justifica nem no destaque dado aos crimes cometidos em nome da fé. A história já mostrou que o fanatismo mata em todo canto -e muito mais nos sistemas que procuraram erradicar toda religião. A loucura não exige credo de tipo algum.

Enfim, dezembro é um bom mês para os cristãos saírem do armário.

Não há superioridade intelectual no ateísmo ou, de outro modo, não há inferioridade intelectual na fé cristã. E muito menos inferioridade moral.

Não há por que se esconder dos pregadores da nova fé secular, agressiva e militante. O Natal, mesmo nesta era pós-moderna e pós-cristã, é tempo de afirmar que nada melhor aconteceu à sociedade ocidental do que aquele estranho evento na Palestina, quando uma jovem judia deu à luz Jesus de Nazaré.

Que toquem os sinos em Belém. [FOLHA 22/12/07]

o fetiche da modernidade

O que resta à modernidade é seu senso comum científico, normalmente dotado de grande carga emocional e dogmática

por LUIZ FELIPE PONDÉ

A CIÊNCIA é o supremo fetiche da modernidade. Quando se olha no espelho, em seus melhores momentos, vê o brilho redentor da tecnologia e seu sublime ídolo, o progresso (a face contemporânea da “natureza atada” de Francis Bacon).

Diante do quase fracasso de grande parte de suas utopias (o racionalismo político, a administração da vida, a resolução científica da existência, a reformulação do humano, enfim, a organização eficaz da agonia), resta à modernidade seu senso comum científico, normalmente dotado de grande carga emocional e dogmática.

A prova evidente desse senso comum é supor que qualquer crítica à ciência significa alguma forma de heresia epistemológica ou mera falta de conhecimento científico por parte de quem levanta a questão.

A estrutura do átomo, suas partículas e cordas, para além de um panteísmo de iniciantes, nada muda em nossa condição cósmica. Tampouco as modas científicas, os “novos paradigmas” e seu superficial frenesi pseudo-religioso.

Aristóteles não conhecia nada sobre como o genoma desvendaria (?) todos os segredos do humano. Entretanto, a única forma de ateísmo filosoficamente séria (o darwinismo) busca exatamente responder a Aristóteles e sua herança (o primeiro motor inteligente): Como do acaso cego chegamos à ordem e ao design visíveis no universo? Pela repetição (e reprodução) mecânica daquilo que não pereceu, vítima da agressão do meio ambiente, em sua inércia ancestral, surge a aparência de ordem. A dança macabra entre o agredido e a agressão mimetizaria essa ordem.

A crítica ao dogmatismo do senso comum científico nada tem a ver com um “desconforto” diante da possível insignificância da vida, sendo mais provável que o pânico diante da possibilidade de “descrença” na ciência seja um indício desse mesmo suposto “desconforto”.

Evidentemente, a ciência (ou aquilo que dela de fato parece fazer a diferença, ou seja, a medicina, a biotecnologia, os aviões, a informática e os processos de controle da vida cotidiana pelo Estado e por seu aliado, o mercado) mudou a face do planeta.

Só um mentiroso não reconhece, humildemente, o alívio diante do adiamento da morte. Imaginar-se mais livre do que os medievais é outro sintoma clássico: quem nunca foi capturado pela fina malha de violência científica do sócio invisível, o Estado arrecadador?

Não se trata de demonizar a ciência. Isso é para a filosofia amadora. Ela é uma das grandes coisas que realizamos nos últimos 500 anos. Trata-se de vê-la como é: uma adolescente furiosa, às vezes generosa, normalmente arrogante quando bem-sucedida. A ciência não é um método puro (somente quando vista das alturas de sua ascendência filosófica). Constitui-se numa teia de interesses e laços institucionais que tendem à fantasia do absoluto, quando, na realidade cotidiana, seus agentes sociais vivem no pântano do relativismo ético e do totalitarismo econômico. Kafka poderia escrever um excelente conto sobre sua burocracia da produtividade.

Exemplo claro é a forma alucinada com a qual a sociedade crê na economia (“Ah, esses sofistas, calculadores e economistas”, diria Burke).

Entre a vírgula e o ponto, no espaço estreito de uma fórmula abstrata, a realidade que se esvai em sangue. Só o ato epistemológico da crença justifica a matematização abstrata que reproduz a vida fora de si mesma.

Se a teologia da baixa escolástica foi marca dos delírios de uma época na qual a grande civilização medieval agonizava, as poderosas profecias econômicas marcam um mundo em que a estatística esmaga o pobre humano de carne e osso.

A estratégia do senso comum científico é desconstruir a incerteza ou dissolvê-la numa incerteza meramente estética. A suspeita, sem fundamento, de que a crítica à “cientificidade” da modernidade seja filha da Inquisição é outro marco do senso comum científico: entenderemos melhor a relação entre a vida e a ciência se lermos os utilitaristas, muito mais do que se nos deslumbrarmos diante do amontoado de “descobertas revolucionárias”.

A “precisão” científica pode andar lado a lado com a ignorância acerca da realidade. E mais: pode ser um método poderoso de falseá-la.

Qual a resposta científica ao Eclesiastes? [FOLHA 5/2/07]

técnica gera célula-tronco sem embrião

Grupos no Japão e nos EUA reprogramaram células adultas da pele humana para agirem como se fossem embrionárias

Estratégia desenvolvida por japonês pode eliminar o dilema ético em torno da clonagem terapêutica, que demanda destruir embriões

Neurônios produzidos por intermédio da nova técnica


por GIOVANA GIRARDI

Duas equipes independentes de cientistas deram um salto nas pesquisas com célula-tronco ao conseguirem fazer com que células humanas adultas da pele “voltassem no tempo” e passassem a agir como se fossem as versáteis células-tronco embrionárias, conseguindo posteriormente se diferenciar em outros tecidos do corpo.

A técnica surge com a promessa de que talvez, no futuro, possa substituir o uso das polêmicas células-tronco embrionárias. As CTEs são hoje as queridinhas dos pesquisadores por conta de seu potencial terapêutico. Como elas têm a capacidade de se transformar em qualquer outro tecido do organismo, podem, em tese, ser usadas para o tratamento de doenças degenerativas, como diabetes e mal de Parkinson.

O problema é que, para obtê-las, é necessário destruir embriões, fato que enfrenta a resistência de grupos religiosos. Com o novo trabalho, a Casa Branca parabenizou os cientistas por resolverem problemas médicos “sem comprometer os elevados objetivos da ciência e o sagrada da vida humana”.

Cientistas do Japão e dos EUA pegaram células da pele humana (fibroblastos) e induziram nelas a tão desejada pluripotência (versatilidade) da CTEs. Após essa reprogramação, elas não só assumiram uma aparência de CTEs como também um funcionamento semelhante ao delas, chegando a se diferenciar em neurônios e células cardíacas.

“Estamos agora em posição de gerar células-tronco específicas para pacientes e doenças sem usar embriões”, declarou Shinya Yamanaka, autor de um dos estudos, em comunicado. “Com essas células, poderemos compreender mecanismos de doenças, procurar por drogas eficientes e seguras e tratar pacientes com terapia celular.”

O feito tinha sido obtido pela primeira vez em meados de 2006, com células de camundongo, pela equipe de Yamanaka, da Universidade de Kyoto. Desde então, cientistas de todo o mundo vinham tentando replicá-lo em humanos. Agora, os grupos do japonês e do americano James Thomson, da Universidade de Wisconsin em Madison, conseguiram. Os trabalhos foram publicados on-line nos periódicos “Cell” (www.cell.com) e “Science” (www.sciencexpress.org).

Regulação
As duas equipes trabalharam com a introdução nos fibroblastos de quatro genes ligados à manutenção da capacidade das células-tronco embrionárias. Quando um organismo está se formando, esses genes estão ativos nas CTEs e fazem com que elas se diferenciem nas demais células do corpo. No momento em que a célula atinge sua especialização, no entanto, eles são desativados.

O pesquisadores usaram retrovírus, parentes do vírus da Aids, para introduzir esses genes nos fibroblastos de modo que eles se reativassem e as células retomassem a versatilidade (veja quadro à direita). A diferença entre os dois estudos foram os genes usados. O grupo de Yamanaka trabalhou com Oct3/4, Sox2, Klf4 e c-Myc. O de Thomson trocou os últimos dois por Nanog e Lin28.

Fim da clonagem?
O achado pode jogar uma pá de cal nas busca da chamada clonagem terapêutica. Ainda na semana passada, um dos pioneiros dos estudos com clones, o escocês Ian Wilmut, “pai” da ovelha Dolly, se antecipou ao lançamento dos trabalhos ao dizer que desistia de tentar clonar um ser humano para obter células-tronco.
Ele disse na ocasião que sua decisão era baseada no sucesso que Yamanaka tivera anteriormente com camundongos. Ontem ele só complementou sua decisão: “Nós podemos agora visualizar um tempo em que uma simples técnica poderá ser usada para produzir células-tronco que serão capazes de formar qualquer tecido a partir de uma pequena amostra de qualquer um de nós.”

Robert Lanza, da companhia Advanced Cell Technology, que vinha tentando clonar embriões, comparou: “Este trabalho representa um tremendo marco científico, o equivalente biológico do primeiro avião dos irmãos Wright”, disse. “É um pouco como aprender como transformar chumbo em ouro.”

Em entrevista coletiva, ontem, a equipe de Thomson também se manifestou nesse sentido. Quando questionada sobre se ainda fazia sentido falar em clonagem terapêutica, Jennifer Frane, também de Wisconsin, respondeu: “Bem, eu diria que não”. Ao que foi amparada por Thomson: “A transferência de núcleo celular é um bom experimento, mas nós ainda somos ineficientes, ele é caro, é difícil de fazer e é provável que nunca aproveitemos as aplicações. Então não imagino que ele dure por muito tempo”.

Mas, apesar de a nova técnica ser “eticamente descomplicada”, como definiu Douglas Melton, co-diretor do Instituto de Células-Tronco da Universidade Harvard, ela ainda não deve substituir os estudos com as células-tronco embrionárias.

“Ainda temos muito a aprender com as células-tronco embrionárias. E só pesquisando seu funcionamento podemos fazer com que uma célula adulta imite seu comportamento”, ressaltou a pesquisadora Lygia da Veiga Pereira, da USP. “Veja que os próprios autores só chegaram a esses resultados graças às CTEs e precisarão delas para várias outras análises, inclusive para eliminar o vírus como tecnologia para a reprogramação, o que impede que isso seja usado para a terapia com seres humanos”, complementou Stevens Rehen, da UFRJ. [FOLHA 21/11/07]

aniversário

Familiares de bebê anencéfala festejam um ano da criança

por JULIANA COISSI

Muitas roupinhas, bonecas, um colar de ouro com um pingente de anjo, bolo, balões e uma faixa de parabéns feita pela Diocese de Franca. Esses foram os presentes ofertados a Marcela de Jesus Ferreira, o bebê de Patrocínio Paulista que completou ontem um ano de vida, desafiando todos os prognósticos desde que foi diagnosticada sua anencefalia (ausência de cérebro), ainda na barriga da mãe, a lavradora Cacilda Galante Ferreira.

A sobrevida da menina, que deveria ser de poucas horas após o nascimento, alçou-a à posição de símbolo anti-aborto de grupos religiosos, mas também rendeu polêmica entre alguns especialistas que questionam seu diagnóstico. A lei brasileira permite a interrupção da gravidez nesses casos.

No aniversário, cercada pelos pais, irmãs e avô, pela pediatra Márcia Beani, pela equipe do Programa de Saúde da Família que a visita toda semana e por alguns vizinhos, Marcela usava um vestido branco com detalhes em rosa e capuz e sandálias e meias brancas.

Durante a festa, a mãe se preocupava o tempo todo em enfeitar o berço de Marcela com as fitas dos presentes. Mais tímido, o pai da menina, Dionísio Justino Ferreira, 47, participava do esforço para receber as visitas.

Desde o nascimento da caçula, o lavrador teve de cuidar da colheita de café em seu sítio com a ajuda apenas das filhas Débora, 19, e Dirlene, 15. A mulher se mudou para uma casa na cidade para cuidar de Marcela. A saudade de ver a família junta faz Dionísio pensar em mudanças. “Chego a pensar em arrendar o sítio e vir para a cidade, mas meu pai tem 88 anos e gosta muito de lá”, disse.

A distância, no entanto, não provocou a desunião da família. “Marcela veio para desafiar o mundo. Nós até ficamos mais próximos.” [FOLHA 21/11/07]

o gene egoísta

Estudo clássico da biologia faz 30 anos e ganha nova edição

Obra-prima do britânico Richard Dawkins chega com um ano de atraso ao Brasil

por CLAUDIO ANGELO

H á uma anedota já clássica no gueto dos jornalistas científicos segundo a qual é possível sustentar qualquer tese sobre o papel dos genes no comportamento humano citando um trecho escolhido de “O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins.

Como toda boa piada, esta é cruel, mas tem mais do que um fundo de verdade. Ela revela o barulho que o maior clássico moderno da biologia tem feito desde que saiu, em 1976, e a confusão que ainda causa: determinismo ou livre-arbítrio?

As idéias que permeiam o livro de Dawkins há muito vazaram do laboratório e foram canibalizadas pelo mundo da cultura. Viraram desculpa para um monte de coisas, de infidelidade conjugal a assassinato. E, recentemente, foram ecoadas por ninguém menos que James Watson, o pai do Projeto Genoma Humano, em suas declarações desmioladas sobre diferenças genéticas determinando diferenças de capacidade intelectual entre brancos e negros.

É em boa hora, portanto, apesar do atraso de um ano, que chega ao Brasil a edição comemorativa de 30 anos de “O Gene Egoísta”. Quem já leu pode aproveitar para desfazer mal-entendidos sobre o livro, numa atmosfera política menos carregada que a dos anos 1970. Quem não leu pode se deliciar com a prosa de Dawkins, então um pensador mais arejado (e menos chato) que o militante ateu de “Deus, um Delírio”.

A premissa básica do livro é que os genes são a “unidade” mínima da evolução e “agem” de acordo com o axioma da seleção natural darwinista: maximize sua sobrevivência. Sobreviver, aqui, equivale a espalhar o maior número possível de cópias de si mesmo. Para que isso aconteça em um ambiente em que vários genes competem entre si, é necessário eliminar rivais e recorrer a uma série de truques, tais quais criar “máquinas de sobrevivência” que protejam o DNA do contato direto com o mundo.

Essas máquinas somos nós, os organismos vivos, que Dawkins comparou a “gigantescos e desajeitados robôs”. O valor adaptativo de uma máquina de sobrevivência está em ser melhor que seus competidores na exploração do ambiente. Para o gene, não compensa ajudar outro organismo quando isso implica em custo.

Portanto, na evolução -e, por tabela, no comportamento humano-, impera a lei da selva. Parando por aí, fica-se com a impressão de que Dawkins cede ao determinismo. Mas, embora intencionalmente force a mão na linguagem, ele mesmo desmonta tal sugestão ao postular que o egoísmo dos genes montou uma máquina tão sofisticada -o cérebro e a consciência- que consegue se rebelar contra seus ditames.

A biologia mudou um bocado nestes 31 anos. Mas “O Gene Egoísta” continua sendo obrigatório. Não só para quem quer entender a genética mas também para qualquer um que se pergunte como é possível traduzir conceitos científicos complicados como quem escreve um romance.


O GENE EGOÍSTA
Autor:
Richard Dawkins
Editora: Cia. das Letras
Quanto: R$ 55 (540 págs.)
Avaliação: ótimo
[FOLHA 17/11/07]

“elo perdido”

Fóssil de 10 milhões de anos pode ser ancestral comum de gorilas e homens

Descoberta, rara na África, apóia teoria de que todos os grandes macacos evoluíram naquele continente, afirma equipe queniana e japonesa

Cientista segura mandíbula de Nakalipithecus nakayamai, de 10 milhões de anos, no Museu Nacional do Quênia, em Nairób

DA REUTERS

Pesquisadores quenianos e japoneses anunciaram ontem a descoberta de uma mandíbula de 10 milhões de anos que eles acreditam ter pertencido a uma nova espécie de grande macaco que poderia ser o último ancestral comum de gorilas, chimpanzés e seres humanos.

A equipe encontrou o fragmento em 2005, juntamente com 11 dentes. Os fósseis, datados em 9,88 milhões de anos, estavam em um antigo depósito de lama vulcânica na região de Nakali, norte do Quênia.

A espécie é mais um “elo perdido”, um dos passos evolutivos cruciais na linhagem dos grandes macacos africanos -à qual pertence o Homo sapiens.

“Com base nessa descoberta, podemos dizer confortavelmente que estamos nos aproximando do ponto em que poderemos determinar o chamado elo perdido”, disse Frederick Manthi, pesquisador-sênior do Museu Nacional do Quênia. “Teríamos de achar mais fósseis em uma série de sítios para sustentar essa teoria”, afirmou, diante do pedaço de osso de 10 cm de comprimento.

Este é o achado importante mais recente do leste do Rift Valley, uma região rica em fósseis de hominídeos.

“Os dentes estão cobertos de esmalte grosso e suas coroas eram baixas e volumosas, o que sugere que a dieta desse animal consistia de objetos duros, como frutos secos ou sementes e frutas”, disse Yutaka Kunimatsu, da Universidade de Kyoto. Ele é um dos co-autores do estudo que descreve o animal, batizado Nakalipithecus nakayamai, na edição de ontem da revista “PNAS”.

“Ele poderia ser colocado antes da divergência entre gorilas, chimpanzés e humanos”, acrescentou o cientista japonês. No entanto, é difícil determinar qual seria o aspecto do animal. “Nós só temos alguns fragmentos de mandíbula e dentes. Voltaremos no ano que vem para tentar encontrar ossos abaixo do pescoço que nos digam como o animal se movimentava”, disse Kunimatsu.

O achado queniano é importante porque dá apoio à teoria de que a evolução dos grandes macacos aconteceu inteiramente na África. Antes dele, os fósseis de grandes primatas na África datados de 7 milhões a 13 milhões de anos atrás eram tão raros que alguns especialistas começaram a assumir que o último ancestral comum de gorilas e humanos havia evoluído da Eurásia, e a linhagem teria retornado à África depois.

“Agora temos um bom candidato na África. Não precisamos pensar que o último ancestral comum voltou da Eurásia”, afirmou o pesquisador. [FOLHA 14/11/07]