25 teses mais ou menos sérias sobre a série ’24 Horas’

O ator norte-americano Kiefer Sutherland, o Jack Bauer, astro do seriado de TV “24 Horas”

por HAROLDO CERAVOLO SEREZA

1) Em ’24 Horas’, o terror é dialético. Sem o apoio das informações que “traidores” e “infiltrados”, os terroristas não poderiam ser tão ousados. Sem o terrorismo, Jack Bauer e colegas não teriam emprego.

2) Quanto mais perigoso o ataque terrorista, mais perigoso fica Jack Bauer. Quanto mais perigoso Jack Bauer, maior o risco de uma catástrofe.

3) Palmer é o presidente corajoso que comete as maiores atrocidades. Logan é o presidente covarde que comete as mesmas atrocidades. O que nos faz torcer pelo primeiro?

4) A propaganda que Kiefer Sutherland fez no Brasil radicaliza o clima de ’24 Horas’. Dentro do carro, Sutherland-Bauer é capaz de manter a tranqüilidade. Mas não pode abrir a porta.

5) Bauer é um herói derrotado. Trabalha com a convicção de que seu esforço apenas adiará a tragédia – mas sabe que nunca vai conseguir evitá-la completamente.

6) A principal personagem de ’24 Horas’ é a informação: é por ela que todos, terroristas e agentes, se mobilizam.

7) ’24 Horas’ é uma série didática. Ela nos ensina não o que o Estado faz, mas o que o Estado pode, se quiser, fazer. Nossa sorte é que o Estado, para horror do neoliberalismo, é preguiçoso.

8) ’24 Horas’ nos ensina também que somos muito improdutivos. Temos o mal hábito de dormir entre um dia e outro. Jack Bauer nunca dorme, no máximo toma café da manhã.

9) Há bons e maus árabes na série. Em geral, todos se dão mal.

10) A família e os inocentes são os valores que Bauer e seus amigos defendem. Nem que, para isso, seja necessário torturar e assassinar inocentes e familiares.

11) Numa temporada, Bauer estraga um abajur para dar choques elétricos no genro. E depois dizem que Freud não explica nada.

12) Se os roteiristas de ’24 Horas’ fizessem terroristas menos megalomaníacos, eles teriam causado muito mais estrago.

13) Ninguém respeita a hierarquia na CTU. Todos conspiram contra todos.

14) Na CTU, as possibilidades de ascensão são enormes. Em um dia, pode-se ir de estagiário a diretor, passando pelo cargo de conspirador.

15) Assim como a boca de Mônica Waldvogel parece estar sempre sorrindo, mesmo quando ela noticia uma tragédia, a boca de Sutherland está sempre para baixo, mesmo quando fazem cócegas nos seus pés.

16) Viciado em heroína por necessidade, Jack Bauer tem crises de abstinência apenas quando o horário permite.

17) Na CTU, não apenas os funcionários são corrompidos: até os arquivos são corrompidos e manipuláveis.

18) Até mesmo funcionários altamente especializados em lidar com com esses arquivos corrompidos, como a loira Chloe, precisam pegar em armas.

19) Em ’24 Horas’, todos são nerds e todos entendem os computadores. Mesmo os agentes de campo são especialistas em computação.

20) É sempre possível mudar de lado, do terror para a repressão. E da repressão para o terror. Basta uma motivação pessoal ou familiar. Ou uma boa sessão de tortura.

21) Tudo muda de uma temporada para a outra em ’24 Horas’. Menos o modelo dos aparelhos de telefonia fixa da CTU.

22) Todos os celulares estão grampeados. Mas há sempre uma linha “segura” disponível.

23) Nunca sobra tempo para o mocinho Jack Bauer namorar. Quanto mais para fazer sexo.

24) Um episódio de ’24 Horas’ tem de ocorrer no fim do horário de verão. Para ele ter 25 horas.

25) Esta observação fica para quando a idéia do item 24 se concretizar. [UOL Tablóide 25/09/2007 – 21h49]

o sagrado e o humano

É a teoria de René Girard, me parece, que mais urgentemente precisa ser debatida, agora que o triunfalismo ateísta está eliminando todos os nuances

por ROGER SCRUTON

Não causa surpresa o fato de pessoas decentes, céticas, ao observarem o ressurgimento em nossos tempos de cultos supersticiosos, do conflito entre liberdades seculares e éditos religiosos, e do radicalismo islâmico assassino, se mostrarem receptivas às polêmicas anti-religiosas de Richard Dawkins, Christopher Hitchens e outros. O “sono da razão” trouxe monstros, como Goya previu em sua gravura.

Hitchens é um homem inteligente e altamente erudito que reconhece que o argumento mais útil para ele era bastante conhecido há 200 anos. Mas pensadores do Iluminismo, tendo mostrado que as alegações da fé não contavam com fundamentação racional, não desdenharam a religião, como alguém poderia desdenhar uma teoria refutada. A facilidade com que as doutrinas comuns da religião podem ser refutados os alertou para a idéia de que a religião não é, em essência, uma questão de doutrina, mas outra coisa. E decidiram descobrir o que poderia ser.

Para os pensadores no período imediato pós-Iluminismo, não era fé, mas fés, no plural, que compunham a essência básica da teologia. Para os pensadores pós-Iluminismo, os sistemas de crença monoteísta não estavam relacionados aos mitos e rituais antigos da mesma forma que a ciência para a superstição, ou a lógica para a magia. Em vez disso, eles eram cristalizações de uma necessidade emocional. Um mito não descreve o que aconteceu em algum período obscuro antes da contagem humana de tempo, mas algo que acontece sempre e repetidamente. Ele não explica as origens causais de nosso mundo, mas recita sua permanente importância espiritual.

Se você olhar para a religião antiga desta forma, então inevitavelmente sua visão do cânone judaico-cristão muda. A história da criação no Gênesis é facilmente refutada como relato de eventos históricos: como pode haver dias sem sol, homem sem mulher, vida sem morte? Mas lida como mito, este texto aparentemente ingênuo revela ser um estudo da condição humana.

Mitos e rituais, escreveu Hegel, são formas de autodescoberta, por meio das quais entendemos o lugar do indivíduo em um mundo de objetos e a liberdade interior que condiciona tudo o que fazemos. A ascensão do monoteísmo a partir das religiões politeístas da antiguidade não é apenas uma forma de descoberta, mas de autocriação, à medida que o espírito aprende a reconhecer a si mesmo no todo das coisas e a superar sua finitude.

Entre estas primeiras incursões na antropologia da religião e estudos posteriores, dois pensadores se destacam como fundadores de um novo empreendimento intelectual – um empreendimento que parece não ter sido notado por Hitchens, Dawkins ou Daniel Dennett. Os pensadores são Friedrich Nietzsche e Richard Wagner, e o empreendimento intelectual é o de mostrar o lugar do sagrado na vida humana e o tipo de conhecimento e entendimento que nos chega por meio da experiência das coisas sagradas.

A lição que ambos os pensadores extraíram dos gregos é de que é possível subtrair os deuses e suas histórias da religião grega sem tirar o mais importante. Esta coisa tinha sua realidade primária não em mitos, teologia ou doutrina, mas nos rituais, nos momentos que ficam fora do tempo, nos quais a solidão e a ansiedade do indivíduo humano são confrontadas e superadas por meio de uma imersão no grupo. Ao chamar estes momentos de “sagrados”, nós reconhecemos tanto seu complexo significado social quanto o alívio que fornecem à alienação.

A tentativa de Nietzsche e Wagner de entender o conceito do sagrado foi levada adiante não por antropólogos, mas por teólogos e críticos. É a teoria de René Girard, me parece, que mais urgentemente precisa ser debatida, agora que o triunfalismo ateísta está eliminando todos os nuances.

Em “A Violência e o Sagrado” (1972), Girard começa com uma observação que nenhum leitor imparcial da Bíblia judaica ou do Alcorão pode deixar de fazer, que é a de que a religião pode oferecer paz, mas tem suas raízes na violência. O Deus apresentado nestes textos é freqüentemente irado, dado a acessos de destruição. Ele faz exigências ultrajantes e sanguinárias – como a exigência para que Abraão sacrifique seu filho Isaac. Ele é obcecado por genitália e inflexível em que deva ser mutilada em sua honra.

Pensadores como Dawkins e Hitchens concluíram que a religião é a causa desta obsessão sexual e violência, e que os crimes cometidos em nome da religião podem ser vistos como a refutação definitiva dela. Nem tanto, argumenta Girard. A religião não é a causa da violência, mas a solução para ela. A violência vem de outra fonte e não há sociedade sem ela desde a primeira tentativa dos seres humanos viverem juntos. O mesmo pode ser dito da obsessão religiosa com a sexualidade: a religião não é a causa, mas uma tentativa de resolvê-la.

Como Nietzsche, Girard vê a condição primitiva da sociedade como uma de conflito. É do esforço para resolver este conflito que nasce a experiência do sagrado. Esta experiência nos vem de muitas formas -ritual religioso, oração, tragédia – mas sua verdadeira origem está nos atos de violência comunal. As sociedades primitivas são invadidas pelo “desejo mimético”, à medida que rivais lutam para igualar as aquisições materiais e sociais do outro, acentuando o antagonismo e precipitando o ciclo de vingança.

A solução é identificar uma vítima, alguém marcado pelo destino como sendo de fora da comunidade e portanto merecedor da vingança contra ela, que pode ser alvo do desejo de sangue acumulado, e que pode conduzir o ciclo de retribuição ao fim. O bode expiatório é a forma da sociedade de recriar a “diferença” e portanto se restaurar. Ao se unirem contra o bode expiatório, as pessoas são libertadas de suas rivalidades e reconciliadas. Por meio de sua morte, o bode expiatório purga a sociedade de sua violência acumulada. A santidade resultante do bode expiatório é o eco de longo prazo do temor reverente, do alívio e da religação visceral à comunidade que foi experimentada com sua morte.

Segundo Girard, a necessidade do bode expiatório sacrificial está implantada na psique humana, originária da tentativa de formar uma comunidade durável na qual a vida moral pode ser buscada com sucesso.

Em muitas histórias do Velho Testamento, nós vemos os antigos israelitas lidando com este ímpeto sacrificial. As histórias de Caim e Abel, de Abraão e Isaac e de Sodoma e Gomorra são resíduos de conflitos estendidos, nos quais o ritual foi desviado da vítima humana e ligado primeiro a sacrifícios animais, depois às palavras sagradas. Por este processo uma moralidade viável surgiu da competição e conflito, e das rivalidades viscerais da predatoriedade sexual.

Logo, a experiência do sagrado não é um resíduo irracional de medos primitivos, nem uma forma de superstição que algum dia será eliminado pela ciência. Ela é a solução para a agressão acumulada que existe no coração das comunidades humanas. É assim que Girard explica a paz e celebração que acompanha o ritual da comunhão – o senso de renovação que sempre precisa ser ele mesmo renovado. Girard descreve características profundas da condição humana, que podem ser observadas também nos cultos do mistério da antiguidade e nos templos locais do hinduísmo, assim como no “milagre” cotidiano da Eucaristia.

Há muitos elementos na teoria de Girard que podem ser criticados – como a idéia de que as instituições humanas podem ser explicadas pela cr
iação de mitos. Mas tais críticas não influenciam, ao que me parece, o descaso com que as idéias de Girard são tratadas.

Eu suspeito que, como Nietzsche, Girard nos recordou das verdades que preferiríamos esquecer – em particular, a verdade de que a religião não se trata basicamente de Deus, mas do sagrado, e que a experiência do sagrado pode ser suprimida, ignorada e mesmo profanada, mas nunca destruída. [Prospect Magazine 9/8/07]

o mundo desde o fim

Foi lançado em ’95 o livro do filósofo, compositor e poeta Antonio Cicero, O Mundo Desde o Fim, publicado pela editora Francisco Alves. Nesse livro se discutem questões como a modernidade e o pensamento de Hegel. Trata-se do primeiro livro de filosofia do escritor, que também já publicou os volumes de poesia Fullgás, O Último Romântico e Inverno.

O livro é uma reflexão sobre a modernidade. “Existe uma concepção moderna do mundo? Foi dessa pergunta que parti”, diz Cicero. “À primeira vista, existem diversas concepções modernas do mundo, mas a minha conclusão é que é possível encontrar um conceito rigoroso de modernidade.” Para Cicero, esse conceito vem do “reconhecimento do agora como essência do mundo”. Ser moderno, segundo ele, é admitir a transitoriedade das coisas e o subjetivismo das interpretações. Os fundamentos das concepções do mundo anteriores à modernidade eram coisas exteriores e positivas, como nação, Deus etc”, diz. “A descoberta da modernidade é a consciência do fundamento subjetivo e negativo do mundo.” Assim, diz Cicero, não há lugar para “utopias positivas” na modernidade. O único projeto coletivo que se pode ter é garantir a todos condições materiais mínimas para a fruição das liberdades individuais, das utopias subjetivas, características da modernidade.” Cicero considera que sua opinião de que há um fundamento absoluto na modernidade é um paradoxo, mas que o problema da filosofia contemporânea é que “ela não leva a sério os paradoxos”. Letrista, irmão da cantora Marina, e autor dos poemas de “O Último Romântico” e “Inverno”, Cicero acha que a discussão sobre a modernidade proposta no livro permite rediscutir o relativismo do pensamento contemporâneo. “O relativismo é uma manifestação da modernidade que, porém, esquece o fundamento sobre o qual ele é possível: o reconhecimento do agora como absoluto.”

Q: Seu livro tem um título curioso: “O Mundo Desde o Fim”.
Antonio Cicero – Estudei russo quando adolescente. Cheguei a ler bem livros de marxismo soviético e, embora nunca tenha encarado Tolstói no original, lia razoavelmente escritores como Tchekov, Dostoiévski e Gógol. No final da década de 80, Luciano Figueiredo me pediu para lhe traduzir o título de um livro da vanguarda russa do começo do século que, transliterado, seria “Mir S Contsá”. Com meu russo enferrujado, na mesma hora traduzi como “O Mundo Desde o Fim”. Depois, vi que a tradução adequada seria, como a tradução inglesa, “The World Backwards”, “O Mundo de Trás Para a Frente”. Mas Luciano percebeu que, por um estranho acaso, a má tradução do russo era uma boa tradução do meu modo de pensar, de modo que, ao fazer um retrato meu, ele pintou um livro imaginário, de que eu seria o autor, intitulado “O Mundo Desde o Fim”. Agora, torna-se real esse livro imaginário.

Q: Desde o fim de quê? Do próprio mundo? O mundo acabou?
AC
– Eu gosto justamente da ambiguidade desse título. Se você o interpretar como “O Mundo Desde o Fim do Mundo”, isso significa que o fim do mundo não é, afinal de contas, o fim do mundo. Alexandre Koyré escreveu um livro esplêndido chamado “Do Mundo Fechado ao Universo Infinito”. Essa obra se refere à substituição da cosmologia, astronomia e física medievais, aristotélico-ptolemaicas, pela cosmologia, astronomia e física modernas, copérnico-galileo-newtonianas. Se pensássemos não tanto em cosmologia, astronomia e física, mas em lógica, ontologia, epistemologia e axiologia, o título do livro de Koyré seria adequado para substituir “O Mundo Desde o Fim”. Mas este último título também me interessa porque tenho a convicção – e tenho a convicção de haver provado – que a modernidade não pode ser ultrapassada, pois se trata de algo atemporal, que é a essência do agora. Creio ter também provado que aquilo que chamamos de “época moderna” é a época em que se manifesta inequivocamente o caráter absoluto da modernidade. A época moderna não pode ser superada e é bobagem falar de “pós-moderno”.

Q: Então o fim de que o senhor fala é o fim da história?
AC
– Meu livro investiga a modernidade. No entanto, na maior parte do mundo ainda estamos longe de sermos, para usar a expressão de Rimbaud, “absolutamente” modernos. Por isso, mesmo que a história não passasse da transição da época pré-moderna para a época moderna, ainda teríamos muita história pela frente. Mas nada impede que, a menos que arbitrariamente definamos história como exclusivamente a passagem da época pré-moderna para a época moderna, haja história mesmo na época moderna. Por outro lado, a época moderna pode ser considerada como o fim da história, se tomarmos “fim” no sentido de “telos” coletivo da humanidade. Cumprido esses “telos”, não haveria outros fins universais, e sim fins individuais ou particulares. Isso representaria a possibilidade da multiplicação indefinível dos fins. Analogamente, o fim do mundo pode significar a multiplicação dos mundos. Tal é, efetivamente, o sentido da modernidade.

Q: Como o senhor se interessou pela questão da modernidade?
AC
– Essa é uma questão obsessiva para os brasileiros, que normalmente querem ser “modernos”, seja lá o que isso signifique, e lamentam que o Brasil não consiga ser suficientemente moderno. A modernidade é confundida com a tecnologia, com o desenvolvimento econômico, ou com o neoliberalismo. O Brasil, que na década de 30 se considerava o país do futuro, hoje se envergonha desse rótulo, que se tornou insípido, mas não se sente ainda – praticamente no ano 2000 – um país moderno, isto é, um país do presente. Todas essas questões também me afligem. Tal problema é a fonte da necessidade da filosofia. Por isso, neste momento, o Brasil tem que ser capaz de produzir filosofia.

Q: Qual é o principal resultado de seu livro?
AC
– Ao contrário do que se pensa vulgarmente, a modernidade não é um fenômeno histórico, algo que pode haver ou não haver. Sempre e necessariamente há modernidade, pois ele é a essência do agora, algo que poderíamos chamas de “agoralidade”. Com efeito, não é errado dizer que a modernidade é o absoluto. Ela constitui o fundamento ontológico negativo e subjetivo do mundo. Por outro lado, o que pode haver é o conceito da modernidade. A modernidade enquanto tal pode não aparecer para nós. A nossa época não é a época em que surge a modernidade, mas a época que se chama de moderna, a época que se dá conta da modernidade e a tematiza, isto é, a época em que a modernidade deixa de ser simplesmente em si e passa a ser também para si, a época que se dá conta do fundamento negativo e subjetivo do mundo. A descoberta da modernidade é a descoberta do absoluto. Este se encontrava alienado em diferentes objetividades ou positividades.

Q: Mas normalmente a modernidade é identificada com o relativismo.
AC
– Trata-se de um equívoco. Ao contrário do que se pensa, conceber a modernidade é conceber o absoluto. Esse absoluto porém, ao contrário do absoluto teológico, não tem nenhum conteúdo positivo. Trata-se de um absoluto negativo ou de uma negatividade absoluta. Em tal absoluto baseia-se uma concepção de mundo que pode ser classificada como o fundacionismo negativo, que é a concepção moderna do mundo.

Q: Sua proposta é examinar a modernidade de modo isento, sem julgamento de valor ou, como parece, o senhor toma o partido da modernidade?
AC
– De fato, comecei a pensar na modernidade como se fosse uma realidade entre outras. Indo até o fundo da questão, acabei me dando conta de que a modernidade não é um
a realidade entre outras, mas a efetividade absoluta e negativa em oposição a todas as realidades relativas e positivas. Contra o notório relativismo e o contextualismo banal que de nossa época, essa descoberta se demonstrou apodicticamente como constituinte da verdade absoluta. Mas reconhecer uma verdade já é estar do lado dela.

Q: Sua terminologia parece hegeliana.
AC
– Não sou hegeliano, mas o desafio de Hegel foi decisivo na elaboração dos conceitos que me permitem compreender a modernidade. Critico longamente Hegel em meu livro, mas não posso deixar de empregar algumas de suas categorias – como a do absoluto e a da negatividade.

Q: Não há em seu livro diálogo explícito com os pensadores contemporâneos. Por quê?
AC
– Se distinguirmos, por um lado, o método de produção e, por outro, o método de exposição da teoria, diria que o diálogo com pensadores como Deleuze, Derrida, Apel, Habermas, Rorty, Vattimo etc. é decisivo no primeiro, mas não no segundo. Sinto que meu pensamento se opõe radicalmente a todas as maneiras contemporâneas de fazer filosofia. Percebi, porém, que num primeiro livro seria errado discutir explicitamente com todos eles, pois me enredaria num processo infinito de tentar justificar as minhas diferenças, de modo que acabaria não tendo oportunidade de expor em primeiro plano as minhas próprias idéias. Isso acontece muito com professores de filosofia. O fato de não pertencer à academia me libera da obrigação de aceitar as regras vigentes de fazer filosofia, isto é, me exime de ter que me fazer eunuco para melhor proteger o harém dos discursos já estabelecidos. [Home page de Antonio Cicero]

congresso

I CONGRESSO MINEIRO DE FILOSOFIA DO DIREITO

No período de 20 a 23 de agosto de 2007, reúne-se, na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, o I Congresso Mineiro de Filosofia do Direito, sob a presidência do Professor Titular de Teoria Geral e Filosofia do Direito e Diretor da Faculdade, Prof. Dr. Joaquim Carlos Salgado.

O evento, promovido pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da UFMG, já conta com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Livraria e Editora Del Rey e da Fundação Prof. Valle Ferreira, e é realizado em comemoração aos 75 (setenta e cinco) anos da Pós-Graduação em Direito da UFMG, inaugurada em 1931/1932, por iniciativa do Ministro Francisco Campos. Comemora, igualmente, o aniversário de oitenta anos da UFMG, fundada pelo Reitor Francisco Mendes Pimentel em 1927, e o cinqüentenário da Revista Brasileira de Estudos Políticos, fundada em 1956 pelo Reitor Orlando Magalhães Carvalho, revista do Programa de Pós-Graduação. Francisco Campos, Mendes Pimentel e Orlando Carvalho foram catedráticos na Faculdade de Direito da UFMG, e serão homenageados no evento.

A data também comemora o bicentenário da Fenomenologia do Espírito, obra do filósofo G.W.F. Hegel, publicada em 1807, e inspira o tema geral do Congresso: O Idealismo Alemão e os Horizontes do Direito Contemporâneo.

O Congresso ocorre pela manhã (comunicações e conferências), pela tarde (mesas redondas e comunicações) e pela noite (conferências e eventos), e contará com convidados de vários Estados e correntes de pensamento em conferências e mesas redondas.

Os congressistas pós-graduados, discentes de pós-graduação e de graduação, deverão encaminhar suas comunicações, que serão selecionadas pelo Comitê Científico, presidido pela Profa. Dra. Maria Helena Damasceno e Silva Megale, Chefe do Departamento de Direito do Trabalho e Introdução ao Estudo do Direito, para apresentação em sessões realizadas pela manhã ou à tarde. As comunicações serão recebidas até 03 de agosto em resumos de até 250 (duzentas e cinqüenta) palavras enviadas ao endereço eletrônico cmfd@direito.ufmg.br. Deverão constar do resumo nome completo, titulação e instituição de origem do autor.

A programação poderá ser consultada em versão completa no sítio http://www.direito.ufmg.br/cmfd; as inscrições serão feitas, de 03 a 21 de agosto de 2007, pelo sítio da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep): http://www.fundep.ufmg.br.

PROGRAMAÇÃO DO I CONGRESSO MINEIRO DE FILOSOFIA DO DIREITO

O Idealismo Alemão e os Horizontes do Direito Contemporâneo

Segunda-feira, 20.08:
10h: Abertura da Secretaria para entrega de credenciais
14h: Conferência de Abertura O Estado: Hegel e Carl Schimitt:: Prof. Dr. Joaquim Carlos Salgado
16h: Mesa Redonda Kant e o Direito Contemporâneo
· Prof. Dr. Francisco Javier Herrero Botin (FAJE)
· Prof. Dr. Arno Dal Ri Júnior (UFSC)
· Prof. Dr. Marcelo Campos Galuppo (PUC-Minas)
· Prof. Dr. Alexandre Travessoni Gomes (UFMG)
· Prof. Dr. Luiz Moreira (Dom Hélder)
19h: Homenagem à Pós-Graduação e ao Ministro Francisco Campos: Prof. Dr. João Bosco Leopoldino da Fonseca (UFMG)
20h: Conferência Crise da Modernidade, Teoria Crítica e novos paradigmas do Direito Contemporâneo: Prof. Dr. Antônio Carlos Wolkmer (UFSC)

Terça-feira, 21.08:
8h: Sessões de comunicações
10h: Conferência Prof. Dr. Tércio Sampaio Ferraz Júnior (USP)
14h: Mesa Redonda Hegel e o legado do Idealismo Alemão
· Prof. Dr. Dênis Lerrer Rosenfield (UFRGS)
· Prof. Dr. Ari Marcelo Sólon (USP)
· Prof. Dr. Leonardo Alves Vieira (UFMG)
· Prof. Dr. Alfredo de Oliveira Moraes (UFPe)
· Prof. Dr. José Luiz Borges Horta (UFMG)
· Profa. Dra. Mariá Brochado (UFMG)
17h: sessões de comunicações
19h: Homenagem à RBEP e ao Reitor Orlando Carvalho: Prof. Dr. Arthur J. Almeida Diniz (UFMG)
20h: Conferência A Fenomenologia do Espírito e o espírito da Fenomenologia: Prof. Dr. Nelson Nogueira Saldanha (UFPe)

Quarta-feira, 22.08:
8h: Sessões de comunicações
10h: Conferência Desafios da Filosofia do Direito no início do século XXI: Prof. Dr. Celso Lafer (USP)
14h: Mesa Redonda Desafios ao Olhar Histórico sobre o Direito
· Prof. Dr. José Reinaldo Lima Lopes (USP)
· Prof. Dr. Carlos Eduardo de Abreu Boucault (UNESP)
· Prof. Dr. Airton Seelaender (UFSC)
· Prof. Dr. Ricardo Marcelo Fonseca (UFPR)
· Prof. Dr. Antônio Álvares da Silva (UFMG)
· Profa. Dra. Mônica Sette Lopes (UFMG)
· Profa. Dra. Miracy Barbosa de Sousa Gustin (UFMG)
19h: Sessão de homenagem aos professores eméritos e jusfilósofos Paulo Emílio Ribeiro de Vilhena e Elza Maria Miranda Afonso: Profa. Dra. Maria Helena Damasceno e Silva Megale (UFMG)
20h: Conferência Limites Éticos ao Poder Constituinte Originário e à Concretização da Constituição pelo Judiciário: Prof. Dr. João Maurício Adeodato (UFPe)

Quinta-feira, 23.08:
8h: Sessões de comunicações
10h: Conferência Da possibilidade à necessidade de respostas corretas em Direito: Prof. Dr. Lênio Luís Streck (UniSinos)
14h: Mesa Redonda Hermenêutica Jurídica e Justiça:
· Prof. Dr. Antônio Cotta Marçal (PUC-Minas)
· Prof. Dr. Marcelo Andrade Cattoni de Oliveira (UFMG)
· Profa. Dra. Maria Helena Damasceno e Silva Megale (UFMG)
· Prof. Dr. Arnaldo Afonso Barbosa (UFMG)
· Profa. Dra. Fabiana de Menezes Soares (UFMG)
· Prof. Dr. Luis Carlos Balbino Gambogi (FUMEC)
· Prof. Dr. Nuno Manuel Morgadinho dos Santos Coelho (UNIPAC)
19h: Homenagem à UFMG e à memória de seu 1° Reitor, Mendes Pimentel: Vice-Reitora Profa. Dra. Heloísa Maria Murgel Starling
20h: Conferência de Encerramento Filosofia Política: Personalismo Comunitário: Ministro de Estado Prof. Dr. Patrus Ananias de Souza (PUC-Minas)

dialética para todos

por MÁRCIA TIBURI

Dialética para Todos, o CD-ROM que acaba de ser lançado pelo filósofo e professor gaúcho Carlos Cirne Lima, torna palatável para qualquer gente um dos mais complexos temas da disciplina filosófica, geralmente difícil até mesmo para filósofos profissionais. Amparado em animações, o disco, de quebra, ainda lança uma especializada teoria sobre a dialética

Quem não simpatizar muito com conceitos e idéias pode abrir o CD Dialética para Todos e regalar-se com a fantástica produção gráfica feita por Maria Tomaselli, Alípio Lipstein e Maurício Santos, ouvindo a música gostosa do Carlos Dohrn. O material, feito para pensar, é, em primeiro lugar, bom demais de ver. O CD é daquelas festas para os olhos que tanto movem a curiosidade quanto nos deixam cheios de dúvidas e perguntas. Do prefácio, animado por um grifo, ao final dos créditos, com um jogo divertido, as imagens – muitas delas da obra de Tomaselli – são mais que acompanhamento dos conteúdos, são a forma pela qual é possível acompanhar o significado de tais conteúdos.

Do que é feito para ver ao que explica o que é visto, Dialética para Todos torna o por demais complexo da disciplina filosófica palatável a qualquer mentalidade. As crianças assistem extasiadas, acostumadas que são com a interatividade do computador. O mesmo maravilhamento ocorre com os adultos que se fixam – quem sabe, com mais dificuldade – diante de um tema difícil até mesmo para filósofos profissionais, já que carregado de divergências historicamente estabelecidas. A função inicial do CD é ajudar todos a compreenderem o que é dialética, mas acaba também apresentando uma especializada teoria sobre o tema, ainda que acessível.

Nós – o público – não sabemos o que é filosofia, tanto menos sabemos o que é dialética, um dos termos mais fortes de uma tradição do pensamento ainda mitificada. Cirne Lima, autor e roteirista do CD, aparece como um narrador cheio de paciência e, certo da necessidade de explicação didática, faz um passeio por essa complexa tradição, desde os pré-socráticos até suas próprias teorias relativas ao presente da dialética. Ele mostra as origens do termo na Antigüidade, sua apropriação pela filosofia de Hegel na era moderna e as abordagens críticas, refutadoras ou reconstrutivas, propostas pelos mais contemporâneos pensadores. Há uma crítica severa à dialética negativa de Adorno, são apropriadas as descobertas analíticas de Frege, Russel, Heiss e outros, no que elas podem ajudar no motivo da reconstrução da dialética e da noção de sistema com a qual Cirne Lima coloca-se, ele mesmo, na corrente da histórica discussão.

O CD é, para início de conversa, uma boa introdução aos problemas dos antigos e o modo como foram herdados e pretenderam resolver-lhes os filósofos da atualidade. Cirne Lima, aos poucos, enquanto nós nos deliciamos com o brinquedo montado por Tomaselli e seus colegas de produção gráfica, mostra como uma visão de dialética corrigida, ou seja, aquela que revê o sentido da contradição e opta pela contrariedade, que compreende a relação entre liberdade e responsabilidade como categorias também lógicas, pode ainda refazer o sentido da filosofia para todos e repropor o significado do que os filósofos chamaram de dever-ser, o norte de nossas ações.

Cirne Lima tenta mostrar como há uma evolução, não necessariamente um progresso, no uso do termo. Aprofunda o sentido e a função da palavra dialética que, ainda que não tão comum em nosso linguajar cotidiano, muitas vezes aparece – para os curiosos – como não mais do que uma luta de alguns em sustentar a contradição como verdadeira. Cirne Lima vai ao início da questão retomando as raízes históricas da idéia de “jogo de opostos”. Esse significado, todavia, serve apenas para um início de apresentação de um problema de relevância mais do que acadêmica e esotérica. Aliás, o CD mostra-nos a diferença entre teorias esotéricas e exotéricas, o que é para poucos e o q’ue é para muitos e afirma, assim, sua própria proposta.

Se a Dialética é “para todos”, Cirne Lima faz-nos o favor, não apenas de oferecer sua opinião fundamentada, que poderá ser compartilhada num contexto democrático, mas define num ato, no melhor sentido da tarefa filosófica, que aquilo que se diz como filosofia só tem sentido à medida que disposto num contexto de diálogo.

O que é, então, esta dialética de que o CD tenta dar conta em sua totalidade? A etimologia da palavra diálogo é, pois, o que melhor explica a dialética: confronto das razões, dos argumentos, busca por forjar uma explicação das coisas que possa ser compartilhada por todos os que podem compreender, todos os que possuem racionalidade, todos os que buscam a verdade e os modos de acessá-la. O diálogo é a atitude interna proposta por este novo material.

A própria forma em CD, que se dispõe para além do formato em códice que é o do livro (Dialética para Principiantes teve várias edições), já define uma Dialética para Todos, pois, em tempos de interatividade por meio da computação, um CD pode ser mais barato que um livro e pode ser compartilhado de modos bastante afins ao tempo presente: um computador no contexto da escola, da família, dos grupos na sala de aula, conferências, cursos. Claro que o CD não elimina a importância ou a necessidade do livro, mas apresenta-se como uma nova alternativa a uma geração que se mover dentro desta linguagem. Assim a filosofia diz-se como algo que continua pertencendo ao nosso tempo.

Baseado no livro Dialética para Principiantes, de Carlos Cirne Lima, o CD-ROM Dialética para Todos oferece mais de 12 horas de animação, em três grandes capítulos. Está sendo distribuído gratuitamente em escolas da rede pública estadual. Quem quiser adquirir seu próprio disco deve procurar o StudioClio (Rua José do Patrocínio, 698), em Porto Alegre, fone (51) 3254 -7200. Lá o CD-ROM sai por R$ 25. [Zero Hora 20/5/06]

depois de hegel

Lançamento de livro e Conferência

O Programa de Pós-Graduação em Filosofia, o Curso de Filosofia e o autor Carlos Roberto Velho Cirne Lima convidam para lançamento do livro Depois de Hegel, Editora EDUCS.

Antes, porém, haverá uma conferência sobre o assunto para a qual todos estão convidados.

Local: Miniauditório da Biblioteca-UnisinosData: 11 de junho de 2007, segunda-feira
Horário: 20h – início das atividades
PPG e Curso de Filosofia da UNISINOS
(51) 3590-8781(51) 3591-1122 (ramal 2121)www.unisinos.br/ppg/filosofia/