o projeto de ética mundial de hans küng

Entrevista com Manfredo Araújo de Oliveira

“A intuição básica que Hans Küng defende, em vários livros, que a solução para os grandes problemas da humanidade implica um consenso ético mínimo é correta. Esta intuição, aliás, não é só dele. Hoje, por exemplo, Jürgen Habermas e Karl-Otto Apel defendem fortemente esta idéia”, afirma Manfredo de Oliveira. Mas, continua Manfredo de Oliveira, “vejo um problema fundamental na proposta de Hans Küng”. “Ele fundamenta sua proposta ética na religião. O problema está todo aqui”.

Hans Küng estará na Unisinos, no dia 22 de outubro, discutindo o Projeto de uma ética global. Nos dias subseqüentes ele estará em Porto Alegre, Curitiba, Brasília, Rio de Janeiro e Juiz de Fora. O Projeto de uma Ética Global será debatido nesta quinta-feira, pelos professores Dr. Vicente de Paulo Barretto e Dr. Alfredo Culleton, pesquisadores da Unisinos.

Manfredo Araújo de Oliveira, doutor em Filosofia, é professor titular da Universidade Federal do Ceará, atuando principalmente no campo da Ética. Entre seus livros mais recentes, citamos O Deus dos filósofos contemporâneos (Petrópolis: Vozes, 2003) e Dialética hoje: lógica, metafísica e historicidade (São Paulo: Loyola, 2004).

A seguir, a entrevista que ele concedeu para a IHU On-Line, pessoalmente, durante o Congresso da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciencias da Religião – SOTER, realizado no mês de julho, em Belo Horizonte.

IHU On-Line – Qual é a sua apreciação, como filósofo, do projeto de ética mundial de Hans Küng?
Manfredo de Oliveira – Em primeiro lugar, acho que é uma intuição fundamental que as questões que nos desafiam hoje implicam questões éticas. Isto é uma grande coisa, porque, vivendo num mundo em que a racionalidade científica é hegemônica, as pessoas são levadas a pensar que todas as questões que marcam a vida, em última instância, são questões técnicas e, portanto, podem ser resolvidas a partir do saber científico.

A intuição básica que Hans Küng defende em vários livros de que a solução para os grandes problemas da humanidade implica um consenso ético mínimo é correta. Esta intuição, aliás, não é só dele. Hoje, por exemplo, na Alemanha, Habermas e Apel defendem fortemente esta idéia, inclusive dizendo que, por exemplo, as éticas tradicionais são construídas a partir dos medos, tendo como referência as relações privadas e a modernidade, no máximo, os estados nacionais. Quando o mundo se globalizou e a civilização tecnológica se tornou planetária, todas estas éticas se tornaram insuficientes. De modo que hoje nós precisaríamos, como diz Apel, uma macroética de solidariedade. Isto é, as questões são globais.

Uma coisa importante, no caso de Apel, que não está muito clara em Hans Küng, é que a ética em questão é necessariamente política, no sentido grego de política. Ou seja, não diz respeito apenas e nem em primeiro lugar a ações individuais, mas a princípios normativos para instituições políticas de outra ordem, a nível global. Ele sabe muito bem que os gregos diziam que a questão normativa tem sempre duas dimensões: a dimensão do individuo, que eles mesmos chamavam de ética, e a dimensão política, que é aquela que tem princípios normativos para as instituições. Dado que se compreende que a vida humana é fundamental para as instituições e essas fecham ou abrem espaço para a realização de direitos, que envolve a questão da realização da ética. Hans Küng deixa na penumbra este aspecto político, que parece ser importantíssimo.

Porém, eu vejo um problema fundamental na proposta de Hans Küng. Do ponto de vista da motivação, é claro que a referência às religiões é importante, porque elas ajudam os indivíduos não só com princípios, normativos, abstratos, mas com comunidades religiosas que procuram realizar um estilo de vida. Mas, se a questão é política, não adianta só um estilo de vida baseado em indivíduos. Ele fundamenta sua proposta ética na religião. Ele diz que só a religião é capaz de fundamentar o caráter incondicional das normas éticas, uma vez que elas se referem ao incondicionado, ou seja, Deus. Portanto, fora da religião, não há possibilidade de fundamentação do caráter incondicional dos princípios normativos.

O problema está todo aqui. Deus não é demonstrável racionalmente, mas é fruto de uma opção livre nas diversas comunidades religiosas. Portanto, Deus é puro objeto de crença. Se é um objeto de crença que fundamenta o caráter incondicional da ética, quer dizer que todas estas éticas são, no fundo, crenças. Ora, como é que, na base de puras crenças, vamos fundamentar aquilo que deve enfrentar os grandes desafios do mundo contemporâneo? Todo o problema, repito, está aqui. Hans Küng é um não-cognitivista. Ele vê como algo definitivo o questionamento das provas da existência de Deus no pensamento de Kant. Ele considera isto como resolvido, não colocando mais esta questão.

Ora, se Deus é um puro objeto de crença, então ele jamais pode ser apresentado como algo que diz respeito a todos os seres humanos, uma vez que as diversas crenças são relativas aos seus membros e são fruto estrito de uma opção inteiramente livre e que diz respeito àquele grupo. Tanto assim é que, no Brasil, por exemplo, quando questões éticas fundamentais estão em jogo, se diz que não haverá qualquer participação das religiões, pois o estado é laico. Isso tem a ver com a totalidade da população e não com um grupo específico. Portanto, um grupo específico não pode pretender que suas convicções sejam válidas para todos os demais.

IHU On-Line – Isto significa que há um problema com o conceito de religião adotado por Hans Küng?
Manfredo de Oliveira – Há um problema não só com o conceito de religião. O problema é também, e principalmente, com o conceito de ética. Esta termina sendo, em última instância, algo estritamente ligado às religiões, uma vez que o caráter incondicional dos princípios normativos só pode ser demonstrado através de uma referência a Deus. Como Deus não é um objeto de uma demonstração racional, sendo fruto de uma pura crença, em última instância, todas as éticas são fruto de uma pura crença. Não existiria uma ética propriamente racional. Toda ética seria religiosa. E, como a religião é algo inteiramente livre, algo não válido universalmente, surge um conflito. Os problemas são universais e nós precisamos de uma ética mínima universalista. As religiões são todas, por natureza, particulares, mesmo que elas proponham uma salvação de caráter universal, como é o caso da religião cristã. Esta proposição é particular, de um grupo determinado, que acolheu esta proposta, que vive uma determinada experiência religiosa e tira um conteúdo ético desta experiência.

IHU On-Line – Aqui há um problema de fundo: a particularidade das experiências religiosas. Dada esta particularidade, até que ponto é possível avançar nesta questão? Em que medida é possível falar de algo comum entre as religiões?
Manfredo de Oliveira – Não dá para avançar, porque pressupõe, de fato, uma opção livre, não algo racional, portanto, de validade universal. A razão tem ligação com o que é comum. Os seres humanos são muito diferentes. Todas as culturas são formas específicas de concretização do ser humano e compete à razão descobrir o que é comum.

De fato, Hans Küng trata de buscar elementos que, de certa forma, são compatíveis com diversas tradições religiosas. Mas, no fundo, ele quer dizer que as grandes religiões, em última instância, conhecem princípios universalistas que são iguais para todas. Mas aí é que se encontra o problema: de novo se passa para o nível filosófico, dos grandes princípios universais. Na medida em que os princípios são religiosos, eles não são mais apenas isto: eles têm, como você disse muito bem, uma interpretação a partir da experiência religiosa específica, e então já se perde de novo o princípio da universalidade. O problema é a indecisão entre um desafio universalista e uma proposta particularista, dado que a fundamentação da ética deve ter um caráter incondicionado. Do contrário, se teria uma ética apenas hipotética. Ora, uma ética apenas hipotética não vai resolver os problemas, que são universais. E, como ele mesmo diz que para resolver todos os desafios atuais, que hoje são universais, os principais desafios da humanidade, que são a fome, a miséria, a destruição da natureza, nós precisamos de princípios que não sejam particularistas. Então, há uma contraposição entre o desafio e a proposta. E a razão dessa contraposição é que ele não admite uma demonstração universal, racional, de Deus. Deus é puramente objeto de crença e é ele que garante o caráter incondicional da ética. As duas coisas juntas resultam nisso.

IHU On-Line – Pode-se dizer, então, que universais mesmo são os problemas, e isto ainda depende do contexto em que se manifestam e de como são percebidos em cada contexto?
Manfredo de Oliveira – É claro. Eu estive, por exemplo, em certa ocasião num Congresso na Alemanha que tratava da globalização e o grupo da África insistia o tempo todo que isto não era problema deles, a tal ponto que alguns participantes reagiram achando que era burrice dos africanos. Mas não é problema de burrice, e sim da forma como as coisas são sentidas. Eles diziam que globalização é mais uma face do imperialismo dos países ricos, não queriam saber disso e seus problemas eram outros: 30% da população marcada com a AIDS, guerras tribais e outros problemas. Não estavam interessados em saber de globalização do mesmo modo que os demais participantes do evento. Era uma espécie de desabafo, uma leitura de um fenômeno que era universal, mas feita a partir da própria situação cultural, específica.

IHU On-Line – Diante destas percepções contextuais, ou de perspectivas diferentes de problemas universais, a busca de saída terá que passar pelo caminho do diálogo?
Manfredo de Oliveira – Não é possível mais fugir disso, uma vez que, tendo se internacionalizado o sistema econômico e a civilização tecnológica, todos os problemas dizem respeito a todos os povos. Não é possível mais buscar soluções parciais, como ainda se pensava no passado. Isto significa que esta é a questão universal. Claro que a ética sempre pretendeu ser universal, mas ela nunca teve antes esta universalidade quase que empírica. Agora, pela primeira vez, se pode falar no sentido estrito da palavra, de uma história mundial, uma vez que, com a ligação entre todos os povos, os acontecimentos se tornaram inclusive “on-line”. Nós sabemos das coisas que acontecem no mundo inteiro em questão de minutos ou até segundos. As transações e ligações entre todas as coisas acontecem a todo o momento, porque o sistema capitalista hoje atingiu todo o planeta, já não havendo “grotões” que estão fora do sistema. O capitalismo toca a todos, embora diferenciadamente, dependendo dos contextos diferenciados, das culturas, dos continentes. E, se toca a todos, diz respeito a todos e isto não acontece apenas no sistema econômico. Todas as grandes questões têm estas implicações.

IHU On-Line – E como filósofo, estudioso de ética, que caminhos o senhor vislumbra para a ética hoje?
Manfredo de Oliveira – Eu acho que estamos diante de um problema muito difícil. Uma saída que eu considero relativamente fácil é fazer como Apel e Habermas fazem. Eles dizem que nós temos que buscar estes princípios, mas numa perspectiva puramente formal, sem conteúdos, porque esses vêm das situações históricas concretas. Então, nós não teríamos propriamente uma ética que me diga o que é que eu devo fazer, mas apenas um procedimento de como eu devo discutir as questões éticas.

Mas isto não resolve o problema. Porque, a partir daí, nós só chegaremos a princípios abstratíssimos, que não ajudam nada na solução dos problemas concretos. Todo o princípio ético precisa ser universal. Mas quais são estes princípios?

Eu acho que é impossível minimamente demonstrar princípios que possam enfrentar as questões concretas sem enfrentar uma teoria do mundo, sem saber o que é o mundo. Por exemplo, como vou respeitar a natureza se sou incapaz de dizer o que é a natureza e em que sentido a natureza pode ter direitos? Não é por um sentido puramente formal que eu vou chegar a admitir, por exemplo, que a natureza é portadora de direitos e que não pode ser destruída sem mais.

A meu ver, o problema se encontra, sobretudo, no pensamento europeu, ainda por uma resistência que vem desde Kant, com uma enorme barreira a qualquer ontologia. Quer dizer, não se faz mais uma teoria do mundo. A filosofia virou apenas uma teoria do nosso conhecimento do mundo. Enquanto não superarmos a dicotomia entre ser humano e mundo, entre sujeito e objeto, entre teoria e realidade, que é a herança deixada pela modernidade, ainda hegemônica no pensamento atual, nós não teremos saídas. Teremos saídas, no máximo, abstratíssimas, que não são capazes de me dizer o que devo fazer frente às questões que cada um deve enfrentar. A questão fundamental da filosofia hoje é voltar a ser uma teoria da realidade, é voltar a falar do real. A partir dos valores, em primeiro lugar, ontológicos, eu posso me perguntar o que a realidade pode me dizer enquanto exigência ética. Ou seja, como aquilo que o Hans Jonas gostava tanto de dizer, o mundo e a realidade são, para mim, uma interpelação a respeitá-los. Enquanto não se chegar a compreender isto, não há saída.

IHU On-Line – Quando o senhor fala em “teoria do mundo”, qual é o seu conceito de mundo? O senhor se refere ao mundo com seus problemas concretos, o mundo enquanto experimentado por nós?
Manfredo de Oliveira – É o mundo com seus problemas concretos, o mundo não só humano, mas o mundo natural. Eu devo ser capaz de fazer com que a filosofia não seja apenas uma teoria das condições de possibilidade de conhecer o mundo, mas uma teoria do mundo, da natureza e da história humana. Sem isto eu não teria critérios para uma ética. Critérios racionais devem vir daí, da constituição das coisas.

IHU On-Line – Trata-se então de uma fidelidade ao real, mais do que teorias filosóficas?
Manfredo de Oliveira – Exatamente. O real me questiona. Enquanto a filosofia se perder numa teoria incapaz de compreender e dizer o que é o mundo, ela não vai saber dizer quais são os desafios que desta constituição do mundo provêm para a nossa ação.

Religião e Poder

http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=9408

‘A religião hoje é novamente um fator de poder na história mundial’. Entrevista com Hans Küng

Os cristãos fundamentalistas que seguem literalmente a Bíblia e dizem que não precisam das outras religiões, mas também as pessoas muito secularizadas, dogmáticos do laicismo são um entrave para o diálogo entre as religiões. A opinião é do teólogo católico e crítico da Igreja, Hans Küng. O teólogo em entrevista ao sítio dw-world.de, 11-09-2007, combate a visão equivocada que se tem do islamismo e lamenta o discurso de Regensburg de Bento XVI. Hans Küng é o fundador do projeto Por uma Ética Global– a idéia de que as religiões podem contribuir para difundir a paz pelo planeta.

O teólogo Hans Küng estará na Unisinos, no próximo mês – dia 22 de outubro de 2007 -, discutindo o Projeto de uma ética global. Nos dias subseqüentes ele estará em Porto Alegre – Goethe-Institut; Curitiba – Universidade Federal do Paraná (UFPR); Brasília – Universidade Católica de Brasília (UCB); Rio de Janeiro – Universidade Cândido Mendes e Juiz de Fora – Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

A preparação da vinda de Küng ao Brasil pode ser acompanhada através do Fórum On-line sobre o Projeto de Ética Global de Hans Küng.

Eis a entrevista.

Temas religiosos novamente despertam um enorme interesse das pessoas, não só na Alemanha. Pode-se falar de um retorno das religiões?

Retorno das religiões – isso é uma expressão ambivalente. A religião nunca havia sumido. Como a música, a religião é algo que permanece, mesmo que por um certo tempo seja suplantada. É certo que, desde o ressurgimento do islã, desde a fundação da República Islâmica do Irã em 1979, os europeus se conscientizaram de que não determinam o mundo sozinhos. Durante muito tempo, a Europa secularizada não percebeu que é um caso especial e que a religião em outros lugares é um poder.

“Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões! Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões”. Essas são duas frases centrais o princípio do etos mundial, elaborado pelo senhor. Na era da globalização, há possibilidades inimagináveis de comunicação via internet. Esse desenvolvimento pode melhorar o diálogo entre as religiões?

Em princípio, eu diria que sim, mesmo que isso implique uma série de problemas. É positivo que hoje possamos estar bem informados sobre outras religiões. Uma outra questão naturalmente é se se pretende estar informado. Há pessoas que não o querem, que já sabem tudo antes, sem que tenham estudado o islã.

Quem não quer saber isso?

Por um lado, são os cristãos fundamentalistas, que seguem literalmente a Bíblia e dizem que não precisam das outras religiões. Mas podem ser também pessoas muito secularizadas, dogmáticos do laicismo. Estes já coram quando simplesmente se fala a palavra religião, e acham que sobre isso não se precisa falar na escola. Eles têm dificuldade com o fato de que a religião novamente representa um fator de poder na história mundial.

De acordo com uma pesquisa representativa, o cristianismo não é mais a religião mais simpática aos alemães e, sim, o budismo. Como o senhor interpreta isso?

O budismo é visto no Ocidente como uma religião livre de dogmas, sem muitas prescrições. Trata-se de uma religião voltada para dentro, que dá importância à meditação, que não tem uma imagem demasiado antropomorfa, concreta, da última realidade. O outro fato é que o cristianismo, com sua concentração de poder, irrita muita gente. Quando temos um papa que aparece o tempo todo, que, como senhor espiritual do mundo, tem a pretensão de que só quem está com ele é um cristão verdadeiro, que somente sua Igreja Católica Romana é a verdadeira igreja, então isso irrita muitas pessoas. E, mesmo que não protestem publicamente, elas se afastam e dizem que não querem ter nada a ver com isso.

Voltemos ao islã. Na pergunta sobre a “religião mais pacífica”, o budismo lidera com 43% contra 41% do cristianismo. O islã fica com apenas 11% nesse ranking. O islã é uma imagem do inimigo no Ocidente?

Sim, o islã representa sem dúvida uma imagem do inimigo no Ocidente, visto que o Ocidente só se concentra em determinados pontos do islã. Isso já vale para a história. Os europeus o vêem sob o ponto de vista do avanço do islã do norte da África até a Espanha entre os séculos 8º e 15 e do domínio otomano nos Bálcãs. Mas não se vê nesse contexto que os cristãos não só realizaram as cruzadas, como também colonizaram todo o mundo islâmico, do Marrocos até as ilhas da Indonésia, no século 19.

Daí surgem tensões, muitas das quais o Ocidente não resolveu até hoje. Isso vale sobretudo para as relações entre os palestinos e Israel. Se tivesse sido feito um acordo de paz após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, nunca teria surgido um Bin Laden, nem teriam ocorrido os ataques ao World Trade Center em 2001. Em vez disso, propagou-se a sensação de que os ocidentais se fixam inclusive na santa Arábia, se instalam no Afeganistão, avançam em todo lugar, de modo que se formam resistências. Obviamente temos de condenar homens-bomba e atentados. Mas é preciso refletir por que tantos jovens estão tão desesperados a ponto de se colocarem à disposição para tais atentados.

A Igreja Católica poderia contribuir mais para a solução desses conflitos e para o diálogo entre as religiões?

É preciso dizer que João Paulo II rejeitou claramente a guerra no Iraque, como também o fizeram o patriarca de Moscou, o arcebisto de Canterbury, o Conselho Mundial das Igrejas e o Conselho das Igrejas Norte-Americanas. Não é mais tão fácil entusiasmar as Igrejas para a guerra como era antigamente. Obviamente poderia ser feito mais, sobretudo em termos de esclarecimento. Se o papa quis classificar o islã como religião violenta, em seu discurso em Regensburg, então ele mesmo notou que esse é o caminho errado. É preciso pensar nos rastros de sangue que os cristãos deixaram na história. Daí se será modesto e não se dirá, “nós temos a religião do amor e eles uma religião do ódio”. Também a maioria dos muçulmanos no Egito, no Marrocos e no Afeganistão ou Paquistão quer paz, como eu e você.

O senhor acredita que o papa vê o discurso que fez em Regensburg como um erro? Não se tem necessariamente a impressão de que ele tenha se distanciado claramente do que disse.

Ele notou sim que foi um erro e teve de engolir muita crítica. Ele corrigiu seu discurso diversas vezes. Naturalmente é muito difícil para os romanos, e também para o bispo de Roma, o papa, admitir um erro. Quando se tem uma ideologia da infalibilidade também se comete erros infalíveis, que naturalmente não se pode corrigir. Mas foi evidente que o papa, em sua viagem à Turquia, fez um grande esforço para apagar a má imagem que obteve com o discurso de Regensburg.

Mesmo que o islã na Europa seja visto com ceticismo, mundialmente ele tem uma grande atratividade para muitas pessoas, principalmente para os jovens. Há 1,3 bilhão de muçulmanos e a tendência é que esse número aumente. De Rabat (capital do Marrocos) a Damasco há grupos políticos islâmicos que se tornam cada vez mais fortes. A que se deve isso? Os motivos são religiosos ou sociais?

Ambos. São grupos religiosos que se empenham pelas pessoas. Muitos muçulmanos nesses países têm a sensação de que as elites governantes têm uma vida própria e pouco se importam com o povo. Os grupos fundamentalistas islâmicos – ou como se queira chamá-los – se esforçam muito para fazer algo pelas pessoas. Eles providenciam escolas e educação, dão roupa e alimentação.

Por que o Hamas venceu as eleições? Porque ele se empenhou pelas pessoas. Uma das maiores tolices da política ocidental – aliás, corroborada pela política alem㠖 foi não reconhecer essas eleições democráticas. Em vez disso, se adverte: vocês precisam reconhecer Israel! Diga isso a pessoas que há décadas são terrorizadas por uma potência de ocupação. Não é dessa forma que se resolvem problemas. Deve-se reconhecer que há partidos que, sob determinadas circunstâncias, têm o islã como base, mas se empenham pelas pessoas.

Um exemplo melhor é o partido do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, na Turquia. Por que eles venceram? Porque eles se empenharam pelas pessoas. Apesar de todas as fraquezas que eles têm, mostraram que conseguiram avanços enormes para o país e de forma alguma criaram um Estado islâmico como o Irã. Eles querem uma democracia, mas também não querem degradar o islã unicamente à esfera pessoal, como aconteceu sob [Mustafá Kemal] Atatürk, fundador do país.

O senhor certa vez classificou a Turquia como “laboratório da democracia”. É possível conciliar fé, religião com democracia?

A religião pode conviver com a democracia. Os principais arquitetos da unificação européia, de Charles de Gaulle e Konrad Adenauer a Robert Schuman e Alcide de Gasperi, eram cristãos praticantes. O fato de o islã no momento ter mais problemas com a democracia do que com o cristianismo, se deve a que, no islã, ao contrário do que ocorreu no cristianismo e no judaísmo, não houve reforma e iluminismo – à exceção de alguns círculos. Quem pretende ajudar ali precisa apoiar as forças moderadas e isolar os radicais. A maior tolice é enfrentar essa gente com exércitos. Isso é tão estúpido quanto seria enfrentar a máfia com aviões de combate.

Até que ponto deveria ir então a disposição para negociar com as forças radicais? Seria necessário negociar também com o Talibã e a Al Qaeda?

Com a Al Qaeda você não pode negociar. Isso é uma organização terrorista secreta, que só se pode exaurir. Mas o Ocidente os regou tanto que eles puderam brotar. Os serviços secretos norte-americanos admitiram recentemente, em documentos sigilosos, que a guerra no Iraque ajudou a Al Qaeda. Antes não havia Al Qaeda no Iraque. Com o Talibã, com certeza, se poderia negociar. Eles não são todos loucos. Também lá há extremistas, mas, por outro lado, há entre eles os que advertiram a administração Bush para o 11 de Setembro. Não se levou isso a sério. Houve líderes de clãs no Afeganistão que advertiram contra uma intervenção militar no país.

Para concluir, uma pergunta pessoal: no dia 12 de setembro, o senhor apresenta a sua autobiografia Umstrittene Wahrheit (Verdade Controversa). Fazendo um balanço do seu trabalho sobre etos mundial, o senhor ainda o vê com tanto otimismo como em 1990, quando escreveu o livro sobre o assunto?

Quando escrevi o livro em 1990 tinha-se naturalmente a esperança de que futuramente não se resolveriam problemas com meios militares, agressões, inimizades e guerra e, sim, através da compreensão mútua, da cooperação e da integração – como havia ocorrido no Leste e no oeste da Europa. Isso lamentavelmente foi transtornado pela política desvairada iniciada pela segunda administração Bush, com a ajuda de uma clique de intelectuais judeus ultraconservadores, os assim chamados neocons, e fundamentalistas protestantes.

Não sou inimigo e, sim, um amigo dos americanos. Espero que, apesar desse retrocesso resultante da política de Bush Jr., na América se lembre da grande tradição democrática do país e se tente ser potência líder no sentido da compreensão, da moderação e da paz mundial.

Doeu-lhe o fato de o papa Bento 16 não ter aceito sua idéia do etos mundial?

Em princípio, ele aceitou a idéia. Ele também entende que é preciso haver padrões éticos comuns. Ele admitiu na conversa comigo que estes padrões devem valer na mesma medida tanto para crentes quanto para não-crentes. Era de se esperar que ele pessoalmente encampasse de forma clara essa idéia. Mas, o que ainda não ocorreu, talvez ainda possa acontecer.