dos males e do mal

Em “Eichmann em Jerusalém”, Hannah Arendt alertou para as ameaças às condições de existência do homem

por JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI

De vez em quando topamos com um livro que nos pega por inteiro e nos desvia de um programa de leitura cuidadosamente preparado.

Foi o que me aconteceu com “Eichmann em Jerusalém” [Cia. das Letras], um livro maravilhoso e polêmico de Hannah Arendt.

Aliás, tudo o que ela escreve nos toca como um clarão: insight genial que, contudo, ofusca algumas teses ainda discutíveis.

Descreve o processo a que foi submetido, em 1960, Otto Adolf Eichmann, especialista em questão judaica durante o domínio nazista e alto funcionário da máquina de destruição montada pelo governo.

Mas isso lhe basta para quebrar tabus: Eichmann não é um monstro furioso, mas burocrata zeloso que deixa sua consciência de lado para seguir regulamentos; fica contente quando resolve uma tarefa, mesmo quando se trata da melhor maneira de mandar judeus para as câmaras de gás. Além disso, Arendt se pergunta se os judeus não foram muito passivos diante da tragédia que se lhes abatia.

Não se trata daquela conivência que se estabelece entre as vítimas e os algozes, mas de uma colaboração, muitas vezes tácita, no funcionamento da máquina mortífera. Imagine-se o escândalo que tudo isso provocou e provoca até hoje.

Não duvida de que Eichmann deva ser condenado à morte, mas observa a manipulação do processo da parte de Ben Gurion [primeiro primeiro-ministro de Israel] e, sobretudo, se detém nas irregularidades jurídicas dos procedimentos.

Não acredita que por isso o julgamento deva ser anulado, mas está atenta àquelas mudanças no modo de julgar um crime até então desconhecido. Por isso não se alia a Martin Buber, o grande teólogo judeu da época, que lidera o movimento pedindo clemência para o condenado.

A história está cheia de genocídios, mas em geral são explosões de ódio entre inimigos, que, para reforçar sua diversidade, costumam marcar seus corpos com sinais diferentes. Mas entre os arianos e os judeus a diferença se instala na alma da raça, como se fossem espécies diferentes e longínquas de um mesmo gênero.

Para purificar a raça manchada pelos judeus, ciganos, comunistas, homossexuais etc., o governo nazista monta uma fábrica de morte de base fordista.

Não pretende assim combater um inimigo exterior, mas aquele que circula em suas próprias veias, expurgar uma diferença que se infiltrou no cristal de sua superioridade.

Solução radical
Por certo, a política de extermínio somente foi adotada nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial, pois no início os nazistas pretendiam expulsar os judeus para a Palestina e, depois, ainda pensavam em despachá-los para Madagascar.

Dada a inviabilidade dessas saídas, adotam a solução radical: assassinar todo judeu europeu pelo simples fato de ser judeu.

Arendt se vê então diante de um crime inédito. Os julgamentos de Nuremberg já tinham ocorrido, mas ali os chefes nazistas tinham sido condenados por um tribunal de vencedores, na base de atrocidades cometidas contra inimigos externos e internos. No julgamento de Jerusalém, em contrapartida, se acusa um agente daquele sistema montado para tornar “Judenfrei” [livre de judeus] a Grande Alemanha, que não é um inimigo no sentido tradicional, soldado que luta contra outro em busca da vitória.

Se um desses considera bárbaro o outro e vice-versa, lutam tendo no horizonte uma paz possível, certa convivência no futuro, mesmo que o outro venha a ser reduzido à situação de escravo. Na sua última fase, a guerra contra os judeus é filtragem.

Note-se a diferença com outros genocídios. Os hutus e os tutsis se exterminam simplesmente porque são diferentes e pretendem ocupar o mesmo espaço. Mas o preconceito dos cristãos contra os judeus -e essa é uma observação de Paul Veyne- nasce de uma indiferença.

Corintianos e palmeirenses
O judeu não é carne nem peixe, é matriz do cristão que dele se distancia pouco a pouco. Aqui não há alguma coisa da rivalidade entre corintianos e palmeirenses, que sempre se hostilizam?

Essa indefinição permitiu que os judeus alemães já se houvessem assimilado a ponto de declararem que o judaísmo era sua religião, mas a pátria, a Alemanha.

No entanto o conceito de Hannah Arendt que mais escandaliza é aquele da banalização do mal. Como pode ser banal o extermínio de 6 milhões de judeus? Esse resultado, entretanto, não pode ser obtido por atos desprezíveis, mas banais?

Vejamos o caso de Eichmann: não é um monstro, mas um pobre-diabo atado a uma maquinaria infernal. E, como não é posto em julgamento por sua consciência, mas por causa de seus atos mecanizados, embora reconheça a enormidade da matança, sempre se considera inocente “nos termos postos pela acusação”.

Suas ações não deixam de ser, mas o perverso, contudo, é o sistema que banaliza a má conduta repetitiva.

Embora seja praticado contra uma de suas partes, um crime contra a humanidade termina por atingi-la por inteiro, solapa suas mínimas condições de existência. O bombardeio de Hiroshima é desse tipo, pois sua repetição põe em risco a sobrevivência dos seres humanos na Terra. Igualmente, o Holocausto é um crime contra a humanidade, pois seres humanos são mortos simplesmente porque não são nem totalmente idênticos nem totalmente indiferentes.

Mas nesse nível o mal não se exerce mais contra alguém ou contra um grupo determinado, processa-se banalmente como se não houvesse indivíduos a serem trucidados, mas unicamente nomes a serem riscados da lista.

Hoje em dia, esse crime se torna ainda mais banal porque, ao abandonar o padrão fordista e substituí-lo por outro, digital -a antiga técnica sendo substituída pela nova tecnologia-, a maquinaria da morte dá lugar a uma rede de pontos semelhantes, cada um deles quase sempre capaz de realizar as tarefas primárias.

Se o inimigo é interno, como um grão de areia que pode interromper um circuito e bloquear o funcionamento do aparelho como um todo, agora não está mais entranhado na alma de cada indivíduo. Purificar não é mais preciso, basta extinguir o outro, a parte doente, o micróbio que ameaça a saúde do corpo.

Se uma diferença de raça diferencia pela totalidade, a nova faz do inimigo o mal radical e assim se apresenta como o bem igualmente radical. Mas a idéia de mal radical é religiosa, associada ao pecado e à queda. Desse modo, o inimigo perde o perfil para vir a ser a tentação da serpente. [FOLHA 3/6/07]

filosofia e desenvolvimento pessoal e organizacional

Existentia, termo latino de onde deriva a expressão portuguesa existência. Existir vem de ex (para fora) e sistir (durar, permanecer). Existir quer dizer vir-a-ser, tornar-se, aparecer. Para Hannah Arendt, nós, homens, partilhamos com todos os seres vivos, um impulso de auto-exposição, a tendência para aparecer completamente: as sementes desabrocham em flores, os frutos amadurecem…

Mas apenas nós, homens, temos um impulso de auto-apresentação – tanto podemos participar da decisão de como queremos aparecer no mundo, quanto podemos interferir nesse auto-aprontamento. Existir é uma tarefa que está, inexoravelmente, sob nossa responsabilidade. Para Heidegger, isto quer dizer que todas as criaturas simplesmente são, enquanto apenas os homens existem.

Dulce Critelli [foto] é Profª Drª Titular do Departamento de Filosofia da PUC-SP, onde leciona desde 1973, nos cursos de graduação e pós-graduação. É Mestre em Filosofia da Educação e Doutora em Psicologia da Educação. Sua área de especialização é a Filosofia da Existência. Tem ministrado cursos de Pós-Graduação em diversas Universidades brasileiras como professora convidada, e proferido inúmeras palestras.

É articulista da Folha Equilíbrio do jornal Folha de São Paulo e terapeuta existencial. Coordena o Existentia – Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana, que fundou em 2002, e tem como perspectiva o uso da filosofia como uma ferramenta essencial para o auto-conhecimento e o desenvolvimento de indivíduos e organizações. Ali oferece serviços de orientação profissional, aconselhamento, cursos, palestras, oficinas e desenvolve programas especiais para empresas.