infinitos mundos

BRUNO, Giordano [1548-1600]. Do imenso e dos inumeráveis [1591]

[1] Os sentidos não nos elevam ao infinito nem favorecem o conhecimento que temos deles, uma vez que isso não lhes compete, mas estupidamente só a molestadora turba do Sofista [Aristóteles] poderá considerar que aquilo que se expressa pelos sentidos seja a verdade…

[2] Age igualmente como insensato quem afirma que com os sentidos se pode demonstrar a limitação do universo, uma vez que para além da extrema órbita das estrelas fixas não existe nenhum corpo luminoso que eles possam indicar; como se alguém afirmasse que se pode identificar o limite de um bosque com os sentidos porque não se enxergam as árvores mais adiante.

[3] Mas nós, ao contrário, dizemos que podemos perceber pelos sentidos a infinitude do universo, uma vez que os sentidos sempre deslocam o centro do horizonte para a periferia do horizonte e fazem dele seu companheiro inseparável: de modo a fazer que seja centro qualquer ponto da periferia (quando se tenha deslocado para a periferia).

[4] Portanto, os sentidos ensinam que, se estivéssemos sobre qualquer outro astro, nós estaríamos, igualmente, no centro, e dali a Terra também pareceria encontrar-se sobre um ponto da circunferência…

[5] O centro do espaço infinito pode ser determinado em qualquer lugar. De qualquer lado, efetivamente, se estende uma igual grandeza. É preciso, portanto, convencer-se de que o que paira sobre os corpos na natureza não é um limite, mas a harmonia da vida, contemplada pelos sentidos e pela alma que está neles…

[6] Chamamos fixo um astro que brilha. Assim parecem, efetivamente, os corpos luminosos em relação aos planetas: mas quem conseguisse observar o seu corpo com olhar mais penetrante que o do vulgo poderia facilmente negar que, com exceção dos sete planetas, todos os outros mantêm uma distância igual da órbita sobre a qual se encontra o ponto de observação.

[7] Compare, efetivamente, uma das estrelas menores com uma estrela da Virgem ou com qualquer grande estrela que esteja mais distante daquela: em diversos momentos a verás a distâncias diversas…

[8] Dissolve-se assim a imagem de um céu que mantém fixas as suas estrelas com firmes liames e que arrasta em um único movimento todos os corpos celestes aos quais não seria permitido se mover por uma força interior mais do que é permitido se mover a um nó da madeira, se a madeira permanece parada. Portanto, considera finalmente de que modo se possa fender a atmosfera imutável (poder fendê-la está fora de nenhuma dúvida) e livra-te desses infelizes delírios dos Sofistas.

[9] O espaço, portanto, é sulcado de modo a não resultar vazio é tampouco completamente cheio, e, na verdade, uma determinada substância preenche o espaço, é acessível a todos os corpos; nela, os corpos do mundo podem ser submetidos às leis eternas do movimento e da quietude.

[10] A perfeição das coisas não foi oportunamente atribuída a este mundo pelos sentidos e pelas suas afirmações. Como puderam pensar que estivessem encerradas em um espaço limitado todas as coisas que, infinitas, podem acontecer em qualquer lugar, sempre em tão grandes e tão vastos espaços? Mesmo admitindo que exista um homem tão grande, dotado de um engenho igual ao da totalidade dos homens, o que impede que existam outros homens que participem da sua perfeição na ordem do gênero e nas partes da matéria que assim se difunde?

os sentidos não captam o infinito nem provam o finito

“Os sentidos não nos elevam ao infinito nem favorecem o conhecimento que temos deles, uma vez que isso não lhes compete, mas estupidamente só a molestadora turba do Sofista poderá considerar que aquilo que se expressa pelos sentidos seja a verdade. Age igualmente como insensato quem afirma que com os sentidos se pode demonstrar a limitação do universo, uma vez que para além da extrema órbita das estrelas fixas não existe nenhum corpo luminoso que eles possam indicar; como se alguém afirmasse que se pode identificar o limite de um bosque com os sentidos porque não se enxergam as árvores mais adiante.” [Giordano Bruno, Do imenso e dos inumeráveis]