Esquecer em tempos de tecla “save”

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trópico 7/2/08

Esquecer em tempos de tecla “save”

Na era da informação em tempo real, por que temos tanto medo de não lembrar?

por MARIA CRISTINA FRANCO FERRAZ

Enquanto somos levados a fazer constantes “upgrades” nas memórias de nossos computadores, somos cada vez mais assombrados pelo temor do esquecimento. O medo de envelhecer, tão presente em nossa cultura, está ligado à sensação inquietante de perda progressiva da memória, associada ao funcionamento das redes neuronais do cérebro. Em livros de vulgarização que ganham amplo espaço nos mídia, neurologistas divulgam notícias alarmantes: os seres humanos começam a perder neurônios entre os 9 e os 14 meses de idade. Após conquistar sua maior façanha, aprendendo a andar, são integrados a uma nova versão de envelhecimento e morte: a “morte neuronal gradativa”1. Envelhecer e esquecer tornam-se assim problemas precoces, a serem mitigados por novos fármacos e por toda sorte de fitness cerebral.Por outro lado, nossa disponibilidade para acolher o fluxo frenético de informações, nas atividades mais cotidianas -quando, por exemplo, temos de nos recordar de variadas senhas para acessar serviços- também parece corroer paulatinamente a capacidade de lembrar. As notícias que nos alcançam pelos mais variados meios, em tempo real, na velocidade com que se sucedem e apagam mutuamente, também colaboram para produzir efeitos de esquecimento. Esse fenômeno se expressa igualmente nas descrições de novas doenças catalogadas, tais como síndrome do pânico, mal de Alzheimer, “burnout”, formas variadas de estresse e depressão.

“Burnout” , por exemplo, é uma síndrome vinculada ao estresse ocupacional e profissional e tem seu nome ligado ao verbo inglês “to burn out”, que significa queimar por completo, consumir-se integralmente. Essa síndrome data do início dos anos 70. No artigo “Esgotamento total”, o médico Ulrich Kraft menciona como um dos traços da enfermidade a “memória afetada” e acrescenta: “Especialistas concordam que, por si só, uma jornada de 60 horas semanais não causa doença, contanto que se encontre o equilíbrio entre tensão e relaxamento. Pacientes afetados pela síndrome, entretanto, ultrapassaram muito a ‘fronteira da adaptabilidade às demandas’. Os sistemas internos de processamento do stress dessas pessoas sofrem de sobrecarga crônica”2.

A lógica da produtividade, do curto prazo, tanto nas relações de trabalho quanto nas ligações pessoais, tende a curto-circuitar o sentimento de continuidade do vivido, a produzir couraças que impedem a livre circulação dos afetos do corpo, abrindo vastos espaços brancos na memória.

Esse sentimento de fragmentação, de descontinuação e esgarçamento das lembranças está presente em uma já extensa filmografia desta primeira década do século XXI. Basta lembrar os filmes “Amnésia”, de Cristopher Nolan (2001), “Spider”, de David Cronenberg (2002), “O Homem Sem Passado”, de Aki Kaurismäki (2002) e “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (2004), de Michel Gondry.

Este último põe em cena uma empresa que deleta lembranças dolorosas e remete, assim, a uma paradoxal problemática contemporânea: imersos em uma lógica de curto (ou melhor, curtíssimo) prazo, solicitados a nos adequarmos à rapidez dos fluxos, à dissolução de perspectivas de continuidade, ao imediatismo produtivista também expresso na imediatez da produção e circulação de informação, somos cada vez mais tragados pelo esquecimento.

Por outro lado, não parece ter-se resolvido o problema que Nietzsche apontara no final do século XIX3: o ressentimento com relação ao caráter irreversível do tempo, face à impossibilidade de se voltar atrás para mudar fatos e atos, bastante comum quando retrocedemos imaginariamente no tempo, evitando (também imaginariamente) um acidente ou uma perda afetiva.

Nesse sentido, a instigante e singular valorização do esquecimento, proposta por Nietzsche, soa mais do que oportuna hoje. Observe-se que Nietzsche ousou valorizar o esquecimento em pleno século XIX, uma época marcada por um forte impulso historicizante, por um evidente apego à memória, tratada (como ele mesmo criticou) em geral como monumento.

De modo totalmente extemporâneo, o filósofo celebrou a força do esquecimento, considerando-a como a mais alta atividade do espírito. Entendida como digestão, a atividade de esquecer corresponde a um processo sem o qual não nos livramos do ressentimento com relação ao incessante escoar do tempo, à sua irreversibilidade, nem podemos nos instalar no novo e sermos, assim, felizes.

É sobretudo na segunda dissertação da “Genealogia da Moral” que Nietzsche propõe esse novo sentido para o esquecimento, já não entendido como pura passividade, como simples desgaste, tal como o de uma moeda que tem sua efígie paulatinamente apagada pela usura do tempo.

Esquecer passa a ser considerado como uma força plástica, modeladora, como uma faculdade inibidora e, nesse sentido, como uma atividade primordial. Afinal, para se viver em paz, não se pode lembrar continuamente que o tempo está passando e nos aproximando inexoravelmente da morte. Assim como também não temos de nos lembrar de bombear nosso coração ou de acionar nosso processo digestivo para seguirmos vivendo. Como afirmou René Leriche, a saúde mesma equivale à vida “no silêncio dos órgãos”, o que todos notamos quando um corte no dedo não nos deixa mais esquecer de que esse dedo existe.

Esquecer, para Nietzsche, seria não apenas uma atividade, mas uma atividade primordial, primeira: o esquecimento não viria apagar as marcas já produzidas pela memória. Antecedendo à própria inscrição de marcas, o esquecimento impede, inibe qualquer fixação. Nesse sentido, a memória é que passa a ser pensada como uma “contra-faculdade”. É a memória que viria se superpor ao esquecimento, suspendendo-o, impedindo sua atividade salutar e fundamental.

Nietzsche desenvolve essa concepção para enfatizar o caráter paradoxal da tarefa que a natureza se impôs em relação ao homem: sendo todo animal puro esquecimento, a tarefa de criar, de cultivar um animal que pode prometer. O aspecto estranho e inquietante dessa tarefa só pode ser avaliado em toda a sua dimensão por quem atribui ao esquecimento sua plena e rigorosa positividade.

Ainda na “Genealogia”, Nietzsche remete o esquecimento ao processo de digestão, arrancando o tema da digestão do campo da mera fisiologia para trazê-lo para a esfera da discussão filosófica. Dessa forma, inventa uma noção de corpo bastante singular: na medida em que o processo da digestão passa a ser estendido para o campo da “alma” (termo significativamente anacrônico), a própria “alma” é engolida pelo que até então se associava apenas a uma função física distinta da atividade do “espírito”. Essa perspectiva fica ainda mais evidente quando lemos, na parte III do livro ” Assim Falou Zaratustra”, a seguinte afirmação: “o espírito é um estômago”.

Para marcar que não se trata de uma afirmação de cunho meramente metafórico, Nietzsche sublinha nessa frase a palavra “é”. Ele enfatiza desse modo que o espírito não é semelhante a um estômago. Ao tematizar o esquecimento como digestão e engolir (literalmente) a alma ou o espírito no corpo, o filósofo inventou uma nova abordagem do corpo e do processo de digestão que põe definitivamente em xeque a própria separação tradicional entre “corpo” e “espírito”. O esquecimento não é, portanto, comparável a um processo de digestão, mas, como atividade do corpo, se confunde com a digestão, que deixa de ser pensada apenas no campo da fisiologia, como função de um corpo, por assim dizer, “desespiritualizado”.

Concluindo essa passagem da “Genealogia da Moral”, Nietzsche afirma que não pode haver felicidade, jovialidade, esperança e -sublinha- presente, sem a atividade desse aparelho inibidor que é o esquecimento. Identifica então o homem em que esse aparelho se encontra danificado a um dispéptico, termo emprestado à medicina que designa aquele que tem dificuldade de digerir.

Dispéptico seria, segundo Nietzsche, quem nunca se livra de nada, quem não “dá conta” de nada. Mais literalmente ainda: não dando cabo de nada, esse homem dispéptico, ressentido, nunca fica pronto para o novo, para o presente, arrastando sempre consigo as correntes do passado, que entravam cada vez mais seu caminhar. Torna-se refém de seu passado e de suas marcas.

Ora, o que sucede atualmente, em que o esquecimento não parece se dar no sentido nietzschiano, favorável à vida, à saúde e à alegria? Podemos arriscar a hipótese de que, com a configuração de novas máquinas de memória, inumanas, não mais analógicas à fisiologia humana, parece ter se intensificado contemporaneamente um temor difuso, certa sensação de “desespiritualização”, de impotência ante as avassaladoras estimulações e solicitações externas.

O aspecto difuso do medo caracteriza, aliás, a síndrome do pânico, que tem como uma de suas marcas justamente a ausência de contornos nítidos do inimigo ou da ameaça, uma generalização do pânico, que se desconecta dos mecanismos de sobrevivência para se espraiar de modo indeterminado por todos os lugares e situações, em uma semelhança visível com a lógica (viral) do terrorismo e do contra-terrorismo.

Essa sensação de “desespiritualização”, de entrave da potência transformadora e plástica do esquecimento, se expressa significativamente por uma crescente demanda de espiritualidade, em conexão com os novos meios tecnológicos, como ressaltou o sociólogo português Hermínio Martins. Martins desenvolveu em seus textos o tema do “gnosticismo tecnológico”4, fenômeno bastante associado a especialistas em software e computação. A velocidade crescente dos fluxos em que o homem contemporâneo é tragado (e de que é sobretudo descartado e expelido) tende a corroer nossos estômagos abarrotados (e paradoxalmente vazios), gerando ao mesmo tempo desconforto, angústia e fechamento para uma ação transformadora de mundo.

Como esquecer é uma atividade do corpo entendido para além da distinção corpo-alma, podemos também concluir que a experiência desse corpo “desespiritualizado” se empobrece e desativa. Corre-se então atrás da “capacidade de memória” dos computadores e se tende a emular máquinas cibernéticas. Por isso, uma das pesquisas mais priorizadas pelos neurocientistas atuais, e enfaticamente divulgada por meios de comunicação de massa (de programas em TVs aberta e a cabo até revistas e jornais), diz respeito ao incremento, à otimização da memória humana.

Na medida em que a memória é eqüacionada como processamento de informação e o corpo elidido em favor do cérebro (entendido em geral pelo modelo computacional), podemos prever que as sombras do esquecimento não deixarão de se espraiar ameaçadoramente pela cultura contemporânea, pouco afeita à lentidão do esquecimento, à atividade da digestão.

Mostra-se, assim, de que modo a intensa problematização atual do risco de esquecimento diz respeito a uma relação igualmente problemática com a temporalidade: na velocidade crescente solicitada aos corpos, como ativar a potência salutar do esquecimento, como conquistar o tempo necessário para a digestão? Digerir leva tempo. Um tempo não mais pensado como caminho irreversível (e cada vez mais precoce) para a morte, mas acolhido e alargado, em favor da vida.

NOTAS

1 – Iván Izquierdo, “Memória” (Artmed Editora, 2002), p. 32.

2 – Cf. www2.uol.com.br/vivermente/estatica/indice_164.pdf. Minha tradução.

3 – Cf. o capítulo “Memória, Esquecimento e Corpo em Nietzsche”, do meu livro “Nove Variações Sobre Temas Nietzschianos” (Relume Dumará).

4 – Cf. Martins, Hermínio, “Hegel, Texas e Outros Ensaios de Teoria Social” (Ed. Século XXI, 1996), bem como meu artigo “Sociedade Tecnológica: de Prometeu a Fausto” (revista “Contracampo 2”, nº 4).

Maria Cristina Franco Ferraz
É doutora em filosofia (Paris I-Sorbonne), professora titular de Teoria da Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de “Nietzsche, o Bufão dos Deuses”, “Platão: As Artimanhas do Fingimento” e “Nove Variações Sobre Temas Nietzschianos” (todos pela Relume Dumará), entre outros. É também organizadora da coleção “Conexões”, da editora Relume Dumará.

Uma estrela vermelha no jardim

Quinta-feira, 24 janeiro de 2008

O ESTADO DE SÃO PAULO

Uma estrela vermelha no jardim

por DEMÉTRIO MAGNOLI

Na América hispânica, a piñata é um boneco artesanal de papel, recheado de doces. Em ocasiões festivas, as crianças rompem a piñata a pauladas, apropriando-se do máximo de guloseimas que conseguirem capturar. A Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) tomou o poder na Nicarágua em 1979, derrubando a ditadura de Anastácio Somoza. As propriedades do clã do ditador foram transferidas para o Estado e os dirigentes sandinistas passaram a viver em mansões que pertenceram aos Somozas. Dez anos e uma guerra civil depois, a FSLN viu-se obrigada a promover eleições, que perdeu. Dias antes da entrega do poder, os sandinistas passaram um decreto, alcunhado como Lei da Piñata, pelo qual as mansões se converteram em propriedade privada de seus ocupantes.

Daniel Ortega, o presidente sandinista, tornou-se proprietário de sete imóveis. Tomás Borge e Bayardo Arce, altos dirigentes da FSLN, também participaram da divisão do butim. Depois daquele ato, os sandinistas aliaram-se aos antigos somozistas, tanto na política quanto nos negócios.

No ano em que se dissolvia a guerra fria, a piñata sandinista descortinou hipóteses insuspeitadas de articulação entre o Estado, a riqueza privada e os dirigentes de esquerda. A Nicarágua é um país muito mais simples que o Brasil, mas o paradigma estabelecido por Ortega inspira o lulo-petismo na sua trajetória de associação com a ‘burguesia nacional’. A aquisição da Brasil Telecom (BrT) pela Oi (ex-Telemar) é um desenvolvimento estratégico da piñata lulo-petista.

A Oi é controlada pelos grupos Andrade Gutierrez, de Sérgio Andrade, e La Fonte, de Carlos Jereissati. A antiga Telemar financiou a fundo perdido a Gamecorp, empresa de Fábio Luiz Lula da Silva. A Andrade Gutierrez desempenhou, nas eleições de 2006, o papel de maior doador de campanha do pai famoso do empresário Fábio Luiz. No desenho da aquisição da BrT, o BNDES desviará recursos públicos para formar a maior parte do capital necessário à transferência patrimonial. A operação criará um quase-monopólio, o que contraria as regras das concessões de telecomunicações. Ela só poderá consumar-se mediante uma canetada de papai Lula, mudando o Plano Geral de Outorgas. A figura da prevaricação descreve o crime de funcionário público que, contrariando a lei, pratica ou deixa de praticar ato de ofício a fim de satisfazer interesse pessoal. Compete aos juristas decidir se a alteração casuística das regras para favorecer a concretização de um negócio específico deve ser tipificada como prevaricação.

Como o Brasil não é a Nicarágua, a piñata de Lula depende da fabricação de um artefato ideológico nacionalista. Aristóteles dos Santos, sindicalista petista que ocupa o cargo de ouvidor da Anatel, divulgou um relatório ‘técnico’ no qual aplaude a hipótese de instituição de uma grande empresa nacional de telecomunicações capaz de competir com os grupos internacionais do setor. Encarregado de zelar pelos interesses dos usuários e pelas regras de concessão, o ouvidor avaliza um negócio cuja legalidade depende da mudança nas regras destinadas a proteger a concorrência, que é um interesse público. Samuel Johnson (1709-1784) classificou o patriotismo como ‘o refúgio derradeiro dos canalhas’. Enquanto evolui o bloco carnavalesco do álibi patriótico, Carlos Jereissati e Sérgio Andrade entoam o Hino Nacional diante do altar dos juros subsidiados do BNDES.

Na hora da sua inesperada derrota parcial, no primeiro turno das últimas eleições presidenciais, o lulo-petismo agarrou-se, como a bóia de salvação, ao expediente de denunciar um suposto programa privatizante do candidato de oposição. Geraldo Alckmin esquivou-se da obrigação de desnudar o sentido regressivo do discurso eleitoral estatista, preferindo erguer uma patética bandeira de rendição, na forma de logotipos de empresas estatais colados à sua indumentária. A operação Oi-BrT comprova uma vez mais o caráter farsesco daquele discurso, que há muito não corresponde ao programa lulo-petista. Mas, sobretudo, ela evidencia que os ex-socialistas substituíram a sua crença anacrônica nas virtudes das estatais pelo apego interessado a um capitalismo de máfias no qual empresa e empresário devem cumprir o papel de sócios ocultos da elite política detentora do poder de Estado.

Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, descreveu o patrimonialismo tradicional, de raízes lusitanas, que ocupou lugar destacado na construção do capitalismo cartorial brasileiro. Aparentemente, a piñata lulo-petista inscreve-se na linha de continuidade dessa tradição e a nova elite política apenas reproduz a trilha seguida por tantos antecessores que ergueram lucrativas pontes entre a riqueza pública e os patrimônios privados. O fenômeno atual, contudo, tem um traço inovador, que o singulariza. No lugar da simples captura fragmentária da riqueza pública por agentes econômicos e seus intermediários políticos, desenvolve-se um movimento de conjunto pelo qual uma nova elite política, organizada como partido, transfigura o poder de Estado em instrumento de sua associação com os donos do capital.

A novidade encontra-se na natureza orgânica do processo. A corrupção da nova elite precisa de um lastro doutrinário, que funciona como solda entre as camarilhas dirigentes e uma base nem sempre passiva de militantes e simpatizantes. O movimento não exclui lucrativas operações pessoais, nem está isento de fricções internas. Mesmo assim, esses são atritos secundários, cujas ondas de choque se esterilizam no jogo de pressões e concessões da máquina partidária lulo-petista.

Quando se instalou no Palácio da Alvorada, Marisa Letícia mandou o jardineiro acrescentar uma estrela vermelha aos jardins da residência presidencial. Aquilo era mais que uma travessura: a primeira-dama estava produzindo uma metáfora política e sinalizando um rumo estratégico.

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP. E-mail: demetrio.magnoli@terra.com.br

Defender o capitalismo

São Paulo, terça-feira, 22 de janeiro de 2008

FOLHA DE SÃO PAULO

Defender o capitalismo

ELEONORA DE LUCENA

MOCINHOS engomados e arrogantes colhem seus robustos bônus. Suas apostas foram catapultadas pela arquitetura de geração fácil de riqueza. Tiveram o incentivo dos chefes dos bancos e o beneplácito das autoproclamadas agências de risco. Como numa singela pirâmide, ou uma corrente de felicidade, anabolizaram cifras, inflaram créditos e prometeram aos incautos as maravilhas do luxo e da segurança.
Embrulhadas em números gostosos, as projeções esconderam um mundo oco. Enrolaram cidadãos, empresas, governos. Os acrobatas garantiram seus ganhos e agora assistem ao castelo desmoronar. Sincronizados, engavetaram os libelos pelo livre mercado. Com o rabo entre as pernas, clamam por socorro do arquiinimigo Estado.
Já foi dito que uma das funções do Estado moderno é defender o capitalismo de ações dos capitalistas. É precisamente o que acontece agora. O Estado -que organiza e agencia os interesses dos grupos dominantes -é chamado a agir assim nas crises. Afinal, é preciso que alguém assuma o controle da situação. Que possa atuar para além dos bônus anuais, do curto prazo, dos ganhos dos rentistas.
Senão, no limite, o próprio modelo pode ser corroído pela avidez desenfreada da busca por lucros privados. Assim, quando as perdas dos grandes se agigantam, é hora de o poder se reorganizar. Nesse momento, governos são instados a criar uma enorme rede de proteção aos capitalistas: dinheiro público barato para tapar rombos, perdões de dívida, cortes de impostos.
Rapidamente é turbinado o mecanismo de socialização das perdas, após mais um ciclo exitoso de privatização de ganhos. É preciso resgatar o sistema financeiro.
Afinal, com suas diatribes, ele ameaça levar de roldão as famílias, as fábricas, as lojas -o pânico passa a rondar as economias. Não existe cordão sanitário ao redor das finanças globais. Estados Unidos, China, Japão, Europa e Brasil estão expostos à mesma tormenta.
O dia de ontem foi um exemplo disso. Uma prova de que o mercado quer mais. Mais dinheiro do Estado para pagar a sua conta e manter a ordem das coisas. Os bancos centrais vão ter que despejar mais dólares em socorro do mercado. Os bancos privados vão buscar mais apoio nos fundos estatais. Os EUA já articulam uma regra de calotes e um alívio para impostos.
Passada a tempestade, serão propostas medidas de regulação das finanças, de controle sobre a ação dos fundos agressivos, de transparência para as agências de risco. É possível que os próximos capítulos sejam menos audaciosos para os mercados. Até uma nova geração de mocinhos. E sem estigma: eles são apenas peças mais visíveis dessa engrenagem chamada capitalismo.

ELEONORA DE LUCENA é editora-executiva da Folha.

Maquiavel

REVISTA VEJA HISTÓRIA

Entrevista: Nicolau Maquiavel

O pensador florentino aponta erros dos governos fracos e diz como funciona a política por dentro

Aos 32 anos e há três ocupando o cargo de secretário do conselho de segurança do governo de Florença, Nicolau Maquiavel é hoje mais que um personagem-chave da diplomacia européia. Tem-se revelado um fenomenal pensador dos problemas de Estado. “É impossível que uma república permaneça tranqüila, gozando de liberdade dentro de suas fronteiras. Se não molestar as demais, será molestada por elas”, sustenta. Alguns analistas detectam nas idéias do florentino o embrião de uma nova ciência, na qual a teoria política, baseada na realidade dos fatos, existiria como disciplina autônoma, separada da moral e da religião. Outros vêem nesse praticante polemista sem meias palavras não mais que um oportunista, cujo talento serve para fornecer aos governantes ferramentas que garantam sua manutenção no poder. Com tanta controvérsia, suas idéias, expostas nesta entrevista, estão destinadas a alimentar discussões acaloradas por muito tempo.

VEJA – Qual a responsabilidade dos governantes italianos diante da recente onda de invasões estrangeiras que assolou a península?
MAQUIAVEL – Antes de experimentar os golpes dos guerreiros ultramontanos, eles acreditavam que para um príncipe bastava saber, em seu gabinete, imaginar uma resposta mordaz, escrever uma bela carta, fazer ostentação em suas conversas e discursos de sutileza e vivacidade; que lhes bastava saber urdir um estratagema, adornar-se de ouro e pedrarias, dormir e comer mais esplendidamente do que os outros, cercar-se de libertinagem, comportar-se em relação aos seus súditos com avareza e soberba, estagnar-se na ociosidade, conceder os postos do exército como favor, desprezar os conselhos louváveis, exigir que suas palavras fossem recebidas como oráculos. Eles não percebiam, os infelizes, que se preparavam assim para tornar-se presa do primeiro assaltante.

VEJA – O senhor denuncia a falta de preparo militar dos governantes, mas, como diplomata, acaba de ser muito bem-sucedido ao negociar com a França uma solução pacífica para a guerra entre Florença e Pisa. Afinal, o que é melhor: negociar ou pegar em armas?
MAQUIAVEL – Há duas maneiras de combater: uma, segundo as leis; a outra, pela força. A primeira forma é própria dos homens, a segunda é própria dos animais. Mas, como a primeira freqüentemente não basta, é preciso recorrer à segunda. Não há lei nem Constituição que possa pôr um freio à corrupção universal.

VEJA – Qual a sua opinião sobre os governos que, em vez de se envolver em guerras, adotam a política da neutralidade?
MAQUIAVEL – Muito embora eu ouça louvar por toda parte a política da neutralidade, não posso aprová-la. Em toda minha experiência dos negócios públicos e em tudo o que li sobre história não consigo me lembrar de um só caso em que a política da neutralidade tenha sido vantajosa. Pelo contrário, tais políticas sempre são desastrosas e levam direto à ruína.

VEJA – O governante empenhado em conduzir políticas acertadas deve ter isso sempre em mente?
MAQUIAVEL – Não imagine nunca nenhum governo poder tomar decisões absolutamente certas; pense antes em ter de tomá-las sempre incertas, pois isso está na ordem das coisas que nunca deixam, quando se procura evitar algum inconveniente, de operar um outro. A prudência está justamente em conhecer a natureza dos inconvenientes e adotar o menos prejudicial como sendo o bom.

VEJA – Muitas vezes, nessa tentativa de fazer o certo, os governantes passam por cima da Constituição. Funciona?
MAQUIAVEL – Em um Estado bem constituído, qualquer que seja o acontecimento que surja, não se deve ser obrigado a recorrer a medidas extraordinárias; porque, se as medidas extraordinárias fazem bem no momento, seu exemplo traz um mal real. O hábito de violar a Constituição para fazer o bem autoriza, em seguida, a violá-la para disfarçar o mal.

VEJA – Na prática, que o senhor conhece tão bem, é comum mexer na Constituição. Qual o modo menos traumático de fazê-lo?
MAQUIAVEL – Quem quiser mudar a Constituição de um Estado livre, de maneira que essa modificação seja bem-vinda e se possa manter com a aprovação de todos, deve salvaguardar, ao menos, a sombra das formas antigas, a fim de que o povo pouco se aperceba das mudanças, mesmo se as novas instituições sejam totalmente estranhas aos antigos; porque os homens se alimentam tanto de aparência como de realidade; muitas vezes, a aparência os impressiona mais que a realidade.

VEJA – Uma boa Constituição basta para garantir a liberdade?
MAQUIAVEL – Em toda república existem dois partidos, o dos aristocratas e o do povo; e as leis que favorecem a liberdade resultam da luta desses partidos um contra o outro. Todos os legisladores que redigiram constituições sábias para repúblicas sempre julgaram essencial estabelecer uma proteção à liberdade; e, conforme a maior ou menor habilidade com que essa proteção foi criada, a liberdade durou mais ou menos. As graves e naturais inimizades que existem entre as pessoas do povo e os nobres, causadas porque estes querem mandar e aqueles não querem obedecer, são os motivos de todos os males que surgem nas cidades, porque dessa diversidade de humores se nutrem todas as outras coisas que perturbam as repúblicas.

VEJA – Uma vez conquistada a liberdade, a quem se deve confiar sua guarda: às elites ou ao povo?
MAQUIAVEL – Na minha opinião, qualquer encargo deve sempre ser confiado a quem tenha menos inclinação a fraudá-lo. Quando o povo recebe o encargo de velar pela liberdade, ele, sendo menos inclinado a invadi-la, dará necessariamente melhor conta da incumbência; e, também, sendo incapaz de violá-la ele próprio, melhor impedirá que outros o façam.

VEJA – Ainda que para isso o povo questione as instituições?
MAQUIAVEL – A quem me disser que a grita constante do povo contra o Senado, a indisposição do Senado contra o povo, as correrias nas ruas e mesmo, em certos casos, a fuga dos habitantes da cidade para escapar aos tumultos – a quem me disser que tais fatos são meios bem estranhos de atingir um fim conveniente responderei que esses mesmos fatos só podem assustar os que apenas os vêem e que todo Estado livre deve dar ao povo uma válvula, por assim dizer, para as suas ambições.

VEJA – E quando os protestos populares geram violência?
MAQUIAVEL – Quem se der ao trabalho de examinar com cuidado os resultados daquelas agitações verá que elas jamais foram causa de violências ou de quaisquer prejuízos ao bem geral e se convencerá de que, pelo contrário, elas deram de fato origem a leis vantajosas para as liberdades públicas.

VEJA – Há, nas universidades de hoje, modelos teóricos de sociedades mais justas e igualitárias. O senhor acredita que a humanidade construirá um mundo melhor?
MAQUIAVEL – O que eu não sei, embora gostasse de saber, é exatamente quando uma determinada política pode ajudar e quando pode prejudicar. O paladar é ofendido pelas coisas amargas, mas tampouco lhe agradam as doces demais. De modo que os homens se cansam do bem, do mesmo modo que se irritam com o mal.

VEJA – Apesar de crítico da Igreja, o senhor não vê nenhuma atuação positiva em termos de melhorar as coisas desse mundo?
MAQUIAVEL – Se, nos inícios da república cristã, a religião tivesse permanecido fiel aos princípios de seu fundador, os Estados e as repúblicas da cristandade seriam mais unidos e bem mais felizes. Não há melhor indício de seu declínio do que o fato de que os povos mais próximos da Igreja de Roma, líder da nossa religião, é que são os menos religiosos. A ponto de que, se confrontarmos os princípios que presidiram a sua criação e o uso que é feito deles hoje, julgaremos próxima a hora da sua ruína ou da calamidade.

VEJA – Mas a religiosidade não é um fator importantíssimo para o povo italiano?
MAQUIAVEL – Em virtude dos maus exemplos que lhe vêm de Roma, a Itália perdeu toda a devoção e todo o sentimento religioso, o que dá origem a uma infinidade de desregramentos e de desordens: porque, assim como a presença da religião pressupõe todo tipo de bem, sua ausência dá a entender o contrário. Nós temos portanto, nós, italianos, uma primeira dívida para com a Igreja e os padres: a de termos perdido todo o sentimento religioso e de nos termos tornado maus. Mas nós lhe devemos outra coisa, ainda mais importante, e que é a segunda das causas de nossa ruína: terem mantido e manterem sempre o nosso país dividido.

VEJA – Como a Igreja tem contribuído para a fragmentação política da Itália?
MAQUIAVEL – Jamais país algum viveu unido e próspero se não foi submetido inteiramente, como a França e a Espanha, a um só governo: república ou monarquia. E, se a Itália não chegou a isso e não se encontra igualmente unida sob a autoridade de uma só república ou de um só príncipe, a única responsável é a Igreja. Ela conseguiu instalar-se na península e aí deteve um poder temporal. Mas, por um lado, ela não foi nem bastante poderosa nem bastante hábil para impor sua supremacia e assegurar-se da soberania; e, por outro, nunca foi tão fraca a ponto de que o temor de perder o seu domínio temporal a dissuadisse de chamar uma potência estrangeira em seu socorro contra um outro Estado italiano que se tornara, na sua opinião, poderoso demais.

VEJA – Não há um pouco de exagero em culpar a Igreja romana por tantos problemas dos italianos?
MAQUIAVEL – Para convencer as pessoas prontamente, pela experiência, da verdade das minhas afirmações, seria preciso mandar a corte de Roma, com a autoridade que goza na Itália, residir no território dos suíços, o único povo que, em matéria de religião e de disciplina militar, permaneceu fiel aos costumes antigos. Ver-se-ia em pouco tempo os costumes censuráveis dessa corte causarem aí mais distúrbios do que qualquer outro acidente jamais pôde produzir na história desse país.

VEJA – Qual conselho fundamental o senhor daria a um governante?
MAQUIAVEL – É preciso fazer todo o mal de uma só vez a fim de que, provado em menos tempo, pareça menos amargo, e o bem pouco a pouco, a fim de que seja mais bem saboreado.

VEJA – É recomendável cooptar antigos adversários?
MAQUIAVEL – Os príncipes, e particularmente os príncipes novos, têm encontrado muito mais fidelidade entre os homens que, no início do seu principado, foram considerados suspeitos do que entre aqueles nos quais eles tinham inicialmente confiado. Os homens que, no início do seu principado, haviam sido seus inimigos e cuja condição é tal que para manter-se têm necessidade de apoio, estes o príncipe poderá sempre ganhar para a sua causa com grande facilidade.

VEJA –Para um governante, é preferível ser temido ou amado?
MAQUIAVEL – Eu respondo que é necessário ser um e outro; mas, como é bem difícil reunir as duas condições, é mais seguro se fazer temer que amar. Porque o amor se mantém por um vínculo de obrigações que, já que os homens são pérfidos, é rompido quando se ofereça ocasião de proveito particular; mas o temor se mantém por um receio de castigo, que não se abandona jamais.

BBB

“Vai transar? O governo dá camisinha. Já transou? O governo dá pílula. Engravidou? O governo dá o aborto. Teve filho? O governo dá o Bolsa Família. Tá desempregado? O governo dá Bolsa Desemprego. Vai prestar vestibular? O governo dá o Bolsa Cota. Não tem terra? O governo dá o Bolsa Invasão e ainda te aposenta. É um circulo vicioso manejando a manada. Eeeh..oh..oh.. vida de gado… povo marcado… povo feliz.” [anônimo]

O ideoduto de Mangabeira

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2001200803.htm

FOLHA DE SÃO PAULO

São Paulo, domingo, 20 de janeiro de 2008

O ideoduto de Mangabeira

Há grandeza nessa visão da vida amazônica; o que lhe falta é acuidade

Depois de trocar a aprazível Cambridge, Massachusetts, pela aridez de Brasília, Roberto Mangabeira Unger, o extraordinário ministro de Assuntos Estratégicos, baixou na Amazônia com comitiva de mais de 30 pessoas. Cheio de idéias. Fora de seu lugar natural, pareciam também fora de propósito.
Estava na lista o nome de Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, que fez o caminho inverso (dos cafundós do Acre para o Plano Piloto), mas não deu as caras. Deu foi um cano, e logo depois de falar em São Paulo num simpósio… criacionista (mas isso são outros 500).
Assim funciona o governo. Dá na veneta de um ministro formular um plano grandioso para metade do país, e os outros o deixam falando sozinho. É bem verdade que o alcance das idéias de Mangabeira não deve animar ninguém a acompanhá-lo naquela altitude. Nem em pensamento. Sua idéia que mais chamou atenção, a ponto de ocupar manchete de primeira página do jornal “O Globo”, foi a de aquedutos para levar água da Amazônia ao Nordeste. Direto da sobra “inútil” para a falta “calamitosa”.
Simples. Tão simples que o próprio Mangabeira se perguntou se não seria ingênuo. Sua resposta é técnica: novas maneiras de conceber e construir aquedutos. “A razão, porém, acabará por assistir ao ingênuo, não ao técnico. O custo do transporte de água é relativo às tecnologias disponíveis para transportá-la”, pontificou.
Empreiteiros devem ter aplaudido à beça. Engenheiros contraporiam, em reserva, que distância e valor por peso do bem a transportar também pressionam a equação, mesmo sem lastrear a imaginação. Sendo imponderáveis, não custa nada transportar muitas idéias -por exemplo- de avião. Mangabeira aproveitou o vôo para despejá-las em cascata sobre a comitiva brasiliense e as platéias amazônidas. Duas mais merecem comentário -uma deslocada, outra desinformada.
O ministro está preocupado com os índios da Amazônia: “Ameaçam afundar na desagregação social e moral -no ócio involuntário, no extrativismo desequipado, no alcoolismo e no suicídio”. Para um filósofo e titular de Harvard, a incorreção antropológica soa chocante.
Além de não se justificar pelos valores, o dito tampouco se fundamenta em fatos. Pode valer para um ou outro indígena na Amazônia, mas não é a regra para os muitos povos que lá tiveram suas terras demarcadas e homologadas. Decerto se aplica à tragédia dos guaranis em Mato Grosso do Sul, que não fica na Amazônia, no entanto.
Mais alarmante é sua proposta de mobilizar o “potencial energético latente nas árvores -na celulose e na lignina”. Em outras palavras, usar a floresta chuvosa para fazer combustível (álcool de madeira). Com “replantio constante das árvores”, cuida de esclarecer o ministro.
É a prova cabal de que Mangabeira nada entende de mata amazônica. Apenas transfere para elas esquemas mentais lobrigados nos bosques temperados do hemisfério Norte. O potencial energético das árvores amazônicas já é mobilizado -à taxa de mais de 2 milhões de metros cúbicos por ano- na forma de carvão vegetal e ilegal. Tudo para alimentar uma dúzia de usinas de ferro-gusa no Pólo Carajás (Pará). A ferro e fogo, bem no estilo nacional.
Além disso, o filósofo desconhece que o manejo florestal, na Amazônia, prescinde do replantio de árvores. A reposição é feita naturalmente, se forem deixadas produtoras de sementes em densidade suficiente na mata. Há grandeza nessa visão da vida amazônica. O que lhe falta é acuidade.

MARCELO LEITE é autor de “Promessas do Genoma” (Editora da Unesp, 2007) e de “Clones Demais” e “O Resgate das Cobaias”, da série de ficção infanto-juvenil Ciência em Dia (Editora Ática, 2007). Blog: Ciência em Dia (www.cienciaemdia.zip.net). E-mail: cienciaemdia@uol.com.br