clube da verdade

por SIMON BLACKBURN*

O pós-modernismo emergiu da idéia de que enxergamos as coisas através de filtros coloridos pelas forças ocultas e sombrias de classe social, gênero, cultura ou língua. A partir disso, ele viajou até a atitude irônica e desapegada de tratar a verdade como não mais do que uma narrativa, os fatos como infinitamente elásticos e o mundo como um texto aberto a múltiplas interpretações.

Postulou que nossos padrões de razão, que nos são tão caros, não passam de depósito histórico contingente, que algum tipo de relativismo nos é intelectualmente imposto ou que a própria verdade não passa de construção social.

Escrevo no tempo pretérito, já que muitos afirmam que os fatos de 11 de setembro de 2001 jogaram essas idéias por terra. Esses acontecimentos fizeram as pessoas se recordar de que existem crenças que precisamos afirmar. Precisamos da verdade, da razão e da objetividade, e precisamos que elas estejam do nosso lado. A academia se tornou menos aberta aos pluralismos descontraídos.

Enquanto nos anos 1980 e 1990 uma atitude brincalhona de que vale tudo dominava as partes mais fracas das humanidades, hoje é uma retidão rigorosa que dá o tom.

Com freqüência, as idéias refletem a política –e, politicamente falando, o pós-modernismo pode ser visto como reflexo da culpa pós-colonial, o que significa não apenas que erramos ao impor a racionalidade e a ciência ocidental a outros povos mas também que a racionalidade e a ciência deles tinham valor igual ao nosso.

Se isso for correto, então a reação contrária constatada hoje pode constituir a versão filosófica do neoconservadorismo, que forma um paralelo com as celebrações das virtudes do império feitas por historiadores dos tempos atuais.

Acabam de surgir vários livros que giram em torno da verdade e da razão, ambos temas que estão de volta à agenda com força total. É possível que seja uma virtude não dissimular e não mentir –falar o que você vê como o vê, mesmo que não consiga deixar de vê-lo com olhar enviesado.

Mas as profissões pós-modernistas de adesão à verdade costumam soar insinceras. Se a frágil embarcação de nosso intelecto é atirada de um lado a outro pelas tempestades da história e da cultura, por que deveríamos prezar especialmente qualquer lugar em que ela nos faz abicar? Por que deveríamos nos preocupar em passar nossas vidas distinguindo o verdadeiro do falso?

O arguto Nietzsche ficou perplexo pelo fato de que nos preocupamos, sim, prezando a verdade mesmo quando, na selva darwiniana, um contador de verdades freqüentemente está em desvantagem diante do manipulador e do mentiroso.

A observação de outros primatas mendazes confirma sua visão. Isso significa que temos que pregar a honestidade. Ela está inscrita em nossos mandamentos, não em nossos genes.

Nossa pregação nem sempre funciona; e ela se mostra especialmente ineficaz nas selvas do comércio e da política.

Parte daí o divertido e instrutivo livro The Lying Ape: An Honest Guide to a World of Deception [O macaco mendaz: um guia honesto para um mundo de falsidade, Icon Books, 212 págs., 9,99 libras, R$ 41], do jornalista Brian King, que traça uma lista longa e estarrecedora das mentiras deslavadas que falsificadores, vendedores e políticos já tentaram impor a outras pessoas, muitas vezes com sucesso.

Embora King, com razão, se sinta ultrajado com a falsidade, ele observa que uma dieta à base de verdades rigorosas poderia ser um tanto quanto difícil de engolir. Ele cita a observação de Oscar Wilde de que “falar a verdade faz você ser muito impopular no clube”.

E, como observa King, contar mentiras deslavadas é apenas a manifestação mais grosseira disso. Suponho que o melhor conselho a dar aos candidatos a mentirosos é que enganem a si mesmos primeiro; então, não precisarão mentir, mas apenas dizer em que acreditam.

Manipular a informação
Ainda outro tipo de vício é a capacidade de supor que as palavras possuem significados que elas não têm –algo que é de grande valia para políticos e administradores.

Aquilo ao qual costuma se dar o nome de “spin” (manipulação de informação, ou interpretação diferente de uma informação, especialmente quando feita por políticos ou seus assessores) é outra coisa ainda. Em sua versão mais inocente, pode ser apenas uma forma enviesada de verdade.

O fascinante livro Saving Persuasion: A Defense of Rhetoric and Judgement [Salvando a persuasão: Uma defesa da retórica e do julgamento, Harvard University Press, 290 págs., 29,95 libras, R$ 122], do teórico político da Universidade Yale Bryan Garsten, trata das longas tradições de atacar ou defender a retórica e o lugar que ela ocupa na vida humana.

De fato, a retórica foi o termo clássico usado para designar o “spin“, embora viesse acompanhada da implicação de persuasão, e não de logro proposital. Ela se tornou parte dos roteiros de estudos medievais, e seu domínio com freqüência foi visto como meta importante da educação completa.

Garsten traça uma distinção entre a persuasão, que espera operar com o julgamento ponderado da platéia e que é perfeitamente legítima, e as práticas de logro, manipulação e bajulação da platéia, cada uma das quais, à sua maneira, espera levar a platéia, de maneira ilegítima, a passar ao largo do uso pleno e livre dessa capacidade de avaliação e julgamento.

A persuasão mostra o orador tirando vantagem justa do perfil emocional, moral ou cognitivo particular de uma platéia; ela é inevitável em qualquer discussão, especialmente em qualquer debate moral ou político. Torna-se negativa apenas quando tira vantagem injusta do mesmo perfil, por exemplo ao distorcer ou negar informações ou ao manipular emoções e preconceitos.

Kant negou a existência de qualquer distinção importante nessa área: para ele, ou você apela para padrões de razão imutáveis e universais ou você manipula e engana.

Padrões escassos
O problema é que, quer sejam ou não encontrados na aritmética, na lógica e até mesmo na ciência, esses padrões universais esperados são escassos quando se trata de qualquer questão interessante de política, religião e moral.

Considera-se com freqüência que o pós-modernismo critica a verdade e a ciência. É essa a visão apresentada no valioso livrinho Why Truth Matters [Por que a verdade é importante, Continuum, 192 págs., 12,99 libras, R$ 53], dos editores do site cético butterfliesandwheels.com, Ophelia Benson e Jeremy Stangroom.

Os dois preparam um contra-ataque instigante, fazendo-nos lembrar que, quando se trata de uma guerra pelos corações e as mentes, as convicções básicas do bom senso e da ciência derrotam as sutilezas filosóficas sem nenhuma dificuldade. Enquanto Brian King nos choca com seus mentirosos, Benson e Stangroom expõem uma “galeria de enganadores” paralela composta de construtivistas sociais que analisam como grupos e indivíduos participam da criação de sua própria realidade percebida.

Esses “enganadores” incluem a feminista Sandra Harding e o neopragmatista Richard Rorty, mas seu expoente principal certamente é o filósofo da ciência francês Bruno Latour. A confusão de palavras e coisas proposta por Latour o levou até a beira do abismo
de negar que tenha existido dinossauros antes de o termo “dinossauro” ter sido cunhado.

Presume-se que um argumento semelhante demonstraria que ninguém antes de Crick e Watson possuiu DNA.

Por que a verdade é importante é um excelente exemplo de filosofia bem feita mas também, o que não é coincidência, feita de maneira acessível e instigante. A verdade tem importância, nos diz o livro, “não de uma maneira maçante, movida pelo dever e perfunctória, mas num sentido real e vivido –’nos pulsos’, como dizia Keats”.

Em Justice in Robes [A justiça de toga, Harvard University Press, 320 págs., 22,95 libras, R$ 93], o professor Ronald Dworkin reapresenta suas idéias sobre moralidade e lei e as defende contra os adversários que acumulou ao longo de sua carreira respeitada.

O foco do livro em vários momentos é a legislação americana, gerando disputas intrincadas que agradarão mais ao especialista do que ao leitor geral.

Dworkin recomenda que confiemos em nossas convicções comuns, mais do que nos aventuremos nas águas revoltas da alta teoria filosófica. Não estou certo de quão útil é esse conselho, já que pós-modernistas como Rorty ou teóricos literários como Stanley Fish dificilmente irão discordar dele.

O que procuram demonstrar é que a condição humana implica que se trabalhe desde o interior de qualquer “forma de vida” que tenhamos recebido da cultura e da história; para eles, Dworkin não faz mais que aconselhar os peixes a nadar.

Um trabalho final e um tanto quanto diferente é Human Nature: Fact and Fiction [Natureza humana: fatos e ficções, Continuum, 224 págs., 9,99 libras, R$ 41], editado pelo professor de literatura inglesa Robin Wells e o professor de genética molecular John Joe McFadden. Contribuíram para o livro uma galáxia de biólogos, teóricos da evolução e figuras literárias.

Os ensaios tiveram sua origem em palestras dadas numa conferência, de modo que o foco é um pouco indistinto. Em alguns momentos, a impressão que se tem é que se trata do velho problema da natureza versus criação.

Todos concordam em que a imaginação é “uma coisa boa” e que isso exige alguma explicação, já que não é evidente qual seria a utilidade de contar histórias numa selva, onde a consciência do aqui e do agora parece superar em valor a capacidade de imaginar o “era uma vez”.

A questão provavelmente não é tão difícil assim de entender, já que refletir sobre situações imaginadas pode nos preparar para a eventualidade de ocorrerem na vida real. A exposição a histórias também treina a moral e as emoções. Mas o livro contém vários pequenos ensaios sensíveis e sensatos.

Qual verdade?
Então, será que o mundo está novamente em condições de ouvir a verdade com segurança? Devemos nos precaver com as abstrações. Talvez a resposta correta à pergunta de Pilatos –”o que é a verdade?”– seja indagar por qual verdade ele se interessa. Se a pergunta disser respeito a fatos históricos, então deverá ser respondida de uma maneira; se for uma pergunta científica, existem outros métodos a ser empregados e assim por diante.

É verdade que esses métodos são nossos, aqui e agora. Mas, se um crítico tiver métodos melhores para usar, que nos fale deles. Se não, enquanto pudermos refletir sobre nossa história e sobre a deles, a reflexão não precisa ser desmerecedora. Pelo contrário -o resultado pode ser inteiramente válido.

Podemos nos orgulhar dos padrões científicos, pois vejam o que eles nos capacitaram a descobrir e a fazer! Podemos nos orgulhar de nossos padrões éticos, pois vejam como conseguimos nos sensibilizar em relação a males e injustiças que antes passavam despercebidos!

Nossas opiniões são falíveis e nossos julgamentos estão longe de ser perfeitos, mas o remédio para qualquer uso imperfeito deles consiste em usá-los ainda mais. Se nossa política for suficientemente boa para que se possa conservar a manipulação, a ignorância, o medo e o ódio fora dela, então somos animais que se corrigem a si mesmos. Ou, pelo menos, assim esperamos. [*Professor de filosofia na Universidade de Cambridge e autor de, entre outros, “Verdade – Um Guia para os Perplexos” (Civilização Brasileira). Este texto saiu no “Financial Times”. Tradução de Clara Allain. (FOLHA 3/9/06)]

primeiros clones primatas

por MARCELO LEITE

Óvulo cujo núcleo será retirado pela pipeta da direita (Foto: Shoukhrat M. Mitalipov)

O periódico científico britânico Nature publica hoje eletronicamente artigo de pesquisadores dos Estados Unidos (Oregon, Nebraska e Massachusetts) dando conta da obtenção das primeiras células-tronco embrionárias (CTEs) obtidas de um primata (macacos resos, no caso) por meio de clonagem – no jargão científico, transferência nuclear de célula somática (veja esquema abaixo, com legendas em inglês). Os autores, chefiados por Shoukhrat Mitalipov, da Universidade de Saúde e Ciência de Oregon, concluem que seu trabalho representa “uma prova de princípio para a clonagem terapêutica em primatas”, abrindo caminho para que o mesmo seja feito com células humanas.

A idéia da clonagem terapêutica é usar células de um ser humano para criar embriões clonados, dos quais seriam derivadas e cultivadas CTEs. Como estas células podem dar origem a quase todos os tipos de células do corpo, poderiam ser enventualmente usadas em terapias celulares sem causar rejeição no paciente – isso quando a tecnologia estiver disponível, e se estiver.

Mitalipov e seu grupo fizeram o que já se faz rotineiramente com camundongos: retirar o núcleo de óvulos e fundir o gameta feminino desnucleado com células da pele (fibroblastos) e estimular a construção a se dividir, como um embrião natural (produzido pela união de um óvulo com um espermatozóide). Com primatas a coisa não vinha dando muito certo.

A Nature, escaldada pelo escândalo dos supostos clones e CTEs humanos criados por Woo-Suk Hwang na Coréia do Sul, uma fraude publicada no periódico concorrente americano Science, tomou certos cuidados. Pediu confirmação independente de que as CTEs eram mesmo fruto da clonagem, o que foi garantido por David Cram, Bi Song e Alan Trounson, da Universidade Monash, na Austrália.

A eficiência do método de transferência nuclear, no entanto, continua baixíssima. Mitalipov e seus colaboradores repetiram o procedimento com 304 óvulos obtidos de 14 macacas, mas obtiveram somente duas linhagens de CTEs. Uma taxa de sucesso de apenas 0,7%.

A publicação britânica também apresenta, em conexão com o estudo, um comentário assinado por Ian Wilmut (um dos criadores da ovelha Dolly) e Jane Taylor. Eles assinalam que, além do potencial para futuras terapias celulares, ainda incertas, a técnica fornecerá uma ferramenta importante para estudar a genética de doenças hmanas, se puder ser reproduzida com primatas humanos: “Em nossa pressa para usar em terapia células específicas de pacientes, no entanto, tendemos a desconsiderar que elas têm grande valor para a pesquisa básica e a descoberta de fármacos. Por exemplo, tais células podem fornecer novos meios de estudar doenças hereditárias”, afirmam.

No Brasil, não seria possível testar o método de Mitalipov com células humanas. A Lei de Biossegurança (nº 11.105/2005) proíbe clonar embriões humanos. Mesmo o uso de embriões produzidos por fertilização in vitro (óvulos e espermatozóides reunidos fora do corpo) e descartados há mais de três anos, autorizado na lei, está sub judice. Depende ainda de um julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a ação direta de inconstitucionalidade (ADI nº 3.510) movida pela Procuradoria Geral da República contra esse uso, que considera – com apoio de grupos católicos conservadores – um atentado à dignidade e à inviolabilidade da vida. O julgamento está previsto para dezembro. [Ciência em Dia 14/11/07]

Arte: Shoukhrat M. Mitalipov

liberdade e pesquisa

Cientistas encaram com alarme iniciativas para barrar experimentos com animais e células-tronco embrionárias humanas

UM CRITÉRIO para julgar o grau de civilização de um povo, já se disse, está no modo como trata seus animais. Em plena era do conhecimento, e a julgar por iniciativas jurídicas recentes no Brasil, seria o caso de incluir nesse critério também o tratamento reservado aos cientistas: são cada vez mais freqüentes tentativas de cercear a pesquisa com regulamentos inspirados em valores particularistas, da religião ao sentimentalismo com animais.

No Rio de Janeiro, uma lei municipal (nº 4.685) chegou a ser sancionada -com erros- pelo prefeito Cesar Maia (DEM). O projeto do vereador Cláudio Cavalcanti (DEM) prescrevia multa para maus-tratos com animais, mas havia sido emendado em plenário para isentar a pesquisa. Por erro da Câmara Municipal, foi enviado para sanção na versão original, equívoco anulado depois por ato administrativo.

Enquanto persistiu a confusão, pesquisadores da cidade, como os da renomada Fundação Oswaldo Cruz, concluíram que seus trabalhos se tornavam inviáveis. A definição de maus-tratos, afinal, era ampla o bastante para abrangê-los: “privação das necessidades básicas, sofrimento físico, medo, estresse, angústia, patologias ou morte”.

Iniciativas como essas há muitas pelo Brasil. Em São Paulo, o então deputado estadual Ricardo Tripoli (hoje deputado federal pelo PSDB) também fez vingar um Código de Proteção aos Animais (lei estadual nº 11.977), que dificultava até a pecuária ao proibir o confinamento de animais. Vários dispositivos do código, inaplicável, foram suspensos pelo Tribunal de Justiça.

As pessoas têm uma compreensível empatia com o sofrimento de animais. Sentem repulsa diante de procedimentos que possam causar estresse, dor ou até a morte de cobaias. Mas, infelizmente, não existem métodos alternativos ao emprego de animais em vários estudos imprescindíveis para criar tratamentos destinados a curar seres humanos. A saída para esse dilema ético é estabelecer regras que minimizem o dano sem impedir o avanço do conhecimento.

Cientistas não negam a necessidade dessa regulamentação. Batalham há 12 anos para aprovar na Câmara dos Deputados o projeto de lei nº 1.153, que daria ao país regras similares às de países com pesquisa biomédica digna de menção (nenhum proíbe usar animais). É preciso aprovar um estatuto que proíba todo sofrimento desnecessário, que obrigue ao uso de anestésicos e responsabilizando pesquisadores por eventuais abusos.

Os pesquisadores também voltam sua atenção, agora, para o Supremo Tribunal Federal. Em dezembro estará em julgamento ação direta de inconstitucionalidade (nº 3.510) apresentada pela Procuradoria Geral da República, sob clara inspiração católica, para barrar a pesquisa com células-tronco embrionárias humanas. Seu uso foi autorizado, em condições já bem restritivas, pela nova Lei de Biossegurança (nº 11.105), mas é dada como inadmissível por grupos religiosos.

Câmara e Supremo estão convocados a explicitar qual valor de civilização atribuem à ciência. [FOLHA 12/11/07]