Juízo e conhecimento

No post Sentido do ser, propus aos hegelistas e hegelianos uma questão acerca da categoria do ser como princípio de todo o sistema e, portanto, de toda a realidade. Gostei da ideia de propor QUESTÕES ao leitor. Então, aí vai mais uma, desta feita, aos kantistas e kantianos:
QUESTÃO 2. Todo juízo, segundo Kant, é conhecimento ou todo conhecimento é juízo? Pode-se reformular a questão, negativamente, em duas perguntas: Nem todo juízo é conhecimento, mas todo conhecimento é juízo OU nem todo conhecimento é juízo, mas todo juízo é conhecimento?
Alguém se anima?

O problema do problema

Nos posts sobre Santo Tomás e a filosofia do ser, falei de problemas e questões filosóficos. Muito se tem falado sobre o papel do problema e da problematização (ou da questão e do questionamento) na prática filosófica. Até nas disciplinas mais técnicas, como Didática ou Metodologia do Trabalho Científico, esse tema é recorrernte. Podemos falar, assim, de um autêntico problema do problema.
O professor da PUC-SP Mario González, uruguaio com doutorado na Alemanha, escreveu um livro inteiro sobre o problema do problema. Trata-se de A filosofia a partir de seus problemas (São Paulo: Loyola). É um trabalho interessante, em que se pretende mostrar que não há filosofia nem filósofo sem problemas filosóficos, e que a melhor maneira de se estudar e praticar filosofia é justamente a partir dos problemas filosóficos.
Dos problemas, veja bem, e não das respostas dadas a esses problemas.
Muito bem, essa tese é de fato pertinente e fecunda, mas não está destituída de problemas. Por ora, vou mencionar apenas um par deles.
O professor González, como já disse, acredita que a filosofia só pode ser praticada a partir dos problemas filosóficos, mas, ao que parece, para ele a fonte dos problemas filosóficos são os filósofos, ou melhor, os textos filosóficos.
Os textos, veja bem, e não a — realidade!
Para resumir, tudo se passa como se, para o ilustre professor pontifício, filosofia e história da filosofia se confundissem.
No entanto, a própria história da filosofia mostra com clareza que os grandes filósofos problematizam antes de tudo a própria realidade e não os textos dos filósofos mortos. E mesmo quando o fazem, quando praticam história da filosofia (como Hegel ou Heidegger), eles não o fazem visando a verdade do texto mas sim a verdade como tal. Daí a sem-cerimônia como os filósofos tratam a obra de seus colegas…
Ao final do livro, a título de exemplo do método por ele proposto, o nosso professor republica alguns artigos de sua autoria. Um deles, já bem conhecido dos estudantes de filosofia, o excelente Uma aula sobre Kant (publicado originalmente na revista Integração, da USJT; disponível para download aqui).
Ora, esses adendos ao livro demonstram que o que se faz a partir dos problemas dos filósofos mortos não é filosofia, mas história da filosofia. A aula sobre Kant do professor González não é uma aula de filosofia, mas de história da filosofia.
Futuramente, voltarei ao tema e ao livro em questão. Para concluir, não posso deixar de observar o seguinte. O próprio autor admite ter ainda dificuldades com o português. É compreensível. O que não é compreensível é que uma editora como a Loyola publique um livro com tantos erros! A começar do título.

Sentido do ser

Retomando a questão da filosofia do ser de inspiração aristotélico-tomista, gostaria de desenvolver um ponto em que apenas toquei no post anterior.
O ser, para a filosofia do ser, não consiste num conceito ou numa categoria. Tampouco na essência abstraída da coisa mesma por meio do pensamento conceitual. O ser é ato, plenitude. Isso significa que o ser não é vazio de sentido, mas, ao contrário, pleno de sentido. O ser é sensato.
Isso talvez parece óbvio, mas não é. Para Hegel, p. ex., o ser é, em primeiro lugar, uma categoria. A primeira categoria da primeira tríade do primeiro momento da Lógica, que também se chama ser. Essa primeira categoria é a mais abrangente de todas, mas, ipso facto, a mais vazia de conteúdo. Ou seja, a categoria mais vazia de sentido.
Aproveito a ocasião para propor uma questão aos hegelistas e hegelianos:
QUESTÃO 1. Como é possível que a categoria mais vazia de sentido, mais insensata, seja, ao mesmo, a origem de toda a lógica e de todo o sistema, passando pela natureza até o espírito absoluto?
Voltando ao ser sensato de Tomás, pensemos p. ex. numa simples árvore. Os modernos temos a tendência de considerá-la, como a qualquer coisa, como algo que simplesmente existe, destituída de sentido. Isso porque compreendemos o sentido, em primeiro lugar, como valor de verdade. Ora, a árvore não pode ser nem verdadeira nem falsa, ela simplesmente é ou não é (uma árvore). Uma árvore falsa não é uma árvore. (Assim como (c)ouro falso não é (c)ouro! E, por isso, a expressão (c)ouro legítimo é destituída de sentido…)
O que faz sentido, para nós modernos, é a linguagem, a sentença ou a proposição. Somente as proposições podem ser verdadeiras ou falsas. E não árvores e coisas.
Uma árvore pode ser ou não ser, existir ou não existir, ser real ou irreal. Não pode ser nem verdadeira nem falsa. Não pode ter, pois, sentido algum. Mas uma proposição sobre a árvore, sim, pode ter sentido. Pois apenas ela pode tem valor de verdade. A proposição “Aquela árvore no meio do jardim é uma macieira” é verdadeira se e somente se a árvore no meio do jardim for de fato uma macieira.
Assim é para nós modernos. Não assim para Tomás. Para o “boi mudo” da Sicília, uma árvore é ser em ato, ato de ser árvore –ato de arborecer, arborecente. Não se trata mais, ou ainda, de uma mera coisa insensata à espera de um sujeito cogitabundo que venha emprestar-lhe algum sentido. A árvore no meio do jardim é uma árvore verdadeira, plena de sentido. É sensata.
A sensatez do mundo não depende, assim, da (in)sensatez do sujeito moderno.
Como aqui e no post anterior me aventuro em praias estranhas, conto com a condescendência e colaboração dos –sensatos– leitores!

S.Tomás de Aquino

Comemora-se hoje, 21-1, entre os católicos, o dia de São (ou Santo) Tomás de Aquino. Os luteranos o comemoram no dia 8-3. Tommaso D’Aquino nasceu em Roccasecca ou Belcastro, na Itália, no ano de 1224 ou 1225 e morreu na Abadía de Fossanuova, também na Itália, no dia 7-3-1274.  Padre dominicano, teólogo, filósofo, expoente máximo da escolástica, proclamado santo e cognominado Doctor Communis ou Doctor Angelicus pela Igreja Católica. Talvez seu maior mérito tenha sido a síntese que realizou entre o catolicismo e o aristotelismo, este último reintroduzido no Ocidente pelos pensadores árabes (Averroes, Avicena et al.). Sistematizou o conhecimento teológico e filosófico de sua época em suas duas Summae: a Summa Theologiae e a Summa Contra Gentiles.

Tanto o dialético Hegel quanto o analítico Russell não consideravam Tomás como um filósofo, mas sim como teólogo.

De fato, a diferença entre a teologia e a filosofia reside no fato de que a primeira não questiona seus pressupostos (a verdade revelada nas escrituras sagradas e, no caso do catolicismo, também na tradição apostólica). Mas é preciso acrescentar que, embora não aceite nenhum pressuposto sem crítica, ou seja, sem justificação, a filosofia não é possível sem pressuposto algum, ao passo que é possível uma filosofia fundada no absoluto.

Como quer que seja, é inegável o valor espiritual da obra do pensador aquinatense.

No século passado, estudiosos como o francês Étienne Gilson e o italiano Cornelio Fabro, por assim dizer, redescobriram a metafísica do Doutor Angélico: a filosofia do ser como ato ou a filosofia do ato de ser.

Grosso modo, trata-se do ser como tal em sua realidade operante, criativa, que não pode ser confundida com a categoria ou o conceito do ser. Do ser mesmo só podemos saber (conceitual ou categorialmente) que ele é, mas não o que ele é. O que as coisas são nos é dado por sua essência, essa sim concebível por conceitos. Natureza, essência, conceito, definição são conceitos afins. O ser transcende esse nível.

Para os escolásticos, os transcendentais consistem justamente numa espécie de supracategorias, de atributos ontológicos comutáveis entre si ou intercambiáveis. Segundo Tomás, são ele: res (a coisa), unum (o uno, a unidade), aliquid (alteridade), verum (o verdadeiro), bonum (o bem), e, last but not least, ens (o ente).

Esse assunto é muito delicado, principalmente para não especialistas como eu. Por exemplo, quando, logo acima, usei a expressão “espécie de supracategorias”, fui infeliz e corri o risco de levar o leitor a mal-entender o tomismo como se fora algum tipo de essencialismo. Pois a definição de um conceito (ou categoria) se obtém justamente pela especificação do gênero (p. ex., homem é animal [gênero] racional [espécie]). Parece que mesmo grandes tomistas, como Jacques Maritain, teriam sucumbido ao essencialismo, ao não atentarem para a diferença –destacada por Gilson e Fabro– entre ser (ato) e essência (potência).

Para finalizar esta nota, gostaria de lembrar outra sacada genial do Doutor Comum. Trata-se de sua contribuição para a chamada Querela do Universais.

Havia então duas posições antagônicas e mais uma terceira, intermediária; respectivamente, o nominalismo, o realismo e o conceptualismo. Para o nominalismo, os universais não passam de nomes, flatus voices, convenções fonéticas que usamos para classificar as coisas singulares; para o realismo, ao contrário, os universais são transcendente (Platão) ou imanentemente (Aristóteles) reais, e, finalmente, para o conceptualismo, os universais são representações mentais abstraídas das coisas.

Tomás de Aquino, fazendo valer a potência lógica de seu intelecto, sintetizou, então, as três posições conflitantes numa única: os universais existem antes das coisas (ante rem), na mente de Deus, como “ideias platônicas”; nas coisas (in re), como “essências aristotélicas”, e depois das coisas (post rem), na mente do homem, como “ideias humeanas”.